Projeto Escudo Dourado
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O Projeto Escudo Dourado (chinês: 金盾工程, pinyin: jīndùn gōngchéng), também conhecido como Projeto Nacional de Informatização do Trabalho de Segurança Pública, é um projeto nacional de infraestrutura de segurança de rede da República Popular da China. Desenvolvido pelo governo de Pequim por meio do Ministério da Segurança Pública (MPS), faz parte da estratégia de governo eletrônico (e-gov) do país e visa fortalecer o controle e a informatização das atividades de segurança pública.
O projeto inclui sistemas de gestão de informações em áreas como segurança, dados criminais, controle de entrada e saída do país, supervisão e trânsito, entre outros. Ele integra uma série de projetos estratégicos da informatização estatal chinesa, conhecidos como "Projetos Dourados", com o objetivo de modernizar diversas infraestruturas administrativas e tecnológicas do país, incluindo áreas como alfândega, tributação, finanças e segurança.[1]
O Projeto Escudo Dourado também está relacionado à operação de sistemas de supervisão e controle de informações, como a Grande Muralha de Fogo (Grande Firewall da China – GFW),[2] que bloqueia o acesso a conteúdos estrangeiros considerados ilegais pelo governo chinês. Iniciado em 1998, o projeto começou a operar em novembro de 2003.[3][2]
História
O contexto político e ideológico do Projeto Escudo Dourado é considerado uma das frases favoritas de Deng Xiaoping no início dos anos 1980: "Se você abrir a janela para ar fresco entrar, terá que esperar que algumas moscas entrem também."[a] A frase está relacionada a um período de reforma econômica na China que ficou conhecido como "economia de mercado socialista". Substituindo as ideologias políticas da Revolução Cultural, a reforma levou a China em direção a uma economia de mercado e abriu o mercado para investidores estrangeiros. No entanto, apesar da liberdade econômica, os valores e ideias políticas do Partido Comunista Chinês precisaram ser protegidos "espantando as moscas" de outras ideologias indesejadas.[4]
A Internet chegou à China em 1994,[5] como consequência inevitável e ferramenta de apoio para a "economia de mercado socialista". À medida que a disponibilidade da Internet aumentou gradualmente, ela se tornou uma plataforma comum de comunicação e uma ferramenta para troca de informações.
O Ministério da Segurança Pública deu os primeiros passos para controlar o uso da Internet em 1997, quando emitiu regulamentações abrangentes que governavam seu uso. As seções principais, Artigos 4–6, são as seguintes:
| “ | Os indivíduos estão proibidos de usar a Internet para: prejudicar a segurança nacional; divulgar segredos de Estado; ou lesar os interesses do Estado ou da sociedade. Os usuários estão proibidos de usar a Internet para criar, replicar, recuperar ou transmitir informações que incitem resistência à Constituição da RPC, às leis ou aos regulamentos administrativos; promovam a derrubada do governo ou do sistema socialista; minem a unificação nacional; distorçam a verdade, espalhem rumores ou destruam a ordem social; ou forneçam material sexualmente sugestivo ou incentivem jogos de azar, violência ou assassinato. Os usuários estão proibidos de se envolver em atividades que prejudiquem a segurança das redes de informação computacional e de usar redes ou alterar recursos de rede sem aprovação prévia.[6] | ” |
Em 1998, o Partido Comunista Chinês temia que o Partido Democrático da China (PDC/CDP) gerasse uma poderosa nova rede que as elites do partido não pudessem controlar.[7] O PDC foi imediatamente banido, seguido por prisões e encarceramentos.[8] No mesmo ano, o projeto Escudo Dourado foi iniciado. A primeira parte do projeto durou oito anos e foi concluída em 2006. A segunda parte começou em 2006 e terminou em 2008. Em 6 de dezembro de 2002, 300 pessoas responsáveis pelo projeto Escudo Dourado de 31 províncias e cidades em toda a China participaram de uma exposição inaugural de quatro dias chamada "Exibição Abrangente sobre o Sistema de Informação Chinês".[9][10] Na exposição, muitos produtos de alta tecnologia ocidentais, incluindo segurança na Internet, monitoramento de vídeo e reconhecimento facial humano, foram comprados. Estima-se que cerca de 30.000 a 50.000 policiais estejam empregados neste projeto gigantesco.[11]
Um subsistema do Escudo Dourado recebeu o apelido de "Grande Firewall" (防火长城) (um termo que apareceu pela primeira vez em um artigo da revista Wired em 1997) em referência ao seu papel como firewall de rede e à antiga Grande Muralha da China.[12] Essa parte do projeto inclui a capacidade de bloquear conteúdo impedindo que endereços IP sejam roteados e consiste em firewalls padrão e servidores proxy nos seis gateways de Internet.[13] O sistema também se envolve seletivamente em envenenamento de cache DNS quando sites específicos são solicitados. O governo não parece examinar sistematicamente o conteúdo da Internet, pois isso parece tecnicamente impraticável.[14] Devido à sua desconexão dos protocolos maiores de roteamento IP no mundo, a rede contida dentro do Grande Firewall foi descrita como "o domínio autônomo de roteamento chinês".[15]
Durante os Jogos Olímpicos de Verão de 2008, autoridades chinesas instruíram provedores de Internet a se prepararem para desbloquear o acesso em certos Cyber cafés, tomadas de acesso em quartos de hotel e centros de conferências onde estrangeiros eram esperados para trabalhar ou se hospedar.[16]
Diferenças em relação ao Grande Firewall
O Projeto Escudo Dourado é distinto do Grande Firewall (GFW), que possui uma missão diferente. As diferenças estão listadas abaixo: Politicamente,
- O GFW é uma ferramenta do sistema de propaganda, enquanto o Projeto Escudo Dourado é uma ferramenta do sistema de segurança pública.
- Os requisitos originais do GFW vêm do Escritório 610, enquanto os requisitos originais do Projeto Escudo Dourado vêm do departamento de segurança pública.
- O GFW é um gateway nacional para filtrar sites estrangeiros, enquanto o Projeto Escudo Dourado serve para monitorar a internet doméstica.
Tecnicamente,
- O GFW está conectado aos três centros nacionais de troca de internet e, em seguida, expandido para alguns dos ISPs para implementar o efeito de bloqueio, enquanto o Projeto Escudo Dourado está presente na maioria dos centros de troca e data centers.
- O GFW é muito forte em pesquisa científica, incluindo muitos cientistas de segurança da informação, como pessoas do Instituto de Tecnologia de Harbin, da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade de Postos e Telecomunicações de Pequim, enquanto o Projeto Escudo Dourado é menos forte em pesquisa científica.
- O GFW foi construído por Fang Binxing, enquanto o Projeto Escudo Dourado foi construído por Shen Changxiang.[17][18]
Conteúdo censurado
Os programas de censura na Internet da China continental têm censurado sites Web que incluem (entre outras coisas):
- Sites pertencentes aos grupos "foras da lei" ou suprimidos, tais como o de ativistas pró-democracia e os de Falun Gong
- Fontes de notícias que frequentemente cobrem tópicos considerados difamatórios contra a China. Exemplos: violência policial, Protesto na Praça da Paz Celestial em 1989, liberdade de expressão, democracia e sites Marxistas.[19] Estes sites incluem o Voice of America e a edição chinesa da BBC News.
- Sites relacionados ao governo taiwanês, mídia, ou a outras organizações, incluindo sites dedicados ao conteúdo religioso, e os maiores sites ou blogs da comunidade taiwanesa.
- Sites que contêm qualquer coisa que as autoridades chinesas considerem como obscenidade ou pornográfica.
- Sites relacionados à atividade criminosa.
- Sites ligados ao Dalai Lama, aos seus ensinamentos ou com o Movimento Internacional de Independência do Tibet.
- A maioria dos sites de blog sofrem interrupções frequentes ou permanentes.
- Sites considerados subversivos.
Sites bloqueados são indexados para um grau menor, se houver algum, por alguns motores de busca. Algumas vezes isso tem um impacto considerável nos resultados da busca.[20]
De acordo com o The New York Times, o Google instalou sistemas de computadores dentro da China que tentam acessar sites de fora do país. Se um site estiver inacessível, ele é adicionado à lista-negra do Google China.[21] Contudo, uma vez desbloqueado, os sites serão reindexados. Referente à primeira experiência do Google sobre o Grande Firewall chinês, há uma esperança na comunidade internacional que ela revelará alguns de seus segredos. Simon Davies, fundador do grupo de pressão Privacy International situado em Londres, tem desafiado o Google a revelar a tecnologia que ele usou uma vez por ordem da China. "Dessa maneira, nós podemos compreender a natureza da besta e, talvez, desenvolver medidas de evasão para que se possa haver uma abertura das comunicações." "Isso seria um dossiê de importância extraordinária para os direitos humanos", diz Davies. O Google ainda precisa responder a sua chamada.[22]
Evasão
Como o Grande Firewall bloqueia endereços IP de destino e nomes de domínios e examina os dados enviados ou recebidos, uma estratégia básica de evasão da censura é usar nós de proxy e encriptar os dados. A maioria das ferramentas de evasão combina estes dois mecanismos.[23]
- Servidores proxy fora da China podem ser usados, embora utilizar apenas um simples open proxy (HTTP ou SOCKS) sem um tunelamento encriptado (por exemplo, o HTTPS), pouco fará para burlar os censores sofisticados.[23]
- Companhias podem estabelecer sites regionais Web dentro da China. Isto previne que seu contéudo passe pelo Grande Firewall da China; para isso, porém, é necessário que as companhias solicitem licenças ICP locais.
- O Onion routing, como o I2P ou Tor, pode ser usado.[23]
- Freegate, Ultrasurf e Psiphon são programas gratuitos que burlam o firewall chinês usando múltiplos proxies abertos, mas ainda se comportam como se o usuário estivesse na China.[23]
- VPNs (rede privada virtual) e o SSH (secure shell) são as ferramentas poderosas e estáveis para burlar tecnologias de vigilância. Elas utilizam os mesmos métodos básicos, proxies e canais encriptados usados por outras ferramentas de evasão, mas dependem de um host privado, de um host virtual, ou de uma conta fora da China, diferente de proxies abertos e gratuitos.[23][24]
- A interface de programação de aplicações (API), usada pelo Twitter, que possibilita postar e obter tweets de sites que não o do Twitter. "A ideia é que programadores de qualquer lugar venham para o Twitter e ofereçam feeds em suas próprias URLs—que governo terá de perseguir um por one", diz Jonathan Zittrain, codiretor do Centro Berkman para Internet e Sociedade de Harvard.[25]
- A reconfiguração dos pontos finais de comunicação, encriptação, descartando pacotes de reset gerados pelo Firewall e aqueles criados pelo usuário final, não encaminhando quaisquer pacotes para sites que possuam o comportamento de bloqueio discarding reset packets according to the TTL value (time to live) by distinguishing those resets generated by the Firewall and those made by end user, not routing any further packets to sites that have triggered blocking behavior.[26]
Exportação de tecnologia
O Repórteres sem Fronteiras suspeita que os regimes de Cuba, Zimbabwe e Bielorrússia obtiveram tecnologia de vigilância da China.[27]
Ver também
- Bloqueios da Wikipédia na República Popular da China
- Censura na República Popular da China
- Intercâmbio Internacional de Liberdade de Expressão – monitora a Censura da Internet na China
- Política da República Popular da China
- Censura da Internet na República Popular da China
- Direitos humanos na República Popular da China
- Internet na China
- Splinternet
Notas
Referências
- ↑ «China's Golden Projects». Market Intelligence & Consulting Institute (em inglês). 17 de setembro de 2004. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ a b Norris, Pippa; World Bank Staff (2009). Public Sentinel: News Media and Governance Reform (em inglês). [S.l.]: World Bank Publications. p. 360. ISBN 978-0-8213-8200-4. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ «How China's Internet Police Control Speech on the Internet». Radio Free Asia. Consultado em 11 de junho de 2013.
As autoridades policiais chinesas passaram três anos, entre 2003 e 2006, concluindo o enorme "Projeto Escudo Dourado". Não fizeram somente mais que 50 por cento das agências de policiamento entrarem na Internet. Há também uma agência chamada Public Information Network Security and Monitoring Bureau que possui um grande número de policiais da rede bem equipados e avançados tecnologicamente. Estes são todos os produtos diretos do Projeto Escudo Dourado.
- ↑ MacKinnon, Rebecca (9 de agosto de 2007). «Flatter world and thicker walls? Blogs, censorship and civic discourse in China» 1–2 ed. Public Choice (em inglês). 134: 31–46. ISSN 0048-5829. doi:10.1007/s11127-007-9199-0
- ↑ «中国接入互联网». chinanews.com. Consultado em 28 de agosto de 2013
- ↑ «Internet Development and Information Control in the People's Republic of China» (PDF). Congressional Research Service (em inglês). 10 de fevereiro de 2006. p. 4. Consultado em 13 de dezembro de 2025
- ↑ Goldman, Merle Goldman. Gu, Edward X. [2004] (2004). Chinese Intellectuals between State and Market. Routledge publishing. ISBN 0415325978
- ↑ Goldsmith, Jack L.; Wu, Tim (2006). Who controls the Internet? : illusions of a borderless world. New York: Oxford University Press. p. 91. ISBN 0-19-515266-2
- ↑ «中国互联网大会精彩回顾|2002年首届中国互联网大会:互联网应用——呼唤创新». www.isc.org.cn (em chinês). 3 de junho de 2020. Consultado em 13 de dezembro de 2025
- ↑ 首屆「2002年中國大型機構信息化展覽會」全國31省市金盾工程領導雲集 (chinês)
- ↑ «What is internet censorship?». Amnesty International Australia. 28 de março de 2008. Consultado em 21 de fevereiro de 2011. Arquivado do original em 3 de março de 2011
- ↑ «The art of concealment». The Economist (em inglês). ISSN 0013-0613. Consultado em 13 de dezembro de 2025. (pede subscrição (ajuda))
- ↑ Wagstaff, Keith (22 de janeiro de 2014). «Web mystery: China Internet traffic winds up in Wyoming». NBC News (em inglês). Consultado em 13 de dezembro de 2025. Cópia arquivada em 16 de agosto de 2025
- ↑ Watts, Jonathan (20 de fevereiro de 2006). «War of the words». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 13 de dezembro de 2025
- ↑ «Costs and Benefits of Running a National ARD» (PDF)
- ↑ Fallows, James (março de 2008). «"The Connection Has Been Reset"». The Atlantic (em inglês). ISSN 2151-9463. Consultado em 13 de dezembro de 2025
- ↑ «China's 'Great Firewall' blocks its creator». BBC News (em inglês). 5 de abril de 2016. Consultado em 13 de dezembro de 2025
- ↑ «阅后即焚:"GFW"». freemorenews.com (em chinês). Consultado em 13 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 4 de janeiro de 2010
- ↑ Marquand, Robert (24 de fevereiro de 2006). «China's media censorship rattling world image». The Christian Science Monitor. Consultado em 22 de maio de 2011
- ↑ «controlling information: you can't get there from here -- filtering searches». The tank man. Frontline (pbs.org)
- ↑ Thompson, Clive (23 de abril de 2006). «Google's China Problem (and China's Google Problem)». The New York Times. p. 8. Consultado em 22 de maio de 2011
- ↑ Will Google's help breach the great firewall of China? By: Marks, Paul, New Scientist, 02624079, 4/3/2010, Vol. 205, Issue 2754
- ↑ a b c d e "Splinternet Behind the Great Firewall of China: The Fight Against GFW", Daniel Anderson, Queue, Association for Computing Machinery (ACM), Vol. 10, No. 11 (29 November 2012), doi:10.1145/2390756.2405036. Retrieved 11 October 2013.
- ↑ «Accessing Blocked Content in China». telleport.me. Consultado em 14 de outubro de 2022
- ↑ "Leaping the Great Firewall of China ", Emily Parker, Wall Street Journal, 24 March 2010. Retrieved 11 October 2013.
- ↑ "Ignoring the Great Firewall of China", Richard Clayton, Steven J. Murdoch, and Robert N. M. Watson, PET'06: Proceedings of the 6th international conference on Privacy Enhancing Technologies, Springer-Verlag (2006), pages 20-35, ISBN 3-540-68790-4, doi:10.1007/11957454_2. Retrieved 11 October 2013.
- ↑ «Going online in Cuba: Internet under surveillance» (PDF). Reporters Without Borders. 2006. Consultado em 27 de janeiro de 2015. Arquivado do original (PDF) em 3 de março de 2009
Ligações externas
- China Digital Times: Internet Control
- «O Grande Firewall: mudanças na regulamentação da Internet na China». Consultor Jurídico. 20 de agosto de 2002. Consultado em 26 de janeiro de 2015
- «Censura: saiba como funciona o 'escudo dourado' do governo chinês na web». IDGNOW!. 17 de março de 2008. Consultado em 26 de janeiro de 2015
- Breaking Through the “Golden Shield”
- ViewDNS.info - Chinese Firewall Test - Verifica se o Escudo Dourado está realizando filtragem/redirecionamento de DNS no seu domínio, dentro da China continental.
- Dotcom-Monitor- Verifica se um site (ou hosts de terceiros ligados a um site) está filtrado pelo Grande Firewall da China, usando um navegador Internet Explorer verdadeiro.
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