Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos

O Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) é uma política pública de isenção fiscal do governo brasileiro, destinada a salvaguardar e recuperar empresas do setor de festas e eventos, particularmente afetadas pelas medidas sanitárias durante a pandemia de COVID-19. Adotada em 2022 durante o governo Bolsonaro, e inicialmente vetada pelo presidente, a isenção foi renovada pelo Congresso, mantendo-se em vigor mesmo no governo seguinte. No final de 2024, o Ministério da Fazenda encerrou o sigilo dos beneficiários e divulgou uma lista que viralizou nas redes sociais.

Histórico

Com a pandemia de Covid-19, o faturamento do setor de eventos caiu em 98 por cento, segundo a Associação Brasileira de Eventos (Abrafesta). Só de casamentos, 4 em cada 5 celebrações haviam sido adiadas.[1]

Em 31 de março de 2021, o Senado Federal aprovou, em votação simbólica, um projeto de lei do senador Wellington Fagundes (PL-MT) prorrogando os auxílios da lei Aldir Blanc. Entre as estipulações, o projeto criava o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), voltado a empresas ligadas aos setores de hotelaria, casas de evento, cinemas, entre outras.[2] Segundo a relatora, a senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), mais 450 mil postos de trabalho já haviam sido extintos.[2] A proposta incluía o parcelamento de dívidas em 145 meses e também desconto de até 70% das dívidas tributárias.[2]

Em primeiro momento, o governo Bolsonaro foi contra a proposta, entendendo-a como uma "bomba fiscal" — estimava-se que só o Perse custaria 243,5 bilhões em cinco anos em benefícios para 60 mil empresas.[3] Durante a tramitação, assessores parlamentares do Ministério da Economia tentaram dissuadir os parlamentares, argumentando que o setor já havia sido contemplado pelo Auxílio Emergencial.[3] Atendendo ao pedido do ministro Paulo Guedes, o presidente Bolsonaro sancionou a lei, em 3 de maio, com vetos parcial.[4] Entre os trechos vetados, estava uma diminuição dos impostos (que acarretaria aumento nos outros setores) e uma espécie de Refis especifica ao setor; da forma sancionada, o governo poderia oferecer renegociações de dívidas tributárias apenas para os contribuintes que não tinham capacidade de quitar suas dívidas.[4]

Em fevereiro de 2022, o governo cedeu e consentiu que o veto do presidente fosse derrubado. O filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, foi um dos articuladores da derrubada e gravou para as redes sociais um vídeo se explicando: segundo ele, Bolsonaro precisou vetar para não incorrer em crime de responsabilidade fiscal, mas agora mandou derrubar para "ajudar todos que trabalham no segmento". Flávio também disse que ele e o irmão, Eduardo, votariam pela derrubada do veto do pai.[5] Em 17 de março, o Congresso derrubou o veto, com 356 votos à favor e 23 contrários, na Câmara; e 57 votos a favor, unânimes, no Senado.[6] Assim, a nova lei zerou alíquotas de vários impostos para as empresas do setor, por cinco anos, além do pagamento de uma indenização de até 2,5 bilhões de reais a empresas que tiveram queda de cinquenta por cento do faturamento.[6] Com a promulgação, o autor do projeto, deputado Felipe Carreras (PSB-PE), afirmou que o Perse seria "um combustível para a retomada do setor, que nunca teve um benefício por parte do governo federal, e será fundamental para a principal engrenagem que move a nossa cultura, que são as empresas produtoras de eventos."[6]

Em junho, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) emitiu uma portaria regulando a nova lei, limitando os beneficiados somente àqueles que tinha inscrição no Cadastur até maio de 2021, data da publicação da lei.[7] Prejudicados, o setor de bares e restaurantes foram à Justiça pedir que o beneficio fosse estendido também a eles;[7] algumas dessas demandas foram atendidas.[8]

Por causa da decisão de adiar o pagamento das leis Aldir Blanc e do Perse, o senador Jean Paul Prates (PT-RN) pediu impeachment do presidente e do ministro Paulo Guedes por "pedalada fiscal", em setembro de 2022.[9]

No findar do governo, uma última medida provisória, publicada já em 2 de janeiro de 2023, restringiu os estabelecimentos elegíveis de isenção, excluindo bares e restaurantes.[10] Indignados, o setor pretendia judicializar a questão.[11] Após meses de impasses entre Artur Lira e Rodrigo Pacheco, os presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente,[12] a medida provisória foi votada em abril de 2023, junto com outras medidas provisórias do começo do governo Lula.[13] Relatada pelo líder do governo na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE), a medida convertida em lei foi aprovada em votação simbólica e, após acordos entre os líderes e o Ministério da Fazenda, restringiu a lista de beneficiados.[13] Guimarães estimava a renúncia de 4,3 bilhões de reais em impostos, por ano.[13]

A Fazenda, agora sob Fernando Haddad, defendia um modelo mais restrito ao programa, com o fim gradual dos subsídios — para o governo, um benefício de cinco anos era desproporcional aos dois anos de pandemia que afetaram o setor.[14] Os parlamentares, no entanto, foram intransigentes e exigiram um programa nos moldes do original. Mesmo contrariado, o governo saiu satisfeito com a restrição de beneficiados, que considerava fundamental para evitar brechas pelas quais as empresas poderiam abater dívidas não relacionadas à eventos.[14]

A reforma tributária de 2023, aprovada em julho, eliminou alguns tipos de isenção fiscal, mas manteve o Perse, assim como o Prouni e a Zona Franca de Manaus.[15]

Em fevereiro de 2024, o ministro Haddad alertou que o Perse teria aberto margens para lavagem de dinheiro.[16] Segundo a Folha de S.Paulo, o apoio ao Perse era amplo, incluindo tanto bolsonaristas quanto ministros de Lula.[17] A Receita Federal identificou mais de duas mil empresas que haviam conseguido o beneficio sem ter direito.[18]

Em novembro de 2024, o governo divulgou uma tabela revelando todos as empresas que haviam sido beneficiadas pelo subsídio.[19] A lista incluía diversos cantores e famosos, como o youtuber Felipe Neto e o cantor Gusttavo Lima.[20]

Referências

  1. Ana Luiza Tieghi (17 de abril de 2021). «Casamentos adiados lotam agenda de profissionais de eventos em 2022». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  2. a b c «Senado aprova projeto que prorroga auxílio da Lei Aldir Blanc para setor cultural». Folha de S.Paulo. 31 de março de 2021. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 7 de março de 2022 
  3. a b Julio Wiziack (18 de abril de 2021). «Setores afetados pela pandemia fazem lobby no Congresso para socorro com impacto de mais de R$ 250 bi». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 7 de março de 2022 
  4. a b Fábio Pupo; Raquel Lopes (3 de maio de 2021). «Bolsonaro atende Guedes e sanciona com veto ajuda para setor de turismo e eventos». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 7 de abril de 2022 
  5. Julia Chaib; Idiana Tomazelli; Marianna Holanda (8 de fevereiro de 2022). «Governo dá sinal verde à derrubada de veto para desonerar setor de eventos». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 8 de fevereiro de 2022 
  6. a b c Danielle Brant Matheus Teixeira (17 de março de 2022). «Congresso derruba veto de Bolsonaro à desoneração do setor de eventos». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 17 de março de 2022 
  7. a b «Painel S.A.: Setor de restaurantes vai à Justiça por isenção fiscal». Folha de S.Paulo. 24 de junho de 2022. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 24 de junho de 2022 
  8. «Painel S.A.: Bar do Juarez obtém decisão na Justiça para zerar alíquota de impostos». Folha de S.Paulo. 1 de agosto de 2022. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2022 
  9. «Painel: Senador pede impeachment de Bolsonaro e Guedes por 'pedalada'». Folha de S.Paulo. 15 de setembro de 2022. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 16 de setembro de 2022 
  10. Joana Cunha (2 de janeiro de 2023). «Painel S.A.: Restaurantes reclamam de medida final de Bolsonaro que prejudica bar e lanchonete». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  11. «Painel S.A.: Excluídos do programa emergencial para isenção de tributos na pandemia planejam ir à Justiça». Folha de S.Paulo. 29 de março de 2023. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 29 de março de 2023 
  12. «Congresso instala comissões de MPs após 2 meses de impasse entre Lira e Pacheco». Folha de S.Paulo. 11 de abril de 2023. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 12 de abril de 2023 
  13. a b c Victoria Azevedo (25 de abril de 2023). «Câmara aprova desoneração de diesel e gás em 2023 e mantém benefícios ao setor de eventos». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 2 de setembro de 2024 
  14. a b «Governo teve que ceder ao Congresso e manter benefícios a empresas aéreas e de entretenimento». Folha de S.Paulo. 27 de abril de 2023. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 27 de abril de 2023 
  15. Eduardo Cucolo (6 de julho de 2023). «Como a Reforma Tributária afeta o preço de alimentos, remédios e de escolas». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 6 de julho de 2023. Estão mantidos o Prouni (bolsas para educação), o Perse (benefícios para o setor de eventos) e a Zona Franca de Manaus. 
  16. Adriana Fernandes; Fabio Serapião; Victoria Azevedo (6 de fevereiro de 2024). «Fazenda suspeita de lavagem de dinheiro em programa para setor de eventos, e líderes cobram explicações». Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de dezembro de 2024. Cópia arquivada em 6 de fevereiro de 2024 
  17. «Painel: Apoio ao Perse vai de bolsonaristas a ministro de Lula, o que dificulta sua extinção». Folha de S.Paulo. 12 de fevereiro de 2024. Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  18. «Mais de 2.000 empresas usam benefício fiscal do Perse sem serem habilitadas, alerta Receita». Folha de S.Paulo. 29 de julho de 2024. Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  19. «De Felipe Neto a Gusttavo Lima, veja quanto artistas tiveram de isenção no Perse». Folha de S.Paulo. 20 de novembro de 2024. Consultado em 11 de dezembro de 2024 
  20. «Virgínia, Felipe Neto e outros influenciadores deixaram de pagar R$ 30 mi em tributos com o Perse». Folha de S.Paulo. 23 de novembro de 2024. Consultado em 11 de dezembro de 2024