Proémio
Música
Na antiguidade consistia o proêmio num fragmento cantado que precedia as composições que executavam os citaristas ou, pelo menos, tal é a acepção da palavra grega empregue por Píndaro. Também era chamado assim, não somente o prelúdio em honra dos deuses, especialmente de Júpiter, mas também qualquer canto de caráter religioso. Parece que os hinos recebiam do mesmo jeito o nome de proêmios.
Entre os autores principais deste gênero de composições é citado Terpandro (século VII a.C.)
Literatura
Na literatura, o proêmio é o prelúdio de um canto, o exórdio de um discurso ou o preâmbulo de uma obra. Nas produções literárias romanas, essa estrutura aparece em diversos gêneros: poemas épicos, poemas didáticos, elegias programáticas, sátiras, tratados retóricos, obras historiográficas e tratados técnicos. No desenvolvimento da tradição literária, especialmente na poesia narrativa extensa em hexâmetros dactílicos, observa-se a permanência de elementos herdados das epopeias homéricas, que forneceram modelos formais e temáticos explorados pela épica de língua latina. Nesse contexto, Ênio (século III–II a.C.) utiliza o proêmio para formular considerações mitopoéticas e refletir sobre o próprio fazer poético, marca fundamental da persona literária que constrói e que será retomada por poetas posteriores. Assim, a tradição metapoética se estabelece e se perpetua ao longo dos séculos. [1]
Esse recurso foi adotado pela teoria retórica para designar o primeiro dos quatro eixos necessários para dividir o discurso em prosa. O termo tem origem grega (προοίμιον), que significa “o que vem antes do caminho”, e é a parte introdutória de uma obra literária, que tem como objetivo sintetizar e introduzir os acontecimentos daquele canto, sendo um elemento tradicional na Epopeia Clássica para diversas finalidades - sendo uma delas a invocação e o contato com musas à procura de inspiração - mas não exclusivamente dela, visto que podem ser encontrados em outras formas de arte ao longo da história.
1. Verse See HYMNS (GREEK); LYRIC POETRY, GREEK 2. Prose Applied originally to poetry (Pind. Pyth. 1. 4, Nem. 2. 3), the term προοίμιον was taken over by rhetorical theory to designate the first of the four (sometimes more) sections into which classical rhetoricians divided the prose speech. It is, with the peroration (Enoyos), the part of the speech which contains the greatest accumulation of recognizable commonplaces, and the typical themes are already discernible in the 5th cent. (HORNBLOWER, 2012, p. 437)[2]
Nas obras homéricas, o uso do proêmio se iniciava pelo caso acusativo como “a ira” de Aquiles, na Ilíada, e “o homem”, na Odisseia, como uma maneira de emular a tradição homérica, Virgílio também inicia com o objeto: “as armas e o varão” na Eneida. (VASCONCELLOS, 2014, p. 20)[3]
Proêmio da ilíada, de Homero
Analisando o proêmio da Ilíada, podemos entender melhor a construção de um proêmio:[4]
Ilíada
Μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί' Ἀχαιοῖς ἄλγε' ἔθηκε,
πολλὰς δ' ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ' ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.
Tradução de Frederico Lourenço:
Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.
A passagem apresenta um exemplo paradigmático de prôemio épico, no qual se estabelecem, desde os primeiros versos, o tema central, a motivação narrativa e a orientação[3]
teológico-cosmológica da obra. A invocação inicial, “Canta, ó deusa”, inscreve o poema no modelo tradicional da épica grega, conferindo autoridade divina ao canto e situando o poeta como mediador da inspiração. Em seguida, a temática principal é formulada de modo direto e programático: a “cólera de Aquiles”, qualificada como mortífera, funciona como núcleo temático que estrutura toda a narrativa subsequente. A enumeração das consequências desse furor, dores impostas aos Aqueus, a descida das almas dos heróis ao Hades, a exposição dos corpos às feras, cumpre uma função dupla: de um lado, oferece ao ouvinte uma visão condensada do impacto devastador do conflito; de outro, assinala a dimensão cósmica e religiosa da ação, uma vez que tais eventos se realizam “enquanto se cumpria a vontade de Zeus”. Por fim, o proêmio delimita o ponto inicial da narração ao mencionar o desentendimento entre Agamêmnon (“o Atrida”) e Aquiles, estabelecendo o episódio que desencadeia toda a trama. Assim, a passagem funciona como um modelo exemplar de abertura épica, combinando invocação, tematização e enquadramento narrativo em uma síntese inaugural que orienta a leitura de todo o poema. [3]
O proêmio, longe de constituir apenas a abertura formal de um texto, exerce uma função estruturante que orienta e dá movimento à narrativa. Ele estabelece o horizonte temático, define o ethos do narrador e antecipa a perspectiva a partir da qual os acontecimentos serão compreendidos, funcionando como um verdadeiro dispositivo programático. Ao convocar o leitor para dentro do universo da obra, seja por meio de uma invocação, de uma declaração de propósito ou de uma reflexão metapoética, o proêmio cria um ritmo inicial que conduz a leitura e prepara a fluidez do discurso. Assim, ele não apenas introduz o conteúdo, mas molda a expectativa interpretativa e garante a transição natural entre o limiar da enunciação e o desenvolvimento pleno da narrativa. [3]
Referências
- ↑ SANTOS, Arthur Rodrigues Pereira. O proêmio das Geórgicas de Virgílio em quatro traduções. In: ESTEVE S, Anderson Araujo Martins; BUENO, André da Silva; CAMPOS, Carlos Eduardo da Costa (orgs.). Scholae: estudos interdisciplinares da Antiguidade. [S.l.: s.n.]
- ↑ HORNBLOWER, Simon (2012). The Oxford Classical Dictionary. 4. ed. Oxford: Oxford University Press. Oxford: Oxford University Press. p. 437
- ↑ a b c d VASCONCELLOS, Paulo Sérgio de (2014). Épica I: Ênio e Virgílio. Campinas: Editora da Unicamp,. p. 20
- ↑ Erro de citação: Etiqueta
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<references>Este texto foi extraído do tomo 47 da Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana (Espasa) (domínio público).
- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em castelhano cujo título é «proemio».