Ponte de Mértola
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| Tipo | |
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| Fundação |
século X século III século XIII |
| Atravessa | |
| Estatuto patrimonial |
Monumento Nacional (d) |
| Localização |
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| Coordenadas |
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A Ponte de Mértola, também referida como Ponte Branca, Torre Couraça e Torre do Rio, é uma estrutura em ruínas situada na vila de Mértola, no distrito de Beja, no Alentejo, em Portugal.[1] Apesar de ser conhecida como uma ponte, na realidade seria um cais ou estrutura militar, que não atravessaria na totalidade o Rio Guadiana.[2]
Descrição
A estrutura encontra-se na margem direita do Rio Guadiana, na vila de Mértola.[3] Estende-se desde as muralhas, sensivelmente no local da Porta da Ribeira, e termina junto à margem.[4]
Consiste num conjunto de seis pegões alinhados de forma curvada, sendo os primeiros cinco de planta quadrangular, enquanto que o sexto, situado junto ao rio, é de planta ovalada e de dimensões muito superiores.[3] Os terceiro, quarto e quinto pegões, do lado do rio, possuem talhamares virados a montante, e apresentam um túnel na sua parte inferior, com uma abóbada de berço.[3] O segundo tem apenas o início de um túnel, formando um espaço semelhante a uma ábside.[3] Estavam todos ligados por arcadas, das quais ainda restaram os arranques, e na parte cimeira dos terceiro e quarto pegões são visíveis agueiros.[3] As bases dos pegões são formadas por xisto de origem local, misturado com materiais de outras regiões, como arenito, e com fragmentos de mármore, provavelmente oriunda de antigos edifícios romanos.[3]
Foram avançadas várias teorias para a função original do monumento, tendo o arqueólogo Estácio da Veiga afirmado que muito provavelmente não terá sido uma ponte, mas sim um cais fortificado, ou então poderia ter sido utilizado para defender o porto, algo de bastante comum nas zonas portuárias mais importantes durante o período romano, e para fiscalizar ou mesmo impedir a passagem de embarcações.[2] Pode também ter sido uma couraça, uma espécie de estrutura fortificada que ligava as muralhas à margem do rio, permitindo desta forma o acesso de água à cidade em caso de ataque.[5] O Castelo de Silves, no Algarve, também possuía uma couraça durante o período muçulmano.[6] Estácio da Veiga também avançou as teorias de que Também poderia ter sido usado como parte de uma estratégia militar, «para auxiliar a saida de forças militares e a sua reunião com as que podessem descer da porta-falsa pelo flanco esquerdo da Ribeira de Oeiras no intuito de collocarem os sitiantes entre dois ataques simultâneos, e para em caso extremo facilitar a evasão dessas forças e dos habitantes do castello».[2]
História
Foi construída provavelmente nos séculos III ou IV d.C., durante a época romana,[4] embora Estácio da Veiga tenha avançado a teoria que teria sido construído ou reconstruído na época islâmica, talvez reutilizando partes de outros edifícios mais antigos.[2] Com efeito, o arqueólogo descreveu a estrutura da ponte como tendo um revestimento composto por «marmores e outras pedras de rochas não pertencentes á constituição geológica do valle de Guadiana», semelhante à das muralhas reconstruídas pelos muçulmanos, além que «parece ser trabalho mais antigo todo aquelle em que o empedramento foi extrahido dos schistos locaes, sem comtudo se poder dizer que foi disposto em ordem de apparelho propriamente romano. Ora, esta mescla permitte a presumpção de que estejam alli representadas, pelo menos, duas civilisações distinctas».[2] João Baptista de Castro também refere a ponte na sua obra Roteiro terrestre de Portugal, de 1814: «Depois hia á villa de Serpa, e dahi fazendo caminho pelo adro da Freguezia de Santa Iria, passava a Mértola, entrando pela parte do Sul na ponte sobre o Guadiana, que ainda conserva seis arcos grandes, e quatro pequenos; pois os outros lançárão abaixo os Arabes, e por isso a tal ponte não tem serventia. Nella em tempo do Bispo de Portalegre D. Frei Amador Arraes ainda existião humas taes estatuas, de que elle se lembra nos seus Dialogos».[7] Porém, Estácio da Veiga refere que este registo não está certo, porque embora realmente Amador Arrais tenha mencionado a existência de seis estátuas, indica que foram encontradas nas fundações da Misericórdia, não que fizessem parte das decorações da ponte.[2]
Segundo Estácio da Veiga, o monumento foi referido por vários autores como uma ponte, tendo o mais antigo sido o Foral de Mértola, outorgado em 1234 pelo mestre da ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, onde se menciona que «Della ponte a suso quem ahy quizer pescar auenhasse com o comendador do lugar».[2] Transcreveu também um trecho da obra Monarchia Lusytana, de Francisco Brandão, onde se faz referência à ponte: «ainda ha vestigios de hua ponte sobre o Goadiana, obra de maravilhosa grandeza».[2] Jorge Cardoso e António Carvalho da Costa também mencionaram a ponte, tendo atribuído a sua construção aos romanos.[2] Porém, Veiga avançou a teoria de que estas referências não são mais do que equívocos em relação à função original da estrutura, tradição que foi depois transmitida ao longo da história pelos vários investigadores.[2] Com efeito, não se faz qualquer menção à dita ponte no foral de D. Manuel, emitido nos princípios do século XVI, mas é descrita a presença de uma barca entre as duas margens, que funcionava há já muito tempo, o que prova que não existia uma ponte a atravessar o rio naquela área.[2] No entanto, não descarta totalmente a sua utilização como ponte, uma vez que a largura restante do rio poderia ser vencida por meio de uma estrutura provisória de madeira, ou então através de um sistema de barcas.[2]
Segundo o arqueólogo Estácio da Veiga, não era uma ponte mas «um extenso caes fortificado de singular aspecto», que era «limitado por um reducto fortificado, tendo pouco acima da elevação normal das aguas do rio uma porta de arco, em que estão internamente abertas duas cavidades de cada lado, como para ser trancada».[2] Acrescentou que «sendo planos os pés-direitos dos pilares entre si, só o ultimo, onde estava a porta, terminava em curva convexa até ao terrado, que parece ter sido cingido de parapeito da mesma configuração, sem comtudo haver na secção comprehendida entre o arco da porta e a superficie do terrado o minimo indicio apparente de nascimento de arco apontado para a margem fronteira, de que dista 38 metros. Esta circumstancia já deixava presumir que o extremo limite do edifício fora aquelle.»[2] Outra prova que a estrutura não era uma ponte entre as duas margens do rio é «o pilar de base circular», que «não se vê empregado desde a epocha romana até á idade média nas grandes pontes e aqueductos : se algum exemplo se podesse apontar, seria excepção à regra geral n'estas construcções. Na ponte romana de Fréjus é certo que os talhantes eram de fórma hemicycular, mas os pilares, a que adheriam, tinham a base rectangular».[2] Conclui dizendo que «medindo o rio 38 metros de largura entre o ultimo pilar e a margem esquerda, para se admittir que o mencionado edificio tivesse sido ponte, e que os árabes destruíssem os outros arcos, como pretende o auctor do Roteiro terrestre de Portugal, sem nos dizer quem lhe transmittiu tão particular noticia, ou onde a viu escripta, era indispensável que esse edifício firmasse uma das suas extremidades na outra margem, para assim não fícar interrompida aquella estrada romana, de Serpa a Mertola, que só o padie João Baptista de Castro conheceu, e tão bem, que até não lhe escapou que passava pelo adro da igreja de Santa Iria, sendo notável que tal maravilha não fosse revelada por Laymundus, ou por Pedro Alladio a Fr. Bernardo de Brito...»[2] Afastou igualmente a possibilidade da ponte ter sido de um só arco desde a base circular até à margem oposta, devido à grande largura do rio naquele ponto.[2] Embora os romanos tenham construído pontes com arcos de dimensões superiores, como sucedeu com a que cruzava o Rio Nera perto de Narni, na Itália, estas tinham sempre uma flecha igual à metade da corda entre os pilares.[2] Assim, caso a ponte de Mértola fosse deste tipo, teria de atingir uma altura de 19 m acima da base circular, arrancando a partir deste ponto, uma vez que os pilares desde a muralha são todos de revestimento uniforme, indicando uma altura contínua do tabuleiro que sustentavam.[2] Isto faria com que o tabuleiro da ponte, na parte em que cruzaria o rio, ficaria com rampas muito íngremes, o que dificultaria o seu atravessamento.[2] Além disso, as reduzidas dimensões da base impedem que pudesse ter sido usada eficazmente como um dos pilares para um arco de tal grandeza.[2] Este problema poderia ter sido minimizado com recurso a um arco abatido, embora este tipo de construções não se tornaram comuns até ao século XII, ou de arco diminuído, como foi utilizado na Ponte de Trajano sobre o Rio Danúbio.[2]
A estrutura foi classificada como Monumento Nacional por um Decreto de 16 de Junho de 1910, com o nome de Ponte de Mértola.[8] Encontra-se incluída no Parque Natural do Vale do Guadiana e no Plano Sectorial da Rede Natura 2000: Sítio de Interesse Comunitário Guadiana (PTCON0036).[1]
Ver também
Referências
- ↑ a b Ficha na base de dados SIPA
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v VEIGA, 1880:126-138
- ↑ a b c d e f «Ponte de Mértola». Património Cultural. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 22 de Outubro de 2025
- ↑ a b «Mértola - Torre do Rio». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 18 de Outubro de 2025
- ↑ «Torre Couraça». Património construído. Câmara Municipal de Mértola. Consultado em 18 de Outubro de 2025
- ↑ «Muralhas e Porta da Almedina». Câmara Municipal de Silves. Consultado em 19 de Outubro de 2025
- ↑ CASTRO, 1814:21
- ↑ PORTUGAL. Decreto sem número, de 16 de Junho de 1910. Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria - Direcção Geral das Obras Publicas e Minas - Repartição de Obras Publicas. Publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de Junho de 1910.
Bibliografia
- CASTRO, João Baptista de (1814). Roteiro Terrestre de Portugal 5.ª ed. Lisboa: [s.n.] p. 21. Consultado em 19 de Outubro de 2025 – via Google Books
- VEIGA, Sebastião Philippes Martins Estácio da (1880). Memória das antiguidades de Mértola: Observadas em 1877. Lisboa: Imprensa Nacional. 189 páginas. Consultado em 18 de Outubro de 2025 – via Internet Archive