Pirmin Treku

Pirmin Treku
Nome completoFermín Aldabaldetreku Arruti
Nascimento
13 de março de 1930

Morte
13 de julho de 2006

Nacionalidadeespanhola
OcupaçãoBailarino, professor de ballet, coreógrafo

Pirmin Treku (nascido Fermín Aldabaldetreku Arruti; Zarautz, 13 de março de 1930 — San Sebastián, 13 de julho de 2006) foi um bailarino clássico, professor e coreógrafo espanhol de origem basca. Sob o nome artístico Pirmin Trecu (mais tarde adotando a grafia basca Treku), tornou-se primeiro-bailarino do Sadler's Wells Ballet (mais tarde The Royal Ballet) em Londres, destacando-se sobretudo pela interpretação do Rapaz em La Fête étrange, de Andrée Howard, e por papéis de relevo em obras de Ninette de Valois, Frederick Ashton, John Cranko, Kenneth MacMillan e George Balanchine.[1]

Refugiado de guerra em criança, foi evacuado do País Basco para o Reino Unido em 1937, a bordo do navio Habana, e cresceu no exílio em Inglaterra.[2] Depois de uma lesão no joelho ter posto fim à carreira de intérprete em 1961, fixou-se no Porto, onde fundou a Academia de Bailado Clássico Pirmin Treku e o Grupo de Bailado do Porto (mais tarde conhecido como Companhia de Bailado do Porto), instituições que se tornaram referências do bailado clássico no norte de Portugal. Ao longo de cerca de quatro décadas de carreira pedagógica formou várias gerações de bailarinos portugueses, incluindo futuros membros e dirigentes da Companhia Nacional de Bailado e do Ballet Gulbenkian.[3][4]

Vida inicial

Treku nasceu no bairro de San Pelayo, em Zarautz, na província basca de Guipúscoa, em 13 de março de 1930.[5][1] O pai era um militante destacado do nacionalismo basco, e o apelido familiar, Aldabaldetreku, tem origem rural na região.[1]

Durante a Guerra Civil Espanhola, o menino de sete anos e as duas irmãs mais velhas, Lore e Eli, integraram o contingente de cerca de quatro mil crianças bascas evacuadas de Bilbau para Southampton em maio de 1937, a bordo do navio Habana, no contexto dos chamados niños de la guerra.[2] As crianças foram acolhidas em colónias no sul de Inglaterra; os irmãos Aldabaldetreku ficaram numa casa para refugiados em Kent, enquanto os pais seguiam para o exílio em França e na América Latina.[2][6]

Crescendo no Reino Unido, o jovem Fermín dedicou-se inicialmente ao desenho e às artes plásticas. Em meados da década de 1940, depois de assistir a uma representação de Les Patineurs, de Ashton, decidiu enveredar pela dança e apresentou-se a uma audição com Ninette de Valois, fundadora do Sadler's Wells Ballet.[6] De Valois reconheceu o potencial do rapaz e atribuiu-lhe uma bolsa de estudos na escola de ballet de Sadler's Wells em Londres, permitindo-lhe uma formação sistemática em ballet clássico apesar da condição de refugiado.[6][1]

Foi nessa altura que adotou o nome artístico Pirmin Trecu (mais tarde grafado Treku), explicando que os colegas ingleses consideravam Aldabaldetreku demasiado comprido e difícil de pronunciar.[6] A sua formação colocou-o em contacto com uma geração de professores emigrados da tradição russo-europeia, incluindo Lydia Kyasht, Olga Preobrajenska, George Goncharov, Vera Volkova e Tamara Karsavina, que o orientou em papéis de obras como Carnaval (bailado)| Carnaval e Les Sylphides.[1][5]

Carreira no Sadler's Wells e no The Royal Ballet

Formação e início de carreira

Treku entrou formalmente para a escola de ballet de Sadler's Wells em 1944 e, no ano seguinte, fez a estreia em palco com o Sadler's Wells Theatre Ballet, companhia júnior de digressão formada por recém-graduados.[1] Em 1947, com 17 anos, foi promovido à companhia principal, o Sadler's Wells Ballet no Royal Opera House de Covent Garden.[7][1]

A ascensão dentro do grupo foi rápida: em 1948 foi elevado a primeiro-bailarino, sendo descrito em fontes contemporâneas como o primeiro bailarino nascido no estrangeiro a ser contratado para o escalão mais alto da companhia.[1] No período imediatamente pós-guerra, considerado uma espécie de “idade de ouro” do conjunto, dançou ao lado de figuras como Margot Fonteyn, Robert Helpmann e Michael Somes, trabalhando em estreita colaboração com coreógrafos residentes como Ashton e de Valois.[8][9]

Repertório e papéis de destaque

O papel mais celebrado de Treku foi o do Rapaz de província em La Fête étrange, de Andrée Howard, baseado no romance Le Grand Meaulnes, de Alain-Fournier. Interpretou o papel inicialmente com o Sadler's Wells Theatre Ballet no final da década de 1940 e, mais tarde, em Covent Garden, onde críticos salientaram a mistura de desajeitamento adolescente e lirismo que levava à personagem.[8][9] La Fête étrange ficou estreitamente associado ao seu nome, e foi o bailado escolhido para a despedida dos palcos em 1961, ocasião em que foi coroado em cena com uma grinalda de louros pelos colegas.[1]

Treku destacou-se também pelo trabalho dramático de carácter. No bailado The Rake's Progress (ballet), de de Valois, criou no início da década de 1950 o papel-título do Libertino, interpretação recordada pelo desenho dramático intenso.[1] Pela origem basco-espanhola, foi frequentemente distribuído em obras de colorido hispânico, alcançando particular êxito como o Moleiro em The Three-Cornered Hat (bailado)|El sombrero de tres picos|O chapéu de três pontas, de Léonide Massine, cuja leitura foi elogiada pela precisão rítmica e pela autenticidade do estilo espanhol.[8][9]

Para além destes papéis, dançou grande parte do repertório clássico: o Pássaro Azul em The Sleeping Beauty (bailado)|A Bela Adormecida, o Príncipe Quebra-Nozes em O Quebra-Nozes, Franz em Coppélia, o pas de trois de O Lago dos Cisnes e o pas de deux camponês em Giselle.[1] Participou ainda em estreias ou primeiras elencagens de obras de John Cranko (Sea Change, Pastorale), Kenneth MacMillan (Danses Concertantes, Anon), Ashton (Ondine) e Balanchine (Trumpet Concerto).[5]

Apesar de relativamente baixo para os padrões do bailarino clássico, Treku era admirado pela correção da linha, força nos saltos e intensidade dramática. Obituários posteriores descrevem-no como figura excecional entre os bailarinos espanhóis e como um danseur noble marcante do período intermédio do Royal Ballet.[8][9]

Aposentação dos palcos

Em 1961, após cerca de quinze temporadas em Londres, uma lesão crónica no joelho direito obrigou-o a retirar-se da cena ainda na casa dos trinta anos.[8][9] A última apresentação com o Royal Ballet foi precisamente em La Fête étrange, em Covent Garden, encerrando uma carreira que o levara do estatuto de criança refugiada ao de primeiro-bailarino de uma das principais companhias de ballet do mundo.[1]

Ensino e carreira em Portugal

Imediatamente após a retirada, Treku decidiu dedicar-se ao ensino. Embora de Valois o encorajasse a permanecer em Londres como professor, o bailarino preferiu regressar à Península Ibérica em termos próprios e recusou instalar-se na Espanha franquista, onde se sentia ainda em exílio.[6][9] Em 1961 aceitou o convite da Escola Parnaso, instituição privada de orientação artística no Porto, para lecionar ballet clássico, tendo-se mudado para a cidade que viria a ser a sua casa durante mais de quatro décadas.[3]

Em 1963 fundou a sua própria escola, a Academia de Bailado Clássico Pirmin Treku (posteriormente padronizada como Pirmin Treku).[3] A academia oferecia um currículo rigoroso de formação clássica, modelado na tradição britânica, e Treku estabeleceu ligação com a Imperial Society of Teachers of Dancing (ISTD), preparando alunos para exames dessa entidade e convidando regularmente examinadores do Reino Unido para avaliarem os estudantes no Porto.[5][3] Levou também alguns alunos selecionados a cursos de verão internacionais, como os Yorkshire Ballet Seminars, para trabalharem com professores convidados.[8]

Ao longo das décadas seguintes, a academia tornou-se um dos principais centros de ensino do ballet clássico no norte de Portugal, conhecida pela disciplina exigente e pela capacidade de lançar alunos em carreiras profissionais. Entre os formandos contam-se futuros integrantes da Companhia Nacional de Bailado, do Ballet Gulbenkian e de companhias estrangeiras.[4] As assistentes de longa data, Bárbara Guedes e Maria José Rodrigues, ambas ex-alunas, acabariam por assumir a direção da escola à medida que a saúde de Treku se fragilizava nos primeiros anos do século XXI.[4]

Grupo de Bailado do Porto

Em 1974, Treku fundou o Grupo de Bailado do Porto, conjunto semiprofissional destinado a oferecer oportunidades de palco a alunos avançados e a outros bailarinos locais numa altura em que a atividade profissional de ballet em Portugal se concentrava sobretudo em Lisboa.[3][9] O grupo, muitas vezes descrito como antecessor da Companhia de Bailado do Porto, realizou digressões regionais e apresentou, ao longo das décadas de 1970 e 1980, um repertório misto de obras clássicas e contemporâneas.[3]

Sob a direção artística de Treku, a companhia montou produções integrais ou versões reduzidas de O Quebra-Nozes, Coppélia, Les Sylphides, Giselle e O Lago dos Cisnes, frequentemente com a colaboração de coreógrafos convidados e répétiteurs estrangeiros.[3][5] O próprio Treku criou obras originais para o grupo portuense, como Foz 1900, Concerto de Aranjuez, Amanhecer e Noite, e coreografou cenas de dança para produções de ópera como La traviata, Orfeo ed Euridice e Dido and Aeneas.[3] O grupo manteve-se ativo até ao início da década de 1990, altura em que a sua atividade foi diminuindo à medida que instituições nacionais, como a CNB, consolidavam presença.[4]

Últimos anos e morte

Em 1991, Treku foi submetido a um transplante cardíaco, mas continuou a ensinar e a supervisionar as atividades da escola durante muitos anos depois da operação.[8][9] Por volta de 2003 passou a estar mais tempo de novo em Zarautz, mantendo, contudo, laços estreitos com o Porto e com a academia que levava o seu nome.[6]

Pouco antes da morte, a Casa de la Danza, em Logronho, conferiu-lhe o título de Amigo de Honor (“Amigo de Honra”), em reconhecimento de uma longa carreira na dança.[9] Treku morreu de insuficiência cardíaca em San Sebastián (Donostia) em 13 de julho de 2006, aos 76 anos, após complicações associadas a uma infeção. Fontes bascas e espanholas registam San Sebastián como local e 13 de julho como data de falecimento, embora um obituário em inglês tenha indicado, por engano, 12 de julho em Madrid.[9][1][8]

Legado

A influência de Treku é visível nas gerações de bailarinos formados na academia portuense. Entre os antigos alunos destacados encontra-se Luísa Taveira, ex-bailarina principal e mais tarde diretora artística da Companhia Nacional de Bailado,[10] bem como intérpretes que integraram o Ballet Gulbenkian, a CNB e companhias na Alemanha e em Itália.[4] Alguns discípulos tornaram-se, eles próprios, professores e diretores artísticos.

Após a morte de Treku, a escola e a cidade do Porto organizaram várias homenagens. Em 15 de maio de 2007, a Casa da Música acolheu a gala Obrigada, Pirmin Treku, com cerca de 120 alunos e artistas convidados, incluindo a projeção de excertos filmados de atuações do homenageado.[11] Em 2012, o Photomuseum, em Zarautz, apresentou a exposição Bizitza dantzan, dantza bizitza (“Vida a dançar, dança como vida”), com fotografias, programas e documentos da carreira de bailarino e professor.[5]

A Academia de Bailado Clássico Pirmin Treku continua a funcionar no Porto, reivindicando “décadas de paixão pela dança” e preservando a tradição de formação clássica estabelecida pelo fundador.[3][12] No País Basco, artigos e exposições retrospetivas apresentam-no frequentemente como um “filho perdido” cuja carreira internacional decorreu sobretudo no estrangeiro, mas cuja história integra a memória mais ampla das crianças bascas da guerra.[2][6]

Nome

O nome de nascimento de Treku era Fermín Aldabaldetreku Arruti. Durante os anos no Reino Unido foi creditado profissionalmente como Pirmin Trecu, forma abreviada e adaptada à pronúncia inglesa.[6][1] Depois de se fixar em Portugal e de se reaproximar de círculos culturais bascos, a grafia Treku tornou-se dominante, e a escola e as homenagens posteriores adotam em geral esta forma basca.[1][3]

Referências

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Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p «Aldabaldetreku Arruti, Fermín (Pirmin Treku)». Auñamendi Eusko Entziklopedia (em espanhol). Eusko Ikaskuntza 
  2. a b c d e «El Habana y los niños de la guerra». Dantzan (em espanhol) 
  3. a b c d e f g h i j k «História – Academia de Bailado Clássico Pirmin Treku». pirmintreku.com 
  4. a b c d e f «Antigos alunos – Figuras». Academia Pirmin Treku 
  5. a b c d e f g «Bizitza dantzan, dantza bizitza (Exhibition materials)» (em basco). Photomuseum Zarautz 
  6. a b c d e f g h i «El hombre que soñaba con los pies». Dantzan.eus (em espanhol) 
  7. a b «Royal Opera House Performance Database» (em inglês). Royal Opera House 
  8. a b c d e f g h i Clarke, Mary (21 de julho de 2006). «Pirmin Trecu». The Guardian (em inglês) 
  9. a b c d e f g h i j k «Pirmin treku, ex bailarín y maestro de ballet». El País (em espanhol). 17 de julho de 2006 
  10. a b «Luísa Taveira — biografia institucional». DGArtes 
  11. a b «Casa da Música acolhe gala 'Obrigada, Pirmin Treku'». Jornal de Notícias 
  12. a b «Décadas de paixão pela dança». Visão 
  13. «Zarautz homenajeará esta tarde al bailarín clásico Pirmin Treku». Dantzan.eus (em espanhol) 
  14. «Pirmin Treku – Open Questions Research Notes» (em inglês) 

Ligações externas