Pierre Toussaint
Pierre Toussaint
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| Venerável | |
| Nascimento | 27 de junho de 1766 Saint-Marc, Saint-Domingue (atual Haiti) |
| Morte | 30 de junho de 1853 (87 anos) Nova Iorque, Estados Unidos |
| Veneração por | Igreja Católica |
| Padroeiro | Cabeleireiros e barbeiros[1] |
Pierre Toussaint (Saint-Marc, 27 de junho de 1766 – Nova Iorque, 30 de junho de 1853) foi um cabeleireiro, filantropo e ex-escravizado haitiano-americano. Após conquistar sua liberdade, tornou-se uma figura proeminente na sociedade nova-iorquina do século XIX, notável por suas obras de caridade e profunda fé católica. Em 1996, foi declarado venerável pelo Papa João Paulo II. É um dos poucos católicos afro-americanos com uma causa aberta para a canonização.[2][3][4]
Biografia
Primeiros anos
Pierre nasceu escravizado em 27 de junho de 1766, em Saint-Marc, na colônia francesa de Saint-Domingue (atual Haiti). Sua mãe, Ursule, era criada da família Bérard, proprietária da plantação onde viviam. Pierre foi educado pelos tutores da família, aprendendo a ler e escrever, e treinado como escravo doméstico. Em 1787, com o agravamento das tensões que levariam à Revolução Haitiana, a família Bérard mudou-se para Nova Iorque, levando Pierre, sua irmã, e outros escravizados consigo.[2] No entanto, outras fontes, incluindo a Archways, publicada pelo Escritório de Marketing da Arquidiocese de Nova Iorque, advogam que os Bérards e seus escravos chegaram aos Estados Unidos dez anos depois, no verão de 1797.[5]
Vida em Nova Iorque
Em Nova Iorque, Pierre foi aprendiz de um dos principais cabeleireiros da cidade. Com o tempo, tornou-se um dos mais requisitados profissionais entre a elite nova-iorquina. Após a morte de seu senhor, Jean Bérard, em Saint-Domingue, enquanto verificava sua propriedade, Pierre continuou a sustentar Madame Bérard até sua morte, graças aos seus ganhos como cabeleireiro. Em 1807, foi oficialmente liberto, conforme o desejo de sua antiga senhora no leito de morte. Adotou o sobrenome "Toussaint" em homenagem a Toussaint Louverture, líder da Revolução Haitiana.[2][3][5][6]
Apesar da intolerância racial, que podia atingi-lo mesmo sendo um homem livre, e do preconceito anticatólico, seu ofício reconhecido e piedade católica o tornavam reconhecido pela elite protestante local.[5]
Família
Pierre Toussaint comprou uma casa em Manhattan. Em 5 de agosto de 1811, Pierre casou-se com Juliette Noel, uma haitiana escravizada cuja liberdade ele comprou. Ele também comprou a liberdade da irmã e adotou a filha dela, Euphemia, após a morte da Rosalie. Criaram a menina como filha, proporcionando-lhe educação em francês e inglês e aulas de música.[2][5][6]
Obras de caridade
Pierre e Juliette dedicaram-se a diversas atividades filantrópicas. Abriram sua casa para acolher órfãos e jovens necessitados, ajudando-os a obter educação e emprego, além de fundamentais na arrecadação de fundos para o novo orfanato das Irmãs da Caridade, fundado por Madre Seton, apesar de atender apenas crianças brancas. Pierre frequentava diariamente a missa na Igreja de São Pedro por 66 anos. Foi um dos principais financiadores da construção da Antiga Catedral de São Patrício, na Mulberry Street.[2][5][6]
Eles também organizaram uma agência de crédito e uma agência de empregos. Pierre e Juliette foram benfeitores da primeira escola católica da cidade de Nova Iorque para crianças negras e ajudando as Irmãs Oblatas da Providência na escola católica em Baltimore criada para educar meninas negras. Assim como Pierre, alguns de seus fundadores e professores eram de Saint-Domingue. Ele ainda ajudou imigrantes francófonos que chegavam a Nova York vindos do Haiti.[2][6]
Durante uma epidemia de febre amarela, Toussaint decidiu permanecer em Nova York e, atravessando barricadas, cuidar dos doentes e moribundos.[5][6] Ele perdeu grande parte de seus investimentos em consequência do Grande Incêndio de Nova Iorque de 1835, o que afetou seus recursos, mas não parou suas obras de caridade.[5]
Apesar de tudo, nos anos pré-guerra civil, a família Toussaint continuou sentindo o peso do racismo e da segregação. Em 1842, eles foram impedidos de entrar na catedral que haviam ajudado a financiar, por porteiros que desconheciam seu status; os curadores da catedral se apressaram em se desculpar assim que souberam da ofensa.[5]
Últimos anos e morte
Euphemia faleceu antes dos pais adotivos, aos quatorze anos, também vítima de tuberculose. Juliette morreu em 14 de maio de 1851. Pierre faleceu em 30 de junho de 1853, aos 87 anos. Foi inicialmente sepultado no cemitério da Antiga Catedral de São Patrício, ao lado de sua esposa e filha.[2][5]
Legado e veneração

Como consequência da guerra e da segregação, a trajetória de Toussaint ficou registrada apenas na narrativa escrava de Hannah Farnham Sawyer Lee, Memoir of Pierre Toussaint, Born a Slave in St. Domingo,[7] e nas histórias orais das comunidades haitiano-americana e católica negra. Apenas no final da década de 1930 que sua história foi reencontrada e pelo esforço do seminarista Charles McTague, localizaram a lápide da família Toussaint no cemitério da Mulberry Street, apagada pelo tempo.[5]
Na década de 1950, o Comitê John Boyle O'Reilly para a Justiça Interracial, um grupo irlandês-americano dedicado à justiça social e à igualdade, começou a pesquisar e divulgar a história de vida de Toussaint.[8]
Em 1951, o Cardeal Francis Spellman abençoou uma placa para marcar a lápide e, em 1968, seu sucessor, o Cardeal Terence Cooke, iniciou formalmente o processo de canonização de Toussaint. Após mais de duas décadas de pesquisa exaustiva e diligência prévia por parte da Guilda Pierre Toussaint, a causa foi submetida ao Vaticano.[5] A correspondência coletada de Toussaint fez parte da documentação enviada pela Arquidiocese de Nova Iorque à Santa Sé, preenchendo 15 volumes encadernados.[8]
Sua causa de beatificação recebeu o rescrito de nihil obstat em 12 de novembro de 1988. Assim, o inquérito diocesano sobre o Servo de Deus Pierre Toussaint transcorreu de dezembro de 1989 a junho de 1991, sendo validado por decreto de novembro do mesmo. A Positio foi publicada em 1994, com a sessão de consultores históricos em 26 de abril de 1994. Em 1996, após o congresso particular de consultores teológicos em junho e a sessão ordinária de cardeais e bispos em dezembro, o Papa João Paulo II reconheceu as virtudes heroicas de Pierre Toussaint por decreto de 17 de dezembro de 1996, conferindo-lhe o título de venerável. A causa de canonização continua, tendo o Pe. Pascual Cebollada Silvestre, SJ, como postulador. Em 2004, foi publicado um decreto sobre a validade do inquérito diocesano sobre o milagre necessário para a beatificação, mas apenas em 2010 aconteceu a reunião do Conselho Médico, e a causa não foi movimentada desde então.[9]

Em 1989, o Cardeal John Joseph O'Connor providenciou a transferência dos restos mortais de Pierre Toussaint, os quais foram exumados como parte do processo de canonização, para a cripta sob o altar da Catedral de São Patrício, na Quinta Avenida, local reservado a bispos da Arquidiocese de Nova Iorque, sendo o único leigo a receber tal homenagem.[4][5][6] Segundo o Cardeal O'Connor, em uma missa em homenagem a Toussaint em 1999: "Ele está agora sepultado sob este altar-mor com todos os bispos, arcebispos e cardeais de Nova York. Será um grande privilégio para mim ser sepultado em um jazigo na mesma seção que Pierre Toussaint."[5]
Pierre Toussaint é considerado o fundador da Catholic Charities of New York. Em 1983, foi criado o Fundo de Bolsas de Estudo Pierre Toussaint (PTSF), administrado pelo Escritório do Ministério Negro da Arquidiocese de Nova Iorque, que cria maior acesso a oportunidades por meio da educação para estudantes negros e suas comunidades.[4] A Associação Pierre Toussaint também apoia o Colégio Pierre Toussaint em Sassier, Haiti.[5] Outras homenagens incluem o Centro Haitiano-Católico Pierre Toussaint em Miami,[8] a escola Toussaint Academy San Diego,[10] e a Pierre Toussaint Boulevard, uma grande seção da Church Avenue no Brooklyn, renomeada em 2021.[11] Em fevereiro de 2024, Toussaint foi destaque na série de obituários Overlooked No More do The New York Times, que não foram publicados na época da morte do destinatário.[3]
Ver também
Referências
- ↑ «Venerable Pierre Toussaint». Franciscan Media. Consultado em 24 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g «Pierre Toussaint | Slavery and Remembrance». slaveryandremembrance.org. Consultado em 30 de junho de 2025
- ↑ a b c Stone, Elizabeth (18 de fevereiro de 2024). «Overlooked No More: Pierre Toussaint, Philanthropist and Candidate for Sainthood». The New York Times (em inglês). Consultado em 24 de setembro de 2025
- ↑ a b c Mathis, Marquisha (28 de fevereiro de 2024). «Remembering Venerable Pierre Toussaint». Catholic Charities of New York (em inglês). Consultado em 24 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n Cain, Michael. «VENERABLE PIERRE TOUSSAINT». ARCHWAYS MAGAZINE (em inglês). Consultado em 24 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f Christian, Gina (3 de dezembro de 2023). «Black Catholic hero of charity, fed by the Eucharist, inspires faithful to holiness». Catholic Review (em inglês). Consultado em 24 de setembro de 2025
- ↑ «Hannah Farnham Sawyer Lee, 1780-1865 Memoir of Pierre Toussaint, Born a Slave in St. Domingo.». docsouth.unc.edu. Consultado em 25 de setembro de 2025
- ↑ a b c Sontag, Deborah (23 de fevereiro de 1992). «Canonizing a Slave: Saint or Uncle Tom?». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331. Consultado em 25 de setembro de 2025
- ↑ «1853». newsaints.faithweb.com. Consultado em 24 de setembro de 2025
- ↑ FJV (17 de dezembro de 2015). «Life after the Village: Toussaint Academy Grads Edition». Father Joes Villages (em inglês). Consultado em 25 de setembro de 2025
- ↑ «Church Ave Renamed in Honor of Haitian Leader Pierre Toussaint». BK Reader (em inglês). 27 de abril de 2021. Consultado em 25 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 28 de abril de 2021
