Alquequenque
Physalis Alkekengi (sinónimo Alkekengi officinarum), comummente conhecida como alquequenge[1] [2](grafia alternativa alquequenque[3]), é uma espécie de planta com flor da família das solanáceas, cujo fruto é comestível.
Nomes comuns
Além do substantivo «alquequenge», esta espécie dá ainda pelos seguintes nomes comuns: tomate-capucho[4] (grafia alternativa tomatinho-de-capucho,[5] não confundir com a espécie Physalis peruviana que também é conhecida por estes dois nomes comuns[6][7]), cereja-de-judeu,[8] tomate-lagartixa,[9] barrileiro.[10] É também conhecida como fisális (grafia alternativa fisálide[11]), a par das demais espécies do género Physalis.[12]
Por fim, é ainda conhecida, regionalmente, nos Açores como chapucho[13] (sem confundir com a espécie Physalis peruviana, que também é conhecida nesse território por este nome comum)[14] ou capucha.[15]
Etimologia
Do que toca ao nome científico, o nome genérico, Physalis, provém do grego antigo φυσαλλίς que significa «bexiga» ou «fole».[16]
O nome comum «alquequenge» e o epíteto específico Alkekengi provêm do árabe aalkākanj, que significa «resina»[2] e este, por sua vez, terá remontado do persa kākunadj, com o mesmo significado.[17]
Sendo que o nome comum «alquequenge» provavelmente terá entrado na língua portuguesa pelo francês alkékenge,[17] com a já referia etimologia árabe.
Descrição
O alquequengue é uma planta herbácea perene que se desenvolve através de um sistema radicular rizomatoso. Pode crescer até aos 30 centímetros de altura.[18]
O fruto é uma baga com cerca de 17 mm de diâmetro.[19] A planta envolve cada fruto num cálice, que se assemelha a uma bolsa paperífera, que serve proteger de pragas e das condições ambientais.[18]
É um parente próximo da Calliphysalis carpenteri (cereja-de-carpinteiro) e um parente um pouco mais distante dos membros do gênero Physalis.[20] Esta espécie é nativa das regiões que abrangem o Sul da Europa ao Sul da Ásia e Nordeste da Ásia .
Foi descoberto que a espécie Calliphysalis carpenteri (anteriormente classificada como Physalis carpenteri) está entre as espécies mais estreitamente relacionadas com a Physalis alkekengi.[20]
Distribuição
Marca presença no Eurásia, desde a Península Ibérica e França até oriente, por via da Europa Central e do Sul até chegar à Ásia Central e ao Paquistão.[18] Também se encontra presente na China austral e oriental.[18]
Cultivo
É uma planta ornamental amplamente cultivada em regiões temperadas do mundo, e, quando em estado de dormência, é resistente até temperaturas abaixo de -20 graus celsius,[21] embora os rebentos jovens na Primavera possam ser danificados por geadas tardias.[18] Pode ser considerada invasiva, nalguns territórios, especialmente tendo em conta o seu sistema radicular de expansão dispersiva. Em vários lugares do mundo, escapou ao cultivo e naturalizou-se.[22]
Desenvolve-se em qualquer solo, conquanto que bem drenado, seja em pleno sol ou em sombra ligeira.[19]
A subespécie Physalis alkekengi subsp. franchetii Mak. (por vezes tratada como espécie distinta) é uma forma mais resistente da espécie, pautando-se pelos seus frutos de maiores dimensões.[19]
As lesmas são particularmente atraídas pelos rebentos desta planta, quando jovem, especialmente na altura da Primavera e podem destruir mesmo touceiras de tamanho considerável.[18]
Usos
Culinária
O fruto consome-se cru ou cozinhado,[23] sendo particularmente rico em vitaminas,[24] reputando-se-lhe o dobro da vitamina C dos limões,[25] embora tenha um sabor menor acentuado.[18]
Embora suculentos, os tomates-capuchos podem ter um sabor que varia entre o tenuemente adocicado, o amargo e o acre,[26] sendo por isso, por vezes, usados em saladas.[27] O cálice dos frutos é tóxico e não deve ser consumido.[28]
Quanto às folhas e rebentos novos, podem ser comestíveis, mas só se devidamente cozinhadas, ressalta-se que, quando cruas não são próprias para o consumo humano, reputando-se-lhes propriedades venenosas.[18]
Etnobotânica
O alquequenge há muito que tem sido utilizado ao longo da história no âmbito da medicina, por virtude das suas propriedades químicas, porém é raramente empregue na prática moderna.[29]
A planta inteira tem propriedades antinflamatórias, antipiréticas, antitússicas e expectorantes.[27][30][25] Além disso, o alquequenge foi historicamente usado no tratamento de doenças urinárias e cutâneas.[18]
No entanto, recomenda-se redobrada cautela, no uso etnobotânico desta planta, porquanto a sobredosagem pode precipitar facilmente o aborto.[25] Com efeito, a semente pode ser usada num preparado destinado a anticipar o parto.[25]
Do que respeita ao fruto, é aperiente, fortemente diurético e litontríptico.[25][26][31] De modo que é utilizado no tratamento de perturbações renais e da bexiga.[27] Com efeito, o fruto usa-se, por via interna, no tratamento de cálculos urinários, retenção urinária, entre outros, sendo altamente recomendado em estados febris e na gota.[26][29] No âmbito da etnobotânica, o fruto é colhido quando completamente maduro e pode ser utilizado fresco, em sumo ou seco, sendo que o cálice deve ser removido.[29]
As folhas e os caules têm propriedades febrífugas e ligeiramente tónicas, pelo que foram utilizados historicamente no tratamento do mal-estar subsequente à malária e em indivíduos asténicos ou anémicos.[26]
As folhas frescas podem ser usadas na confecção de cataplasmas calmantes para o tratamento de inflamações cutâneas. [29][18]
Relatos históricos
Na medicina chinesa, o alquequenge era usado para tratar de abscessos, tosse, febre e dor de garganta.[25] A extinta língua dácia deixou poucos vestígios, mas em De Materia Medica de Pedanius Dioscórides, é discutida uma planta chamada Strychnos alikakabos (Στρύχνος άλικακάβος), que era chamada de kykolis (ou cycolis ) pelos dácios. Alguns consideraram esta planta como sendo Alkekengi officinarum, mas o nome mais provavelmente refere-se a ashwagandha (Withania somnifera).[32]
Constituintes químicos
A Alkekengi officinarum contém uma grande variedade de fisalinas.[33][34][35] Quando isolados da planta, apresentam atividades antibacterianas[36] e leishmanicidas[37][38] in vitro.
Registos fósseis
Encontraram-se fósseis de sementes de Alkekengi, os quais foram datados do Mioceno, quando encontrados na Sibéria; do Plioceno quando encontrados em vários países europeus; e especificamente do Pleistocénico, aos encontrados na Alemanha.[39]
Referências
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