Peguei um Ita no Norte

Peguei um Ita no Norte
Acadêmicos do Salgueiro 1993

Representação do navio Ita no desfile campeão do Salgueiro no carnaval de 1993.
Ficha técnica
5.500 componentes 37 alas e 12 alegorias
Presidente Waldemir Garcia (Miro)
Carnavalesco e
autor do enredo
Mário Borriello
Direção de carnaval Paulo César Mangano
Direção de harmonia Jorge Calça Larga
Mestre-sala e porta-bandeira Vanderli e Taninha
Segundo casal de M.sala e P.bandeira Maurício e Andréia
Compositores do samba-enredo Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade
Intérprete Quinho do Salgueiro
Diretor de bateria Mestre Louro
Cronologia
<<Estácio de Sá 1992 Desfiles campeões Imperatriz 1994>>

Peguei Um Ita no Norte foi o enredo apresentado pelo Salgueiro no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 1993. Com o desfile, a escola conquistou o seu oitavo título de campeã do carnaval carioca, quebrando o jejum de dezessete anos sem conquistas. O título anterior da escola foi conquistado no carnaval de 1975.[1]

O grande sucesso do desfile de 1993 foi o samba-enredo, composto por por Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade, também conhecido como "Explode Coração" por causa do emblemático refrão "Explode coração! / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro! / Contagiando, sacudindo essa cidade". O samba é comumente listado entre os mais marcantes da história do carnaval. Foi cantado pelo público presente no Sambódromo durante toda a exibição da escola, proporcionando um momento de catarse coletiva na Marquês de Sapucaí. Fora do carnaval, é um dos sambas mais executados e regravados no Brasil e foi adaptado como canto de torcidas de futebol.[2]

O enredo do desfile foi desenvolvido pelo carnavalesco Mário Borriello, que se inspirou na canção "Peguei Um Ita no Norte" (1945) de Dorival Caymmi, para criar uma viagem fictícia entre Belém do Pará e Rio de Janeiro, a bordo de um "Ita", nome dado aos navios que faziam a navegação de cabotagem entre o Norte e o Sul do Brasil. Na fictícia viagem proposta pelo enredo, um migrante paraense passa por várias capitais do Nordeste brasileiro, onde conhece mais sobre a cultura de cada região, até chegar ao Rio, onde se encanta com o carnaval carioca.[3]

O Salgueiro foi a terceira escola a se apresentar na segunda noite do Grupo Especial, em 22 de fevereiro de 1993. Especialistas aclamaram o desfile com adjetivos como "histórico", "brilhante" e "deslumbrante"; e apontaram a escola como favorita ao campeonato. O Salgueiro recebeu quatro prêmios do Estandarte de Ouro: melhor escola, melhor bateria, melhor enredo e ala de crianças. Confirmando a expectativa, o Salgueiro venceu o carnaval com 2,5 pontos de vantagem sobre a vice-campeã, Imperatriz Leopoldinense.[4]

Antecedentes

O Salgueiro chegou ao carnaval de 1993 enfrentando um jejum de dezessete anos sem vitórias. O último título da agremiação tinha sido conquistado no carnaval de 1975 com o enredo "O Segredo das Minas do Rei Salomão", do carnavalesco Joãosinho Trinta. Com a transferência de Joãosinho para a Beija-Flor, o Salgueiro passou a trocar quase que anualmente de carnavalesco, além de enfrentar crises políticas e financeiras. O cenário começou a mudar em 1987 com a chegada do bicheiro Miro Garcia à escola. Com o apoio financeiro de Miro, a escola voltou a mostrar competitividade, atingindo, como melhor resultado da gestão de Miro até então, o vice-campeonato do carnaval de 1991, quando desfilou com o enredo "Me Masso se não Passo pela Rua do Ouvidor" de Rosa Magalhães.[4] Com a transferência de Rosa para a Imperatriz Leopoldinense, o carnavalesco Flávio Tavares começou a desenvolver o enredo de 1992, sobre a história do café, mas se desligou da escola meses antes do desfile. O cenógrafo e figurinista Mário Borriello assumiu o carnaval da agremiação, fazendo sua estreia como carnavalesco. A escola se classificou em quarto lugar em 1992 e o trabalho de Boriello foi aprovado por Miro, que manteve o carnavalesco para o ano seguinte, com liberdade para criar o enredo de 1993.[5]

O enredo

O carnavalesco Mário Borriello, autor do enredo salgueirense.

O enredo do desfile, assinado pelo carnavalesco Mário Borriello, foi inspirado na música "Peguei Um Ita no Norte", lançada em 1945 por Dorival Caymmi. A canção foi inspirada na viagem costeira do compositor baiano para o Rio de Janeiro, em 1938, a bordo do vapor "Itapé".[6] Ita era o nome que se dava aos navios que faziam a navegação de cabotagem, entre o Norte e o Sul do Brasil. Essa denominação era usada porque a Companhia Nacional de Navegação Costeira dava nomes a suas embarcações sempre começando por "ita", que significa pedra na língua tupi: Itaquatirara, Itapé, Itanajé, entre outros.[7] O enredo criado por Borriello narra uma fictícia viagem de um migrante paraense a bordo de um ita, saindo de Belém do Pará em direção ao Rio de Janeiro. Em cada porto que o ita para, o migrante entra em contato com a cultura do local. O enredo foi dividido em três partes: "A Partida" (sobre a emoção da despedida do migrante de sua terra natal); "Os Brasis" (sobre hábitos e culturas de parte do Brasil); e "A Integração" (com o migrante totalmente adaptado à nova vida no Rio de Janeiro).[8]

O enredo começa no Círio de Nazaré, antes da partida do Ita, em Belém. A primeira parada do Ita foi no Maranhão, onde o viajante conheceu o Bumba Meu Boi, o Centro Histórico de São Luís e os casarões antigos da cidade. A segunda parada foi em Fortaleza, no Ceará, onde o migrante participou da romaria de Padre Cícero, e conheceu o artesanato de cerâmica e o artesanato com renda das famosas rendeiras cearenses. A terceira parada foi em Natal, no Rio Grande do Norte, onde o viajante conheceu as famosas salinas do estado. A quarta parada foi no Recife, em Pernambuco, onde o migrante conheceu a Feira de Caruaru, o Frevo e o Maracatu pernambucano. A quinta parada do Ita foi em Maceió, em Alagoas, onde o viajante conheceu o Reisado e as plantações de cana-de-açúcar da região. A sexta parada foi em Aracaju, no Sergipe, onde o migrante conheceu as vaquejadas e a história dos cangaceiros Lampião e Maria Bonita, mortos na região. A sétima parada do Ita foi em Salvador, na Bahia, onde o viajante tocou berimbau, comeu os "quindins de yayá" e conheceu mais sobre o candomblé. A última parada é no destino final, a cidade do Rio de Janeiro, onde o migrante entra em contato com o surf, o futebol, as favelas e o carnaval carioca. O enredo é finalizado no próprio carnaval, onde o migrante, estabelecido no Rio de Janeiro, adota o Salgueiro como escola de samba do coração e assiste sua história ser contada num desfile na Marquês de Sapucaí.[8]

O samba-enredo

Quinho foi o intérprete responsável por gravar a conduzir o samba no desfile.

O samba-enredo do desfile foi composto por Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade, e lançado oficialmente no álbum Sambas de Enredo - Grupo Especial - Carnaval 93, com interpretação de Quinho. O concurso realizado pelo Salgueiro para escolha do samba teve início em 29 de agosto de 1992, com quatorze obras concorrentes.[9] O processo de escolha foi realizado em forma de classificatória, com os sambas sendo apresentados na quadra e avaliados pela direção da escola com eliminatórias semanais. A final do concurso foi realizada em 17 de outubro de 1992 com seis sambas concorrentes.[10] O samba vencedor recebeu 25 votos contra onze votos para a parceria de Sereno, Diogo, Luiz Fernando e Fernando Baster e um voto para a obra composta por Márcio Paiva, Helinho do Salgueiro, Nelson Rosa e Amaury da Cuíca.[11] Esse foi o décimo samba do compositor Bala no Salgueiro; o quarto samba de Arizão; o terceiro samba de Demá Chagas; o segundo de Celso Trindade; e o primeiro de Guaracy na escola. Apesar do sucesso, o samba não começou a disputa como favorito, conquistando a torcida aos poucos. Seus críticos consideravam que ele não contava tão bem o enredo quanto o samba da parceria de Sereno, que era mais descritivo. Uma das críticas ao samba vencedor é que ele não citava todas as capitas abordadas no enredo. A viagem do Ita era rapidamente resumida no trecho "Em cada porto que passo / Eu vejo e retrato em fantasia / Cultura, folclore e hábitos / Com isso refaço minha alegria"; enquanto o samba da parceria de Sereno citava aspectos culturais de cada estado por onde o Ita passava.[12]

Letra

Na primeira parte do samba, o narrador se despede de Belém do Pará e pega um Ita rumo ao Rio de Janeiro ("Lá vou eu... / Me levo pelo mar da sedução / Sou mais um aventureiro / Rumo ao Rio de Janeiro / Adeus Belém do Pará / Um dia eu volto, meu pai / Não chore, pois vou sorrir / Felicidade, o velho Ita vai partir"). No refrão central do samba, o narrador expressa o que sentiu durante a viagem ("Oi, no balanço das ondas, eu vou / No mar eu jogo a saudade, amor / O tempo traz esperança e ansiedade / Vou navegando em busca da felicidade"). A segunda parte do samba começa com o narrador resumindo a sua passagem por portos de diversas capitais brasileiras ("Em cada porto que passo / Eu vejo e retrato em fantasia / Cultura, folclore e hábitos / Com isso refaço minha alegria") até a chegada ao destino final, no Rio de Janeiro, onde fica encantado com o carnaval carioca ("Chego ao Rio de Janeiro / Terra do samba, da mulata e futebol / Vou vivendo o dia a dia / Embalado na magia / Do seu carnaval"). O refrão principal do samba faz menção ao final do enredo de Mário Borriello, quando o viajante, vivendo no Rio há algum tempo, escolhe o Salgueiro como sua escola de samba ("Explode coração / Na maior felicidade / É lindo meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo esta cidade"). O refrão principal foi composto anos antes. Seu autor, Demá Chagas, aguardava um enredo em que pudesse utilizá-lo.[12]

O desfile

Comissão de Frente que abriu o desfile do Salgueiro de 1993: "Oficiais da Marinha".

O Salgueiro foi a terceira das sete escolas que se apresentaram na segunda noite do Grupo Especial de 1993, iniciando seu desfile por volta das 22 horas da segunda-feira de carnaval, dia 22 de fevereiro de 1993. O desfile foi dividido em três partes e contou com a participação de cinco mil e quinhentos componentes, distribuídos em 37 alas e doze alegorias.[3][13][8]

Roteiro

"A Partida"

A primeira parte do desfile simbolizou a partida do Ita de Belém do Pará. O desfile foi aberto pela Comissão de Frente representando os "Oficiais da Marinha". Quinze homens com roupas brancas, simulando o uniforme de marinheiro, faziam uma coreografia com bandeiras nas cores vermelho e branco em referência aos movimentos de sinalização da Marinha.

Carro abre-alas: "A Festa do Círio de Nazaré".

Após a Comissão de Frente, desfilou o carro abre-alas, que simbolizou uma procissão marítima do Círio de Nazaré, manifestação religiosa católica, em devoção a Nossa Senhora de Nazaré, que ocorre em Belém todo segundo domingo de outubro. A frente da alegoria tinha a reprodução de cinco barcos, nas cores vermelho e branco. Acima deles, um letreiro com o nome "Salgueiro", decorado com lâmpadas. Em cima dos barcos, componentes desfilavam com fantasias de marinheiro e pescadores. No barco central desfilou Sabrina Garcia, esposa de Maninho Garcia, presidente da escola. A parte traseira da alegoria, atrás dos barcos, tinha a reprodução da berlinda onde a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é transportada na procissão do Círio. Acima da berlinda, uma coroa giratória fazia referência à imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Esculturas de anjos também decoravam a parte de trás da alegoria.

A segunda alegoria do desfile, "O Velho Ita".

Após o abre-alas desfilou uma ala coreografada representando os romeiros do Círio de Nazaré. Em seguida, alas representaram os vendedores de peixes, de frutas e de pássaros do Mercado Ver-o-Peso. A segunda alegoria, "O Velho Ita", foi a maior do desfile. Simbolizando a partida do Ita, o carro reproduziu um navio, nas cores vermelho e branco. A triatleta Fernanda Keller desfilou como destaque no alto da alegoria. Em seguida, desfilaram alas com fantasias em referência ao mar. Encerrando a primeira parte do desfile, desfilou a terceira alegoria, que também fez referência ao mar por onde navegou o navio. A alegoria tinha esculturas de cavalos marinhos prateados e decoração em forma de ondas, em tons de prata e branco, contrastando com uma escultura colorida de Iemanjá.

Terceira alegoria: "Primeiro Porto - São Luís do Maranhão".

"Os Brasis"

A segunda parte do desfile retratou os portos de cada estado por onde o fictício viajante do enredo passou. A primeira parada do Ita foi no Maranhão. As fantasias das alas do setor fizeram referência ao Bumba Meu Boi, aos azulejos do Centro Histórico de São Luís e os casarões antigos da cidade. A quarta alegoria reuniu elementos característicos do Maranhão como as fachadas de prédios históricos decoradas com azulejos e uma reprodução em tamanho gigante do Bumba Meu Boi maranhense.

Ala do Galo de Barcelos.

Logo depois, o desfile retratou a parada do Ita em Fortaleza, no Ceará. As alas do setor fizeram referências aos romeiros de Padre Cícero, ao artesanato de cerâmica e o artesanato com renda das famosas rendeiras cearenses. A quinta alegoria, "Chegada ao Ceará", reproduziu jangadas sobre novelos de linho e agulhas de bilro, em referência à aspectos da cultura cearense. A terceira parada da fictícia viagem do enredo foi no porto de Natal, no Rio Grande do Norte. As alas do setor fizeram referências ao Galo de Barcelos (símbolo da cidade), aos moinhos de vento e as famosas salinas.

Primeiro casal: Taninha e Vanderli.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Vanderli e Taninha, desfilou com uma luxuosa fantasia decorada com plumas brancas e detalhes prateados. Taninha tropeçou em um cabo de transmissão de TV e caiu em frente ao último módulo de julgamento. Havia o temor da perda de pontos, mas, também, a chance da nota ser descartada. Em seguida, os trezentos ritmistas da Bateria Furiosa, comandados por Mestre Louro, desfilaram fantasiados de marinheiros, com roupas brancas e detalhes em vermelho e prata e a reprodução de uma âncora no chapéu adornado com plumas brancas. A sexta alegoria do desfile simbolizou as salinas de Natal. O carro, em tons de branco e prata, tinha esculturas de mulheres surgindo do sal e moinhos de ventos.

Ala em referência à Feira de Caruaru.

A quarta parada da fictícia viagem do enredo foi no porto de Recife, em Pernambuco. As fantasias das alas do setor fizeram referência à Feira de Caruaru, o Frevo e o Maracatu. A sétima alegoria do desfile, "Riquezas da Cultura Pernambucana", fez referência ao Maracatu, com uma grande escultura de elefante, ricamente decorado com detalhes em vermelho e dourado, fazendo alusão ao Maracatu Elefante. Vera Valente desfilou como destaque, representando a Rainha do Maracatu; enquanto Célio Maia representou o Rei do Maracatu.

Segundo casal: Andréia e Maurício.

A seguir, o desfile retratou a parada do Ita em Maceió, em Alagoas. A primeira ala do setor fez referências às vastas plantações de cana-de-açúcar da região. Logo depois, desfilou o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Maurício Martins e Andréia Neves. A ala seguinte simbolizou o Reisado, também conhecido como Folia de Reis. Os componentes da ala seguravam estandartes semelhantes ao da manifestação original. A oitava alegoria do desfile, "Tradições Populares de Alagoas", reproduziu uma igrejinha interiorana, decorada com lâmpadas, além de esculturas simulando o artesanato em barro.

A nona alegoria fez referência à Sergipe.

A sexta parada da fictícia viagem do enredo foi no porto de Aracaju, em Sergipe. As fantasias das alas do setor fizeram referência aos coqueirais da região, as vaquejadas e os cangaceiros. A nona alegoria do desfile fez referência ao cangaço e a símbolos costumeiramente relacionados ao sertão nordestino como cactos e o sol. A alegoria também tinha duas grandes esculturas de Lampião e Maria Bonita, lembrando a influência do cangaço na cultura nordestina e também o Massacre de Angico, que pôs fim ao bando de Lampião, ocorrido em Sergipe.

Baianas do Salgueiro no desfile.

Em seguida, o desfile retratou a parada do Ita em Salvador, na Bahia. A primeira ala do setor fez referência aos tocadores de berimbau; seguida da ala "Quindins de yáyá", onde os componentes desfilaram com a reprodução de uma bandeja de quindim no chapéu; e logo depois, uma ala sobre o Candomblé, com fantasias decoradas com palha. As 150 baianas do Salgueiro desfilaram com fantasias em tons de branco e prata em referência a Oxalá. O chapéu da fantasia reproduziu o opaxorô do orixá. Após as baianas desfilou a ala da Velha Guarda do Salgueiro vestindo roupas brancas, similar ao uniforme da Marinha Brasileira.

Alegoria 10: "Terra da Felicidade - Bahia".

A décima alegoria do desfile, "Terra da Felicidade - Bahia", tinha uma grande escultura de baiana ao centro, rodeada de panelas representando a culinária local, além de pombas brancas, símbolo de Oxalá. Ao redor da escultura da baiana, vários destaques de luxo, ricamente vestidos, representavam orixás do Candomblé. Na frente da alegoria, o famoso destaque salgueirense Júlio Machado, conhecido como Xangô do Salgueiro, desfilou com uma fantasia branca, representando Oxalá.

A seguir, a fictícia viagem do enredo chegou ao seu destino final: a cidade do Rio de Janeiro. As fantasias das alas do setor fizeram referência ao surf, pipas e o futebol. A décima primeira alegoria do desfile, "Cidade Maravilhosa", era decorada com o grafismo do paisagista Roberto Burle Marx para o Calçadão de Copacabana; além de esculturas de surfistas e estruturas reproduzindo o contraste entre prédios e favelas.

Ala em referência ao carnaval carioca.

"A Integração"

A parte final do desfile retratou a nova vida do migrante, totalmente integrado ao Rio de Janeiro. As alas do setor fizeram referência ao carnaval carioca. A décima segunda (e última) alegoria do desfile reproduziu os arcos da Praça da Apoteose e uma arquibancada vermelha com várias crianças utilizando fantasias do desfile. Segundo a justificativa do enredo, o migrante se torna salgueirense e assiste a própria história sendo contada na Marquês de Sapucaí.

Recepção dos especialistas

Capa do Jornal do Brasil, na quarta-feira de cinzas de 1993, apontando o favoritismo do Salgueiro.

O desfile foi aclamado pela imprensa especializada, que apontou o Salgueiro como o grande favorito ao campeonato, ganhando adjetivos como "histórico", "brilhante" e "deslumbrante".[14] A capa do Jornal do Brasil na quarta-feira de cinzas estampou uma imagem do desfile salgueirense com a manchete "Salgueiro é favorita para o título", apontando que "Mocidade e Mangueira também brilharam e podem vencer o carnaval".[15] No mesmo dia, a capa do jornal O Globo também estampou uma imagem do desfile salgueirense, com a manchete "Salgueiro ganha o Estandarte de Ouro", destacando que, além do prêmio, a escola também recebeu a maior nota do público presente no Sambódromo em pesquisa realizada pelo IBOPE.[16]

O Estadão classificou o desfile como "histórico", apontando que "nos dez anos do Sambódromo, jamais uma escola conseguiu levantar os sessenta mil espectadores de ponta a ponta das arquibancadas e camarotes".[17] Para o jornal O Globo, o Salgueiro fez o desfile mais animado do ano, sendo consagrado pelo público antes mesmo de entrar na avenida, e apenas o tombo da porta-bandeira Taninha poderia lhe custar o título.[18] Segundo o Jornal do Brasil, o Salgueiro foi "aplaudido de pé ao longo de toda a sua brilhante passagem e aclamado campeão ao retirar-se da pista [...] Todos entenderam a viagem contada na dança dramática que os componentes desenvolviam no asfalto. O jornal apontou como problemas o tombo da porta-bandeira e a correria no final da apresentação: "a escola demorou-se muito na pista e acabou pressionada pelo tempo a correr nos derradeiros momentos contra o relógio, numa arrancada dificultada por outro pecado, o do gigantismo (a informação oficial dava conta de 5.500 integrantes, mas as evidências apontaram para mais gente)".[19]

Os jurados do prêmio Estandarte de Ouro elegeram a escola como a melhor do ano. Segundo o jornalista Roberto Moura, "em exibição deslumbrante, a escola passou não como um Ita, mas como um transatlântico e o samba, tão criticado antes, cresceu graças à performance impecável da bateria de Mestre Louro. O jornalista Bernardo Goldwasser destacou que o Salgueiro "foi a única escola que desfilou suas cores originais do início ao fim".[20] O júri do Jornal do Brasil também escolheu o Salgueiro como a melhor escola do ano. Para Wellington Fritsch, "o Salgueiro teve muita garra, o samba era bom e em matéria de empolgação, levantou as arquibancadas".[21] Em seu artigo para o Jornal do Brasil, o jornalista Artur Xexéo escreveu que "Pode até ser que o Salgueiro não seja campeão. Mas no quesito emoção, que não conta pontos para a liga, ele foi imbatível [...] Enquanto a maioria dos carnavalescos desenvolvia seus temas com fantasias e alegorias abstratas, Mario Boriello foi simples e objetivo".[22]

Premiações

O Salgueiro recebeu quatro prêmios do Estandarte de Ouro, incluindo o principal, de melhor escola.[23][24]

  • Melhor Escola
  • Melhor Bateria
  • Melhor Enredo
  • Ala de Crianças

Julgamento oficial

Capa do jornal O Globo do dia 25 de fevereiro de 1993, anunciando a vitória do Salgueiro. Em destaque, imagens da porta-bandeira Taninha, do presidente da escola, Miro Garcia, e da quadra da agremiação.

O Salgueiro foi campeão do carnaval com 2,5 pontos de vantagem sobre a vice-campeã, Imperatriz Leopoldinense. Com a vitória, a escola conquistou seu oitavo título no carnaval, quebrando o jejum de dezessete anos sem conquistas.[1] Após a divulgação do resultado, cerca de quinze mil pessoas lotaram a quadra da escola, no Andaraí, enquanto outras seis mil se aglomeravam do lado de fora, interditando as ruas de acesso ao local.[25] Quinze mil litros de chope e 45 mil latas de cerveja foram distribuídas ao público na quadra.[26] Com a vitória, o Salgueiro foi classificada para encerrar o Desfile das Campeãs, que foi realizado entre a noite do sábado, dia 27 de fevereiro de 1993, e a manhã do dia seguinte, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.[27]

Notas

A apuração do resultado foi realizada na quarta-feira de cinzas, dia 24 de fevereiro de 1993, na Praça da Apoteose. De acordo com o regulamento do ano, as notas variam de cinco a dez, podendo ser fracionadas em meio ponto. Todas as escolas receberam um ponto por cumprirem o regulamento quanto à concentração.[28][29] Dos trinta julgadores do carnaval, apenas uma não deu nota máxima ao Salgueiro. Denira Rosário deu nota 9,5 em Harmonia justificando que de onde ela estava "as pessoas já não cantavam o samba, estavam cumprimentando amigos. A evolução não era feita, a melodia acabava porque as alas paravam de cantar" e que o próprio presidente da escola pedia que os componentes não parassem de cantar. Ela ainda afirmou que as alas tinham "quase trezentas pessoas, quando o ideal é 120".[5]

Antes da apuração, o temor dos torcedores era que a escola perdesse pontos devido a queda da porta-bandeira Taninha, mas a julgadora que presenciou a queda não foi sorteada para ter sua nota validada. Isso, porque cada quesito foi avaliado por cinco jurados, mas, antes da apuração, apenas três jurados foram sorteados para ter suas notas validadas. Após o resultado, a julgadora Beatriz Badejo, que presenciou o tombo de Taninha, revelou que deu nota 9,5 para o casal devido a queda da porta-bandeira. Segundo Beatriz, "Taninha tinha feito a exibição em frente a cabine e já estava se retirando quando tropeçou em alguma coisa e caiu sentada. A exibição do casal tinha sido perfeita, mas eu não podia deixar de tirar ponto porque na queda ela deixou cair também a bandeira da escola". Se a nota de Badejo fosse computada, ainda assim o Salgueiro seria campeão, pois perderia apenas mais meio ponto.[4] Abaixo, as notas recebidas pelo desfile do Salgueiro.

Legenda:  J1  Julgador 1  J2  Julgador 2  J3  Julgador 3
Bon. Total
Bateria Samba-Enredo Harmonia Evolução Enredo Conjunto Alegorias e Adereços Fantasias Comissão de Frente Mestre-Sala e Porta-Bandeira
J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3 J1 J2 J3
10 10 10 10 10 10 10 9,5 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 1 300,5

Reconhecimento

O desfile é comumente listado entre os mais marcantes da história do carnaval.[30][31][32] O samba-enredo do desfile também é constantemente listado entre os mais marcantes da história.[33][34][35][36] Além de muito executado fora do carnaval, também foi adaptado para cantos de torcida de futebol.[2][37] O samba é tema de um dos capítulos do livro O Enredo do Meu Samba (2015), do jornalista Marcelo de Mello, que lista quinze sambas-enredo que fizeram história no carnaval carioca.[38]

Referências

  1. a b «Salgueiro quebra o jejum de 17 anos». O Globo. 25 de fevereiro de 1993. p. 9. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  2. a b Campos, Mateus (20 de fevereiro de 2025). «Os maiores sambas-enredos da história». Billboard Brasil. Cópia arquivada em 23 de abril de 2025 
  3. a b «Salgueiro: O sonho que navega no 'Ita'». O Globo. 22 de fevereiro de 1993. p. 6. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  4. a b c «Festa do título lota quadra e ruas vizinhas». O Globo. 25 de fevereiro de 1993. p. 10. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  5. a b «Críticas à harmonia do Salgueiro; o 'day after' do carnavalesco campeão». Jornal do Brasil: 17. 26 de fevereiro de 1993. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2021 
  6. «"O dengo que a nega tem": representações de gênero e raça na obra de Dorival Caymmi» (PDF). Consultado em 24 de fevereiro de 2012. Arquivado do original (PDF) em 3 de março de 2016 
  7. «"Peguei um ita no Norte …"». Revista Fórum. 8 de julho de 2011. Cópia arquivada em 14 de julho de 2011 
  8. a b c «Carnaval de 1993 - Acadêmicos do Salgueiro». Galeria do Samba. Cópia arquivada em 16 de novembro de 2023 
  9. «Salgueiro começa a escolher samba». O Globo: 31. 25 de agosto de 1992. Arquivado do original em 23 de janeiro de 2026 
  10. «Clima de decisão para esquentar as quadras: Escolas cariocas escolhem as músicas para o destile do carnaval do ano que vem». O Globo: 13. 16 de outubro de 1992. Arquivado do original em 23 de janeiro de 2026 
  11. «Bala ganha outra vez a final no Salgueiro». O Globo: 29. 27 de outubro de 1992. Arquivado do original em 23 de janeiro de 2026 
  12. a b Mello 2015, pp. 291-307.
  13. «Carnaval de 1993 – O Salgueiro explodiu de alegria». Site Sambario Carnaval. Consultado em 19 de abril de 2018. Cópia arquivada em 17 de março de 2017 
  14. «Marquês de Sapucaí balança no ritmo do Ita do Salgueiro». O Globo. 24 de fevereiro de 1993. p. 8. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  15. «Salgueiro é favorita para o título». Jornal do Brasil: capa. 24 de fevereiro de 1993. Arquivado do original em 29 de janeiro de 2026 
  16. «Salgueiro ganha o Estandarte de Ouro». O Globo: capa. 24 de fevereiro de 1993. Arquivado do original em 29 de janeiro de 2026 
  17. «O Ita do Salgueiro entra para a história». Estadão: 8. 24 de fevereiro de 1993. Arquivado do original em 29 de janeiro de 2026 
  18. «Salgueiro explode a Sapucaí». O Globo. 24 de fevereiro de 1993. p. 3. Consultado em 3 de fevereiro de 2021. Arquivado do original em 3 de fevereiro de 2021 
  19. «Salgueiro: A bordo do Ita, arquibancada e o grito da vitória; Escorregão de porta-bandeira prejudica a escola». Jornal do Brasil: 4. 23 de fevereiro de 1993. Consultado em 3 de fevereiro de 2021. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2021 
  20. «Júri põe em discussão desempenho das escolas». O Globo. 24 de fevereiro de 1993. p. 12. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  21. «Um inegável cheiro de Salgueiro no ar; IBOPE aponta Salgueiro como o grande vencedor». Jornal do Brasil: 8. 24 de fevereiro de 1993. Consultado em 3 de fevereiro de 2021. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2021 
  22. Xexéo, Artur (24 de fevereiro de 1993). «Como foi 'lindo o meu Salgueiro'». Jornal do Brasil: 1. Consultado em 3 de fevereiro de 2021. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2021 
  23. «Salgueiro: Quatro Estandartes». O Globo. 24 de fevereiro de 1993. p. 10. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  24. «Os vencedores do Estandarte de Ouro 1993». O Globo. 24 de fevereiro de 1993. p. 11. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  25. «Salgueiro: Vinte mil pessoas vão à quadra». Jornal do Brasil: 15. 25 de fevereiro de 1993. Consultado em 3 de fevereiro de 2021. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2021 
  26. «Quinze mil comemoram o título do Salgueiro». Estadão: 2. 25 de fevereiro de 1993. Arquivado do original em 29 de janeiro de 2026 
  27. «Salgueiro pega um Ita na contramão». O Globo. 1 de março de 1993. p. 7. Consultado em 21 de agosto de 2019. Arquivado do original em 21 de agosto de 2019 
  28. «Notas 1993 – Grupo Especial». Apoteose. Cópia arquivada em 19 de abril de 2018 
  29. «Notas 1993». Galeria do Samba. Cópia arquivada em 4 de fevereiro de 2021 
  30. «Desfiles e sambas históricos do carnaval carioca». UOL. 12 de novembro de 2013. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2017 
  31. «Sambódromo completa 30 anos em 2014: relembre momentos marcantes». O Dia. Consultado em 6 de maio de 2018. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2018 
  32. «Títulos, polêmicas e histórias: lembre os 30 anos do Sambódromo do Rio». G1. 25 de fevereiro de 2014. Cópia arquivada em 3 de março de 2016 
  33. Melguiso, Juliana (9 de fevereiro de 2025). «Carnaval: relembre 10 sambas-enredo que marcaram época». CNN Brasil. Cópia arquivada em 10 de fevereiro de 2025 
  34. «Relembre 20 sambas-enredos inesquecíveis que marcaram o Carnaval do Rio». Site UOL. Consultado em 31 de outubro de 2017. Cópia arquivada em 11 de março de 2016 
  35. «Você sabe qual foi o primeiro samba-enredo do Carnaval? Veja a história». UOL. Consultado em 24 de junho de 2018. Cópia arquivada em 16 de abril de 2018 
  36. «100 sambas-enredo inesquecíveis». Na Avenida. Consultado em 31 de outubro de 2017. Cópia arquivada em 23 de dezembro de 2016 
  37. «Neste carnaval, conheça os sambas que viraram gritos de torcida nos estádios». Virgula. Consultado em 6 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 11 de março de 2016 
  38. Mello 2015, pp. 215-232.

Ver também

Precedido por
"Paulicéia Desvairada - 70 Anos de Modernismo"
Estácio de Sá 1992
Desfiles campeões do Grupo Especial
"Peguei Um Ita no Norte"
Salgueiro 1993

Sucedido por
"Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e dos Tabajéres"
Imperatriz 1994