Pedagogia venenosa
Pedagogia venenosa (do alemão Schwarze Pädagogik, traduzido literalmente como Pedagogia Negra) é um conceito introduzido pela socióloga Katharina Rutschky e popularizado pela psicóloga Alice Miller. O termo descreve um conjunto de práticas educacionais e de criação de filhos que visam quebrar a vontade da criança para torná-la obediente e submissa, utilizando-se de manipulação psicológica, supressão emocional e castigos físicos, muitas vezes racionalizados como sendo "para o próprio bem" da criança.[1]
Origem do termo
O conceito foi cunhado originalmente por Katharina Rutschky em sua obra de 1977, Schwarze Pädagogik ("Pedagogia Negra"), onde ela compilou textos de manuais de educação dos séculos XVIII e XIX. Esses manuais instruíam pais e educadores a controlarem rigorosamente a mente e o corpo das crianças desde a infância precoce.[2]
Posteriormente, a psicóloga polonesa Alice Miller adotou e expandiu o conceito em seu livro Am Anfang war Erziehung (1980), traduzido no Brasil como Por Teu Próprio Bem. Miller analisou como essa "educação venenosa" perpetua ciclos de violência e impede o desenvolvimento de uma personalidade autêntica e saudável.
Contexto histórico
Culturas antigas
Os poetas romanos Plauto, Horácio, Marcial e Juvêncio descreviam punições corporais em escolas. Está também escrito no Provérbios 13:24: > “Quem poupa a vara odeia seu filho; mas quem o ama, cedo o disciplina.” A punição corporal era generalizada em todas essas civilizações.[3]
A expressão “Spare the rod and spoil the child” é uma paródia satírica de um verso bíblico (Provérbios 13:24) e foi adaptada por Samuel Butler no poema satírico _Hudibras_.
Alemanha
No século XVIII, na Alemanha, noções comuns sobre a “natureza maligna das crianças” ou sobre sua “domesticação” testemunham superstições e o desejo de treinar seres humanos como animais.[4]
Um livro alemão de criação de filhos do século XVIII dizia: > “Esses primeiros anos têm, entre outras coisas, a vantagem de que se pode usar força e coação. Com o avanço da idade, as crianças esquecem tudo o que vivenciaram na primeira infância. Assim, se for possível tirar a vontade das crianças, elas não se lembrarão depois de que a tiveram.”[5]
Na Alemanha, o “direito dos pais de disciplinar” foi abolido por alteração legal em 2000. A ministra federal da Família de 1994 a 1998, Claudia Nolte, defendeu a manutenção do direito parental a usar palmadas leves,[6] contrariando a posição de Alice Miller em seu livro de 1980 _Por seu próprio bem_.
Miller escreveu: > “Entendo ‘pedagogia negra’ como uma abordagem educacional voltada para quebrar a vontade da criança, a fim de torná-la um sujeito obediente, com o auxílio do uso aberto ou oculto de força, manipulação e repressão.”[7]
Contexto psicológico
Um critério relevante para definir a pedagogia venenosa é quando uma abordagem manipulativa revela problemas comportamentais no cuidador, como cegueira para os sentimentos, Crueldade ou tendência à Violência, ou quando emoções negativas fortes, como Raiva ou Ódio, são descarregadas, emoções contra as quais a psique infantil, com suas limitações de idade, não pode se defender.[4]
Miller também concluiu, a partir de seu trabalho terapêutico, que precisava “trabalhar” em sua própria infância para entender melhor seus clientes. Ela vê a pedagogia venenosa como um comportamento transmitido de geração em geração por meio de eufemizações e higienizações.
Outros temas da controversa [carece de fontes] autora Katharina Rutschky são parentalidade, crítica feminista e abuso.
Personalidades
Defensores influentes de várias formas de punição corporal incluem John Harvey Kellogg,[8] Moritz Schreber,[9] entre outros.
Discussões e críticas
Alice Miller define pedagogia venenosa como todos os tipos de comportamentos que, segundo ela, têm a intenção de manipular o caráter das crianças por meio de força ou engano. Seu foco não é apenas em palmadas (embora tenha afirmado que “toda palmada é uma humilhação” e seja claramente contrária à punição corporal), mas também em várias outras formas de manipulação, engano, hipocrisia e coerção, que, segundo ela, são comumente usadas por pais e professores contra as crianças.
O professor de sociologia Frank Furedi acredita que tais declarações são excessivas e desconectadas da realidade. Furedi rotula muitos defensores da proibição total da punição física como opositores de todas as formas de punir crianças, enxergando a pauta como uma cruzada anti-pais e argumentando que algumas pesquisas sobre os efeitos de palmadas são muito menos conclusivas do que afirmam os “zelotes anti-palmada”.[10]
O psicólogo social David Smail sustenta que a sociedade carrega grande parte da responsabilidade pelos comportamentos disfuncionais dos indivíduos, mas ainda não abordou isso de maneira significativa.
O psicólogo do desenvolvimento James W. Prescott, na década de 1970, realizou pesquisas sobre o vínculo mãe-filho em primatas e notou uma ligação entre a ruptura desse vínculo e o surgimento de comportamentos violentos e marcados pelo medo nos jovens primatas. Ele sugere que a mesma dinâmica funciona para seres humanos, por meio do colapso da empatia.
Em 1975, Prescott delineou um vínculo entre violência e interrupção do vínculo mãe-filho em sociedades humanas, baseando-se em um estudo transcultural de sociedades aborígenes e em análise estatística das práticas dessas culturas no incentivo do vínculo natural mãe-filho, além de examinar atitudes históricas em relação às crianças na literatura euramericana e no registro histórico.[11]
Concluiu que a ruptura do vínculo mãe-filho foi um preditor absoluto do surgimento de violência, hierarquia, papéis de gênero rígidos, psicologia dominadora e aquisição violenta de território. A intervenção e a interrupção da sexualidade adolescente natural também faziam parte desse quadro. A maioria das sociedades era pacífica, e a incidência de sociedades extremamente violentas era baixa.
Prescott afirma que, com o tempo, práticas disruptivas tornam-se “norma” e, à medida que as gerações as transmitem, a sociedade em questão começa a demonstrar clara falta de empatia, e a violência se codifica. Para ele, a história da pedagogia venenosa é a história dessa codificação de práticas não nutridoras, sobre a qual se baseia a prática transmitida atualmente.[11]
Pesquisas recentes em sociedades aborígenes vivas e revisão do registro histórico de dados de primeiro contato e outras observações dos últimos 400 anos mostram que a maioria das culturas aborígenes não castiga crianças.[12] Os dados mostram que as crianças são tratadas com muito mais respeito, confiança e empatia do que se acreditava anteriormente.[13]
Ver também
Referências
- ↑ Miller, Alice (2006). Por Teu Próprio Bem: As Raízes da Violência na Educação da Criança. São Paulo: Martins Fontes. ISBN 978-8533622651 Verifique
|isbn=(ajuda) - ↑ Rutschky, Katharina (1977). Schwarze Pädagogik. Quellen zur Naturgeschichte der bürgerlichen Erziehung. Berlim: Ullstein. ISBN 978-3548356708 Verifique
|isbn=(ajuda) - ↑ Robert McCole Wilson. «A Study of Attitudes Towards Corporal Punishment as an Educational Procedure From the Earliest Times to the Present»
- ↑ a b Miller, Alice (1990). For Your Own Good: Hidden Cruelty in Child-Rearing and the Roots of Violence
3rd ed. [S.l.]: Farrar, Straus & Giroux. ISBN 0-374-52269-3
- ↑ Sulzer, J. _Versuch von der Erziehung und Unterweisung der Kinder_, 1748.
- ↑ "Zur Bundestagswahl: Parteien im Vergleich" (em alemão), análise das posições dos partidos alemães.
- ↑ Miller, A. _Evas Erwachen_.
- ↑ Kellogg, J.H. (1888). «Treatment for Self-Abuse and Its Effects». Plain Facts for Old and Young. Burlington, Iowa: F. Segner & Co.
A remedy which is almost always successful in small boys is circumcision [...]. The operation should be performed by a surgeon without administering an anesthetic, as the brief pain attending the operation will have a salutary effect upon the mind, especially if it be connected with the idea of punishment [...].
Pedagogia venenosa no Projeto Gutenberg - ↑ Daniels, George Eaton (dezembro de 1975). «BOOK REVIEW of William G. Niederland, M.D.: The Schreber Case: Psychoanalytic Profile of a Paranoid Personality». Bull N Y Acad Med. 51 (11). pp. 1331–1343. PMC 1749743
- ↑ Furedi, Frank (7 de julho de 2004). «Punishing Parents». Spiked.com
- ↑ a b «Body Pleasure and the Origins of Violence». The Bulletin of the Atomic Scientists: 10–20. Novembro de 1975
- ↑ Gray, Peter (9 de julho de 2009). «Play Makes Us Human VI: Hunter-Gatherers' Playful Parenting». Psychology Today. Consultado em 14 de julho de 2012
- ↑ Gray, Peter (16 de julho de 2009). «Trustful Parenting: Its Downfall and Potential Renaissance». Psychology Today. Consultado em 14 de julho de 2012