Paulino de Oliveira

Paulino de Oliveira
Paulino de oliveira
Nome completoFrancisco Paulino de Oliveira
Nascimento
22 de Junho de 1864

Setúbal, Portugal
Morte
13 de Março de 1914

São Paulo, Brasil
OcupaçãoJornalista, escritor e poeta

Francisco Paulino de Oliveira (Setúbal, 1864) foi um escritor, jornalista, poeta, comerciante e cônsul de Portugal no Brasil.[1]

Biografia

Paulino de Oliveira, filho do comerciante João Vitorino de Oliveira e de Maria José Gomes de Oliveira, nasceu no dia 22 de junho de 1864 em Setúbal, e realizou os estudos secundários na Escola Académica de Lisboa.[2]

Como assumido sindicalista, Paulino de Oliveira colaborou na organização do primeiro sindicato de empregados do comércio de Setúbal, presidindo à inauguração da sua sede e, mais tarde, à sua Assembleia Geral. Após o seu falecimento, foi homenageado com o título de presidente honorário do sindicato.[3]

Em Março de 1898, casou-se com D. Ana de Castro Osório, renomada escritora e jornalista portuguesa. Tiveram dois filhos, José Osório de Castro e Oliveira, um escritor, jornalista e crítico literário, e João Osório de Castro, um poeta, dramaturgo, político e ensaísta.[4]

As suas posições republicanas levaram-no a exilar-se para o Brasil, onde se dedicou à poesia e à literatura infanto-juvenil, chegando a colaborar com a sua mulher.[1]

Entre 1911 e 1914 exerceu o cargo de cônsul português no Brasil.[1]

Foi precisamente em janeiro de 1914 que D. Ana de Castro Osório comunicou à Embaixada de Portugal no Brasil a notícia de que Paulino estava tuberculoso, e, semanas depois, no dia 13 de março, veio a falecer.[5]

Carreira

Após realizar os estudos em Lisboa, regressou a Setúbal em 1886 quando, em abril deste mesmo ano, fundou o quinzenário A Estrela (que se viria a tornar no A Semana Setubalense, em outubro desse mesmo ano, e seria extinto no dia 5 de julho de 1887) juntamente com Romão Libânio da Silva, Júnior, Júlio de Oliveira, Manoel Portela e Leonardo Duarte. Este marco simbolizou o início da sua carreira jornalística.[2]

Passou a colaborar, em 1888, no periódico Sandino.[2] Em 1889 funda o semanário Opinião, jornal inicialmente idêntico ao Sandino, mas que em fevereiro de 1890, em linha com os ideais de Paulino de Oliveira, se torna abertamente republicano (tendo sido, assim, o primeiro jornal republicano de Setúbal).[3] Porém, o jornal acabaria por ver o seu fim a 31 de agosto do mesmo ano. Por fim, fundou, em 1893, o seu último jornal; O Eco de Setúbal, que duraria pouquíssimo tempo, e, assim, Paulino decidiu fazer uma pausa na sua carreira jornalística.[6]

Determinado a enverdar pela carreira de comerciante, Paulino de Oliveira viaja para Ambriz, Angola, nos inícios de 1894, onde comercializou chapéus velhos às comunidades angolanas. Todavia, em novembro do mesmo ano, já havia regressado a Portugal para participação na crónica setubalense O mês.[7]

Além dos jornais que fundou, colaborou também nas redações dos jornais Gazeta Setubalense, Revista de Setúbal e O Distrito.[6]

Fundou, com a sua mulher, D. Ana de Castro Osório, a Escola Liberal em 1901, e criou escolas primárias associativas para combater o que acreditava ser um grande problema do Portugal monárquico: o analfabetismo.[3]

Paulino de Oliveira passou a colaborar com a esposa na escrita de obras infantis,[1] porém o volume Contos e Fábulas, de 1908, é de sua autoria exclusiva.[8]

Nos seus últimos anos, serviu, na cidade de S.Paulo, como cônsul de Portugal no Brasil entre 1911 e 1914.[1]

Viés político

Paulino de Oliveira foi um dos mais notáveis republicanos do final do século XIX e início do século seguinte, tendo dirigido o primeiro jornal republicano da cidade de Setúbal, o jornal Opinião. Além disso, Paulino também obteve destaque como um grande sindicalista, tendo participado da primeira organização do sindicato de empregados do comércio de Setúbal, presidindo a inauguração da sede deste sindicato. Ainda foi presidente da assembleia geral deste, alcançando 97% dos votos em sua eleição. Vale ressaltar que ele teve que se exilar no Brasil pelas suas opiniões demasiadamente “polémicas” à época.[3]

Em suma, Paulino foi dos primeiros a lutar pelos direitos trabalhistas no país e a defender um sistema republicano, numa época em que pouco se falava destes conceitos.[6]

Detenção e exílio

Como já mencionado, Paulino de Oliveira era um republicano convicto, o que lhe levou a problemas com as autoridades régias de Portugal pelo menos duas vezes.[2]

Depois do Ultimato Inglês (em janeiro de 1890), Paulino de Oliveira assumiu um papel mais interventivo de propaganda republicana em Setúbal.[6] A 2 de março de 1890, os operários das indústrias de Setúbal incendiaram os cabos cheios de alcatrão que se encontravam junto da doca em forma de protesto, gerando uma grande agitação também nos arredores da doca. Depois de alguns confrontos com a polícia, Paulino de Oliveira surge bradando contra as prisões dos populares e acaba detido, tendo sido sentenciado a 30 dias de cárcere (com isso viria a ser publicado o seu livro Em ferros de el-rei).[7]

Com o regicídio de 1908 e perseguição a republicanos como Afonso Costa, António José Almeida, França Borges e Álvaro Pope, Paulino de Oliveira decide realizar uma "viagem literária" ao Brasil e, lá, exilar-se. Voltaria a Portugal apenas depois da implementação da primeira república, em 1911, para a edição de algumas obras, mas manteve-se no Brasil.[5]

Obras

  • Cânticos Sadinos (1888)[9]
  • Em ferros de el-rei (1893)[9]
  • Dor (in amaritudine) (1894)[9]
  • Sonetos de homenagem no 1°centenário da morte do poeta Manoel Maria Barbosa du Bocage: Elmano Saldino e Paulino de Oliveira (1905)[9]
  • Para as crianças: contos e fábulas em verso (em colaboração com Ana de Castro Osório, 1908)[9]
  • Os nossos amigos (em colaboração com D. Ana de Castro Osório, 1910)[9]
  • Auto do ano novo: as quatro estações (1911)[9]
  • Mulheres do meu país nas navegações e conquistas (1914)[9]
  • Em 1932 saiu a edição póstuma dos Poemas de Paulino de Oliveira.[9]

Homenagens

É desde 1964 que Paulino de Oliveira foi venerado com uma placa que carrega o seu nome, na casa onde nasceu. No nº44 da rua que também leva o seu nome, Rua Paulino de Oliveira, no Bairro do Troino, em Setúbal, pode ler-se: “Nesta casa nasceu o grande poeta e escritor Paulino de Oliveira / 22-junho-1864 / 13-março-1914 / Homenagem da Câmara Municipal de Setúbal / 22-Junho-1964”.[10]

Foi homenageado, com o título de presidente honorário do sindicato de empregados do comércio de Setúbal.[3]

Foi, após seu falecimento, reconhecido por Fernando Pessoa como «um pagão verdadeiro, sanguíneo, sentindo o paganismo vitalmente, vivendo-o no espírito, como qualquer pagão dos tempos pagãos viveria». Todavia, Pessoa acabaria por criticar sua poesia, não por falta de competência de Paulino, mas sim porque nasceu em Portugal, um país fortemente influenciado pela cultura francesa e latina por séculos, sendo um ambiente mental impossível de se trabalhar para um pagão como Paulino.[11]

A 12 de novembro de 2023 o professor e escritor Giovanni Licciardello apresentou o seu livro Ana Castro de Osório e Paulino de Oliveira, um livro que homenageia a vida do casal de Setúbal e os seus feitos.[12]

Referências

  1. a b c d e «Infopédia. (n.d.). Paulino de Oliveira. Porto Editora.». Consultado em 23 de outubro de 2025 
  2. a b c d Paxeco, F (1930). Setúbal e suas Celebridades. Lisboa: Sociedade Nacional de tipografia. p. 289 
  3. a b c d e Carvalho, L. «O Setubalense. (2022, 1 de fevereiro). O poeta Paulino de Oliveira: Um sindicalista setubalense. O Setubalense.». Consultado em 23 de outubro de 2025 
  4. Oliveira, J. «Biblioteca Nacional de Portugal. 2004, 16 de abril. Oliveira, José (1900–1964).». Blibioteca Nacional de Portugal. Consultado em 18 de novembro de 2025 
  5. a b Paxeco, F (1930). Setúbal e suas Celebridades. Lisboa: Sociedade Nacional de Tipografia. p. 292 
  6. a b c d Paxeco, F (1930). Setúbal e suas Celebridades. Lisboa: Sociedade Nacional da tipografia. p. 290 
  7. a b Paxeco, F (1930). Setúbal e suas Celebridades. Lisboa: Sociedade Nacional da tipografia. p. 291 
  8. Lopes, Manuel (26 de Outubro de 2016). «Ruas com História. "Marido e Mulher", na Toponímia do mesmo Município.». Consultado em 31 de outubro de 2025 
  9. a b c d e f g h i Paxeco, F (1930). Setúbal e suas Celebridades. Lisboa: Sociedade Nacional de tipografia. pp. 289–292 
  10. Ferreira, D (29 de Junho de 2023). «Ferreira, D. A colocação de uma placa no local de nascimento do setubalense Paulino de Oliveira (1964). O Setubalense.». Consultado em 23 de outubro de 2025 
  11. Da Silva, M. «Parreira da Silva, M. (n.d.). Paulino de Oliveira (1864–1914). Modernismo.». Consultado em 25 de outubro de 2025 
  12. Martins, H. «Município de Setúbal. (2023, 13 Novembro). Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira em livro. Notícias de Setúbal.». Consultado em 25 de outubro de 2025