Papiros medicinais egípcios

A prática da medicina no Egito Antigo teve grande influência sobre a medicina ocidental, juntamente com as práticas medicinais de povos mesopotâmicos, das quais temos conhecimento por meio dos registros em escrita cuneiforme, criada pelos sumérios e usada por outros povos da Mesopotâmia, como os assírios e babilônicos.[1] Já a medicina egípcia, uma combinação de práticas médicas com magia, era registrada nos papiros, para que fosse consultada pelos médicos egípcios.[2]
Os papiros medicinais egípcios são, dessa forma, antigos textos egípcios escritos em papiro que permitem um vislumbre sobre práticas e procedimentos médicos do Antigo Egito. Esses papiros dão detalhes acerca de doenças, diagnósticos, remédios indicados (incluindo os herbais), cirurgias ou encantos mágicos. Acredita-se que tenham existido mais papiros medicinais, porém muitos foram perdidos ao longo do tempo, por diversos motivos, como roubos, acidentes e desastres. O maior estudo publicado sobre papiros medicinais foi realizado pela Universidade de Berlim, intitulado Medizin der alten Ägypter ("Medicina do Antigo Egito").[3]
Magia e Medicina
A medicina egípcia tradicional foi baseada principalmente numa mistura de feitiços mágicos e religiosos. O processo de "cura" era usualmente feito através do uso de amuletos ou encantamentos mágicos, e as doenças eram tidas como causadas por ações ou comportamentos rancorosos. Posteriormente, médicos poderiam realizar uma série de tratamentos médicos, se necessário. As instruções para esses rituais de cura foram posteriormente inscritas em pergaminhos por sacerdotes, retratando as ações dos atos.[4]
Assim, os rituais e encantamentos invocavam o poder dos deuses, como, por exemplo, Heka, o deus egípcio da medicina e da magia. Vale ressaltar que essas práticas não eram exclusivas da medicina, mas eram presentes também em outras áreas, com diferentes propósitos. Embora Heka designasse o deus da medicina, a palavra também era concebida como conceito de "prática mágica", que se ligava à três princípios, o feitiço, o ritual e o mago. Dessa maneira todo médico era também um mago, devendo este saber como a magia deveria ser usada em cada situação. E, da mesma forma, os egípcios antigos acreditavam que as doenças tinham uma causa sobrenatural, seriam castigo dos deuses, ou causadas por espíritos malignos e encantamentos, por isso, a cura também envolvia a prática mágica.
Ainda que o processo de cura envolvesse magia, não significa que o conhecimento prático e teórico era inexistente ou não era integrado aos tratamentos. Pelo contrário, os egípcios tinham uma compreensão sobre o sistemas do corpo, sendo um exemplo o do sistema nervoso que se fosse atingido de alguma forma, afetavaria outras áreas do corpo, além da parte na qual se encontrava o ferimento. Ademais, sabiam medir a pulsação e tinham outros conhecimentos anatômicos, apesar de limitados. [5]
A Casa da Vida (Per-Ankh)
As práticas e feitiços eram escritos ao longo de um rolo de papiro, que possuía dois lados, à frente o texto principal era escrito e do outro eram redigidas informações complementares ou um texto diferente, nesse caso geralmente pela falta de papiro, uma vez que se tratava de um material valorizado e muito caro. Esses rolos eram armazenados na Casa da Vida, ou, em egípcio, Per-Ankh, que designava uma parte do templo que funcionava como uma biblioteca, um lugar de aprendizagem, isto é, uma espécie de escola médica e um hospital.
Papiros Médicos
Os papiros apresentavam diferentes textos que estavam relacionados a diferentes enfermidades e doenças. Cada papiro apresentava o nome da pessoa que o descobriu, comprou ou doou a um museu, porém dessa forma, pode se dizer que muitos nomes foram perdidos durante a passagem dos anos. Outro ponto importante é de que haviam papiros que foram criados na intenção de serem feitiços, que seriam realizados para a cura de alguma de enfermidade, assim como foram criados para serem modelos de procedimentos cirúrgicos, ou até mesmo a presença de ambos em um mesmo papiro. Esses acabaram por não serem levados em consideração como papiros médicos oficiais e que poderiam ser utilizados na prática médica. Um exemplo seria o Papiro Westcar que embora apresentasse práticas relacionadas ao nascimento, não é considerado uma fonte medicamente aceitável, visto que apresentava muitos dados fictícios.
Papiro Brugsch
O Papiro de Brugsch, ou Papiro de Berlim, datado do início do Império Novo, é considerado uma cópia de um tratado do Império Médio. Este trata de temas acerca da contracepção e da fertilidade, trazendo informações sobre os primeiros testes de gravidez, nos quais uma amostra de urina da mulher era jogada em determinada vegetação, e o diagnóstico era feito com base no efeito causado nas plantas. Grande parte do que está escrito neste papiro foi visto no Papiro de Ebers também, ajudando a esclarecer informações deste último.
Papiro Carsberg
O Papiro Carlsberg é uma coleção de papiros produzidos em diferentes épocas, alguns estão datados no período do Império Médio, alguns no Império Novo e também no século I a.C. Suas diversas partes encontram-se não apenas em hierático ou demótico, mas também em grego antigo; seu conteúdo trata sobre problemas ginecológicos, de visão e sobre gravidez.
Papiro Chester Beatty
O Papiro Chester Beatty, ou Papiro Chester Beatty VI, datado no Império Novo, faz alusão à doença anorretal e ao tratamento para o cancro do cólon e dores de cabeça. O papiro descreve a canabis como analgésico para o cancro do cólon e dores de cabeça, sendo o primeiro caso da história a usar desta planta de forma medicinal.
Papiro Ebers
O Papiro Ebers é datado de cerca de 1550 a.C. e é um dos mais antigos e importantes do Antigo Egito, sendo o mais longo papiro médico, que menciona vários problemas de saúde. O livro contém cerca de 700 magias e prescrições médicas, entre as quais estão o cancro, doenças cardíacas, diabetes, depressão, infecções, entre outros, oferecendo diagnósticos ligados, ou não, à causas sobrenaturais. Ademais, é visto neste papiro que o coração é o centro do suprimento de sangue, com vasos ligados a outras áreas do corpo. Os egípcios sabiam muito pouco sobre o rins, mas tinham algumas informações acerca do coração, principalmente de apresentar vasos que podiam estar relacionados à todos os fluidos do corpo. [6]
Papiro Edwin Smith
O Papiro de Edwin Smith, atribuído por alguns à Imhotep, respeitado arquiteto egípcio. Este papiro é datado do II Período Intermédio, sendo uma cópia de uma peça mais antiga. Seus tratados médicos argumentavam que as doenças eram naturais. Provavelmente, foi escrito para cirurgiões que atuavam em hospitais de campanha, centrando-se em práticas cirúrgicas, tratamento de ossos partidos, etc.
Vale ainda mencionar outros papiros como o papiro mágico de Londres e Leiden, escrito em demótico, que discorre sobre os aspectos sobrenaturais da doença e o Papiro Kahun, voltado às questões ginecológicas, bem como o papiro Hearst e o papiro médico de Londres. Dessa forma, os papiros médicos egípcios eram imprescindíveis para a prática médica vigente no Antigo Egito.
Ver também
Referências
- ↑ Fiorini, Lucas Rospendowski; Manso, Maria Elisa Gonzalez (7 de agosto de 2021). «As Origens da Medicina Ocidental: Mesopotâmia e Egito Antigo / The Origins of Western Medicine: Mesopotamia and Ancient Egypt». Brazilian Journal of Health Review (4): 16609–16615. ISSN 2595-6825. doi:10.34119/bjhrv4n4-174. Consultado em 16 de julho de 2025
- ↑ Mark, Joshua J. (21 de fevereiro de 2017). «Papiros médicos do Antigo Egito». Enciclopédia da História Mundial. Consultado em 16 de julho de 2025
- ↑ Marry, Austin. «Ancient Egyptian Medical Papyri». Ancient Egypt Fan (site): Eircom Limited. Consultado em 26 de julho de 2018
- ↑ «medicine, health and wellbeing». EgyptologyOnline.com. Consultado em 26 de julho de 2018. Cópia arquivada em 30 de março de 2010
- ↑ Fiorini, Lucas Rospendowski; Manso, Maria Elisa Gonzalez (7 de agosto de 2021). «As Origens da Medicina Ocidental: Mesopotâmia e Egito Antigo / The Origins of Western Medicine: Mesopotamia and Ancient Egypt». Brazilian Journal of Health Review (4): 16609–16615. ISSN 2595-6825. doi:10.34119/bjhrv4n4-174. Consultado em 17 de julho de 2025
- ↑ «Papiros Ebers: medicamento para o tratamento dos olhos, 1536 a.C.». 16 de maio de 2012. Consultado em 13 de janeiro de 2026