Palácio da Fonte da Pipa
| Palácio da Fonte da Pipa | |
|---|---|
![]() Fotografia do palácio, publicada no jornal Domingo Illustrado, em 1927. | |
| Informações gerais | |
| Nomes alternativos | Palacete da Fonte da Pipa / Quinta da Fonte da Pipa |
| Inauguração | Século XIX |
| Geografia | |
| País | |
| Localização | Loulé |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
O Palácio da Fonte da Pipa, igualmente conhecido como Palacete da Fonte da Pipa ou Quinta da Fonte da Pipa, é um edifício histórico nas imediações da cidade de Loulé, na região do Algarve, em Portugal. Foi construído no século XIX pelo autarca e deputado Marçal de Azevedo Pacheco, tendo depois mudado de proprietário várias vezes.[1] Em 2017 foi muito danificado por um incêndio, quando já se encontrava numa situação de profundo abandono.[1]
Descrição
O Palácio da Fonte da Pipa situa-se a cerca de três quilómetros de distância de Loulé,[1] perto da estrada para Faro.[2] É considerado como um dos edifícios emblemáticos da cidade, tendo o presidente da Câmara Municipal afirmado ao Sul Informação em 2017 que era um «património sentimental da cidade», apesar de ser propriedade privada.[3] Antes da sua destruição parcial num incêndio em 2017, contava com vários elementos decorativos de interesse, como os torreões,[3] frescos e outras obras de arte.[4] Segundo a associação Almargem, «A obra arquitetónica inspirou-se nas tendências românticas da época, que se concretizaram um pouco por toda a Europa em bucólicos palácios situados no campo e com notáveis preocupações estéticas, ao gosto e posse de cada um. Tinha as paredes e tetos artisticamente decorados, e muita incorporação de madeiras no seu espaço interior».[5] Mais precisamente, o palácio tentou emular o estilo dos Castelos do Vale do Loire. [6] As primeiras obras de decoração e pintura estiveram a cargo do conhecido artista Pereira Cão,[6] e posteriormente o artista algarvio Roberto Nobre trabalhou na decoração interior, como referido no jornal Alma Algarvia de 9 de Janeiro de 1927: «Roberto Nobre foi contratado pelo Senhor Manoel Dias Sancho para decorar os salões da sua bela quinta «Fonte da Pipa», aproveitando assim as manifestações artisticas de um regionalismo môço e renovador, que encontrou em Roberto Nobre um admiravel interprete».[7]
História
Construção
As obras do palacete começaram a partir de 1874 ou 1875, pelo construtor civil conhecido como Zé Verdugo, que também foi responsável pela instalação do Mercado Municipal de Loulé.[6] Nesta época, o edifício também sendo então conhecido como Quinta da Esperança ou Fonte da Esperança.[5] Foi construído para o político Marçal de Azevedo Pacheco,[6] que foi presidente da Câmara Municipal de Loulé e deputado pelo Partido Regenerador.[1] Faleceu em 17 de Abril de 1896, no interior do palácio,[5] antes das obras do edifício terem sido concluídas.[1] Marçal Pacheco foi alcunhado como Senhor da Fonte da Pipa ou Marçal da Fonte da Pipa em vários artigos derrogatórios publicados no jornal O Louletano entre 1893 e 1895, que estava ligado à oposição, o Partido Progressista.[8][9][10][11]
Século XX
Em 26 de Setembro de 1901, o jornal O Pregoeiro publicou o seguinte anúncio: «Arrenda-se a quinta da Fonte da Esperança, on da Pipa, redores de Loulé. Trata-se com a sua proprietaria, D. Hercilia Cordeiro de Sequeira Pacheco. Amoreiras. Lisboa, ou com José d’Azevedo Pacheco, Loulé».[12] Nos princípios do século XX, o palácio foi requisitado aos donos, de forma a acolher clientes que sofriam de tuberculose, durante uma período em que a doença atingiu o país com muita gravidade.[13]
Em 1916 ainda pertencia à mesma família, uma vez que em 17 de Dezembro desse ano o jornal O Algarve referiu que «esteve ante hontem nesta cidade o sr. Marçal Pacheco, que tem estado na sua propriedade da Fonte da Pipa, nos suburbios de Loulé».[14]
Em 24 de Junho de 1923, o jornal O Algarve referiu que a propriedade tinha sido vendida pela família de Marçal Pacheco ao banqueiro Manuel Dias Sancho: «O sr. Manuel Dias Sancho banqueiro desta cidade, comprou a quinta da Esperança, nos suburbios de Loulé, que pertencia aos herdeiros de Marçal Pacheco».[15] Uma notícia semelhante foi publicada no jornal O Progresso de 17 de Junho de 1923: «acaba de ser adquirida pelo sr. Manuel Dias Sancho, de Faro, a conhecida Quinta de Fonte da Pipa, ali na estrada que nos liga àquela cidade».[2] Manuel Sancho usou o palacete como casa de veraneio, como refere o jornal Noticias do Algarve em 15 de Julho de 1923: «Com sua esposa a Exma. Sr.ª D. Maria do Brito Sancho está veraneando na sua Quinta da Fonte da Pipa, o sr. Manuel Dias Sancho, banqueiro desta praça».[16] Em 1927, os salões foram alvo de trabalhos de decoração, executados pelo artista Roberto Nobre.[7]
Porém, Manuel Dias Sancho perdeu a propriedade para o Banco do Algarve, na sequência da crise financeira de 1929.[1] Em 17 de Abril de 1932, o jornal O Algarve publicou os estatutos do recém formado Banco do Algarve, referindo que «A casa bancaria Manuel Dias Sancho [...] passa a existir sob a fórma de sociedade anonyma de responsabilidade limitada e sob a denominação de Banco do Algarve», enquanto que o Artigo V determinou que «o capital social é de 5.000 contos, [...] e é constituído pelos bens e valores que compôem o activo de Manuel Dias Sancho e da respectiva Casa Bancária».[17]
Em 1959 o palácio estava novamente à venda, tendo o anúncio sido publicado em 19 de Março desse ano, no jornal Correio do Sul:«Quinta da Fonte da Pipa - conhecida quinta de rendimento e de repouso, com belo palacete, situada a mil metros da vila da Loulé, a seis quilómetros da praia de Quarteira e a 16 de Faro, com lindas paisagens, boas terras de semeadura, muitas árvores de fruto, com lagos e tanques, instalações para feitor e estábulos.». Indicava que as propostas deveriam ser enviadas para o escritório do advogado Francisco Manuel Sancho e Brito e o médico Manuel Guerreiro Pereira.[18] O palácio foi posteriormente comprado por Francisco Guerreiro Pereira, que nos princípios dos anos 80 o vendeu à empresa Quinta da Fonte da Pipa, Urbanizações,[1] tendo nessa época sido alvo de grandes obras de recuperação.[5]
Século XXI
Entre 2008 e 2010, o Palácio conheceu um grande reaproveitamento como espaço para eventos, tendo acolhido diversas exposições de arte e conferências. Por exemplo, entre Julho e Setembro de 2008 abrigou a exposição Reacção em Cadeia, de Luís Tavares Pereira, organizada pelo Museu de Arte Contemporânea de Serralves.[19] Em Junho e Agosto de 2009 acolheu uma série de conferências sobre arte, no âmbito do programa do Curso Experimental de Arte Contemporânea Mobilehome.[20][21][22][23] Também em Agosto foi ali organizada uma exposição de arte, como parte do programa Allgarve.[24] No ano seguinte voltou a ser palco de uma exposição de arte, intitulada Negreiros e Guaranis, com obras de José de Guimarães,[5][25] tendo uma das finalidades deste evento sido chamar a atenção para as avançadas condições de degradação em que se encontrava o imóvel.[4]
Em 28 de Outubro de 2016, a Câmara Municipal de Loulé organizou a terceira edição da Corrida Halloween, tendo um dos locais visitados durante este evento sido o exterior do Palácio da Fonte da Pipa.[26] O palácio voltou a fazer parte do percurso durante a quarta edição deste evento, em 2017.[27]
Em 24 Janeiro de 2017 o edifício foi parcialmente destruído por um incêndio, tendo ardido o telhado, o interior e os torrões.[3] Apesar de ser frequentemente utilizado por pessoas sem abrigo, não se registaram quaisquer vítimas no incêndio.[3] Aquando do incêndio, a propriedade em que se insere o edifício, com cerca de 28 Ha,[4] estava na posse de um Fundo Imobiliário britânico, que fez várias propostas para a sua urbanização,[1] embora tenham sido travadas pelo Plano Director Municipal.[4] Com efeito, o autarca de Loulé explicou que não havia base legal para fazer ali uma grande urbanização, uma vez que «o PDM de Loulé não reconhece aquela zona como urbanizável».[3] A associação Almargem emitiu um comunicado onde lamentou o incêndio, referindo que foram «assinaláveis as perdas materiais sofridas no seu interior e na cobertura», acrescentando que «agora teremos de aguardar, para ver o que se vai seguir para aquela que é seguramente uma das jóias arquitetónicas da nossa cidade».[5]
Ver também
- Lista de património edificado no concelho de Faro
- Convento do Espírito Santo
- Convento de Santo António
- Igreja da Graça (Loulé)
- Museu Casa Rosa
- Palácio de Estói
Referências
- ↑ a b c d e f g h «Incêndio destrói Palácio da Fonte da Pipa, em Loulé». Observador. 24 de Janeiro de 2017. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ a b «(sem título)» (PDF). O Progresso. Ano 1 (27). Loulé. 17 de Junho de 1923. p. 1. Consultado em 13 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ a b c d e RODRIGUES, Elisabete; RODRIGUES, Hugo (24 de Janeiro de 2017). «Torres, telhado e interior do Palácio da Fonte da Pipa destruído pelas chamas (com fotos)». Sul Informação. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ a b c d REVEZ, Idálio (24 de Janeiro de 2017). «PJ investiga incêndio no Palácio Fonte da Pipa, em Loulé». Público. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ a b c d e f «Almargem recorda a história do Palácio da Fonte da Pipa destruído pelas chamas». Sul Informação. 25 de Janeiro de 2017. Consultado em 13 de Janeiro de 2025
- ↑ a b c d MENDONÇA, Artur Ângelo Barracosa (2018). «Marçal Pacheco. Um político algarvio do século XIX» (PDF). Atas do I Encontro de História de Loulé. Loulé: Câmara Municipal de Loulé - Arquivo Municipal. p. 233-237. Consultado em 15 de Janeiro de 2025 – via Universidade Nova de Lisboa
- ↑ a b «Notas e comentarios: Roberto Nobre» (PDF). Alma Algarvia. Ano 1 (10). Loulé. 9 de Janeiro de 1927. p. 1. Consultado em 14 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Escandalos: Consummatum Est» (PDF). O Louletano. Ano 1 (43). Loulé. 12 de Novembro de 1893. p. 1. Consultado em 13 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Representações» (PDF). O Louletano. Ano 2 (87). Loulé. 2 de Setembro de 1894. p. 2. Consultado em 13 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Politica do Algarve» (PDF). O Louletano. Ano 2 (71). Loulé. 13 de Maio de 1894. p. 1. Consultado em 13 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Os deputados por este districto» (PDF). O Louletano. Ano 3 (149). Loulé. 17 de Novembro de 1895. p. 1. Consultado em 13 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Arrendamento» (PDF). O Pregoeiro. Ano 5 (150). Loulé. 26 de Setembro de 1901. p. 3. Consultado em 14 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ SOUSA, Ana Rosa; et al. (Outubro de 2021). «A Saúde de uma Comunidade - Loulé na primeira metade do século XX». Algarve Médico (17). Faro: Centro Hospitalar Universitário do Algarve. p. 38. ISSN 2184-0393. Consultado em 15 de Janeiro de 2025 – via Issuu
- ↑ «Noticias pessoaes» (PDF). O Algarve. Ano 9 (456). Faro. 17 de Dezembro de 1916. p. 2. Consultado em 12 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa
- ↑ «Noticias diversas» (PDF). O Algarve. Ano 16 (794). Faro. 24 de Junho de 1923. p. 2. Consultado em 17 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa
- ↑ «Notas mundadas» (PDF). Noticias do Algarve. Ano 1 (3). Faro. 15 de Julho de 1923. p. 8. Consultado em 13 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Banco do Algarve» (PDF). O Algarve. Ano 25 (1254). Faro. 17 de Abril de 1932. p. 3. Consultado em 17 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa
- ↑ «Vende-se em Loulé» (PDF). Correio do Sul. Ano XL (2145). Faro. 19 de Março de 1959. p. 3. Consultado em 14 de Janeiro de 2025 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa
- ↑ «Lagar das Portas do Céu recebe Exposição integrada no Allgarve'08». Câmara Municipal de Loulé. 25 de Julho de 2008. Consultado em 13 de Janeiro de 2025
- ↑ «Autarquia de Loulé promove "Mobilehome - Curso Experimental de Arte Contemporânea"». Câmara Municipal de Loulé. 5 de Junho de 2009. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ «Artista Polaco apresenta Conferência integrada no Curso Experimental de Arte Contemporânea "MOBILEHOME"». Câmara Municipal de Loulé. 17 de Julho de 2009. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ «"Mobilehome - Curso Experimental de Arte Contemporânea": Casa de Odeleite é tema da terceira conferência ao ar livre». Câmara Municipal de Loulé. 23 de Julho de 2009. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ «"Under na Artificial Sky": mais uma conferência integrada no Curso "MOBILEHOME"». Câmara Municipal de Loulé. 31 de Julho de 2009. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ «Noite Branca Algarve 2009: o maior evento de Chill Out do país volta a ter palco em Loulé». Câmara Municipal de Loulé. 24 de Agosto de 2009. Consultado em 12 de Janeiro de 2025
- ↑ «Palácio da Fonte da Pipa recebe Exposição de José de Guimarães». Câmara Municipal de Loulé. 29 de Junho de 2010. Consultado em 15 de Janeiro de 2025
- ↑ «3ª Corrida Halloween Let's Go Run 2016 acontece em Loulé com muita animação e solidariedade». Câmara Municipal de Loulé. 27 de Outubro de 2016. Consultado em 15 de Janeiro de 2025
- ↑ «4ª Corrida Halloween "aterroriza" cidade de Loulé». Câmara Municipal de Loulé. 19 de Outubro de 2017. Consultado em 15 de Janeiro de 2025
Leitura recomendada
- LUÍS, Elídia Ribeiro; LOBO, Maria da Graça da Silva Lobo (1982). «Breve Estudo sobre o Palacete da Fonte da Pipa, em Loulé». Património e Cultura (7). Vila Real de Santo António. p. 7-9
Ligações externas
