Pólis

A pólis (πόλις) — plural: poleis (πόλεις) — era o modelo das antigas cidades gregas, desde o final do período homérico, período arcaico até o período clássico, vindo a perder importância a partir do domínio romano. Devido às suas características, o termo pode ser usado como sinônimo de cidade-Estado. As poleis, definindo um modo de vida urbano que seria a base da civilização ocidental, mostraram-se um elemento fundamental na constituição da cultura grega, a ponto de se dizer que o homem é um "animal político". Essa comunidade organizada, é formada pelos cidadãos (no grego “πολίτικοι”, "polítikoi"), isto é, pelos homens nascidos no solo da Cidade, livres e iguais e também tinham seu próprio governo.[1]
Terminologia
A palavra grega pólis, tem que ver com o habitat dos indo-europeus, que viviam em aldeias fortificadas constituídas por casas de madeira, por vezes instaladas em posições elevadas, originalmente "fortaleza central de aglomerado, acrópole", que pode cortejar-se com as palavras, com o mesmo sentido, sânsc. pūr पुर e báltico (lit.) pilìs. Esta fortaleza tinha uma muralha a rodeá-la, cujo nome subsiste exactamente, tanto na forma como no sentido, no grego teῖkhos: isto é, *dheigh-o-s, da raiz *dheigh- "revestir, dique, aterro". Significando a raiz "revestir" e "amontoar terra", a muralha destas fortalezas neolíticas podia ser de facto um aterro - pelo menos na origem, porquanto, se se considerar, por um lado, a importância do trabalho de madeira e do papel dos carpinteiro, e, por outro lado, a substituição em data anterior, da palavra indo-europeia original, em latim, por um termo com o mesmo sentido, mūrus, saído verosimilmente da raiz *mey-, "enterrar, fixar", poder-se-á pensar que a muralha das *póleis indo-europeias era feita de estacas de madeira, ou de troncos, talvez revestidos de barro.[2]
Pré-história

Com base na definição, a ideia de cidade depende da chamada revolução produtiva, que tem início no Próximo Oriente cerca de 9.000 a.C. e se expande para o egeu por volta de 6.000 a.C. Muito pouco se pode afirmar sobre o Paleolítico Inferior, dado que os escassos achados (Petralona na Calcídica) não constituem informações suficientes para extrair conclusões sobre o tipo de habitat. Segundo os dados publicados, a ocupação no Paleolítico identifica-se em grutas e abrigos sob rocha. As escavações em Maroulas, em Cítnos, revelaram os primeiros vestígios de habitações mesolíticas, sugerindo a instalação prolongada de uma comunidade de caçadores-recoletores.
A Época Neolítica (6800–3200 a.C.) caracteriza-se pela estabilização climática, favorecendo povoamentos permanentes com economia baseada na agricultura e pecuária.[3] Nestas comunidades, a unidade básica era o clã ou a família alargada. No Neolítico Médio (5800–5300 a.C.), surge a construção de casas com alicerces de pedra e paredes de tijolo cru. No Neolítico Recente, a arquitetura diferencia-se e surgem os primeiros espaços de uso comum e fossos de delimitação.
Na transição para a Idade do Bronze, desempenha um papel fundamental Poliochni, em Lemnos, um povoamento populoso com características proto urbanas.[4] Nos seus vestígios reconhece-se aquela que é possivelmente a cidade mais antiga da Europa, com estruturas democráticas (o bouleuterion) e atividades comerciais. Nas suas fases de desenvolvimento, reconhecem-se os primeiros exemplos do sistema urbanístico "linear", com edifícios alinhados ao longo de ruas principais que concentravam o celeiro e o conselho de anciãos ou chefes de famílias.
A partir de 3000 a.C., os povoamentos na Grécia continental adquirem três esquemas urbanísticos: o irregular ou aditivo (Askitario), o linear (Lithares) e o pericêntrico (Egina V). A existência de planeamento urbano é um dos critérios fundamentais para classificar um povoamento como centro protourbano.
Durante a Idade do Bronze Médio, a Grécia continental atravessa um período de carência económica, mas esta imagem altera-se na transição para a época micénica. Contudo, tal não se aplica à Creta minoica, onde a fundação dos palácios representa uma forma avançada de assentamento urbano com administração centralizada e hierarquizada.[5]
No Bronze Recente, a Civilização micénica domina com estruturas palacianas fortificadas (Tirinto, Micenas).[6] Em resumo, o período da Idade do Bronze assiste à evolução de povoamentos para centros urbanos complexos, com classes especializadas (artesãos, mercadores) e hierarquias administrativas e religiosas evidenciadas pelos textos em Linear B.[7]
Formação
É comum considerar que a pólis teria nascido entre os Gregos em resultado de um determinismo geográfico, ou seja, o relevo montanhoso da Grécia, que dificultava as comunicações e isolava as comunidades humanas, teria levado a este tipo de organização política. Porém, esta teoria é rejeitada com base em vários fatos. Em primeiro lugar, em outras regiões igualmente montanhosas não se desenvolveram poleis ou só tardiamente se desenvolveram. Para além disso, a pólis desenvolveu-se em regiões onde as comunicações eram fáceis, como a Ásia Menor e a península do Peloponeso. Pólis era a principal marca do mundo helênico.
Somadas aos fatos geográficos, teriam sido as circunstâncias históricas, principalmente, que determinaram o nascimento da pólis. Com o fim da civilização micénica verificam-se movimentações de populações que procuram os melhores locais para habitar. Perante a perspectiva de ataques exteriores, os habitantes de pequenas comunidades agrupam-se, através do processo denominado por sinecismo. Assim, as pequenas localidades identificam-se com um centro; na Ática esse centro foi a cidade de Atenas
A pólis grega era formada, basicamente, por uma Acrópole, uma Ágora, uma Khora e uma Ástey. A acrópole corresponde à parte mais elevada, alta da pólis, onde existiam templos dedicados aos deuses. Ficava acima da Ágora, que era a parte mais pública da comunidade. Lá existia o mercado e as assembleias do povo. A Ágora era a praça principal na constituição da pólis, a cidade grega da Antiguidade clássica. Normalmente era um espaço livre de edificações, configurada pela presença de mercados e feiras livres nos seus limites, assim como por edifícios de carácter público. A khora corresponde à parte agrícola, onde moravam os camponeses e onde eram cultivados alimentos que supriam a ástey, que era a "cidade" da pólis, a parte urbana (termos anacrônicos, que representam aproximadamente o que era a ástey).
As cidades gregas (pólis ou cidades-estados) compunham-se de duas partes, uma rural (khora) e outra urbana, separadas por uma muralha destinada à proteção contra ataques de outras cidades.
Esfera política ateniense
A vida na pólis dividia-se em duas esferas: a privada, que dizia respeito a seu patrimônio, ao casamento, à sua família e expressa pela sua casa e a esfera pública, expressa pelo espaço público urbano (ou político, pois era o espaço da pólis) e suas instituições. Estas, dado que deliberavam e executavam diretrizes e regras para a cidade, constituíam-se efetivamente como instituições políticas. De uma forma geral, ambas as esferas eram soberanas em si mesmas: assuntos privados não diziam respeito às discussões públicas, e vice-versa.
Uma curiosidade interessante sobre a visão que os homens tinham sobre sua "cidadania": uma pessoa nascida em Atenas nunca diria "sou nascido em Atenas", ao invés disso ela diria "sou ateniense". Isso mostra que a relação pessoal com a pólis não era apenas com o território, mas era mais fortemente com a comunidade.
Instituições políticas gerais
Apesar das peculiaridades de cada pólis, é possível identificar três instituições políticas comuns: a assembleia popular, o conselho aristocrático e os magistrados.
Estes órgãos poderiam assumir nomes diferentes conforme a pólis. Assim, em Atenas, a Assembleia popular recebia o nome de Eclésia, enquanto que em Esparta chamava-se Ápela; o Conselho em Atenas era denominado Areópago (nomeado de acordo com o local em que se reunia - a "colina de Ares") e em Esparta, de Gerúsia. Quanto aos magistrados, eram designados respectivamente nestas duas póleis como Arcontes e Éforos, mas para isso temos que nos conscientizar de todos os feitos políticos da região.
Referências
- ↑ Orlando Vitorino ... tinha compreendido que "os gregos chamaram cidade ao que nós chamamos Estado" e "chamaram política ao que nós chamamos Direito". - Vitorino, Orlando, por José Adelino Maltez, Tópicos Político-Jurídicos, revisão feita em Dili, finais de 2008, e concluída no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009
- ↑ Pierre Lévêque (DIR.) As Primeiras Civilizações da Idade da Pedra aos Povos Semitas, Presses Universitaires de France, trad. António José Pinto Ribeiro, 1987, Lugar da História. Isbn 978-972-44-1574-1
- ↑ Perlès 2001, pp. 173-175.
- ↑ Bernabò-Brea 1964, p. 124.
- ↑ Dickinson 1994, p. 112.
- ↑ Vermeule 1972, p. 150.
- ↑ Chadwick 1976, p. 70.
Bibliografia
- AUSTIN, Michel; NAQUET, Pierre Vidal - Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986.
- MALACO, Jonas Tadeu Silva; Da forma urbana. O casario de Atenas. São Paulo: Alice Foz, 2002
- Bernabò-Brea, Luigi (1964). Poliochni: Città preistorica nell'isola di Lemnos. Atenas: Scuola Archeologica di Atene
- Chadwick, John (1976). The Mycenaean World. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0521290371
- Dickinson, Oliver (1994). The Aegean Bronze Age. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0521456647
- Fowler, W. Warde (1895). The City-State of the Greeks and Romans. Londres: Macmillan and Co
- Hansen, Mogens Herman (2004). The Shotgun Method: The Analysis of the Early Greek City-State. Oxford: Oxford University Press. ISBN 978-0199273058
- Perlès, Catherine (2001). The Early Neolithic in Greece. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0521000277
- Renfrew, Colin (1972). The Emergence of Civilisation: The Cyclades and the Aegean in the Third Millennium B.C. Londres: Methuen. ISBN 978-0416164800
- Vermeule, Emily (1972). Greece in the Bronze Age. Chicago: University of Chicago Press
Ver também
- Ágora
- Ágora de Atenas
- História do Urbanismo
Ligações externas
- "A «Pólis grega e a constituição da democracia"». , por Cornelius Castoriadis, in As Encruzilhadas do Labirinto II, trad. de José Oscar de Almeida Marques, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.