Osvaldo Lacerda
| Osvaldo Lacerda | |
|---|---|
| Nascimento | 23 de março de 1927 São Paulo |
| Morte | 18 de julho de 2011 (84 anos) São Paulo |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | compositor, musicólogo, pianista |
| Distinções | |
| Instrumento | piano |
Osvaldo Costa de Lacerda[1] (São Paulo, 23 de março de 1927 - São Paulo, 18 de julho de 2011) foi um pianista e compositor brasileiro.
Carreira
Iniciou seus estudos de piano aos nove anos de idade, com Ana Veloso de Resende, aperfeiçoando-se com Maria dos Anjos Oliveira Rocha. No início, apenas sua mãe apoiava sua decisão de seguir carreira musical. Seu pai preferia fazer dele um advogado. Em 1947, Osvaldo Lacerda passa a ter aulas de piano com José Kliass e, três anos depois, com Camargo Guarnieri, que o desaconselha a tentar ser pianista para se dedicar à composição.
Em 1963, graças aos incentivos de Camargo Guarnieri, Osvaldo Lacerda passa a ter aulas com outros compositores. Recebe, então, uma bolsa da Fundação Guggenheim para ter aulas com Aaron Copland e Vittorio Giannini, nos Estados Unidos. Pouco antes, Osvaldo Lacerda formou-se em Direito para satisfazer seu pai. Nesta época também criou a Sociedade Pró-Música Brasileira.
Em maio de 1965, foi um dos compositores que o Ministério das Relações Exteriores enviou aos Estados Unidos, para representar o Brasil no Seminário Interamericano de Compositores, na Universidade de Indiana, e no IIIº Festival Interamericano de Música, em Washington. Em abril de 1996, foi um dos compositores brasileiros que a American Composers Orchestra convidou para participar, em Nova York, do Festival “Sonido de las Américas: Brazil”.
Entre 1966 e 1970, Osvaldo Lacerda atuou como consultor na Comissão Nacional de Música Sacra, e uma de suas atividades foi a proposição do uso da música sacra brasileira na liturgia da Igreja Católica.
Osvaldo Lacerda tornou-se também professor da Escola Municipal de Música de São Paulo, cargo do qual se aposentou em 1992.
Lacerda ocupava a cadeira de número 9 da Academia Brasileira de Música, que já foi de Brasílio Itiberê da Cunha.
Vida pessoal
Em 1982 ele se casou com sua antiga aluna, a pianista Eudóxia de Barros. Morreu em 18 de julho de 2011, por falência múltipla dos órgãos, em São Paulo (SP), aos 84 anos de idade.
Postumamente, Eudóxia de Barros lançou sua obra inacabada Curiosidades Musicais.
Estilo composicional
O estilo musical nacionalista brasileiro que Camargo Guarnieri transmitiu a Osvaldo Lacerda tinha raízes nos escritos do esteta Mário de Andrade e seguia a linhagem de compositores como Heitor Villa-Lobos e Francisco Mignone. Os compositores desse estilo buscavam integrar elementos da música erudita europeia com traços da música folclórica e popular brasileira, que por sua vez resulta da fusão das heranças musicais europeia, africana e indígena.[2] Guarnieri ensinava que os compositores deveriam assimilar as fontes populares para que pudessem usá-las e transformá-las naturalmente em suas próprias obras.[3] Esse estilo nacionalista pode ser descrito, em linhas gerais, como neoclássico, pois se apoia nas abordagens de forma, harmonia e melodia da tradição clássica ocidental, combinando-as com fontes de inspiração brasileiras e também europeias contemporâneas.[4] Na década de 1950, Guarnieri e outros compositores defenderam a continuidade desse estilo nacional, em oposição às tentativas do movimento Música Viva, liderado pelo compositor germano-brasileiro Hans-Joachim Koellreutter, que promovia a composição dodecafônica no Brasil.[5]
Uma característica marcante da música de Osvaldo Lacerda, que reflete sua atenção às tradições brasileiras, é o uso de títulos e elementos musicais de danças folclóricas em muitas de suas obras instrumentais. Exemplos incluem suas doze Brasilianas (suítes para piano em quatro movimentos, compostas entre 1965 e 1993)[6] e três peças para oboé e piano: “Aboio”, “Segunda Valsa” e “Toada”.[7] Lacerda também incorporou canções infantis brasileiras em algumas obras. Segundo o pesquisador David Appleby, a música voltada às crianças — ou inspirada pela infância — sempre teve um papel importante na tradição musical brasileira.[8] Um exemplo é a peça para oboé e piano “Variações sobre dois cantos infantis”, baseada nas canções “Carneirinho, carneirão” e “Sapo Cururú”.[9] Em suas obras vocais, Lacerda musicou textos em português e também em línguas africanas faladas no Brasil. Uma das peças escritas em mistura dessas línguas é a obra coral Ofulú Lorêrê, baseada em um canto de candomblé que Guarnieri havia registrado na Bahia. As influências dessa tradição afro-brasileira são perceptíveis no tratamento da polifonia e do ritmo.[10] Na sua tese, Carlos Audi apresenta uma lista detalhada dos “elementos nacionais” no estilo de Lacerda, provenientes de gêneros folclóricos e populares brasileiros, incluindo — mas não se limitando a — o uso de modos, escalas pentatônicas, melodias de extensão reduzida, síncopas, ostinatos e terças paralelas.[11]
Além de seu interesse pelas fontes populares brasileiras, Lacerda também seguiu seu mestre Guarnieri na adoção de formas europeias tradicionais, como a forma-sonata e o tema com variações.[12] Assim como Guarnieri, ele também se inspirou em correntes mais amplas da música erudita ocidental do século XX, incorporando técnicas contemporâneas nas áreas de harmonia, ritmo e atonalidade.[13] Lacerda acreditava que era essencial que os compositores nacionalistas permanecessem abertos a novas técnicas, de modo que sua música pudesse servir como motivo de orgulho nacional.[14]
Referências
- ↑ Osvaldo Costa de Lacerda (1927-2011) - Pianista e compositor erudito Folha.com
- ↑ David P. Appleby, The Music of Brazil, (Austin: The University of Texas Press, 1983), 145–153.
- ↑ Di Cavalcanti, 9.
- ↑ Di Cavalcanti, 7.
- ↑ Suzel Ana Reily, “Brazil: Central and Southern Areas,” in The Garland Encyclopedia of World Music, vol. 2, South America, Mexico, Central America, and the Caribbean, edited by Dale A. Olsen and Daniel E. Sheehy (New York: Garland, 1998), 306.
- ↑ Di Cavalcanti, 11.
- ↑ Keri McCarthy, “Oboe Music Reviews: Osvaldo Lacerda,” The Double Reed 36, no. 1 (January, 2013), 165–166.
- ↑ Appleby, 97.
- ↑ McCarthy, 165–166.
- ↑ Gustavo de Sá, “Two Centuries of Brazilian Choral Music,” liner notes for Saudade: Choral Music from Brazil, Kammerchor Apollini et Musis, Vinzenz Weissenburger, Rondeau Production ROP6049, 2011, compact disc, 12–16.
- ↑ Audi, 30.
- ↑ Kristen Lia Smith, “The Influence of Folk and Popular Music on Twentieth-Century Flute Music of Brazil,” PhD diss., (University of Cincinnati, 2000), 154.
- ↑ Di Cavalcanti, 10.
- ↑ Marilia Gabriela do Nascimento Gimenes, “Osvaldo Lacerda’s Sonata for Flute and Piano (1959): a Performance Guide With Historical Background of Brazilian Genres Embolada, Seresta, and Baião,” PhD diss., (University of North Texas, 2012), 12.