Osticano

Osticano (em armênio: ոստիկան; romaniz.: Ostikan; em latim: osticanus) foi um título armênio utilizado durante a Antiguidade para designar um supervisor, administrador ou prefeito.

Etimologia

Osticano é um termo emprestado do iraniano médio, relacionado ao persa médio ostigã (ʾwstykʾn (ōstīgān), "firme, forte, seguro, confiável") e ao georgiano ostigani (ოსტინაგი (osṭinagi), "aministrador doméstico"). Hračʻeay Ačaṙean explica sua evolução semântica como "confiável, fiel" → "confidente do governante" → "oficial do governante". Segundo ele, essa etimologia aponta para o antigo armênio hawatarim (հաւատարիմ, "confiável, fiel"), termo frequentemente aplicado aos oficiais do rei.[1]

História

Tradicionalmente, o título de osticano designava um supervisor, administrador ou prefeito[2] encarregado de proteger as fortalezas e tesouros reais da arsácidas no Reino da Armênia. Dentre as fortalezas sob seu controle estavam Angle em Ingilena e Babila em Sofanena, além de várias outras.[3] Algumas delas estavam sob jurisdição do vitaxa de Sofena, um dos quatro vice-reis da Armênia. Desde 298, porém, com a Paz de Nísibis entre o Império Romano de Diocleciano (r. 284–305) e o Império Sassânida de Narses I (r. 293–302), os limites da Armênia foram alteradas e muitos dos domínios do vitaxa foram cedidos ao Império Romano. É possível que, dada as circunstâncias, ele foi absorvido pela função do osticano.[4]

Os grão-camareiros da Armênia geralmente ocuparam o ofício de osticano e no século IV Fausto cita o osticano Drastamate.[5] Em 370, quando a rainha Farranzém (r. 368–370) foi levada pelo Sapor II (r. 309–379) como cativa, deixou osticanos para supervisionar os armênios.[6] Sob o rei Papa (r. 370–374), o asparapetes Musel I nomeou osticanos para supervisionar as províncias de Anzitena e Persarmênia.[7] No contexto do martírio de Zuite de Artaxata na corte persa de Ctesifonte, Fausto cita que osticanos da corte sassânida se aproximaram de Zuite e questionaram-no se iria apostatar e aceitar zoroastrismo, mas ele se recusou.[8]

Os estudiosos tipicamente identificam osticano como uma versão armenizada da palavra em persa médio ostigano (ōstīgān), que significa "fiel, confiável; alguém que é próximo do rei." J. Gippert sugeriu que entrou no armênio através do parta, enquanto considera que a variante georgiana ostigano (osṭigan) entrou através do persa médio na época sassânida. No século V, tradutores bíblicos usaram osticano para traduzir os termos gregos epíscopo (ἐπίσκοπος) e epístata (ἐπιστάτης). Sebeos usou-o para falar dos oficiais do xá Cosroes II (r. 590–628), bem como aplica-o com a implicação de governo, mas apenas para o período sassânida.[9] O termo sobrevive durante o período árabe e foi aplicado para designar o governador do Emirado da Armênia do Califado Omíada e Abássida. Boa parte da literatura atual interpreta o termo desse modo a partir da análise de M. Čʿamčʿean.[10]

Referências

  1. Ačaṙean 1926–1935, p. 570-571.
  2. Hubschmann 1897, p. 215.
  3. Toumanoff 1963, p. 168.
  4. Toumanoff 1963, p. 176.
  5. Toumanoff 1963, p. 177.
  6. Fausto, o Bizantino 1989, p. 173-176 (IV.lv).
  7. Vacca 2017, p. 215.
  8. Fausto, o Bizantino 1989, p. 176-177 (IV.lvi).
  9. Vacca 2017, p. 115.
  10. Vacca 2017, p. 116.

Bibliografia

  • Ačaṙean, Hračʻeay (1926–1935). «ոստիկան». Hayeren armatakan baṛaran Հայերեն արմատական բառարան [Armenian Etymological Dictionary]]. Erevã: Yerevan University Press 
  • Fausto, o Bizantino (1989). Garsoïan, Nina, ed. The Epic Histories Attributed to Pʻawstos Buzand: (Buzandaran Patmutʻiwnkʻ). Cambrígia, Massachussetes: Departamento de Línguas e Civilizações Próximo Orientais, Universidade de Harvarde 
  • Hubschmann, H. (1897). Armenische grammatik I. Theil - Armenische Etymologie. Lípsia: Druck und Verlag Von Breitkopf 7 Hartel 
  • Toumanoff, Cyril (1963). Studies in Christian Caucasian History. Washington: Georgetown University Press 
  • Vacca, Alison (2017). Non-Muslim Provinces under Early Islam Islamic Rule and Iranian Legitimacy in Armenia and Caucasian Albania. Cambrígia: Cambridge University Press