Os Últimos Soldados da Guerra Fria

Os Últimos Soldados da Guerra Fria
Autor(es)Fernando Morais
IdiomaPortuguês
EditoraCompanhia das Letras
Lançamento2011
Páginas416
ISBN978-85-3591-934-9

Os Últimos Soldados da Guerra Fria: a história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos (2011) é um livro-reportagem e de jornalismo literário escrito por Fernando Morais sobre a Rede Vespa, grupo de agentes secretos com doze homens e duas mulheres que se infiltrou em 47 organizações anticastristas de ultradireita em Miami em finais da Guerra Fria, nos anos 1990, e suas posteriores consequências. É o primeiro livro do autor — e até agora o único — em que a história se passa totalmente fora do Brasil.

A Rede Vespa havia sido criada para impedir mais ataques terroristas financiados pelos EUA em locais turísticos de Cuba, que investia no setor para recuperar seu PIB após o desmanche da União Soviética. Em cinco anos, foram cerca de 127 agressões contra a ilha com o objetivo de aterrorizar turistas.[1][2] Houve intermediações entre Fidel Castro e o presidente Bill Clinton, inclusive inusitadamente pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, Prêmio Nobel de Literatura, amigo íntimo do primeiro, defensor da Revolução Cubana e "ídolo literário" do segundo.[3]

O livro tem enfoque nos Cinco Cubanos, que continuaram presos pelos Estados Unidos por espionagem e viraram heróis nacionais em Cuba, enquanto que outros cinco fizeram acordos com a justiça. Ao cabo de cerca de dez anos, Morais teve acesso a milhares de documentos secretos inéditos dos governos dos dois países e entrevistou os presos políticos.[4] Como é de costume com outros livros do autor, este também foi adaptado para o cinema sob o título Wasp Network - Rede de Espiões (2019), filme produzido por vários países, escrito e dirigido por Olivier Assayas, estrelado por Penélope Cruz, Wagner Moura, Édgar Ramírez, Gael García Bernal e Ana de Armas.

Pesquisa e escrita

Fernando Morais.

O autor teve a ideia para o livro em 1998, após ouvir, casualmente, no rádio de um táxi em São Paulo, notícia sobre a prisão de 10 agentes secretos cubanos por policiais do FBI — um estopim que lhe acendeu o faro jornalístico.[5][6] A partir dali, enfrentou grande resistência das autoridades de Cuba para acessar os arquivos da inteligência. Em viagem para a Feira Internacional do Livro de Havana, em 2005, recebeu de Ricardo Alarcón, então presidente da Assembleia Nacional do Poder Popular, a comunicação de que finalmente receberia a documentação dos serviços de inteligência da ilha.[5] Envolvido em outros projetos, esperou mais três anos para iniciar o livro, em 2008,[5] contabilizando cerca de dez anos entre a ideia e a escrita.

Paralelamente, pesquisou, com ainda mais dificuldade, já que os agentes do FBI são proibidos de dar declarações políticas, nos arquivos da Justiça Federal da Flória, graças a uma lei que regula a liberação de documentos secretos, 30 mil documentos apreendidos pelo FBI e enviados pelos agentes a Cuba.[1] Recolheu cerca de seis mil documentos em sua mala, muitos deles carimbados como “secretos”, enfrentando inclusive o temor de ser interceptado na imigração dos Estados Unidos enquanto transportava esse material para o Brasil.[6]

A pesquisa de Os últimos soldados da Guerra Fria exigiu um mergulho investigativo de fôlego, que envolveu três anos de trabalho intenso, 18 viagens constantes e uma verdadeira caça desses documentos sigilosos. O trabalho também exigiu que Morais driblasse desconfianças das autoridades e envolvidos, buscasse mediações políticas e conseguisse financiar longas idas e vindas entre Havana e Miami, passando também por conexões exaustivas na América Central e no Caribe.[6] Quando o adiantamento para o trabalho da editora Companhia das Letras acabou, o projeto quase naufragou, mas foi salvo pelo interesse do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos de adaptação para o cinema.[6] A escrita exigiu paciência, inclusive para saber detalhes dos ocorridos da boca dos próprios participantes, assim uma parte nova da história era escrita a cada semana de trabalho.[1]

Resumo

Cartaz de apoio aos cinco cubanos em Varadero, Cuba.

Com o desmanche gradativo da União Soviética em 1991, a pequena ilha de Cuba perdeu seu principal apoio político-econômico e sofreu uma queda significativa de seu PIB, tendo de apostar no turismo, setor que logo virou alvo de ataques e boicotes financiados por grupos de ultradireita e anticastristras.[1] Foram cerca de 127 ataques terroristas financiados pelos EUA em cinco anos, incluindo explosões de bombas em hotéis, em casas noturnas e sequestro de aviões.[1] A Rede Vespa foi criada para obter informações dessas organizações em Miami e evitar novos ataques na ilha, mas acabou descoberta. Os primeiros dez cubanos presos na operação do FBI em 1998 foram pegos de surpresa por helicópteros e os policiais logo invadiram suas casas e levaram tudo.[1] Desses dez presos, cinco fizeram acordo com a justiça dos EUA, declarando-se culpados e relatando como operavam, sendo soltos; os outros cinco famosos – Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramón Labañino e René González – continuaram presos em segurança máxima por espionagem, recebendo apoio internacional de pessoas ilustres.[1] “Na noite em que eles foram presos, o René tinha brincado com as filhas e a Olga, esposa dele, tirou uma foto dele segurado a Irmita, a caçula, que ainda era bebê, deitado”, conta Morais em entrevista.[1]

No livro, Morais reconstitui a trajetória da Rede Vespa e, com detalhes, o ambiente polarizado de Miami, onde convivem grupos anticastristas imperialistas decididos a restaurar a Cuba pré-revolução e, num cotidiano clandestino, cubanos revolucionários infiltrados. O autor conta especialmente a história dos cinco agentes capturados pelo FBI após quase uma década de atividades clandestinas.[6] Para se integrarem às entidades de ultradireita, eles precisaram sustentar falsas deserções e romper, aparententemente, com sua pátria e famílias — sacrifício que, no plano pessoal, deixou marcas profundas, já que até seus parentes próximos, sem muitas informações, acreditaram que haviam traído Cuba.[6] A infiltração permitiu ao governo cubano antecipar atentados, capturar mercenários e impedir ações terroristas em Havana, elevando os cinco agentes ao status de heróis nacionais.[6] Morais narra essa história em ordem linear, acompanhando desde o momento em que os agentes abandonam suas vidas oficiais até sua prisão, julgamento e transformação em símbolos de resistência.

Além dos “Cinco de Cuba”, o autor também apresenta personagens paralelos, como o mercenário salvadorenho Raúl Ernesto Cruz León, responsável por explosões em hotéis de Havana a serviço dos EUA, e que lhe revelou que sua motivação não era política nem ideológica, mas unicamente imitar o especialista em bombas da CIA Ray Quick, personagem interpretado por Sylvester Stallone no filme O Especialista (1994).[7] León foi condenado por tribunais cubanos junto ao outro mercenário Otto René Rodríguez Llerena.[8] Outros presos por Cuba foram os guatemaltecos Nader Kamal Musalam Barakat, Jazid Iván Fernández Mendoza, María Elena González Meza de Fernández e o salvadorenho Francisco Chávez Abarca.[8] O acesso a eles, obtido com intermédio de Frei Betto junto a Raúl Castro, ilustra a complexidade das negociações para o livro.[6]

Outros episódios inéditos e inusitados registrados no livro são os envelopes sintéticos que o Prêmio Nobel de Literatura Gabriel Garcia Márquez, sem intermediários a não ser chefes de gabinete confiáveis e driblando o bloqueio a Cuba e os serviços de segurança, levava entre os presidentes Bill Clinton e Fidel Castro: o escritor colombiano era desde sempre defensor da Revolução Cubana e há muito tempo amigo íntimo de Fidel, ao mesmo tempo "ídolo literário" de Clinton, com quem se reunira diversas vezes, inclusive no Salão Oval da Casa Branca e também mais reservadamente pelos gramados da casa de William Styron, escritor próximo a ambos.[3] Entre as várias mensagens que o livro revela, pedido e ameaça por parte de Clinton para que a onda migratória de Cuba não prosseguisse, e Fidel, por sua vez, pedindo que os EUA parassem com os ataques à ilha, o que de fato ocorreu depois disso, e também tentando alertá-lo de grupos terroristas confabulando contra e nos EUA — uma profetização, para Morais, do 11 de setembro de 2001, já que membros da Al Qaeda treinaram na Flórida.[4][9]

Liberação dos cinco

René González foi libertado em 7 de outubro de 2011, tendo cumprido treze anos da sua pena e ficando ainda três anos em liberdade condicional nos EUA.[10] Foi-lhe permitido regressar a Cuba para o funeral do pai, em 2013, e um juiz federal autorizou-o a permanecer lá, desde que renunciasse à sua cidadania dos EUA.[11] Fernando González Llort foi libertado em 27 de fevereiro de 2014.[12] Ramón Labañino Salazar, Antonio Guerrero Rodríguez e Gerardo Hernández Nordelo foram libertados em 17 de dezembro de 2014, em troca de um agente duplo da inteligência americana, Rolando Sarraff Trujillo, ex-agente dos serviços secretos cubanos e condenado por espionagem em favor da CIA.[13][14][15]

Esses acontecimentos não são contados no livro, já que o lançamento se deu anos antes, em 2011. No entanto, Morais registra já no final do livro que o ex-presidente Jimmy Carter, visitando Cuba em março daquele ano, defendeu a libertação dos cinco cubanos, declarando a jornalistas: "Eles já cumpriram doze anos de prisão. Reconheço as limitações do sistema judicial dos Estados Unidos e espero que o presidente Barack Obama lhes conceda indulto e os ponha em liberdade."[16]

Resenhas críticas

Para Flávia Marreiro do El País, o livro, de um autor que escreveu clássicos brasileiros sobre Cuba, possui "a fina prosa jornalística, com descrição, precisão e informações exclusivas [...]"[17]

Daniella Cambaúva do Opera Mundi escreve que "Fernando não construiu um conjunto de arquivos de um processo judicial ou um dossiê da inteligência cubana. Trata-se de um relato repleto de detalhes da vida dos cinco cubanos em Miami e das organizações anticastristas, feito por um apaixonado pelo tema que, depois de 40 entrevistas e 18 viagens, foi capaz de transformar não apenas seu escritório, mas 400 páginas em território cubano-americano."[1]

Chico Otavio d'O Globo anota a persistência e o rigor investigativo que consolidou o estilo de Morais, já conhecido por biografias e livros-reportagens, expandindo sua atuação para outra narrativa internacional de forte densidade histórica.[6] Também aponta que, embora equilibrado em documentação, o texto adota um tom ligeiramente mais empático com a perspectiva cubana, ressaltando os ideais revolucionários que motivavam os agentes.[6]

Adaptações

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i Daniella Cambaúva, "'Os Últimos Soldados da Guerra Fria': cinco cubanos e um caçador de histórias". Opera Mundi, 2011. Consultado em 09-12-2025.
  2. Morais, 2011, p. 170.
  3. a b Morais, 2011, p. 58.
  4. a b Sylvia Colombo, "O Infiltrado". Folha Ilustrada, 2011. Consultado em 09-12-2025.
  5. a b c Morais, 2011, p. 278.
  6. a b c d e f g h i j Chico Otavio, "Fernando Morais conta a impressionante história da Rede Vespa de agentes secretos cubanos". O Globo, 2011. Consultado em 09-12-2025.
  7. Morais, 2011, p. 149-150.
  8. a b Morais, 2011, p. 276.
  9. Roberto Kaz, "Fernando Morais diz que Fidel profetizou o 11 de setembro". Folha de São Paulo, 2011. Consultado em 09-12-2025.
  10. «Espião cubano libertado da prisão da Florida mas tem de ficar nos EUA». Reuters. 7 de outubro de 2011. Cópia arquivada em 18 de maio de 2021 
  11. Cave, Damien (3 de maio de 2013). «Judge Says Cuban Who Spied on U.S. Can Stay in Cuba». The New York Times. Cópia arquivada em 5 de maio de 2013 
  12. «U.S. News - National News». ABC News. Cópia arquivada em 27 de fevereiro de 2014 
  13. Mark Mazzetti, Michael S. Schmidt, Frances Robles (18 de dezembro de 2014). «Crucial Spy in Cuba Paid a Heavy Cold War Price». New York Times. He was, in many ways, a perfect spy — a man so important to Cuba's intelligence apparatus that the information he gave to the Central Intelligence Agency paid dividends long after Cuban authorities arrested him and threw him in prison for nearly two decades. 
  14. Jeff Stein (17 de dezembro de 2014). «The American Spy Traded in the U.S.-Cuba Diplomatic Breakthrough». Newsweek. Cópia arquivada em 19 de dezembro de 2014. The unidentified United States spy being swapped as part of a diplomatic breakthrough between the U.S. and Cuba is almost certainly a former cryptographer in Cuba's Directorate of Intelligence who worked secretly for the CIA until he was arrested on espionage charges in the mid-1990s, according to a former U.S. intelligence officer and other sources. 
  15. Journey to Reconciliation Visited Worlds of Presidents, Popes and SpiesArquivado em 2023-09-29 no Wayback Machine, The New York Times, 17 de dezembro de 2014
  16. Morais, 2011, p. 277.
  17. "Fernando Morais: “De sua ilhota, Fidel chacoalhou o planeta”". El País Brasil, 2011. Consultado em 09-12-2025.
  18. «Netflix's 'Wasp Network' Stings Miami's Cuban Exiles». Yahoo! Finance. 3 de junho de 2020. Consultado em 1 de maio de 2022 
  19. «Netflix's 'Wasp Network' stings Miami's cuban exiles». BNN Bloomberg. 3 de julho de 2020. Consultado em 9 de maio de 2023 

Bibliografia

  • MORAIS, Fernando. Os últimos soldados da Guerra Fria: a história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Ligações externas