Operação Tarântula

A Operação Tarântula foi uma grande operação policial realizada em São Paulo, entre 27 de fevereiro e 10 de março de 1987. Baseava-se na criminalização do trabalho sexual de travestis e transgêneros, no contexto de luta contra o aumento do contágio pelo HIV.[1][2]

56 travestis foram detidas já na primeira noite da operação. "Foi um dos episódios mais cruéis da história contra mulheres trans e travestis".[1][2][3][4]

Histórico

No Brasil, no final dos anos 1980, estava em curso um processo de redemocratização do país, após mais de duas décadas de ditadura militar brasileira (1964-1985). Nesse momento de abertura política, havia, na sociedade, a expectativa de extensão de direitos e garantias fundamentais às populações vulnerabilizadas.[2]

Paralelamente, desde o início dos anos 1980 até, pelo menos, o início dos 1990,[5][6][7] havia um pânico moral relacionado à proliferação da AIDS, então associada a homens gays e a mulheres trans, sendo nomeada, no âmbito acadêmico, como Gay Related Immunedeficiency (GRID) e, na mídia, como "câncer gay", "peste gay" ou "peste rosa", o que resultou na estigmatização da população LGBTI.[2][2] Em 1º de maio de 1980, O Estado de S. Paulo exibia a seguinte manchete: “Polícia já tem plano conjunto contra travestis”.[8] Em 1981, o Jornal do Brasil publicou a matéria “Câncer em homossexuais é pesquisado nos EUA”.

A perseguição policial intensificou-se entre 1980 e 1985, quando o delegado José Wilson Richetti ordenou a prisão em massa de travestis e transexuais, por meio das chamadas operações Limpeza e Rondão, que levaram mais de 1.500 pessoas à prisão, somente no centro da cidade de da São Paulo.[8][9]

A Operação Tarântula tinha base no Código Penal Brasileiro (promulgado em 1940) Art. 130, que condena à detenção de três meses a um ano (ou multa) todo indivíduo que expuser alguém ao contágio de moléstia venérea com a qual sabe estar contaminado. Sendo acrescido um ano à pena se o indivíduo tiver a intenção de transmitir a doença.[2] A operação era, portanto, uma ação para combater a AIDS.[10][11][12][13]

Ao mesmo tempo, a operação tinha uma ligação com um certo pensamento religioso apocaliptista, centrado na criminalização da prostituição, em especial de pessoas trans, ocultando informações sobre a contaminação do HIV entre heterossexuais cisgêneros. Nos primeiros dias da operação, Márcio Prudente Cruz, delegado-chefe do departamento que reunia as delegacias regionais de polícia da Região Metropolitana de São Paulo (Degran), pontificou: "Os tempos de Nostradamus estão chegando".[2]

As travestis recolhidas pela polícia respondiam a processos por crime de contágio venéreo, e jornais da época indicaram a possibilidade de testagem compulsória para averiguação de doenças sexualmente transmissíveis, e o sistema penal aparecia como instrumento de contenção do crescente contágio por HIV. Configurava-se uma relação de antagonismo entre o Estado e a sociedade bem-pensante, de um lado, e as travestis e demais pessoas LGBTI, de outro.[2]

"Diferentemente de boa parte da população, que comemorava o fim da ditadura e o início da redemocratização do Brasil, as travestis estavam sendo encarceradas generalizadamente em São Paulo, ou até mortas pelos próprios agentes policiais ou grupos associados à polícia (e não somente) que simpatizavam com o extermínio trans."[1] Grupos de defesa dos direitos LGBTI pressionaram a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo pelo encerramento da operação. Nos 12 dias da Operação Tarântula, estima-se que mais de 300 travestis foram presas.[2] Além delas, outras tantas foram mortas.[10]

Neon Cunha, uma das sobreviventes da Operação Tarântula, relembra, numa entrevista à CNN Brasil, o que passou na época:[10] "É difícil narrar todo aquele período de transformação política e social no Brasil recém-saído da ditadura, que, na prática, não termina". Segundo ela, quando "a barca" passava e causava pânico em todos, a violência era desenfreada. Os policiais podiam "descer a porrada" ou coisa pior. Ela contou já ter visto uma mulher ser executada com um tiro na testa.

O nome

A Operação Tarântula teve esse nome porque "a tarântula tem, de fato, longos braços",[2] tal como a operação, que abrangia uma grande parte da Região Metropolitana de São Paulo, incluindo Osasco, Guarulhos e ABC Paulista.[12][4]

Outras operações

A Tarântula não foi a única operação policial para higienizar a cidade e eliminar supostas ameaças à ordem pública e aos bons costumes. Também houve similares, dentre as quais:[12][4]

  • Arrastão (São Paulo)
  • Cidade (São Paulo)
  • Rondão (São Paulo)
  • Limpeza (São Paulo)
  • Sapatão (São Paulo)
  • Asa Branca (em Recife)

Veja também

Referências

  1. a b c SILVA, Brune Herculano da. OPERAÇÃO TARÂNTULA E A TRAVESTI MARAVILHA. In: Anais do 3º Seminário Internacional Gêneros, Sexualidades e Educação na Ordem do Dia – Trajetórias interrompidas e caminhos possíveis. Anais...Nova Iguaçu(RJ) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/3sigse/815898-OPERACAO-TARANTULA-E-A-TRAVESTI-MARAVILHA. Acesso em: 05/07/2025
  2. a b c d e f g h i j Cavalcanti, Céu; Barbosa, Roberta Brasilino; Bicalho, Pedro Paulo Gastalho (2018). «Os Tentáculos da Tarântula: Abjeção e Necropolítica em Operações Policiais a Travestis no Brasil Pós-redemocratização». Psicologia: Ciência e Profissão: 175–191. ISSN 1414-9893. doi:10.1590/1982-3703000212043. Consultado em 5 de julho de 2025 
  3. Hiago de Souza Tavares; Marwyn Soares de Souza. Travesti não entra: uma análise crítica sobre o tratamento dado as travestis durante a ditadura civil-militar. Dignidade Re-Vista, v.8, n.13, nov 2021.
  4. a b c «Opinião - Andanças na metrópole: A vergonhosa Operação Tarântula». Folha de S.Paulo. 20 de junho de 2024. Consultado em 5 de julho de 2025 
  5. FDA Approval Of HIV Medicines. A timeline with all the FDA approval dates for HIV medicines, categorized by drug class. National Institutes of Health. HIV/AIDS treatment and research information.
  6. HIV/AIDS Treatment:Antiretroviral Drug Discovery and Development
  7. Rocha, Lucas; Luduvig, Laura; Sarmento, Jonatan. Virada de jogo: evolução da medicina revoluciona o tratamento do HIV. Veja Saúde, 21 de fevereiro de 2024
  8. a b «Operação Tarântula: Os Rondões Contra Travestis Na Ditadura». revistahibrida.com.br. 31 de março de 2021. Consultado em 5 de julho de 2025 
  9. [https://memorialdademocracia.com.br/card/lgbt-e-prostitutas-denunciam-violencia LGBT e prostitutas denunciam violência]. Memorial da Democracia, 13 de junho de 1980.
  10. a b c d «Sobrevivente da Operação Tarântula lembra perseguição a travestis: "Pânico"». CNN Brasil. 2 de março de 2023. Consultado em 5 de julho de 2025 
  11. «Espetáculo gratuito 'Tarântula Transita' recorda operação que perseguia pessoas trans e travestis em Presidente Prudente». G1. 8 de abril de 2025. Consultado em 5 de julho de 2025 
  12. a b c Nascimento, Rafael (27 de fevereiro de 2023). «Operação Tarântula: perseguição a trans e travestis completa 35 anos». Portal iG. Consultado em 5 de julho de 2025 
  13. «'Sobrevivi', diz vítima de operação da polícia de caça a travestis há 31 anos». Folha de S.Paulo. 17 de janeiro de 2018. Consultado em 5 de julho de 2025 
  14. Santos, Jessica (2 de março de 2021). «Neon Cunha, ativista trans: 'Lembro de gente morta com tiro na testa, com a cabeça debaixo de coturno de policial'». Ponte Jornalismo. Consultado em 5 de julho de 2025