Oiran

Oiran (花魁).
Oiran se preparando para um cliente, ukiyo-e pintura de Suzuki Haronubu (1765).

Oiran (花魁; "flor" + "líder") é uma categoria de mulher cortesã da alta classe no Japão, que surgiu no período Edo (1603-1868). Elas entretinham os clientes com serviços sexuais ou com as artes da dança, música, poesia e escrita. Esperava-se delas um juízo educado, considerado essencial para manter uma conversação sofisticada. Entre as oirans, as tayū (太夫 ou 大夫) eram consideradas as de posição social mais elevada e mais adequadas ao senhor das terras daimiô. Somente os clientes mais ricos e de posição mais alta podiam aproveitar de seus serviços.

No período Edo, as leis restringiram os bordéis a distritos murados a uma distância determinada do centro das cidades. Shimabara em Quioto, Shinmachi em Osaka e em Edo (atualmente Tóquio), Yoshiwara, sendo que as Oiran habitaram apenas a região de Yoshiwara.[1] Esses rapidamente cresceram e tornaram-se os próprios "quartéis do prazer”, oferecendo todas as formas de entretenimento. No estatuto das cortesãs não havia outra distinção senão a estrita hierarquia de acordo com a beleza, caráter e habilidades artísticas. Aspectos culturais da tradição continuam sendo preservados atualmente.

O isolamento nos distritos fechados manteve essas mulheres fora das mudanças sociais. A etiqueta estrita comandava os padrões apropriados de comportamento. Assim, o seu discurso e modo de falar permaneceram formais, não seguindo a língua comum. Um visitante casual não seria aceito. Os seus clientes formulavam um convite formal e a oiran passava pelas ruas em procissão ritualizada acompanhada de empregados.

Na tradição das oirans do primeiro período Edo, os trajes usados foram ficando cada vez mais ornados e complexos, culminando num estilo com oito ou mais alfinetes e pentes no cabelo, e muitas camadas de artigos de vestuário altamente ornamentados; da mesma forma, os entretenimentos oferecidos, também herdados das oirans das gerações anteriores.

A cultura tayu tornou-se cada vez mais exclusiva e afastada da vida diária, e os seus clientes diminuíram. A ascensão da gueixa pôs fim à era da oiran. A gueixa praticava os entretenimentos comuns preferidos pelo povo daquela época e era muito mais acessível ao visitante casual.

A última oiran foi registrada em 1761, e as poucas restantes, que atualmente ainda praticam as artes (sem o aspecto sexual), fazem isso para uma preservação da herança cultural, não como uma profissão ou estilo de vida.

Etimologia

A origem do termo oiran é incerta, possuindo várias teorias por trás. A mais popular é de que a palavra surgiria de um encurtamento da frase "oira no tokoro no onēsan" (おいらの所の姉さん; trad. nossa irmã mais velha), usada pelas kamuro para se referir a essas cortesãs.[2] Outra teoria, ainda, seria de que o termo teria origem na palavra arcaica oirakanari (おいらかなり), que pode ser traduzido como calmo, elegante, benevolente.[3]

Por outro lado, a informação por detrás da teoria mais popular não possui uma fonte certa, provindo mais provavelmente do volume 20 de Ruiju Kinsei Fuzokushi (類聚近世風俗志; trad. Crônicas de Costumes da Era Moderna Classificadas por Categorias) de Kitagawa Morisada, também conhecido como Morisada Manko (守貞謾稿; trad. Manuscrito de Morisada),[4] onde o autor adverte que seus registros são baseados em relatos orais. Além disso, Morisada usa apenas a fonética de oiran (おいらん), não indicando uma relação à época do som com os kanji atualmente associados.

Segundo o pesquisador Yasushi Oki,[5] a atribuição dos caracteres "花魁" à "oiran" (おいらん) originou-se do apelido da personagem Wang Meiniang, chamada de Hua kui niang zi (花魁娘子; trad. [cn] Dama primeira entre as flores). Esta personagem aparece no conto "O vendedor de óleo que possui a cortesã" (売油郎独占花魁), presente em uma coletânea de novelas compilada por Feng Menglong. Essa história chinesa teria sido adaptada em obras japonesas, que passaram a usar os símbolos de "hua kui" (花魁) como os kanji para a palavra "oiran".[6]

O pesquisador de história da língua japonesa Tsutomu Sugimoto sugere que "花魁" é um empréstimo linguístico do chinês moderno.[7]

Hierarquia

Tayū

Entre as oiran havia um nível hierárquico para cada cortesã. A herança familiar não dava suporte a nenhuma distinção especial entre elas, tampouco à experiência, mas sim ia conforme a sua beleza, caráter, educação nas artes e cultura.

O posto mais alto para uma oiran era tayū (太夫), a cortesã dos daimiô, e apenas os mais poderosos podiam esperar uma oportunidade para serem considerados um cliente regular. E, ao contrário de uma prostituta comum, a tayu tinha prestígio suficiente para recusar clientes. Devido a sua posição elevado, também fez com que sua taxa fosse extremamente alta, muito além do salário mensal de um trabalhador. Era comparável ao salário anual de um assistente de loja.

E em seguida vinham as 'sanchas' e as 'umechas' para os samurais e burgueses endinheirados, respectivamente. Mais abaixo estavam as 'zashikimochi' (literalmente "dona do piso") e as 'heyamochi' (dona do quarto).

Oiran e kamuro

Finalmente, no nível mais baixo estavam as yuujo (遊女) e depois as oiran que foram expulsas, as 'hashi'.

Uma aprendiz de oiran se chamava kamuro. Essas meninas, com cerca de 10 anos, eram vendidas por seus pais em troca de uma grande quantidade de dinheiro que deveriam devolver ao dono do bordel trabalhando como yuujo. Algumas delas eram filhas das próprias oiran. As oiran assinavam um contrato e, até o seu vencimento, permaneciam confinadas ao bairro. No Japão existia o tráfico de mulheres; os traficantes de escravas percorriam zonas rurais para vender as meninas como prostitutas, uma atividade proibida em 1959, data em que se declarou ilegal a prática.

O restante das mulheres adultas (banto shinzo) as acompanhava trabalhando como gestores. Normalmente eram mulheres que já haviam saído dessa profissão ou não eram atraentes o suficiente para exercê-la.

Serviços e atividades

Oiran da Era Meiji (1900)

As oirans eram cortesãs de alta classe, vendidas desde pequenas por seus pais a bordéis e treinadas para sua profissão com um treinamento muito rigoroso e severo em que nem todas serviam.

Uma oiran não era apenas uma simples prostituta instruída na arte do prazer sexual. Também fazia um serviço de entretenimento que incluía as artes da dança, música, caligrafia, poesia e conversação. Igualmente deveria possuir um nível intelectual suficiente para uma conversa sofisticada. Pode ser surpreendente, mas, em geral, os clientes queriam passar mais tempo com os entretenimentos artísticos que os sexuais.

Mas seu maior serviço era, principalmente, o sexual, para o qual se instruía na sedução, no prazer sexual, nas preliminares e na relação sexual. Diz-se que, assim que compradas, as oiran eram treinadas para ter grande agilidade e destreza para realizar todos os tipos de posições sexuais.

Além disso, as oirans eram conhecidas por sua extraordinária beleza, pois só se aceitavam as meninas mais bonitas. Ao crescerem, se sua beleza se deteriorava ou não florescia como esperado, as despachavam para tornarem-se uma simples prostituta vulgar, uma hashi.

Diferenças entre uma oiran e uma gueixa

Uso do obi para frente (Oiran)

Devido à similaridade na vestimenta, penteado e maquiagem das oiran e das gueixas, e que ambas as profissões requeriam uma forma sofisticada de ser, com a Segunda Guerra Mundial, as oiran, particularmente no onsen, querendo tirar proveito do prestígio das gueixas, se promoviam de tal forma ante os turistas estrangeiros.

No entanto, existem diferenças claras entre uma oiran e uma Geisha, não só na aparência, mas também nos serviços. Embora ambas cultivassem a arte da dança, música, caligrafia e conversação, as oiran eram prostitutas de luxo e seus serviços eram sexuais, enquanto as gueixas realizavam serviços puramente de entretenimento.

Uso do obi para trás (Gueixa)

Durante o período Edo, o meretrício era legalizado e as prostitutas, como as oiran, estavam autorizadas pelo governo. Em contrapartida, as gueixas eram estritamente proibidas se prostituírem e, oficialmente, não podiam ter relações sexuais com seus clientes. Deveriam ser solteiras e, caso decidissem se casar, teriam de deixar a profissão.

Fisicamente se distinguia uma oiran de uma gueixa por diferentes detalhes em suas indumentárias: a forma mais fácil era através do seu obi ("laço"). As oiran atavam seu obi para frente, enquanto as gueixas para trás. Os kimonos das oiran eram sempre de cores mais chamativas do que os das gueixas. As getas (calçados) das oiran eram muito mais altas do que as usadas pelas gueixas. E, por último, as oiran usavam penteados mais complexos e adornados do que as gueixas. Além disso, as oiran não usavam tabi (meia tradicional japonesa) ou meias.

Parada da cortesã

A Bunsui Sakura Matsuri Oiran Dōchū é um evento gratuito mantido em Tsubame e Niigata.

O Dōchū é uma forma encurtada de oiran-dōchū e, ao mesmo tempo, o nome da passeata que as cortesãs superiores fazem em volta do quarteirão, ou a parada que elas fazem para escoltar os seus hóspedes. Essas paradas têm 3 oirans em plena regalia - Shinano, Sakura e Bunsui, entre o florescer das cerejeiras em abril com aproximadamente 70 empregados de acompanhamento.

Cada oiran com sandálias altas de plataforma de 15cm dando um nome alternativo a parada, a Parada de Sonho de Echigo (Echigo no yume-dōchū ).

Oiran Dochu Procession em SUSUKINO

O evento é extremamente popular através do país, e mais de 100 pessoas por todos os lados do Japão solicitam 3 oirans e fazem papéis de empregado da parada.

  • No universo de Firefly criado por Joss Whedon, a fusão de culturas asiáticas e ocidentais leva à criação da casta 'de Companheiro', que carrega uma semelhança forte tanto à oiran como à hetaera.
  • Na minissérie de televisão Shogun, John Blackthorne (Anjin-san) é presenteado com uma oiran, como recompensa de seu serviço fiel ao Lord Toranaga.
  • A personagem de videogame Setsuka de Soul Calibur III é uma mistura de oiran e Rainha de Copas.
  • Uma oiran foi representada no filme Sakuran, de 2007, estrelando Anna Tsuchiya.
  • No mangá/anime Samurai X (Rurouni Kenshin), uma ex-oiran chamada Yumi era amante do principal antagonista, Shishio.
  • Também, no mangá e anime Pacificador Kurogane, se não trabalhando como um shinobi de Choshu, Akesato é uma oiran de primeira qualidade no distrito Shimabara.
  • No anime e mangá Kimetsu no Yaiba (Demon Slayer) aborda-se o termo oiran e os "distritos do entretenimento" na terceira temporada da série.

Ver também

Referências

  1. Fujita, Shinichi (27 de janeiro de 2006). «『京都・角屋の文化 ―学問の手伝えること―』» [A Cultura de Sumiya em Quioto: O que o Conhecimento Acadêmico pode Contribuir]. www.kansai-u.ac.jp (em japonês). Universidade de Kansai, Faculdade de Letras. Consultado em 19 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 21 de março de 2011. 花魁は、江戸の吉原にしかいません。吉原にも当初は太夫がいたのですが、揚屋が消滅したのにともなって、太夫もいなくなりました。その替わりに出てきたのが、花魁なのです。ですから、花魁は江戸吉原専用の語なのです。島原に存在しない名称を使用するのは、歴史的に明白な誤りです。ささいな誤解にみえますが、新聞の影響力は計り知れないもの、こういう無理解が、じつは差別を生み出す温床にもなってきたのです。 
  2. Keibun, Komatsu (2000). いろの辞典(改訂版) [Dicionário de Erotismo] (em japonês). Japão: 文芸社. 941 páginas. ISBN 4835514998 
  3. Umesao, Tadao, ed. (1992). 講談社カラー版日本語大辞典 Kōdansha karāban Nihongo daijiten [Grande Dicionário Etimológico do Japonês] (em japonês) 2ª ed. Tōkyō: Kōdansha. ISBN 978-4-06-121057-8 
  4. Morisada, Kitagawa. «守貞謾稿 巻20». dl.ndl.go.jp. National Diet Library Digital Collections (NDL). p. 28. Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  5. «OKI Yasushi – Institute for Advanced Studies on Asia» (em inglês). Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  6. Ōki, Yasushi (1995). 明末のはぐれ知識人-馮夢龍と蘇州文化 [Um intelectual heterodoxo no final da dinastia Ming: Feng Menglong e a cultura de Suzhou.] (em japonês). Tóquio: Kodansha: Kōdansha Sensho Metier. pp. 5–14. ISBN 4062580454 
  7. Sugimoto, Tsutomu (2005). 語源海 [Mar da Etimologia] (em japonês). Tóquio: Tóquio Shoseki. p. 129 

Ligações externas