Ofélia Queiroz
Ofélia Maria Queiroz[1] (Santos-o-Velho, Lisboa, 14 de Junho de 1900[2] – Pena, Lisboa, 18 de Julho de 1991) foi a única namorada conhecida de Fernando Pessoa.
Biografia
Ofélia Queiroz nasceu em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho, a 17 de Junho de 1900. Filha do barbeiro Francisco dos Santos Queiroz e de Maria de Jesus Queiroz, doméstica, ambos naturais de Lagos (freguesia de São Sebastião), era a mais nova de oito irmãos, uma das quais, Joaquina, foi sua madrinha de batismo.[3]
Concluiu o primeiro grau da instrução, embora desejasse ser professora de matemática. No entanto, procurou estar sempre actualizada, estudando Francês e Inglês. Gostava de ler, de ir ao teatro e de conviver. Passava muitas horas em casa do sobrinho, o poeta Carlos Queirós, a conviver com grandes artistas como Carlos Botelho, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Olavo d'Eça Leal, Teixeira de Pascoaes, José Régio e outros.
Namoro com Fernando Pessoa
Ofélia, no entanto, ficou célebre por ter sido a única namorada conhecida do poeta Fernando Pessoa. Este namoro é caracterizado por duas fases distintas. De 1 de Março a 29 de Novembro de 1920 e de 11 de Setembro de 1929 a 11 de Janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantivesse cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.
Esta relação é conhecida pelas cartas que ele lhe escreveu, 48 cartas publicadas em 1978 e precedidas de um texto explicativo da própria Ofélia (testemunho sóbrio e modesto mas muito precioso, dado que é tudo aquilo que tornou público), e pelas cartas dela para ele, só publicadas pela sua sobrinha em 1996, anos depois da morte de Ofélia (1991).
Além desta correspondência, apenas existem testemunhos isolados, demasiado vagos e escassos que recriem ou relembrem este amor. Nem mesmo dos familiares ou amigos mais próximos, porque foi uma relação levada com a máxima discrição e que nunca se oficializou. Além disso, quando o interesse pela vida privada do poeta se exaltou, já haviam passado muitos anos e as recordações tinham sido apagadas ou quem as tinha, simplesmente, tinha morrido. De qualquer maneira, foi o único amor conhecido nos 47 anos de vida do poeta; e a publicação em 1996 das cartas de Ofélia para Fernando (um total de 110 cartas, além de, no mínimo, mais uma dúzia, entre extraviadas, ilegíveis e as que a família censurou) lança luz em tantos aspectos sombrios e destrói o ponto de vista unidireccional (cartas dele para ela) que até então os seus biógrafos contemplavam, principalmente no que respeita à chamada "segunda fase", o período compreendido entre 1929 até quase à morte do poeta. Porém, desde aquela data de 1996, em que se dá a conhecer esse outro ponto de vista, poucos foram os que abordaram ou retomaram esta relação, e menos ainda os que têm valorizado devidamente a figura de Ofélia Queiroz.
A primeira fase durou poucos meses e foi marcada por uma paixão sincera. Começa quando Pessoa conhece a jovem, na altura com 19 anos, nos escritórios da Baixa lisboeta, onde ela entra para trabalhar como dactilógrafa e ele já exercia os seus serviços como tradutor de correspondência comercial. A relação é pura e doce. Pessoa trata-a como a uma criancinha. Todos os críticos e estudiosos estão de acordo na não inocência deste tom infantil. Ofélia entra no jogo da 'infantilidade perversa' e da dupla personalidade, recebendo e respondendo a cartas em que Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, a adverte de que este não deveria ser levado a sério. A mudança de Ofélia para o outro lado da cidade, a morte do padrasto e a volta da mãe para Lisboa, somadas ao estado dos nervos do poeta, que se reconhece muito doente, arrefecem o entusiasmo que impulsionava a relação e, em 29 de Novembro de 1920, uma lúcida e cruel mensagem encerra o namoro: "O amor passou... O meu destino pertence a outra Lei, cuja existência a Ophelinha ignora, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam..."

Nove anos depois aconteceu a retoma do namoro, agora usando igualmente o recurso da voz, pois já existiam telefones em Portugal. O reencontro foi motivado por uma fotografia do Poeta a beber no Abel Pereira da Fonseca, que tinha sido oferecida a Carlos Queirós, sobrinho de Ofélia e amigo de Pessoa. A jovem mostrou vontade de possuir uma igual e ele enviou-lhe uma foto assinada e com a legenda: "em flagrante delitro". A 11 de Setembro de 1929 iniciou-se a segunda série de cartas de amor. Nesta segunda fase, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e perturbação psíquica. O crítico David Mourão-Ferreira, que estudou as duas fases da correspondência amorosa, sugere que o fracasso desta relação de 1929-1930 se deveu à presença constante de Álvaro de Campos, consumando uma espécie de ménage à trois virtual.
Depois de Fernando Pessoa
Ofélia, depois da natural fase de perplexidade, seguiu a sua vida. A partir de 1936 e até 1955 trabalhou no Secretariado Nacional de Informação. Na Tobis Portuguesa, conheceu o teatrólogo Augusto Eduardo Soares (São Mamede, Lisboa, c. 1887 – São Sebastião da Pedreira, Lisboa, 6 de fevereiro de 1955), já divorciado de Maria Laura Boba desde 1937, filho de Eduardo Heliodoro Soares e de Romana da Conceição, doméstica, ambos naturais de Lisboa (ele também da freguesia de São Mamede e ela da freguesia da Lapa). Os dois casaram civilmente em Lisboa, a 28 de julho de 1938, quase três anos após a morte de Pessoa. Foi padrinho de casamento o cineasta António Lopes Ribeiro, representado no ato do casamento por Manuel Félix Ribeiro.[1]
Viveu os últimos anos da sua vida em Camarate.[4]
Faleceu a 18 de julho de 1991, aos 91 anos, na freguesia da Pena, em Lisboa, tendo sido inicialmente sepultada no Cemitério do Alto de São João, onde, durante anos, as suas ossadas permanecem em parte incerta.[3] Em 2016, após a descoberta do local onde estava sepultada, foi trasladada para um jazigo no Cemitério dos Prazeres.
Referências
- ↑ a b «Livro de registo de casamentos da 6.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1938-06-19 - 1938-09-03)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 61 e 61v, assento 261
- ↑ «Há um engano na data do meu registo de nascimento, onde consta dia 17, mas de facto nasci a 14.» Maria da Graça Queiroz. «O Fernando e Eu, relato da Exma. Senhora Dona Ofélia Queiroz» (PDF). Consultado em 8 de novembro de 2015
- ↑ a b «Livro de registo de batismos da paróquia de Santos-o-Velho - Lisboa (1901)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. 33v e 34, assento 105
- ↑ António Adérito Borges Lopes (2017). Uma Interpretação de Pessoa: Manual de um Ator (PDF) (Tese). Universidade do Algarve. Consultado em 31 de outubro de 2025
Bibliografia
- Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz – Correspondência amorosa completa. Apresentação: Richard Zenith. Editora Capivara, 2013.
- Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Edição de Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2012.
- Fotobiografias do Século XX - Fernando Pessoa, de Richard Zenith, Joaquim Vieira. Temas e Debates, 2009.
- Fernando Pessoa – Imagens de uma Vida, de Maria Manuela Nogueira. Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Reportagens
- TV Globo: g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/programa-completo/v/livro-traz-cartas-trocadas-entre-fernando-pessoa-e-ofelia-queiroz/2622847/
- TVI:
- www.tvi.iol.pt/videos/13895617
- www.tvi24.iol.pt/videos/video/13894650/1