Ocupação turca do norte da Síria

A ocupação turca do norte da Síria abrange os diversos territórios pertencentes à República Árabe da Síria que a Turquia vem invadindo desde o inicio da sua intervenção militar na Guerra Civil Síria. [1]

O avanço turco começou especificamente no noroeste da Síria,[2] consistindo em uma faixa de 30 quilômetros de largura ao longo da fronteira turco-síria e áreas ocupadas por diversas forças beligerantes no conflito armado.[3] Seu território está dividido entre as províncias de Alepo e Idlib. Para o governo turco, o principal objetivo da ocupação militar é impedir a implementação do modelo político e social da autoproclamada Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria, uma entidade criada pelo Comitê Supremo Curdo que busca sua autonomia em relação à Síria.[4]

Na perspectiva turca, os movimentos patrióticos curdos são terroristas, e a Turquia os combate da mesma forma que os remanescentes do Estado Islâmico.[5] Em seu território administrado, a Turquia permitiu que a Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias governasse; o Exército Nacional Sírio é responsável por fazer cumprir a autoridade da coalizão.[6] A Turquia pretende criar uma "zona tampão" para realocar 2 milhões dos 3,6 milhões de refugiados sírios atualmente na Anatólia.[7]

O Exército Livre da Síria, os separatistas curdos, alguns islamistas predominantemente árabes e o governo sírio de Bashar al-Assad consideram a ocupação uma tentativa da Turquia de anexar território sírio.[8] Os Estados Unidos, que mantêm diversas forças estacionadas no norte da Síria e são aliados tanto da Turquia quanto dos rebeldes curdos e não curdos, declararam que não interferirão nos assuntos de outros atores políticos naquela área do país.[9]

Essas áreas ocupadas pelas Forças Armadas Turcas e pelo Exército Nacional Sírio reconhecem nominalmente a Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias como o governo provisório legítimo de toda a Síria, constituindo, assim, um protoestado de facto.[10]

Situação política

Membros da Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias demonstrando seu apoio às forças de ocupação turcas em Afrin.

Embora a comunidade internacional considere o autodenominado "Cinturão de Segurança" como uma ocupação militar e a autoridade da Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias como uma administração militar,[8] alguns analistas também consideram apropriado designá-lo como um protoestado,[8] Estado fantoche,[10] ou protetorado,[11] visto que possui sua própria moeda,[8] títulos governamentais,[8] forças armadas (representadas pelo Exército Nacional Sírio e pela polícia local, cuja principal propaganda é a igualdade de gênero em suas fileiras),[12] um sistema judiciário,[13] políticas econômicas,[14] educacionais e até mesmo turísticas,[15] todas sob tutela turca.[8]

O território controlado pela Turquia na Síria abrange assentamentos, incluindo cidades como Afrin, al-Bab, Azaz, Dabiq, Jarabulus e Rajo.[16] A libra síria permaneceu como moeda oficial. No "Cinturão de Segurança" controlado pelos curdos,[8] foi substituída pela lira turca; os nomes sírios também foram alterados.[8]

Geografia

Áreas conquistadas pelas forças turcas no norte da Síria durante:

O território da região controlada pela Turquia situa-se inteiramente nas áreas do norte da província de Alepo, com o seu ponto mais meridional localizado a 40 quilômetros a nordeste da cidade de Alepo, a segunda maior cidade do país.[17] Em 26 de fevereiro de 2018, o território foi ligado à província de Idlib com a criação da Zona Desmilitarizada de Idlib.[17]

Após a Operação Ramo de Oliveira, o Exército Nacional Sírio e o Exército Turco expandiram a sua ocupação, capturando toda a área de Afrin.[18] Para além do seu distrito administrativo com o mesmo nome, o distrito inclui assentamentos estratégicos como Bulbul, Maabatli, Rajo, Jindires, Sharran e Shaykh al-Hadid. De acordo com o censo sírio de 2004, o distrito tinha uma população de 172.095 habitantes antes da guerra.[19]

A Turquia tem interesse em expandir a área ocupada, particularmente as cidades de Manbij e Arima, que estão sob o controle das Forças Democráticas Sírias, que por sua vez tomaram esses centros urbanos do Estado Islâmico.[20]

Ancara insiste que a zona tampão será estabelecida em uma faixa de 30 quilômetros ao longo da fronteira sírio-turca.[21]

Substituição forçada de habitantes

O governo turco implementou uma política de realocação forçada em todo o território, favorecendo árabes e turcos expulsos de outras províncias sob o controle de Bashar al-Assad.[22] Cidadãos curdos e yazidis foram forçados a deixar suas casas e migrar para territórios sob controle governamental ou para Rojava, em grande parte devido ao assédio discriminatório das autoridades de ocupação contra os habitantes, estabelecido antes da intervenção turca.[23] Alguns meios de comunicação internacionais descreveram essa ação da Turquia como limpeza étnica.[24]

Em outubro de 2019, os Estados Unidos retiraram suas forças do norte da Síria, declarando que não interfeririam em uma iminente operação turca na área.[25] Após a declaração estadunidense, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, ameaçou reassentar dois dos 3,6 milhões de refugiados sírios que vivem na Turquia.[26]

Referências

  1. Skirmishes Mar Fight Against IS in Northern Syria. voanews. Publicado em 2 de março de 2017.
  2. Trump's 'real estate' approach to safe zones in Syria. aljazeera.com. Publicado em 31 de janeiro de 2017.
  3. Safe zone 'crucial for Turkmen in Syria'. Anadolu Ajansı. Publicado em 25 de julho de 2015.
  4. Turkey's troops cross over into Syria's Afrin. aljazeera.com. Publicado em 21 de janeiro de 2018.
  5. Has the International Community Succeeded in Creating a Safe Zone in Syria After Years of War?. Atlantic Council. Publicado em 17 de abril de 2017.
  6. Russia-backed Syrian forces enter key city Manbij in northern Syria. Deutsche Welle. Publicado em 16 de outubro de 2019.
  7. «EE.UU. retira a sus fuerzas y deja vía libre a Turquía para atacar a los kurdos del norte de Siria». RTVE. 7 de outubro de 2019 
  8. a b c d e f g h From Afrin to Jarabulus: A small replica of Turkey in the north. Enab Baladi . Publicado em 29 de agosto de 2018.
  9. «EU retira tropas de Siria antes de ofensiva de Turquía». El Economista. 7 de outubro de 2019 
  10. a b Syria's new national security force pledges loyalty to Turkey. Al-Monitor. Publicado em 25 de julho de 2017.
  11. Turkey attacks Northern Syria: for a revolutionary fightback!. Publicado em 10 de outubro de 2019.
  12. Women join opposition police forces in Aleppo’s liberated areas. Al-Monitor. Publicado em 1 de dezembro de 2017.
  13. How Turkey Is Governing in Northern Aleppo. newsdeeply.com. Publicado em 20 de julho de 2017.
  14. What’s next for post-Islamic State Syria? A month-long reporting series from Syria Direct. Arquivado em 17 de abril de 2019, no Wayback Machine. Publicado em 29 de julho de 2018.
  15. Day trippers flock to Afrin’s orchards as Aleppo restores security. Al-Monitor. Publicado em 26 de julho de 2018.
  16. Turkey's Syria offensive explained in four maps. bbc.com. Publicado em 14 de outubro de 2019.
  17. a b Turkey reconnects opposition-held areas in northern Syria. Hürriyet Daily News. Publicado em 27 de fevereiro de 2018.
  18. Turkey takes full control of Syria's Afrin region, reports say. Middle East Eye. Publicado em 24 de março de 2018.
  19. General Census of Population and Housing 2004.
  20. Turkey says will take action if militants do not leave Syria's Manbij. Reuters. Publicado em 28 de março de 2018.
  21. Regan, Helen (7 de outubro de 2019). «Turquía enviará soldados al norte de Siria cuando Estados Unidos se retire del área, anuncia la Casa Blanca». CNN 
  22. The international community must stop Turkey’s ethnic cleansing plans in northern Syria. washingtonpost.com. Publicado em 11 de outubro de 2019.
  23. “You have sold us”: Kurdish leader in Syria accuses US of abandoning allies. Quartz. Publicado em 12 de outubro de 2019.
  24. Thousands protest in Europe against Turkey's Syria offensive. France 24. Publicado em 13 de outubro de 2019.
  25. «EU retira tropas de Siria antes de ofensiva de Turquía». El Economista. 7 de outubro de 2019 
  26. «EE.UU. retira a sus fuerzas y deja vía libre a Turquía para atacar a los kurdos del norte de Siria». RTVE. 7 de outubro de 2019