O harém na arte ocidental

Uma recém-chegada de Giulio Rosati, cena na qual os eunucos inspeccionam uma nova mulher no harém
A escolha da favorita de Giulio Rosati

Uma visão imaginária do harém surgiu no Ocidente a partir do século XVII, quando os europeus se aperceberam de que os haréns muçulmanos albergavam numerosas mulheres. A instituição da poligamia islâmica e, em particular, o harém, que estava protegido de olhares indiscretos, exerceu uma forte fascinação na Europa cristã nos séculos XVIII e XIX.

Em contraste com as opiniões europeias medievais, que concebiam as mulheres muçulmanas como vítimas mas poderosas através dos seus feitiços e enganos, durante a era do colonialismo europeu o "harém imaginário" chegou a representar o que os eruditos orientalistas viam como um estado subjugado e humilhado da mulher na civilização islâmica. Estas noções serviam para apresentar o Ocidente como culturalmente superior e justificar a empresa colonial.[1]

Sob a influência de As Mil e Uma Noites, o harém foi frequentemente concebido como um bordel pessoal, onde numerosas mulheres se refastelavam em poses sugestivas, dirigindo a sua sexualidade forte mas oprimida para um único homem, numa forma de "luxúria competitiva".[2][1]

Os banhos do harém de Jean-Léon Gérôme.
Odalisca com Escrava, pintura de Ingres (1840), conservada no Museu Walters de Baltimore. A obra exemplifica a representação idealizada e erótica do harém no século XIX.

A representação de cenas de harém foi um tema popular na pintura orientalista. Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), Jean-Léon Gérôme (1824-1904) e Fernand Cormon (1845-1924), por exemplo, pintaram fantasias com matizes eróticos nas quais o harém era habitado por odaliscas, na sua maioria nuas, que esperavam ser escolhidas pelo seu senhor.

Estas pinturas orientalistas reflectiam a visão erotizada do Islão na Europa, com o luxo, o lazer e a luxúria como motivos comuns.[3] Estas imagens constituíam a "geografia imaginativa" descrita em Orientalismo de Edward Said.[4]

Havia uma prevalência da nudez nas cenas de banho e a representação da poligamia com várias mulheres e, geralmente, um único homem nas pinturas.[5] As mulheres nestas pinturas eram frequentemente retratadas com pele clara, enquanto os homens eram muitas vezes pintados com peles mais escuras.[6]

Em contraste, artistas otomanos como Abdülcelil Çelebi Levni, Buharî ou Enderûnlu Fâzıl pintaram cenas de harém realistas, nas quais os seus residentes se mostram em situações quotidianas e vestidas.[7] Assim mesmo, retratos de mulheres notáveis do harém imperial eram menos sexualizados e muitos deles eram semelhantes aos retratos tradicionais europeus nas suas vestimentas e traços físicos. Os retratos do artista italiano Ticiano de Hurrem Sultan e da sua filha Mihrimah Sultan são extremamente semelhantes ao seu popular Retrato de uma Dama, sendo a única diferença notável o toucado otomano. Dos artistas que ilustraram o harém imperial otomano, muito poucos visitaram o império e todos eram homens, pelo que é muito possível que estas representações não fossem nem precisas nem autênticas.[4]

Temas na Cultura Ocidental

Um tema centenário na cultura ocidental é a representação de mulheres europeias que eram levadas à força para haréns orientais, como se evidencia, por exemplo, na ópera O Rapto do Serralho de Mozart, que trata da tentativa de resgate do herói Belmonte da sua amada Constança do serralho/harém do Paxá Selim, ou no Cândido de Voltaire, no capítulo 12, no qual a mulher idosa relata as experiências que teve após ser vendida em haréns ao longo do Império Otomano.

Grande parte da ópera Il corsaro de Verdi tem lugar no harém do Paxá Seid, onde Gulnara, a favorita do Paxá, se cansa da vida no harém e anseia pela liberdade e pelo amor verdadeiro. Finalmente, apaixona-se pelo corsário invasor Corrado, assassina o Paxá e escapa com o corsário, apenas para descobrir que este ama outra mulher.

The Lustful Turk (O Turco Lustroso), uma conhecida novela erótica britânica de 1828, também se baseou no tema das mulheres ocidentais que são obrigadas à escravatura sexual no harém dos Deys de Argel, enquanto em A Night in a Moorish Harem (Uma Noite num Harém Mouro), de 1896, um ocidental é convidado para um harém e tem sexo proibido com nove concubinas. Em ambas as obras, o tema de "Ocidente vs. Oriente" está claramente entrelaçado com os temas sexuais.

A novela O Árabe e o filme nela baseado (The Sheik), uma produção de Hollywood de 1921, são controversos e provavelmente as obras mais conhecidas criadas com recurso a este motivo.[8] Durante décadas surgiram muitas críticas a estas obras sobre os seus elementos fortemente orientalistas e colonialistas, e em particular contra ideias relacionadas com a trama central da violação, segundo a qual a submissão sexual seria uma condição natural feminina, e o amor interracial entre uma inglesa e um árabe é evitado, enquanto a violação se justifica quando o violador acaba por ser europeu em vez de árabe.[9][10]

Angelique and the Sultan, parte da série de novelas históricas Angélique de Anne e Serge Golon (convertida em filme em 1968), aborda o tema de uma mulher nobre francesa do século XVII capturada por piratas e levada para o harém do rei de Marrocos. Ela esfaqueia o Rei com a sua própria adaga quando este tenta ter relações sexuais com ela e organiza uma fuga ousada.

O escritor russo Leonid Solovyov, adaptando contos populares de Nasreddin no seu livro Возмутитель спокойствия (O Mendigo no Harém), adicionou o tema da amada de Nasreddin levada para o harém do Emir de Bucara e os esforços do protagonista para a resgatar, um tema ausente nos contos populares originais.

Um Estudo em Vermelho, o primeiro mistério de Sherlock Holmes de Conan Doyle, aplica estas convenções ao fenómeno do casamento polígamo mórmon. Nos dias do assentamento mórmon no Utah, a amada do protagonista é raptada e colocada contra a sua vontade no harém de um ancião mórmon, onde morre. O protagonista empenha-se em vingar-se, o que constitui o pano de fundo do mistério resolvido por Holmes.

Em The War in the Air de H.G. Wells, a civilização colapsa devido a uma guerra global. Quando Inglaterra regressa à barbárie, um senhor local apodera-se de uma cidade e começa a obrigar as mulheres jovens a ingressar num harém que está a construir. O protagonista deve lutar e matá-lo para evitar que a sua noiva seja incluída.

Galeria de Imagens

Representações de um harém em desenho, pintura e fotografia, por diversos artistas ocidentais.

Ver também

Referências

  1. a b Anwar, Etin (2004). «Harem». In: Richard C. Martin. Encyclopedia of Islam and the Muslim World. MacMillan Reference USA 
  2. Cartwright-Jones, Catherine (2013). «Harem». The Oxford Encyclopedia of Islam and Women. Oxford: Oxford University Press. ISBN 9780199764464. (pede subscrição (ajuda)) 
  3. Alloula, Malek (1986). The Colonial Harem New ed. Minneapolis: University of Minnesota Press. ISBN 978-0-8166-1383-0. doi:10.5749/j.ctttth83 
  4. a b Orientalism. Nova Iorque: Random House. 1978. 63 páginas. ISBN 978-0-394-42814-7 
  5. «Before the Odalisque: Renaissance Representations of Elite Ottoman Women». Journal of Women’s History. 6: 1–41. 2011. ISSN 1933-0065 
  6. [[ligação suspeita eliminada] «The harem fantasy in nineteenth-century Orientalist paintings»] Verifique valor |url= (ajuda). 39 (1). 2015. pp. 33–46. ISSN 0304-4092. doi:10.1007/s10624-015-9372-7 
  7. Fariba Zarinebaf-Shahr. In: Jonathan Dewald (ed.): Europe, 1450 to 1789; Encyclopedia of the Early Modern World. Charles Scribner's Sons, New York 2004, Vol. 3, p. 132.
  8. "The Sheik". University of Pennsylvania Press website. Consultado a 20 de outubro de 2015.
  9. «Sheiks & Terrorists - Reclaiming Identity: Dismantling Arab Stereotypes». Consultado em 7 de julho de 2021 
  10. J., Dajani, Najat Z. (1 Janeiro de 2000). «Arabs in Hollywood : Orientalism in film». doi:10.14288/1.0099552