Nicolaus Steno

Nicolaus Steno
Beato da Igreja Católica
Vigário Apostólico das Missões Nórdicas
Info/Prelado da Igreja Católica
Retrato de Nicolaus como bispo

Título

Bispo titular de Titiópolis
Atividade eclesiástica
Diocese Vicariato Apostólico das Missões Nórdicas
Nomeação 13 de setembro de 1677
Predecessor Valerio Maccioni
Sucessor Friedrich von Tietzen-Schlütter
Mandato 1677-1686
Ordenação e nomeação
Ordenação presbiteral 13 de abril de 1675
Nomeação episcopal 13 de setembro de 1677
Ordenação episcopal 19 de setembro de 1677
por Gregório Cardeal Barbarigo
Brasão episcopal
Santificação
Beatificação 23 de outubro de 1988
Roma
por Papa João Paulo II
Veneração por Igreja Católica
Festa litúrgica 5 de dezembro
Dados pessoais
Nascimento Copenhaga, Dinamarca
11 de janeiro de 1638
Morte Schwerin, Ducado de Mecklemburgo-Schwerin
5 de dezembro de 1686 (48 anos)
Funções exercidas - Bispo auxiliar de Münster (1680-1963)
dados em catholic-hierarchy.org
Categoria:Igreja Católica
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

Nicolaus Steno (do dinamarquês: Niels Steensen ou Niels Stensen; latinizado como Nicolaus Stenonis, por vezes referido como Nicolas Steno;[1] Copenhaga, 11 de janeiro de 1638Schwerin, 5 de dezembro de 1686) foi um cientista dinamarquês, pioneiro nos campos da anatomia e da geologia e bispo católico nos seus últimos anos de vida. Foi beatificado pelo papa João Paulo II em 1988.[2]

Steno foi treinado nos textos clássicos da ciência; no entanto, em 1659 ele questionou seriamente o conhecimento aceito do mundo natural.[3] Suas investigações e conclusões subsequentes sobre fósseis e formação rochosa levaram os estudiosos a considerá-lo um dos fundadores da estratigrafia moderna e da geologia moderna.[4][5]

Biografia

Steno nasceu em Copenhaga e foi batizado luterano. Filho de um rico ourives, frequentou a Escola Latina, na época, a escola mais prestigiosa do país, onde evidenciou grande interesse por ciências naturais e línguas estrangeiras. Dominou perfeitamente oito idiomas, incluindo o alemão.

A partir de 1656, Steno estudou medicina e anatomia em Copenhague e na renomada faculdade de medicina de Leiden. Conquistou fama devido às viagens de estudo e palestras por toda a Europa. Ele se destacou principalmente por seu pensamento revolucionário, questionando doutrinas estabelecidas. Por exemplo, publicou o livro De Musculis et Glandulis Observationum Specimen (Observações sobre Músculos e Glândulas), no qual foi o primeiro a demonstrar que o coração é um músculo responsável pela circulação sanguínea.[6]

Recém-formado em medicina, viajou pela Itália em 1666 e finalmente chegou a Florença. Lá, tornou-se médico pessoal do Grão-Duque Fernando II de' Medici e trabalhou no Hospital de Santa Maria Novella. Graças ao apoio financeiro e moral dos Medici, Steno alcançou novas conquistas científicas. Em seus estudos anatômicos, foi o primeiro a demonstrar que as mulheres possuem um ovário como órgão sexual. Na época, a opinião predominante era de que as mulheres, assim como os homens, tinham testículos atrofiados ou subdesenvolvidos.[6]

Steno e a geologia

Em outubro de 1666, dois pescadores capturaram um enorme tubarão, próximo da cidade de Livorno e o grão-duque Fernando mandou enviar a cabeça do animal a Steno. Este dissecou-a e publicou as suas descobertas em 1667. O exame dos dentes do tubarão mostrou que estes eram muito semelhantes a certos objectos chamados glossopetrae, ou pedras língua, encontrados em algumas rochas. Os autores antigos, como Plínio, o Velho, haviam sugerido que estas pedras haviam caído do céu ou da Lua. Outros eram da opinião, também ela antiga, de que os fósseis cresciam naturalmente nas rochas. Um contemporâneo de Steno, Athanasius Kircher, por exemplo, atribuía a existência de fósseis a uma virtude lapidificante dispersa por todo o corpo do geocosmo.

Por seu lado, Steno argumentou que os glossopetrae pareciam-se com dentes de tubarão, porque eram dentes de tubarão, provenientes das bocas de antigos tubarões, que haviam sido enterrados em lodo e areia que eram agora terra seca. Existiam diferenças de composição entre os glossopetrae e os dentes dos tubarões actuais, mas Steno argumentou que os fósseis podiam ter a sua composição química alterada sem que a sua forma se alterasse, através da teoria corpuscular da matéria.

O trabalho de Steno sobre os dentes de tubarão levou-o a questionar-se sobre a forma como um objecto sólido poderia ser encontrado dentro de outro objecto sólido, como rocha ou uma camada rochosa. Os "corpos sólidos dentro de sólidos" que atraíram o interesse de Steno incluíam não apenas fósseis como hoje os definimos, mas também minerais, cristais, incrustações, veios, e mesmo camadas completas de rocha ou estratos. Os seus estudos geológicos foram publicados na obra Discurso prévio a uma dissertação sobre um corpo sólido contido naturalmente num sólido em 1669. Este trabalho seria aprofundado em 1772 por Jean-Baptiste Romé de l’Isle.

Elementorum myologiae specimen, 1669

Steno não foi o primeiro a identificar os fósseis como sendo de organismos vivos. Os seus contemporâneos Robert Hooke e John Ray também defenderam este ponto de vista.

A Steno atribui-se definição da lei de sobreposição, e dos princípios de horizontalidade original, continuidade lateral: os três princípios básicos da estratigrafia.[7]

Outro princípio, conhecido simplesmente por lei de Steno, diz que os ângulos entre faces correspondentes em cristais da mesma substância são os mesmos para todos os exemplares desta.[8]

Em 1668, foi admitido na Accademia della Crusca em Florença.[9]

Steno e a Religião

O seu modo de pensar era também importante no modo como via a religião. Criado na fé luterana, ainda assim não deixou de questionar os ensinamentos que recebeu, algo que se tornou importante quando contactou o catolicismo enquanto estudava em Florença. Após estudos teológicos, decidiu que a Igreja Católica e não a Igreja Luterana era a autêntica igreja.

Uma freira que administrava a farmácia do hospital florentino foi uma figura particularmente influente em sua vida. Stensen viajou a Roma duas vezes como peregrino.[6] Ele se converteu ao catolicismo em 7 de novembro de 1667.[10]

A sua conversão fez com que, gradualmente, Steno pusesse de lado os seus estudos científicos. Embora alguns possam sugerir nisso uma incompatibilidade entre ciência e fé, era mais uma questão pessoal de Steno, que não conseguia se dedicar em duas coisas distintas ao mesmo tempo.[11]

Em 1672, trabalhou brevemente como anatomista na casa real dinamarquesa, mas retornou a Florença dois anos depois devido a divergências denominacionais.[6] No início de 1675, Steno decidiu continuar seus estudos teológicos, que havia começado antes mesmo de sua conversão, visando sua ordenação ao sacerdócio.[12] Após apenas 4 meses, ele foi ordenado sacerdote e celebrou sua primeira missa em 13 de abril de 1675 na Basílica da Santíssima Anunciação em Florença, aos 37 anos.[12][13][10] Kircher perguntou expressamente quais eram os motivos que o levaram a se tornar sacerdote.[12] Steensen havia abandonado as ciências naturais para se dedicar à educação e à teologia, tornando-se uma das figuras de proa da Contrarreforma.[14] A pedido do Duque João Frederico de Hanover, o Papa Inocêncio XI nomeou-o Vigário Apostólico para as Missões Nórdicas em 21 de agosto de 1677.[10][15] Foi consagrado bispo titular de Titiópolis em 19 de setembro pelo Cardeal Gregorio Barbarigo, auxiliado pelos bispos Pier Antonio Capobianco, Emérito de Lacedonia, e François Pallu, MEP, Vigário Apostólico de Tonquim.[10] Assim, mudou-se para o Norte Luterano.[10][15]

O Vicariato Apostólico havia sido estabelecido após o declínio da maioria das dioceses católicas no norte da Alemanha e na Escandinávia, como resultado da Reforma Protestante, e consolidou seus territórios. Ele tornou-se ativo na diáspora, mediando com sucesso entre as denominações como diplomata e realizando trabalho missionário.[6]

No ano seguinte à sua nomeação como bispo, ele provavelmente esteve envolvido na proibição de publicações de Baruch Espinoza.[16] Lá, ele conversou com Gottfried Leibniz, o bibliotecário; os dois discutiram sobre Spinoza e sua carta a Albert Burgh, então aluno de Steno.[17]

Após a morte de João Frederico, o Príncipe-Bispo de Paderborn, Ferdinand von Fürstenberg, nomeou-o Bispo Auxiliar de Münster (Igreja de São Liudger) em 7 de outubro de 1680, saindo assim de Hanover. Steno continuou zelosamente o trabalho de contrarreforma iniciado por Bernhard von Galen.[13] Ele viveu uma vida estritamente ascética. Sua exigência por um estilo de vida simples o colocou cada vez mais em conflito com o alto clero, frequentemente de origem nobre.[6]

Morte

Em 1683, Steno renunciou ao cargo de bispo auxiliar[10] após criticar publicamente o suborno relacionado à eleição do bispo de Münster.[6] Foi para Hamburgo, onde voltou a se envolver no estudo do cérebro e do sistema nervoso com um antigo amigo, Dirck Kerckring.[18] O bispo foi convidado para Schwerin, quando ficou claro que não seria aceito em Hamburgo. Steno se vestia como um homem pobre, com uma capa velha. Ele andava em uma carruagem aberta na neve e na chuva. Vivendo quatro dias por semana à base de pão e cerveja, ele ficou extremamente magro. Quando ele cumpriu sua missão, após alguns anos de tarefas difíceis, quis voltar para a Itália.

Antes que pudesse retornar, Steno adoeceu gravemente, com a barriga inchando dia após dia. Faleceu na Alemanha, após muito sofrimento. Seu corpo foi enviado para Florença por Kerckring a pedido de Cosme III de Médici e sepultado na Basílica de San Lorenzo, perto de seus protetores.[13]

Culto

Steno caiu gradualmente no esquecimento após sua morte. Três séculos depois, o então Administrador Apostólico de Schwerin, Bispo Heinrich Theissing, buscou mudar essa situação,[6] avaliando a piedade e a virtude de Steno com vistas a uma eventual canonização. Seu processo de canonização foi iniciado em Osnabrück em 1938.[13] Em 1953, seu túmulo na cripta da igreja de San Lorenzo foi aberto como parte do processo de beatificação.[19] Seu corpo foi transferido para um sarcófago cristão do século IV encontrado no rio Arno, doado pelo Estado italiano. Seus restos mortais foram colocados em uma capela lateral da igreja que recebeu o nome de "Capella Stenoniana".[13][19]

Em 23 de outubro de 1988, foi beatificado pelo papa João Paulo II.[20] Devido ao seu trabalho benéfico na diáspora, ele é venerado principalmente no norte da Alemanha. Igrejas, mosteiros, escolas, instituições educacionais católicas e hospitais levam seu nome. As (arqui)dioceses de Hamburgo, Paderborn, Münster, Osnabrück e Hildesheim comemoram Niels Stensen em 25 de novembro, aniversário de sua morte segundo o antigo calendário juliano. A festa litúrgica geral é celebrada em 5 de dezembro.[6]

Também é homenageado com seu nome em uma cratera lunar[21] e em uma cratera marciana.[22]

Em janeiro de 2023, uma relíquia óssea de Stensen foi roubada da Catedral de Osnabrück.[23]

Obras

  • De Musculis et Glandulis Observationum Specimen (1664)
  • Elementorum Myologiae Specimen (1667)
  • Discours sul l'anatomie du cerveau (1669)
  • De solido intra solidum naturaliter contento dissertationis prodromus (1669)

Referências

  1. O doodle do motor de buscas Google homenageou-o em 11 de janeiro de 2012, adotando para tal o nome Nicolas Steno.
  2. Office Of Papal Liturgical Celebrations. «Beatifications By Pope John Paul II, 1979-2000». Holy See. Consultado em 11 de janeiro de 2012 
  3. DBNL. «Inhoudsopgave van De doodskunstenaar, Luuc Kooijmans». DBNL (em neerlandês). Consultado em 31 de outubro de 2025 
  4. Jackson, Patrick Wyse; London, Geological Society of (2007). Four Centuries of Geological Travel: The Search for Knowledge on Foot, Bicycle, Sledge and Camel (em inglês). [S.l.]: Geological Society of London. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  5. Woods, Thomas E. (2005). How the Catholic Church built Western civilization. Georgetown University Law Library. [S.l.]: Washington, DC : Regnery Pub. ; Lanham, MD : Distributed to the trade by National Book Network. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  6. a b c d e f g h i Glenz, Tobias. «Vom Universalgelehrten zum Bischof und Seligen». www.katholisch.de (em alemão). Consultado em 31 de outubro de 2025 
  7. «Geologe Nicolas Steno: Der Mann, der die Schrift der Erde entzifferte». Der Spiegel (em alemão). 11 de janeiro de 2012. ISSN 2195-1349. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  8. «Steno's law | Crystallography, Geology, Sedimentation | Britannica». www.britannica.com (em inglês). Consultado em 31 de outubro de 2025 
  9. «Catalogo degli Accademici - Accademia della Crusca». www.accademicidellacrusca.org. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  10. a b c d e f «Bishop Bl. Niels Stensen [Catholic-Hierarchy]». www.catholic-hierarchy.org. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  11. Campos, Marcio Antonio (28 de maio de 2009). «O bispo que abriu a ostra do mundo». www.gazetadopovo.com.br. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  12. a b c Kraus, Max-Joseph (2011). Niels Stensen in Leiden (em alemão). [S.l.]: GRIN Verlag. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  13. a b c d e Scherz, G. (2003). «New catholic encyclopedia». Detroit: Thomson Gale. Catholic University of America. 13: 508–509. ISBN 978-0-7876-4017-0 
  14. Steno, Nicolaus; Winter, John Garrett (1916). The prodromus of Nicolaus Steno's dissertation concerning a solid body enclosed by process of nature within a solid; an English version with an introduction and explanatory notes. Cornell University Library. [S.l.]: New York, The Macmillan company; London, Macmillan and company, limited. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  15. a b Miniati, Stefano (17 de novembro de 2009). Nicholas Steno's challenge for Truth. Reconciling science and faith: Reconciling science and faith (em inglês). [S.l.]: FrancoAngeli. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  16. Israel, Jonathan I. (2002). Radical enlightenment: philosophy and the making of modernity 1650-1750 1. publ. in paperback ed. Oxford New York: Oxford Univ. Press. ISBN 978-0-19-925456-9 
  17. Fredric L. Rice, Organized Crime Civilian Response. «Xref: taco alt.atheism:10074 talk.religion.misc:39170 Subject: How the arguments went in 1». www.skepticfiles.org. Consultado em 30 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 7 de novembro de 2013 
  18. Perrini, Paolo; Lanzino, Giuseppe; Parenti, Giuliano Francesco (julho de 2010). «Niels Stensen (1638–1686): Scientist, Neuroanatomist, and Saint». Neurosurgery (em inglês) (1): 3–9. ISSN 0148-396X. doi:10.1227/01.NEU.0000370248.80291.C5. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  19. a b Ascani, Karen; Kermit, Hans; Skytte, Gunver (2002). Niccolo Stenone (1638-1686) Anatomista, Geologo, Vescovo. Conf Proceedings Held 2000 Oct (em inglês). [S.l.]: L'ERMA di BRETSCHNEIDER. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  20. «23 ottobre 1988, Beatificazione dello scienziato danese Niels Stensen nella Basilica Vaticana». www.vatican.va (em italiano). Consultado em 30 de outubro de 2025 
  21. «Planetary Names». planetarynames.wr.usgs.gov. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  22. «Planetary Names». planetarynames.wr.usgs.gov. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  23. «Reliquien-Gefäß aus Osnabrücker Dom gestohlen». domradio.de (em alemão). 23 de janeiro de 2023. Consultado em 31 de outubro de 2025 

Ligações externas