Nicolau da Maia Azevedo

Nicolau da Maia Azevedo
Presbítero da Igreja Católica
Info/Prelado da Igreja Católica
Padre Nicolau da Maia de Azevedo, representado por gravura no jornal O Occidente (N.º 106)
Atividade eclesiástica
Diocese Lisboa
Serviço pastoral Igreja Paroquial de S. Mamede
Ordenação e nomeação
Dados pessoais
Nascimento Lisboa
29 de agosto de 1591
Morte depois de 1643
Nacionalidade português
Residência Lisboa
Progenitores Mãe: Antónia Francisca Figueira
Pai: João Rodrigues da Maia
Categoria:Igreja Católica
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

Nicolau da Maia Azevedo (Lisboa, 29 de agosto de 1591[1][2] – ?, depois de 1643[3]) foi um clérigo português, pároco da igreja de São Mamede, como figura proeminente dos Conjurados uma das principais figuras do levantamento no dia da Restauração da Independência, sendo cruciferário da Procissão do Milagre do Crucifixo, na manhã do 1.º de Dezembro.[4] Atribui-se-lhe a autoria de Relação de tudo o que passou na felice aclamação de El-Rei D. João IV (1641)[5] e Rosário das Almas do Purgatório (1643).[6][7][8][9]

Biografia

Início de Vida

Nicolau da Maia Azevedo nasceu em Lisboa, na freguesia e paróquia de São Mamede, a 29 de agosto de 1591.[10][2] Era filho de João Rodrigues da Maia e de Antónia Francisca Figueira.[11][12] Por volta de 1615, é licenciado, e ordenado presbítero.[nota 1]

Posteriormente, é lhe dada a dirigir a antiga paróquia de S. Mamede, em Lisboa.[1][4]

Reuniões com os Conjurados

A partir de 1638, passa a estar diretamente envolvido nas reuniões clandestinas dos Conjurados, fazendo parte deste grupo, de forma enérgica e comprometida.[13][14][15][16]

Durante a escolha de quem encabeçaria o golpe, e seria aclamado Rei de Portugal, durante um período breve de tempo, equacionou-se Duarte de Bragança, como alternativa ao seu irmão, o próprio D. João, Duque de Bragança (futuro rei D. João IV), que se afigurava reticente ao golpe. A tarefa de trazer D. Duarte (então na Alemanha a prestar serviço na Guerra dos Trinta Anos) para Portugal,[17] estaria a cargo do próprio Nicolau da Maia.[13][18] Durante a preparação do 1.º de Dezembro, Nicolau da Maia era um elo de ligação entre os nobres conjurados e a população. Sendo imprescindível o apoio popular e a aclamação de um novo rei de Portugal, foi escolhido pela sua aproximação com as classes populares.[13]

Dias antes do golpe, Nicolau da Maia deu conhecimento da preparação de um golpe aos juízes do Povo, aos escrivães, aos vinte-quatros e aos misteres, e a muitos oficiais de confiança.[13][1]

Porém, com o exemplo do mau sucesso da Revolta do Manuelinho, em Évora, muitos dos conjurados temiam represálias por parte de Castela aos nobres portugueses, caso o golpe falhasse. Foi, portanto, o padre Nicolau que garantiu a todos, em reunião em casa de D. Antão de Almada, que o povo estaria com eles, e que os apoiaria no dia da insurreição, desde que os conjurados mantivessem a sua palavra de comprometimento com a causa restauracionista, e que encabeçassem a revolta.[13][19]

Dia da Restauração da Independência

A planificação do golpe estaria, então, dividida em várias componentes. Primeiramente, pelas 9 da manhã, seria dado um sinal sonoro (através do disparo de uma arma de fogo) de modo a iniciar a revolta. Os nobres conjurados, localizados no Paço da Ribeira e na área circundante teriam, então, a tarefa de ocupar o Paço da Ribeira, neutralizar as duas companhias de soldados espanhóis lá presentes, aclamar o duque de Bragança como rei, atrair a população e defenestrar o odiado Miguel de Vasconcelos. O padre Nicolau da Maia estaria, portanto, incumbido de espalhar a mensagem pela população, e trazer o Arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, juntamente com a população para o Paço.[12][13][19]

Representação do padre em combate contra forças castelhanas, no dia 1.º de Dezembro, presente no periódico "o Occidente"

Pelas 8 horas, começa a juntar-se um contingente de fidalgos portugueses, nos seus coches e população perto do Paço da Ribeira, muitos deles chamados pelo padre Nicolau. Bateram, finalmente, as nove horas. De súbito, abrem-se as portinholas dos coches, com os fidalgos armados. Seguem-nos de perto outros conjurados, e sobem as escadas do paço. Jorge de Melo com seu primo Estevão da Cunha, António de Melo e Castro, muitos nobres, e os populares convocados por Nicolau da Maia, aguardam impacientes, que um tiro da pistola, disparado do palácio, que lhes dê o sinal de travarem também a luta.[13]

Assim que a mesma é dada, rapidamente os Conjurados atacam os guardas do Paço, juntamente com um assalto ao Paço da Ribeira, de modo a entrar no gabinete de Miguel de Vasconcelos, que lá se encontrava.[13] Depois de defenestrado, o padre Nicolau vai à Sé de Lisboa, armado com uma espada e carregando uma cruz processional de prata de modo a exortar o Arcebispo ao apoio da revolta e que saísse para o Senado da Câmara. Com o alvoroço e as notícias começa a criar-se uma multidão perto das escadas da Sé de Lisboa, na qual o padre Nicolau da Maia aproveita para exortar a população à revolta, indicando o apoio da nobreza.[1][13]

Com isto, é o próprio, juntamente com o Arcebispo, que organizam uma procissão pela cidade (a Procissão do Milagre do Crucifixo), o que incita a população a crer que existe intervenção Divina para a Restauração.[4][5]

Após o golpe do 1.º de Dezembro, existe a certeza quase unânime da autoria do clérigo sobre o livro Relação de tudo o que passou na felice aclamação de El-Rei D. João IV(1641). Não obstante, esta obra poderá ter sido escrita por outro clérigo, o padre Manuel de Galhegos. Apesar disto, Nicolau da Maia, presumivelmente, pedira a D. João IV a necessária autorização para que nenhum outro senão Lourenço de Anvers pudesse imprimir o livro, indiciando ter sido o próprio requerente o autor da mesma relação.[20][21][22]

É atribuída também a si a autoria do livro Rosário das Almas do Purgatório, publicado em 1643,[3] desconhecendo-se o paradeiro posterior do clérigo, nem a sua data de morte.[23]

Foi representado por Eduardo Portugal na gravura Lisboa 1640. O padre Nicolau da Maia atacando uma das portas dos Paços da Ribeira.[24]

Notas

  1. Data aproximada, através da data de nascimento dada.

Referências

  1. a b c d Martins, Francisco da Rocha (1940). Os grandes vultos da restauração de Portugal: obra comemorativa do tricentenário da independencia. [S.l.]: Empresa Nacional de Publicidade 
  2. a b Verbo: enciclopédia luso-brasileira de cultura. [S.l.]: Editorial Verbo. 1963. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  3. a b Os "últimos fins" na cultura ibérica dos sʹecs. XV a XVIII: Porto, 19 a 21 de outubro de 1995. [S.l.]: Instituto de Cultura Portuguesa. 1997 
  4. a b c de Guimarãis, João (1941). «Apontamentos para uma história anedótica da Aclamação» (PDF). Associação de Arqueólogos Portugueses. Trabalhos da Associação de Arqueólogos Portugueses. 7ª Série (Volume V): 142 
  5. a b «Relaçaõ de tudo o que passou na felice aclamaçaõ do mui alto, & mui poderoso Rey Dom Joaõ o .IV. nosso senhor, cuja monarquia prospere Deos por largos annos...». purl.pt. Lourenço de Anveres. 1641. Consultado em 30 de julho de 2024 
  6. Grande enciclopédia portuguesa e brasileira: ilustrada com cêrca de 15.000 gravuras e 400 estampas a côres. Volume 38. [S.l.]: Editorial Enciclopédia. 1959 
  7. Almeida, Fortunato de (1926). História de Portugal. Volume 4. [S.l.]: F. de Almeida 
  8. Independenica. [S.l.]: Palácio da Independência. 1940 
  9. Coelho, José Ramos (1889). História do infante D. Duarte: irmão de el-rei D. João IV. [S.l.]: Por ordem e na typographia da Academia real das sciencias. pp. 257–263, 290, 295, 302–305 
  10. Silva, Innocencio Francisco da (1862). Diccionario bibliográphico portuguez: Estudos. Applicaveis a Portugal e ao Brasil. Man. Jgn. da Silva - Pedro de Sousa. [S.l.]: Impr. Nacional. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  11. Silva, Innocencio Francisco da (1862). Diccionario bibliográphico portuguez: Estudos. Applicaveis a Portugal e ao Brasil. Tomo 6. Lisboa: Imprensa Nacional. pp. 287–288 
  12. a b Correia, Arlindo Nogueira Marques. «A Restauração de Portugal em 1-12-1640». arlindo-correia.com. Consultado em 29 de julho de 2024 
  13. a b c d e f g h i Verdelho, Evelina (2007). «RELAÇÃO DE TUDO O QUE PASSOU NA FELICE ACLAMAÇÃO DO MUI ALTO E MUI PODEROSO REI DOM JOÃO O IV - EDIÇÃO CRÍTICO-INTERPRETATIVA». Universidade de Coimbra. Consultado em 30 de julho de 2024 
  14. Valladares, Rafael. Por toda la terra, España y Portugal: globalización y ruptura (1580-1700). Lisboa: [s.n.] p. 204. ISBN 978-989-8492-39-5 
  15. Freire Costa, Leonor (2008). D. João IV. [S.l.]: Temas e Debates. p. 12. ISBN 9789727599684 
  16. Almeida, A. Duarte de (1938). Enciclopédia histórica de Portugal. Volume 8. [S.l.]: J. Romano Torres & c.a. p. 167 
  17. Ribeiro, José Silvestre (1876). Esboço histórico de D. Duarte de Bragança ; irmão de el-rei D. João IV. Lisboa: Imprensa Nacional. pp. 15–16 
  18. Enciclopédia brasileira Mérito: Com milhares de desenhos a traço, ilustraçoẽs, muitas a côres, um atlas universal completo e mapas dos estados e territórios do Brasil. Volume 2. [S.l.]: Editôra Mérito. 1957. p. 640 
  19. a b Marques, Gentil (1963). Lendas heróicas. Col: Lendas de Portugal. Porto: Editorial Universus 
  20. Galvão, Benjamin Franklin Ramiz (1880). Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Volume VIII. [S.l.]: Typographia Nacional. p. 310 
  21. Boléo, Manuel de Paiva (1996). «Aclamação de D. João VI». Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Românicos. Revista portuguesa de filologia. Volume 21: 367 
  22. «Historia da feliz acclamação do Senhor Rei D. João o Quarto, com huma serie chronologica dos senhores reis de Portugal...». purl.pt. Publicação "oferecida" por Roque Ferreira Lobo. Contém cópia da Petição feita a D. João IV, supostamente pelo padre Nicolau da Maia. Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira. 1803. p. 328. Consultado em 21 de maio de 2025. D. JOÃO por graça de Deos , Rei de Portugal, e dos Algarves , da quem , e dalém mar em Africa, Senhor de Guiné, &c. Faço saber que havendo respeito , ao que na Petição atraz escrita , diz o Licenciado Nicoláo da Maia , e visto as causas que alega. Ei por bem, e me praz , que nenhuma pessoa, com pena de duzentos cruzados , possa imprimir a Relação de tudo o que se passou na felice Acclamação minha, de que na dita Petição faz menção, senão Lourenço de Anveres Nella nomeado, como pede : E mando ás justiças , Officiaes, e pessoas a que esta Provisão for mostrada , e o conhecimento della pertencer , que a cumprão , e guardem inteiramente como nella se contém. EIRei nosso Senhor o mandou pelos Doutores Sebastião Cezar de Menezes, e Antonio Coelho de Carvalho, ambos do seu Conselho , e Desembargadores do Paço : e Francisco Ferreira a fez em Lisboa a 7 de Outubro de 1641. 
  23. Silva, Luiz Augusto Rebello da (1869). História de Portugal nos séculos XVII e XVIII. Volume 4. [S.l.]: Imprensa Nacional. pp. 108, 124–126, 141, 156–158, 164. Consultado em 21 de maio de 2025 
  24. «"Lisboa 1640. O padre Nicolau da Maia atacando uma das portas dos Paços da Ribeira" - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 30 de julho de 2024. Cópia arquivada em 30 de julho de 2024