Neotrypaea californiensis

Neotrypaea californiensis
Ocorrência: Pleistoceno Superior – Holoceno
Um indivíduo em sua toca
Um indivíduo em sua toca
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Classe: Malacostraca
Ordem: Decapoda
Subordem: Pleocyemata
Família: Callianassidae [en]
Género: Neotrypaea [en]
Espécie: N. californiensis
Nome binomial
Neotrypaea californiensis
(Dana, 1854)
Sinónimos[1][2]
  • Callianassa californiensis Dana, 1854
  • Callianassa occidentalis Stimpson, 1856

Neotrypaea californiensis (anteriormente Callianassa californiensis) é uma espécie de camarão da infraordem Thalassinidea que habita a costa do Oceano Pacífico na América do Norte. É um animal de coloração pálida que atinge um comprimento de 11,5 cm.[2] Possui uma garra maior que a outra, especialmente nos machos, e acredita-se que a garra aumentada tenha uma função no acasalamento. N. californiensis vive em extensos sistemas de tocas, sendo responsável por altas taxas de bioturbação. Ele afeta negativamente a ostreicultura, e suas populações são controladas em alguns locais por meio da aplicação de pesticidas. Desempenha um papel importante no ecossistema e é utilizado por pescadores como isca.

Descrição e ciclo de vida

Neotrypaea californiensis atinge um comprimento de 11,5 cm.[2] O corpo é branco-cremoso, com manchas de cores claras (rosa, amarelo ou laranja) nos apêndices e um abdômen rosado.[3]

Os adultos de N. californiensis possuem uma garra maior que a outra, e nos machos, a "garra principal" pode representar até 25% da massa do animal, em comparação com apenas 10% nas fêmeas, enquanto a garra menor corresponde a cerca de 3% da massa corporal total em ambos os sexos.[4] A garra aumentada tem a mesma probabilidade de estar no lado direito ou esquerdo.[4] Acredita-se que a garra maior dos machos seja usada em encontros agonísticos ou durante o acasalamento, possivelmente como resultado de seleção sexual.[4]

Os ovos são depositados na primavera ou início do verão, e as larvas eclodem no verão, vivendo como plâncton. Elas se estabelecem novamente no fundo do mar como pós-larvas no final do verão e outono.[5]

Taxonomia

N. californiensis foi originalmente descrito em 1854 por James Dwight Dana como membro do gênero Callianassa [en], com a localidade-tipo indicada como "Califórnia";[3] os espécimes estudados por Dana provavelmente foram coletados na baía de São Francisco ou em Monterey,[3] mas os espécimes originais foram perdidos.[2] Em 1991, Raymond B. Manning [en] e Darryl Felder transferiram as três espécies desse gênero provenientes da Califórnia e de Oregon para o novo gênero Neotrypaea [en].[3] N. californiensis distingue-se das outras duas espécies de Neotrypaea pela ausência de um rostro (presente em Neotrypaea gigas) e pelas extremidades agudas e divergentes dos pedúnculos oculares (curtos, rombudos e não divergentes em Neotrypaea biffari).[3]

Ecologia e impacto humano

Ostreicultura (vista na baía de Willapa, Washington, em 1969) é afetada negativamente pelo N. californiensis.

Tanto Neotrypaea californiensis quanto Upogebia pugettensis [en] habitam planícies de maré e substratos arenosos na zona entremarés de estuários na costa oeste da América do Norte. N. californiensis é encontrado desde a baía de Mutiny, Alasca,[6] até Punta Abreojos [en], Mulegé, Baixa Califórnia do Sul, México.[7] Seu habitat também é utilizado para a aquacultura da ostra-do-pacífico.[5] Como a bioturbação realizada por N. californiensis e U. pugettensis reduz a produtividade dos bancos de ostras, eles são considerados pragas biológicas. No entanto, seus efeitos podem ter impactos indiretos em todo o ecossistema, ajudando a protegê-lo contra os riscos de eutrofização e aumentando a produção primária e secundária ao elevar a quantidade de nitrogênio inorgânico dissolvido.[8]

As tocas construídas por N. californiensis possuem muitos ramos,[9] e diversos outros animais vivem nelas, incluindo camarões-de-estalo do gênero Betaeus [en],[3][10] o copépode Clausidium vancouverense [en],[11] e o caranguejo Scleroplax granulata [en].[12] A microbiota intestinal de N. californiensis inclui uma ampla variedade de bactérias, sendo cerca de 40% Alphaproteobacteria, 20% bactérias gram-positivas, 20% Bacteroidota e 5% de Gammaproteobacteria e Campylobacterota.[13] Predadores de N. californiensis incluem baleias-cinzentas (Eschrichtius robustus),[14] peixes bentônicos[9] e caranguejos Metacarcinus magister.[15]

N. californiensis tem um impacto negativo na produção de ostras, e, como resultado, o inseticida carbaril (1-naftil N-metil carbamato) é aplicado em algumas áreas (incluindo a baía de Willapa, Washington) para reduzir sua população.[16] A adição de detritos de conchas também reduz o número de N. californiensis, tanto ao impedir o assentamento de larvas quanto pela predação de jovens N. californiensis por caranguejos Metacarcinus magister jovens nos detritos de conchas.[15]

N. californiensis é utilizado como isca, sendo frequentemente transportado vivo entre estados dos EUA, o que levanta preocupações sobre a possível destruição da estrutura populacional existente e a introdução do isópode parasita Ione cornuta fora de sua área nativa.[17]

Referências

  1. «Callianassa californiensis Dana, 1854» (em inglês). ITIS (www.itis.gov). Consultado em 17 de agosto de 2011 
  2. a b c d Lipke B. Holthuis (1991). «Callianassa californiensis». Marine Lobsters of the World. Col: FAO Species Catalogue. 13. [S.l.]: Food and Agriculture Organization. pp. 244–245. ISBN 978-92-5-103027-1. Consultado em 25 de maio de 2010. Cópia arquivada em 7 de junho de 2011 
  3. a b c d e f Mary K. Wicksten (17 de abril de 2009). «Decapod Crustacea of the Californian and Oregonian Zoogeographic Provinces» (PDF). Scripps Institution of Oceanography, University of California, San Diego 
  4. a b c Linda V. Labadie; A. R. Palmer (1996). «Pronounced heterochely in the ghost shrimp, Neotrypaea californiensis (Decapoda: Thalassinidea: Callianassidae): allometry, inferred function and development». Journal of Zoology. 240 (4): 659–675. doi:10.1111/j.1469-7998.1996.tb05314.x 
  5. a b Brett Dumbauld; Kristine Feldman; David Armstrong (2004). «A comparison of the ecology and effects of two species of thalassinidean shrimps on oyster aquaculture operations in the eastern North Pacific». In: A. Tamaki. Proceedings of the Symposium on Ecology of Large Bioturbators in Tidal Flats and Shallow Sublittoral Sediments – From Individual Behavior to Their Role as Ecosystem Engineers (PDF). Nagasaki: Nagasaki University. pp. 53–61. Consultado em 25 de maio de 2010. Cópia arquivada (PDF) em 21 de julho de 2011 
  6. G. E. MacGinitie (1934). «The natural history of Callianassa californiensis Dana». American Midland Naturalist. 15 (2): 166–177. JSTOR 2420244. doi:10.2307/2420244 
  7. Ernesto Campos; Alma de Campos; Iván Manriquez (2009). «Intertidal thalassinidean shrimps (Thalassinidea, Callianassidae and Upogebiidae) of the west coast of Baja California, Mexico: annotated checklist, key for identification, and symbionts». Crustaceana. 82 (10): 1249–1263. doi:10.1163/001121609X12481627024454 
  8. R. James; A. Atkinson; Alan C. Taylor (2005). «Aspects of the physiology, biology and ecology of thalassinidean shrimps in relation to their burrow environment». In: R. N. Gibson; R. J. A. Atkinson; J. D. M. Gordon. Oceanography and Marine Biology: An Annual Review. 43. [S.l.]: CRC Press. pp. 173–210. ISBN 978-0-8493-3597-6 
  9. a b Mike Schaadt; Ed Mastro; Cabrillo Marine Aquarium (2009). «Mudflat (Salinas de San Pedro)». Cabrillo Beach Coastal Park. Col: Images of America. [S.l.]: Arcadia Publishing. pp. 107–118. ISBN 978-0-7385-7189-8 
  10. Raymond T. Bauer (2004). «Symbioses». Remarkable Shrimps: Adaptations and Natural History of the Carideans. Col: Animal natural history series. 7. [S.l.]: University of Oklahoma Press. pp. 179–203. ISBN 978-0-8061-3555-7 
  11. Arthur D. Humes (1949). «A new copepod (Cyclopoida: Clausidiidae) parasitic on mud shrimps in Louisiana». Transactions of the American Microscopical Society. 68 (2): 93–103. JSTOR 3223256. PMID 18153316. doi:10.2307/3223256 
  12. Ernesto Campos (2006). «Systematics of the genus Scleroplax Rathbun, 1893 (Crustacea: Brachyura: Pinnotheridae)» (PDF). Zootaxa. 1344: 33–41. doi:10.11646/zootaxa.1344.1.3Acessível livremente 
  13. W. W. Y. Lau; P. A. Jumars; E. V. Armbrust (2002). «Genetic diversity of attached bacteria in the hindgut of the deposit-feeding shrimp Neotrypaea (formerly Callianassa) californiensis (Decapoda: Thalassinidae)». Microbial Ecology. 43 (4): 455–466. PMID 12043003. doi:10.1007/s00248-001-1043-3 
  14. Weitkamp, Laurie A.; Wissmar, Robert C.; Simenstad, Charles A.; Fresh, Kurt L.; Odell, Jay G. (1 de novembro de 1992). «Gray whale foraging on ghost shrimp (Callianassa californiensis) in littoral sand flats of Puget Sound, U.S.A.». Canadian Journal of Zoology. 70 (11): 2275–2280. ISSN 0008-4301. doi:10.1139/z92-304 
  15. a b K. L. Feldman; D. A. Armstrong; B. R. Dumbauld; C. J. Langdon (1995). «Controlling populations of burrowing thalassinid shrimp on oyster culture grounds: effects of harvesting and shell configuration on recruitment of young-of-the-year». Journal of Shellfish Research. 14 (1: Abstracts of technical papers presented at Aquaculture '95, Triennial Meeting of the Fish Culture Section of the American Fisheries Society, World Aquaculture Society, and the National Shellfisheries Association, San Diego, California, February 1–4, 1995): 265 [ligação inativa] 
  16. John Davenport; Kenneth Black; Gavin Burnell; et al. (2003). «Physical change to the habitat». Aquaculture: the Ecological Issues. Col: Ecological Issues. 3. [S.l.]: Wiley-Blackwell for the British Ecological Society. pp. 19–27. ISBN 978-1-4051-1241-3 
  17. Bruno Pernet; Aimee Deconinck; Angela Llaban; James W. Archie (2008). «Evaluating risks associated with transport of the ghost shrimp Neotrypaea californiensis as live bait». Marine Biology. 153 (6): 1127–1140. doi:10.1007/s00227-007-0884-9