Neoliberalismo na Bolívia

Víctor Paz Estensoro presidente da Bolívia neste (1985-1989

Neoliberalismo boliviano

O governo de Victor Paz Estenssoro (1985-1989), iniciou a democracia compactuada, cujo período foi marcado não só pela estabilidade política, mas também, pela ascensão do neoliberalismo na Bolívia.[1] O mandatário implementou o neoliberalismo por meio da promulgação do Decreto 21.060,[2] no qual encerrava um ciclo de políticas econômicas e estruturais iniciadas com a Revolução de 1952.

Com o câmbio da moeda local flutuando em relação ao dólar, foram privatizadas empresas e propriedades estatais, e o investimento de capital estrangeiro foi aberto, acabando com as políticas protecionistas.[3] Os efeitos da Nova Política Econômica (NPE)[4] no controle da inflação, inicialmente, obtiveram sucesso e a taxa anual caiu de 12.000% para 9% em questão de meses. A Bolívia se converteu em um símbolo do neoliberalismo na tentativa de alcançar a estabilidade econômica. Entretanto, essa estrutura econômica teve um custo enorme para os trabalhadores, com o número alarmante de 30.000 mineiros desempregados em um ano.

A Nova Política Econômica (NPE) de Victor Paz Estenssoro não se restringiu ao seu mandato e se estendeu durante toda a década de 1990, com a privatização das empresas estatais e reformas de flexibilização de direitos sociais. Mas após o inicial apoio popular, a política neoliberal acumulava desgaste crescente, pois não apresentou soluções efetivas para os problemas sociais que sempre afetaram o país.[5]

Ressalta-se que a Bolívia foi pioneira no '’teste'’ de práticas neoliberais em um sistema político já redemocratizado, do ponto de vista de um modelo de capitalismo de Estado.[6] A premissa básica do Consenso de Washington 1989 era que, através da desregulamentação do mercado e da privatização de empresas estatais, seria possível gerar o desenvolvimento que diminuiria o atraso entre os países centrais e os considerados em subdesenvolvimento.[7]

Bolívia a venda 1990

A Bolívia durante a década de 1990 ficou marcada pelo aprofundamento das políticas neoliberais, sendo o segundo país a implementar as medidas neoliberais no Cone Sul. A estabilização econômica teve um êxito e a inflação nos anos seguintes esteve baixa após 1985.[8] O fim da hiperinflação foi imediatamente definido como o “Milagre Boliviano” em que resultou na política cambial mediante a dolarização das contas bancárias do país.[9] Neste sentido, a privatização das empresas estatais, a flexibilização de direitos sociais, bem como a liberalização da economia e a abertura política consolidaram a democracia.

Com a (NPE) já implementada, retirou-se os subsídios do setor industrial nas áreas de têxtil e alimentação.[10] A economia boliviana foi drasticamente afetada pela abertura econômica que se seguiu na Bolívia a partir do neoliberalismo, levando a quebra de diversos setores e ao aumento dos preços. Do ponto de vista político, uma das características mais enfatizadas por analistas do período era estabilidade institucional conquistada.[11]Tal estabilidade política que tinha ganhado com a “democracia pactuada”, começa a enfrentar uma crise institucional causada pela crise econômica mal solucionada na década de 1990. Essas alianças dos partidos políticos, permitiram uma estabilidade do regime, embora não tenha sido o suficiente para acabar com o clientelismo e a corrupção de Estado.[10]

Ainda na década de 1990, com a ascensão do partido Movimento ao Socialismo - MAS, herdou-se a capacidade de negociação e de organização da sociedade civil, canalizando eleitoralmente toda a insatisfação com o período em resistência às políticas neoliberais. O PIB boliviano cresceu 4,1% anuais entre 1987 e 1998, valor mais elevado que a média latino-americana para a época, que foi de 2,6%. [12]Definitivamente, a Bolívia foi um grande experimento para a política neoliberal, um país que levou à risca praticamente todas as orientações do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional em relação a reforma política e econômica do país.[8]

Os protagonistas nesse processo foram os movimentos sociais que surgiram em torno das questões da coca, da água, da cultura indígena e o debate e a defesa dos recursos naturais; também houve iniciativas políticas para se aproximar dos movimentos sociais.[13] É nesse contexto que os protestos contra os serviços sociais vão se tornar fenômeno cotidiano no Estado boliviano.

Guerra da água 2000

A Guerra da Água 2000 foi uma revolta popular ocorrida em Cochabamba, em reação a concessão da Servicio Municipal de Agua Potable y Alcantarillado - SEMAPA para uma empresa estrangeira. Os recursos hídricos e dos sistemas de irrigação foram privatizados, gerando insatisfação da sociedade boliviana, motivando a mobilização em torno da luta pela água.[14] Um elemento importante para a análise é o evento na história boliviana em que a água se tornou o centro de um conflito. Em poucas palavras, a guerra eclodiu como uma questão de sobrevivência, devido à escassez desse recurso vital. Assim, nota-se a irresponsabilidade do poder público e a ganância dos empresários que, sob o risco de colocar parcelas expressivas da população em situação de penúria e miséria, fizeram de tudo para obter maiores lucros prejudicando a população local.[14]

A revolta popular tomou conta da cidade, a população enfrentava-se com a polícia para voltar a ocupar a Plaza de las Armas. Em março daquele mesmo ano, Coordinadora realizou um plebiscito popular de que apresentou um descontentamento generalizado com a política de privatização instituída pelo governo.[15] Sob uma constante repressão vinda do governo, a revolta popular sai vitoriosa na guerra da água, onde fez a outorga do controle da SEMAPA às organizações populares; sem dúvidas destaca alguns elementos, como a importância do contexto social em que o movimento popular insurgiu e se consolidou em todo território.[15] Com isso, os anos 2000 foram tão violentos que poderiam ser comparados aos de um regime de exceção, o governo respondeu violentamente às investidas da população, que sofreram ataques desproporcionais em termos de forças. Setores da sociedade como campesinato, trabalhadores assalariados e indígenas, foram fundamentais.[16]

Guerra do gás 2003

Foi a maior mobilização desde da guerra da água em 2000, a Bolívia assinou um acordo, ainda na gestão Jorge Quiroga Ramirez, em 2002, para instalar no litoral do Chile uma central de liquefação de gás natural, para exportá-lo para os Estados Unidos.[17] O declínio dos partidos políticos tradicionais até bem pouco tempo dominantes no monopólio da representação e intermediação política e, a consolidação de um projeto político neoliberal. Logo, a “Agenda de Outubro” faz referência ao período mais violento, marcado por confrontos da Guerra do Gás e a renúncia do então presidente Sánchez de Lozada.[17]

Os protestos se radicalizaram com chamadas à ocupação de terras pelo Movimento Sem Terra boliviano, onde houve a conclamação de greve geral pela Central Operária Boliviana (COB) e novos bloqueios de estradas no departa.[18] Em La Paz, no departamento de Cochabamba, foram feitos pedidos de renúncia do presidente e o cancelamento dos planos de exportação do gás via Chile.

Devido a tal contexto, Sánchez de Lozada renunciou à presidência e transferiu-se para os Estados Unidos. Carlos Mesa, seu vice-presidente, assumiu o cargo do Executivo, mas o próximo na linha de sucessão seria o Presidente do Senado.[19] Sem o apoio da sociedade e do setor militar, os dois acabaram renunciando. Deste modo, Eduardo Rodríguez assumiu o poder no dia 9 de junho de 2005, representando mais uma vitória para a sociedade boliviana.[20]

Referências

  1. PANNAIN, R. N. A reconfiguração da política boliviana: reconstituição de um ciclo de crises. In: Revista Lua Nova, São Paulo, 105: 287-313, 2018.
  2. Bolívia: Decreto Supremo Nº 21060, 29 de agosto de 1985. Disponível em: https://www.lexivox.org/norms/BO-DS-21060.html Acesso em: 20 de dezembro de 2023.
  3. FILHO, C. M. C.; VIANA, J. P. S. L. A Bolívia e os desafios da integração regional: crise de hegemonia, instabilidade e refundação institucional. In: VIANA; J. P. S. L.;
  4. A Nova Política Econômica (NPE), é uma política de estabilização econômica no intuito de atordoar a hiperinflação boliviana e depois derrotá-la.
  5. Iamamoto, S. A. S. Revoltas Revoltasdo início do século do início do século do início do século XXI na Bolívia. In: IV Simpósio Lutas Sociais na América Latina, GEPAL, Grupo de estudo de política da América Latina, setembro, 2010, Londrina, UEL, p. 1-13
  6. CHAVES, Daniel. A crise do fim de século na Bolívia. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 6, n. 13, p. 174-202, set./dez. 2014.
  7. CUNHA FILHO, C. M. Reforma, reação e mobilização social na Bolívia de Evo Morales. In: F. J. C. Parente; F. H. Frota; H. Ferreira Lima (Orgs.); Dos Andes aos Pampas: Integração e Cenários na América Latina. p.101-124. Fortaleza: EdUECE, 2010.
  8. a b DRUMOND, Nathalie. A guerra da água na Bolívia: a luta do movimento popular contra a privatização de um recurso natural. IN: Revista Nesa, Prudente de Moraes, Ano 18, n. 2, p. 186-205, 2015.
  9. Dunkerley, J. A transição política e estabilização econômica na Bolívia. La Paz, 1994.
  10. a b JÚNIOR, R. C. C. Neoliberalismo e lutas sociais na Bolívia: da guerra da água a guerra do gás (2003-2005). In: Universidade Federal do Maranhão, UFMA, São Luís, 2014, p.1-164.
  11. Iamamoto, S. A. S. Revoltas Revoltasdo início do século do início do século do início do século XXI na Bolívia. In: IV Simpósio Lutas Sociais na América Latina, GEPAL, Grupo de estudo de política da América Latina, setembro, 2010, Londrina, UEL, p. 1-13.
  12. CÂMARA, M. A.; ROCHA, M. S.; SEGABINAZZI, A. Bolívia: de 1952 ao Século XXI. In: Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), Brasília, 2006, p. 1-156.
  13. CÂMARA, M. A.; ROCHA, M. S.; SEGABINAZZI, A. Bolívia: de 1952 ao Século XXI. In: Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), Brasília, 2006, p. 1-156.
  14. a b PFRIMER, Matheus Hoffmann. A Guerra da Água em Cochabamba, Bolívia: desmitificando os conflitos por água à luz da geopolítica. Tese (Doutorado em Geografia Humana), São Paulo (SP): Programa de Pós-Graduação em Geografia, FFLCH-USP. 2010.
  15. a b VALENÇA, D. A.; COSTA, R. V.; JÚNIOR, R. M. M. A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO HUMANO À ÁGUA: DA GUERRA DEL AGUA AO RECONHECIMENTO INTERNACIONAL. In: Revista Culturas Jurídicas, Vol. 6, Núm. 13, jan./abr., 2019.
  16. ALVES, G. S.; OLIVEIRA, R. N. O IMPACTO DA GUERRA DA ÁGUA NOS MOVIMENTOS SOCIAIS DA BOLÍVIA. In: III Semana de Acadêmica de Relações Internacionais, UNILA, Foz do Iguaçu, 2018, p. 1-10.
  17. a b COSTILLA, L. O. A guerra do gas na Bolívia: uma análise sociológica de uma crise política. In: Revista de ciências sociais, V.35, Nº.1, 2004, p. 1-5.
  18. Moras, Rosana (2007). La Guerra del Gas en Bolivia: Más allá de la resistencia al neoliberalismo. VII Jornadas de Sociología. Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires.
  19. Iamamoto, S. A. S. Revoltas Revoltasdo início do século do início do século do início do século XXI na Bolívia. In: IV Simpósio Lutas Sociais na América Latina, GEPAL, Grupo de estudo de política da América Latina, setembro, 2010, Londrina, UEL, p. 1-13.
  20. LUCIO, F. S.; XAVIER, G. B.; SOUZA, Y. B. Dimensões históricas e sociais das crisis estruturais do estado Plurinacional da Bolívia. IN: Revista do grupo PET , UFAC, v. 4, n. 01, 2021.