Neofeudalismo

O neofeudalismo ou novo feudalismo é uma teoria contemporânea que propõe um renascimento das políticas de governança, economia e vida pública, semelhantes às que existiam em muitas sociedades feudais. Esses aspectos incluem, mas não se limitam a: desigualdade de direitos e proteções legais entre o povo comum e a nobreza, domínio da sociedade por uma pequena e poderosa elite, falta de mobilidade social e relações de senhorio e servidão entre a elite e o povo, onde os primeiros são ricos e os segundos, pobres.[1]

Uso e etimologia

De modo geral, o termo neofeudalismo se refere às formas de feudalismo do século XXI que, em alguns aspectos, se assemelham aos modelos sociais da Europa Ocidental medieval.

Por outro lado, Jürgen Habermas usou o termo Refeudalisierung ("refeudalização") em sua obra de 1962, Strukturwandel der Öffentlichkeit. Untersuchungen zu einer Kategorie der bürgerlichen Gesellschaft ("Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa"), para criticar a privatização das formas de comunicação que, segundo ele, havia produzido uma esfera pública na era do Iluminismo. Habermas não usou o termo neofeudalismo, mas comentadores posteriores observaram que suas ideias eram semelhantes.[2] De forma correspondente, em 1992, Immanuel Wallerstein expressou opiniões sobre o desenvolvimento global, listando o neofeudalismo entre outras três variantes. Por neofeudalismo, Wallerstein se referia a regiões autossuficientes com uma hierarquia localizada e bens de alta tecnologia disponíveis apenas para a elite.[3]

Descrição

O conceito de neofeudalismo pode ter como foco a economia, embora não se limite a ela. Entre os temas supostamente associados à ideia de neofeudalismo na sociedade contemporânea, estão: estratificação de classe, globalização, política externa neoconservadora, corporações multinacionais e "neocorporativismo".[4]

Segundo Les Johnston, a abordagem teórica do neofeudalismo de Clifford Shearing tem sido influente.[5] Shearing "usa esse termo em um sentido restrito para chamar a atenção para o surgimento de domínios de propriedade privada em massa que são 'controlados' de diversas maneiras".[6][7]

Lucia Zedner responde que esse uso do neofeudalismo é muito limitado em escopo; a comparação de Shearing não traça paralelos com a governança anterior de forma suficientemente explícita. Zedner prefere endossos mais definitivos.[8]

O neofeudalismo implica uma ordem definida por interesses comerciais e administrada em grandes áreas, de acordo com Bruce Baker, que argumenta que isso não descreve completamente a extensão da cooperação entre o policiamento estatal e não estatal.[9] Para Randy Lippert e Daniel O'Connor, a importância da comparação com o feudalismo reside no fato de que as corporações detêm um poder semelhante ao poder de governança dos Estados.[10] De forma semelhante, Sighard Neckel argumentou que a ascensão do capitalismo baseado no mercado financeiro no final do século XX representou uma "refeudalização" da economia.[11]

O aumento da desigualdade de riqueza, à medida que pessoas pobres e marginalizadas são excluídas da provisão de segurança pelo Estado, pode resultar em neofeudalismo, argumenta Marina Caparini, que afirma que isso já aconteceu na África do Sul.[12] O neofeudalismo é viabilizado pela mercantilização do policiamento e significa o fim da cidadania compartilhada, afirma Ian Loader.[13] Uma característica primordial do neofeudalismo é que a vida pública dos indivíduos é cada vez mais governada por corporações empresariais, como constata Martha K. Huggins.[14]

John Braithwaite observa que o neofeudalismo traz uma abordagem diferente para a governança, uma vez que as empresas, em particular, têm essa necessidade específica de redução de perdas.[15]

Ao longo dos anos de 2020 e 2021, Yanis Varoufakis escreveu e palestrou bastante sobre sua teoria a respeito do neofeudalismo. Ele postula que o capitalismo tradicional evoluiu para uma nova estrutura de economias e sociedades semelhante ao feudalismo, que ele denomina "tecnofeudalismo". Varoufakis explica que, ao contrário do capitalismo, as economias feudais têm a característica de serem dominadas por grupos muito pequenos de pessoas, que predeterminam o comportamento dos mercados da maneira que consideram adequada. Tomando como exemplo grandes empresas online como o Facebook, a Amazon e outras, Varoufakis observou que esses espaços são governados principalmente pelos caprichos de indivíduos e pequenas equipes, e, portanto, não são verdadeiros mercados capitalistas de livre comércio, mas sim mercados feudais de controle rígido.[16][17][18][19][20] Outros, como Jeremy Pitt, expressaram opiniões e preocupações semelhantes, observando também que o tecnofeudalismo ameaça a liberdade de informação na Internet.[21]

Conceitos semelhantes já vinham sendo utilizados pelo professor uruguaio-estadunidense Jorge Majfud desde 2010.[22][23]

Após a crise financeira de 2008, o bilionário americano da tecnologia Nick Hanauer afirmou que "nosso país [isto é, os Estados Unidos] está se tornando rapidamente menos uma sociedade capitalista e mais uma sociedade feudal".[24] As suas opiniões foram partilhadas, entre outros, pelo bilionário islandês Björgólfur Thor Björgólfsson.[25] A ideia de que o boom do início do século 21 e a crise financeira islandesa de 2008 levaram o país a regressar às estruturas feudais de poder também foi expressa por uma série de romancistas islandeses, entre eles Sigrún Davíðsdóttir em Samhengi hlutanna, Bjarni Bjarnason em Mannorð, Bjarni Harðarson em Sigurðar saga fóts, Böðvar Guðmundsson em Töfrahöllin e Steinar Bragi em Hálendið: Skáldsaga.[26][27]

Ideias semelhantes são encontradas em algumas obras de ficção anglófonas.[28] Por exemplo, a série de romances Duna, de Frank Herbert, se passa em um futuro distante, com um império galáctico neofeudalista conhecido como Imperium. Nesses romances, após uma série de guerras conhecidas como "Jihad Butleriana", a humanidade passou a proibir todos os tipos de "tecnologia de máquinas pensantes", mesmo suas formas mais simples.[29] Subsequentemente, o equilíbrio político de poder no Universo de Duna foi gradualmente dominado por uma miríade de casas reais, cada uma governando um ou mais planetas.

Em 2020, o presidente do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, publicou um livro intitulado COVID-19: The Great Reset ("COVID-19: A Grande Reinicialização").[30] O livro argumenta que a pandemia de COVID-19 representa uma oportunidade para políticos e governos transformarem as economias, sociedades e estruturas governamentais do mundo, introduzindo um sistema de "Capitalismo de Partes Interessadas", seguindo as diretrizes de um plano conhecido como "A Grande Reinicialização".[31] Schwab também se refere a seus objetivos como "A Quarta Revolução Industrial".[32] Outros autores criticaram a "Grande Reinicialização", considerando-a uma forma de neofeudalismo.[33][34][35]

Referências

  1. Kuttner, Robert; V. Stone, Katherine (8 de abril de 2020). «The Rise of Neo-Feudalism». The American Prospect (em inglês) 
  2. Sighard Neckel, ‘Refeudalisierung der Ökonomie: Zum Strukturwandel kapitalistischer Wirtschaft Arquivado em 2020-08-09 no Wayback Machine’, MPIfG Working Paper 10/6 (Colônia: Max Planck Institute for the Study of Societies, julho de 2010), pp. 11-12.
  3. Wallerstein I. Capitalist civilization. -Binghamton (N.Y.), 1992.
    Malinovsky P. V. (2001). «Globalisation as a Civilization Shaping Process». Russia and the Modern World (Россия и современный мир) (2): 7 (5–30). ISSN 1726-5223 
  4. Hartmann, Thom (6 de novembro de 2002), «Time to Remove the Bananas... and Return Our Republic to Democracy», CommonDreams.org (em inglês) 
  5. Johnston, Les (1999). «Private Policing in Context». European Journal on Criminal Policy and Research (em inglês). 7 (2): 175–196. doi:10.1023/A:1008753326991 
  6. Shearing, Clifford (2001). «Punishment and the Changing Face of the Governance». Punishment & Society (em inglês). 3 (2): 203–220. doi:10.1177/1462474501003002001 
  7. Shearing, Clifford D. (1983). «Private Security: Implications for Social Control». Social Problems (em inglês). 30 (5): 493–506. ISSN 0037-7791. doi:10.1525/sp.1983.30.5.03a00020 
  8. Zedner, Lucia (2006). «Policing Before and After the Police: The Historical Antecedents of Contemporary Crime Control». The British Journal of Criminology (em inglês). 46 (1): 78–96. doi:10.1093/bjc/azi043 
  9. Baker, Bruce (2004). «Protection from crime: what is on offer for Africans?» (PDF). Journal of Contemporary African Studies (em inglês). 22 (2): 165–188. doi:10.1080/cjca0258900042000230005. Cópia arquivada (PDF) em 17 de março de 2012 
  10. Lippert, Randy; O'Connor, Daniel (2006). «Security Intelligence Networks and the Transformation of Contract Private Security». Policing & Society (em inglês). 16 (1): 50–66. doi:10.1080/10439460500399445 
  11. Sighard Neckel, "Refeudalisierung der Ökonomie: Zum Strukturwandel kapitalistischer Wirtschaft Arquivado em 2020-08-09 no Wayback Machine", MPIfG Working Paper 10/6 (Colônia: Max Planck Institute for the Study of Societies, julho de 2010).
  12. Caparini, Marina (2006). «Applying a Security Governance Perspective to the Privatisation of Security» (PDF). In: Bryden, Alan; Caparini, Marina. Private Actors and Security Governance (em inglês). LIT Verlag. pp. 263–282. ISBN 978-3-8258-9840-3. Cópia arquivada (PDF) em 19 de março de 2012 
  13. Loader, Ian (1999). «Consumer Culture and the Commodification of Policing and Security». Sociology (em inglês). 33 (2): 373–392. doi:10.1177/S003803859900022X 
  14. Huggins, Martha K. (2000). «Urban Violence and Police Privatization in Brazil: Blended Invisibility». Social Justice (em inglês). 27 (2). ISSN 1043-1578 
  15. Braithwaite, John (2000). «The New Regulatory State and the Transformation of Criminology» (PDF). The British Journal of Criminology (em inglês). 40 (2): 222–238. doi:10.1093/bjc/40.2.222 
  16. «Techno-Feudalism is Taking over | by Yanis Varoufakis» (em inglês). 28 de junho de 2021 
  17. «Techno-Feudalism is taking over - Yanis Varoufakis» (em inglês). 9 de julho de 2021 
  18. «Yanis Varoufakis: Capitalism has become 'techno-feudalism'» (em inglês) 
  19. «Yanis Varoufakis on Alternatives to Techno-Feudal Capitalism» (em inglês). 8 de setembro de 2021 
  20. «Techno Feudalism: What is it and how it increases inequality in the society?» (em inglês). 2 de julho de 2021 
  21. «The BigTech-Academia-Parliamentary Complex and Techno-Feudalism» (em inglês). 24 de setembro de 2020 
  22. «El pensador Majfud y un anticipo de hace una década sobre el "neofeudalismo"» (em espanhol). Junho de 2025 
  23. «Qué democracias nos promete la nueva Guerra Fría» (em espanhol). 29 de março de 2014 
  24. Nick Hanauer (julho de 2014). «The Pitchforks Are Coming… For Us Plutocrats». Politico Magazine (em inglês). Consultado em 19 de julho de 2014. Cópia arquivada em 28 de agosto de 2015 
  25. Thor Bjorgolfsson e Andrew Cave. Billions to Bust—and Back: How I Made, Lost, and Rebuilt a Fortune, and What I Learned on the Way. Londres: Profile, 2014. p. 194.
  26. Hall, Alaric (2018). «Fornaldarsögur and Financial Crisis: Bjarni Bjarnason's Mannorð». Humanities Commons. The Legendary Legacy: Transmission and Reception of the Fornaldarsögur Norðurlanda (em inglês): 351–375. ISBN 978-87-408-3103-0. doi:10.17613/M6V97ZR22 
  27. Cf. Boyes, Roger. Meltdown Iceland: Lessons on the World Financial Crisis from a Small Bankrupt Island. Nova Iorque: Bloomsbury, 2009. p. 61.
  28. Kaufman, Amy S., "Our Future is our Past: Corporate Medievalism in Dystopian Fiction", em Corporate Medievalism II, ed. por Karl Fugelso, Studies in Medievalism, 22 (Cambridge: Brewer, 2013), pp. 11–19.
  29. Erman, Eva; Möller, Niklas (agosto de 2013). «What's Wrong with Politics in the Duniverse?». In: Nicholas, Jeffery. Dune and Philosophy: Weirding Way of the Mentat. Col: Popular Culture and Philosophy Series (em inglês). 56. [S.l.]: Open Court. p. 66. ISBN 978-0812697278 
  30. Schwab, Klaus (2020), COVID-19: The Great Reset, ISBN Agentur Schweiz. ISBN 978-2940631124
  31. «Now is the time for a great reset» (em inglês). 3 de junho de 2020 
  32. Schwab, Klaus (2017) The Fourth Industrial Revolution ISBN 978-0241300756
  33. Mercola, Joseph (2021), The Truth About COVID-19: Exposing The Great Reset, Lockdowns, Vaccine Passports, and the New Normal, Chelsea Green Publishing. ISBN 978-1645020882
  34. Breggin, Peter R. (2021), COVID-19 and the Global Predators: We Are the Prey, Lake Edge Press. ISBN 978-0982456064
  35. Kotkin, Joel (2021), The Coming of Neo-Feudalism: A Warning to the Global Middle Class, Encounter Books. ISBN 978-1641770941

Ver também

Ligações externas