Ndunduma wé Lépi

Ndunduma wé Lépi
Nascimento1936
Lépi
Morte2009 (72–73 anos)
Lisboa
Ocupaçãoescritor, jornalista, político, arquiteto

Francisco Fernando da Costa Andrade, mais conhecido como Ndunduma wé Lépi (Lépi, 12 de abril de 1936 — Lisboa, 18 de setembro de 2009), foi um militar, arquiteto, jornalista, político, dramaturgo e escritor angolano.[1]

Além de seu famoso nome de guerra Ndunduma wé Lépi, também era conhecido pelos pseudônimos literários Angolano de Andrade, Nando Angola, Africano Paiva, Flávio Silvestre, Fernando Emilio e Wayovoka André.[2] Suas obras de maior destaque foram "Terras das Acácias Rubras" (1960), "Armas com Poesia e uma Certeza" (1973) e "O Cunene Corre para o Sul" (1981).[3]

Biografia

Francisco Fernando da Costa Andrade nasceu na localidade de Lépi, em 12 de abril de 1936.[4] É do nome de onde nasceu que retirou seu famoso nome de guerra "Ndunduma wé Lépi", que significa "o trovão de Lépi".[5]

Fez os estudos primários na cidade do Huambo, realizando seus estudos liceais no Lubango, mais especificamente no Liceu Diogo Cão (atual Escola Rei Mandume ya Ndemufayo).[5][6]

Escrita e militância política

Em meados da década de 1950, Ndunduma wé Lépi mudou-se para Portugal para realizar seus estudos na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa,[3] alojando-se na Casa dos Estudantes do Império.[7] Em colaboração com Carlos Ervedosa, foi um dos editores da Coleção Autores Ultramarinos da Casa dos Estudantes do Império, que desempenhou um papel decisivo na divulgação das literaturas africanas de língua portuguesa, especialmente da literatura angolana.[3][6][8][7]

Fugindo de Portugal em 1960, em função da perseguição às suas atividades político-literárias, buscou exílio na Itália, ficando ali até 1962.[9] No país, escreve "Tempo angolano em Itália", obra com forte temática política, tratando de temas como liberdade e resistência ao fascismo.[9] Segue brevemente para a Iugoslávia e depois para a Argélia,[10] onde conhece as experiências socialistas desses países.[5][6] Prefere seguir para o exílio no Brasil em 1962.[10] No país, consegue estabelecer contactos com membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que lhe dão todo suporte necessário.[10] Publicou seus escritos e desenvolveu uma intensa atividade como conferencista literário.[5][6] Sua associação com o PCB e sua escrita política lhe rendem uma breve prisão pelo DOPS após o Golpe de Estado no Brasil em 1964.[10]

Com auxílio de colegas do PCB, consegue fugir para o Congo-Brazavile em 1964, onde ingressa no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), participado na luta armada de libertação nacional, nomeadamente na Frente Leste.[7][8]

Carreira no partido e no Estado

Foi eleito diretor do Departamento de Informação e Propaganda do partido em 1969, trabalhando nesta função até 1971.[8] Entre 1971 e 1982 esteve responsável pelo Departamento de Cultura do MPLA.[8] Em 1975 foi designado para a Comissão Diretiva do partido na província do Huambo, estando nesta função até 1976.[8]

Em dezembro de 1975, torna-se um dos membros-fundadores da União dos Escritores Angolanos[3] e passa a dedicar-se particularmente à escrita.[5][6] Passou a trabalhar como jornalista e diretor do Jornal de Angola entre 1976 e 1978.[4][8]

Entre 1981 e 1982 esteve em rota de colisão com José Eduardo dos Santos, sendo um dos atingidos pelas "purgas eduardianas" ou "purgas da Peça e do Quadro".[11] O estopim seria o "caso Monty", o "caso Angonave", o "caso Kamanga" e o "caso da Peça e do Quadro", em que os três primeiros tratariam de denúncias de corrupção partindo de uma ala mais à esquerda no partido, atingindo, respectivamente, as empresas Sonangol, Angonave e Endiama, e; por último críticas ácidas satíricas a José Eduardo dos Santos e seu círculo de confiança partindo do departamento partidário de Cultura e de Formação numa peça teatral e numa obra de arte,[12] acusando-os de incompetentes, incapazes e corruptos.[13] Ndunduma wé Lépi foi removido de cargos-chave do partido e do governo.[11][13] Atribui-se tanto a uma busca de afirmação da liderança de José Eduardo dos Santos,[11] como de tentativa de minar o poder de figuras que considerava demasiado poderosas.[12]

Chegou a ser preso em 1982 no episódio das "purgas eduardianas", o que gerou protestos de escritores e intelectuais que viviam no país e no exterior.[14] Posteriormente, Ndunduma wé Lépi redigiu um pedido de desculpas e foi reintegrado ao MPLA.[10]

No restante da década de 1980 até o início da década de 1990 trabalha somente como escritor, publicando obras importantes como "Falo de amor por amar" e "Ontem e depois" (ambas em 1985), além de "Lenha seca – fábulas recontadas na noite" e "Dizer assim" (ambas de 1986), "Os sentimentos da pedra" e "Limos de lume" (ambas em 1989), "Memórias de purpura" (1990) e "Lwini: crónica de um amor trágico" (1991),[2] recebendo autorização para elaborar a biografia oficial de Agostinho Neto.[14]

Nas eleições gerais em Angola em 1992 foi inscrito na lista do Círculo Nacional pelo MPLA, sendo eleito deputado da Assembleia Nacional, alcançando a reeleição nas eleições legislativas de Angola de 2008.[4]

Morte

Morreu em Lisboa, 18 de setembro de 2009, vítima de cancro.[3] Foi sepultado em 25 de setembro de 2009, no Cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda.[15]

Obras

Escritor com uma carreira aclamada,[8] com versatilidade de gêneros como poesia, prosa, provérbio, artigo e antologia,[2] destacadamente escreveu: Terras das Acácias Rubras (1960, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império), Tempo Angolano em Itália (1962, São Paulo, Felman-Rego),[9] Armas com Poesia e uma Certeza (1973, Cazombo-DEC), O Regresso e o Canto (1975, Lobito, Cadernos Capricórnio), Poesia com Armas (1975, Lisboa, Sá da Costa), Caderno dos Heróis (1977, Luanda, União dos Escritores Angolanos), No Velho Ninguém Toca (1979, Lisboa, Sá da Costa), O País de Bissalanka (1980, Lisboa, Sá da Costa), O Cunene Corre para o Sul (1981, Luanda, União dos Escritores Angolanos), Falo de amor por amar (1985, Luanda, União dos Escritores Angolanos), Limos de lume (1989, Luanda/Porto, Ediçoes ASA) e Lwini: crónica de um amor trágico (1991, Luanda, União dos Escritores Angolanos).[6]

Referências

  1. «Morreu deputado e escritor Costa Andrade "Ndunduma"». Club-K. 19 de setembro de 2009 
  2. a b c Elfi Kürten Fenske (Fevereiro de 2016). «Costa Andrade - poesia e política». Templo Cultural Delfos 
  3. a b c d e Maria Luiza Rolim (23 de setembro de 2009). «Fernando Costa Andrade (1936-2009)». Expresso 
  4. a b c Joaquim Pedro (2019). Ensino do Português em Angola. Reflexões sobre os conteúdos literários dos programas do 2º Ciclo do Ensino Secundário (PDF). Évora: Universidade de Évora 
  5. a b c d e «Biografia de Costa Andrade». Portal São Francisco. Consultado em 20 de janeiro de 2026 
  6. a b c d e f «Costa Andrade». Blog do Antonio Miranda. Março de 2013 
  7. a b c Carla Susana Alem Abrantes (2007). Narrando Angola: a trajetória de Mário António e a invenção da “literatura angolana” (PDF). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro 
  8. a b c d e f g Vera Lúcia da Silva Sales Ferreira (2006). Manifestações da cultura oral em narrativas literárias angolanas (PDF). Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. p. 59 
  9. a b c Paulo Henrique Pappen (Novembro de 2013). Um angolano na Itália e um italiano em Angola: diferentes formas de ser estrangeiro (PDF). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 
  10. a b c d e Marcelo Bittencourt (15 de setembro de 1997). «Independência de Angola - Entrevistado: Fernando Costa Andrade». Luanda: LABHOI-UFF 
  11. a b c Reginaldo Silva (2 de março de 2016). «Lúcio Lara entre a história e as "ausências"». Rede Angola. Consultado em 25 de novembro de 2017 
  12. a b Susana Garcia (27 de junho de 2014). «"A mulher é o único receptáculo que ainda nos resta, onde vazar o nosso idealismo." – Goethe». Tribuna das Ilhas 
  13. a b Nuno de Fragoso Vidal (setembro de 2016). «O MPLA e a governação: entre internacionalismo progressista marxista e pragmatismo liberal-nacionalista». Porto Alegre. Estudos Ibero-Americanos. 42 (3): 815-854 
  14. a b Osvaldo Sebastião da Silva (2019). O socialismo fora do lugar: forma literária e matéria social em Manuel Rui (PDF). São Paulo: Universidade de São Paulo. p. 27 
  15. Angop (24 de setembro de 2009). «Presidente rende homenagem ao deputado Costa Andrade». Club-K