Narcisismo das pequenas diferenças
Na psicanálise, o narcisismo das pequenas diferenças (em alemão: der Narzissmus der kleinen Differenzen) é a ideia de que quanto mais um relacionamento ou comunidade compartilha semelhanças, maior a probabilidade de as pessoas nele se envolverem em rixas interpessoais e ridículo mútuo devido à hipersensibilidade a pequenas diferenças percebidas umas nas outras. O termo foi cunhado por Sigmund Freud em 1917, com base no trabalho anterior do antropólogo inglês Ernest Crawley. Crawley teorizou que cada indivíduo é separado dos outros por um tabu de isolamento pessoal, o que é efetivamente um narcisismo de pequenas diferenças.
Uso

O termo apareceu em O Mal-Estar na Civilização de Freud (1929-1930) em relação à aplicação da agressão inata no homem a conflitos étnicos (e outros), um processo ainda considerado por Freud, naquele ponto, como uma satisfação conveniente e relativamente inofensiva da inclinação à agressão . Para os lacanianos, o conceito claramente relacionava-se com a esfera do Imaginário: o narcisismo das pequenas diferenças, que situa a inveja como o elemento decisivo em questões que envolvem a imagem narcisista. O psiquiatra americano Glen O. Gabbard sugeriu que o narcisismo das pequenas diferenças de Freud fornece uma estrutura para entender que num relacionamento amoroso, pode haver uma necessidade de encontrar, e até mesmo exagerar, diferenças para preservar um sentimento de separação e identidade.
Foi salientado que Jonathan Swift, no seu romance de 1726, As Viagens de Gulliver, descreveu este fenómeno ao escrever sobre como dois grupos entraram numa guerra longa e cruel depois de discordarem sobre qual seria a melhor ponta para quebrar um ovo.
Em termos de pós-modernidade, Clive Hazell argumenta que a cultura do consumo tem sido vista como baseada no narcisismo das pequenas diferenças para alcançar um sentido superficial da própria singularidade, um senso ersatz de alteridade que é apenas uma máscara para uma uniformidade e semelhança subjacentes. O fenómeno foi retratado pelo grupo de comédia britânico Monty Python no seu filme satírico de 1979, Life of Brian,[1] pelo comediante Emo Philips,[2] e pela autora Joan Didion num ensaio (parte de seu livro de 1968, Slouching Towards Bethlehem ) sobre Michael Laski, o fundador do Partido Comunista dos EUA (Marxista-Leninista) .[3]
Ver também
- A familiaridade gera desprezo
- Conflito intragrupal
- Narcisismo coletivo
- Política de identidade
- Lei da trivialidade
- Narcisismo
- Sectarismo
- Vale da estranheza
Referências
- ↑ Leopoldo Drago (22 de abril de 2014). «Life of Brian – scene 3 – People's front of Judea». Arquivado do original em 21 de dezembro de 2021 – via YouTube
- ↑ Emo Philips (29 de setembro de 2005). «The best God joke ever - and it's mine!». The Guardian. London. Consultado em 10 de dezembro de 2023
- ↑ Paul, Ari (2 de setembro de 2015). «Will Socialists Back Bernie? Definitely Maybe» (em inglês). The Observer. Consultado em 10 de setembro de 2016
Leitura adicional
- An Interview With Freud Biographer Peter D. Kramer por Paul Comstock, 3 de abril de 2007
- Group Psychology and Political Theory, By C. Fred. Alford, páginas 40–42, Publicado em 1994, Yale University Press, ISBN 0-300-05958-2
- Michael Ignatieff, "The Narcissism of Minor Difference," in The Warrior's Honor: Ethnic War and the Modern Conscience, páginas 34–71 Publicado 1997, Henry Holt and Co., ISBN 0-8050-5519-3
- Anton Blok, 'The Narcissism of Minor Differences' in Honor and Violence (Cambridge 2001) 115-131