Na Prisão

Na Prisão (刑務所の中, Keimusho no Naka; Dentro da Prisão) é um mangá japonês escrito e ilustrado por Kazuichi Hanawa. Foi serializado na revista AX da editora Seirinkogeisha entre 1998 e 2000. Foi adaptado para um filme em 2002 com realização de Yoichi Sai.[1] Foi traduzido e publicado em inglês pela Fanfare/Ponent Mon em 2004. O mangá foi publicado em Portugal pela Sendai Editora em fevereiro de 2022.[2] Esta foi a terceira obra publicada pela editora.

No Brasil, foi publicado duas vezes; a primeira, em 2005, pela Editora Conrad e em 2025, pela Comix Zone.[3]

Contexto e produção

Hanawa, escritor e ilustrador de mangá, foi condenado a três anos de prisão em dezembro de 1994 por posse de réplicas de armas de fogo e armas antigas, apesar de uma campanha nacional de cartas pedindo leniência na sua sentença. Enquanto estava sob custódia, como forma de "manter a sua sanidade", ele registou meticulosamente as regras e regulamentos que regiam a vida na prisão.[4] Após a sua libertação, ele enviou um postal para Noriko Tetsuka, que acabara de fundar a revista AX, lamentando as dificuldades financeiras que a revista enfrentava, segundo informações que ele ouvira. Tetsuka respondeu, oferecendo-lhe a oportunidade de criar algo para a AX, a qual ele aceitou imediatamente. Hanawa disse que tudo em que conseguia pensar era no seu tempo na prisão e começou a serializar para a revista histórias sobre a vida na prisão baseadas em eventos verídicos. A AX estava numa situação financeira precária quando a série de Na Prisão foi concluída, mas Tetsuka atribui a salvação da revista ao sucesso da versão em livro do mangá.[5] Hanawa desenhou as ilustrações do livro inteiramente de memória, pois não lhe foi permitido desenhar enquanto estave sob custódia.[6]

Conteúdo

Hanawa está na prisão a aguardar a transferência para uma prisão maior, questionando-se sobre como é que a sua cela acumula tanto pó e imaginando-se a transformar-se num porco na prisão, sem mais nada para fazer para além de comer. Depois de ser transferido para uma prisão maior, ele partilha uma cela com outras quatro pessoas e trabalha na fábrica da prisão a esculpir caixas de lenços de madeira. "Recriado com uma meticulosidade raramente encontrada" em banda desenhada, o mangá inclui plantas da prisão, opções de vestuário, a rotina diária da prisão e um foco intenso e detalhado na comida servida na prisão.[6]

Recepção e prémios

Na Prisão recebeu críticas positivas. Andrew Arnold, da revista Time, elogiou a sua originalidade, personagens memoráveis e as suas ilustrações que variavam "do realismo preciso ao expressionismo dramático". Arnold comentou que, em vez de ser "um polémico moralista sobre a injustiça ou a crueldade do encarceramento, [a obra] parece em vez disso deleitar-se em relatar os detalhes da vida atrás das grades". [6] Paul Gravett elogiou a descrição "meticulosa" da vida na prisão, descrevendo o mangá como "parte autobiografia, parte arteterapia, o seu fascínio perturbador reside em questionar como alguém poderia sobreviver a estas experiências desumanizantes e se tu também conseguirias".[4] Escrevendo no livro Manga Design, Masanao Amano elogiou o realismo do mangá, comentando que a ausência de mensagem política, combinada com seu conteúdo em estilo documental, cativou fortemente os leitores.[7] No International Journal of Law in Context, Carol Lawson citou-o como um exemplo de uma “memória de prisão particularmente comovente”, que era nostálgica “apesar da atmosfera militarista e do extraordinário controlo exercido” nas prisões japonesas.[8]

A obra Na Prisão foi nomeada para o Prémio Cultural Osamu Tezuka de 2001, e havia recebido o maior número de votos na primeira ronda da votação, quando Hanawa recusou o prémio, dizendo: "Tenho orgulho de mim mesmo como um pequeno artista de mangá, por isso não creio que esteja qualificado para qualquer tipo de prémio." ... Não sou influenciado por Osamu Tezuka".[9] Também foi nomeado para o Prémio do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême para Argumentos de 2006.[10][11]

Referências

  1. Mack, Andrew (22 de novembro de 2006). «DVD Review: Sai Yoichi's 'Doing Time' R1 Disc - Twitch». Twitch Film. Consultado em 16 de fevereiro de 2013. Arquivado do original em 4 de julho de 2015 
  2. «Sendai Editora vai lançar mangá "Na Prisão" em Portugal». otakupt.com. 14 de janeiro de 2022. Consultado em 2 de novembro de 2025 
  3. Pedro (12 de fevereiro de 2025). «"Na Prisão": Mangá retorna após 20 anos em nova edição pela Comix Zone». Fora do Plástico. Consultado em 5 de novembro de 2025 
  4. a b Gravett, Paul (15 de outubro de 2006). «Gekiga: The Flipside Of Manga». Paul Gravett. Arquivado do original em 15 de março de 2015 
  5. «Japan's Alternative Comics: Then and Now». Google Arts & Culture. 2020. Arquivado do original em 22 de dezembro de 2024 
  6. a b c Arnold, Andrew D. (11 de novembro de 2004). «Manga Mon Amour». Time. Arquivado do original em 9 de junho de 2025 
  7. Amano, Masanao; Wiedemann, Julius (2004). Manga Design (em francês). [S.l.]: Taschen. ISBN 9783822825914 
  8. Lawson, Carol (2021). «Subverting the prison: the incarceration of stigmatised older Japanese». Cambridge University Press. International Journal of Law in Context. 17 (3): 336–355. doi:10.1017/S1744552321000422 
  9. Luo, Rongrong. Alternative Comics as Contemporary Art: A Viewpoint on Artists and Works (PDF) (Doctoral). p. 121 
  10. Loo, Egan (9 de dezembro de 2009). «Manga Nominated for Awards at Angouleme Comic Fest». Anime News Network. Arquivado do original em 13 de dezembro de 2009 
  11. Koulikov, Mikhail (22 de janeiro de 2008). «Manga Nominated for Awards at Angouleme Festival». Anime News Network. Arquivado do original em 23 de janeiro de 2008