Nüshu

Exemplo de escrita nüshu

O nüshu (chinês tradicional: 女書, chinês simplificado: 女书, pinyin: NǚshūWade–Giles: Nü³shu¹, lit. "escrita feminina") é um sistema de escrita historicamente usado exclusivamente por mulheres no condado de Jiangyong, Província de Hunan, China.

Escrita feminina

Ao contrário do que foi frequentemente afirmado pela mídia após a morte de Yang Huanyi, o nüshu não é um idioma, mas sim um sistema de escrita para um dialeto local, o tǔhuà (chinês simplificado: ; chinês tradicional: 土話; pinyin: Sháozhōu tǔhuà), que é incompreensível para os homens que não o aprenderam.[1] Trata-se de um silabário com cerca de setecentos grafemas, alguns inspirados livremente nos caracteres chineses tradicionais, enquanto outros foram completamente inventados. Os caracteres nüshu são formados por quatro elementos principais: pontos, traços retos, traços oblíquos e arcos.[2][3]

Uma expressão feminina da cultura

As mulheres chinesas raramente tinham permissão para aprender a ler e escrever. O nüshu surgiu, em parte, como uma forma de contornar essa proibição.[4] Segundo Zhao Liming, da Universidade Tsinghua de Pequim, "o nüshu não é apenas um sistema de escrita, mas sim toda uma cultura feminina tradicional tipicamente chinesa. Era como um raio de sol que tornava a vida das mulheres mais leve. O nüshu permitia que as mulheres se expressassem com sua própria voz e resistissem à dominação masculina".[5] Essa escrita também fortalecia laços profundos entre as mulheres, especialmente por meio da tradição das irmãs juradas.[6] Esses vínculos, uma vez formados, duravam toda a vida[7] e criavam conexões femininas intensas.[8]

Descoberta e fontes

A existência do nüshu foi revelada por Yang Huanyi em 1995, em Pequim, durante a terceira conferência da ONU sobre as mulheres, mas o uso dessa escrita terminou alguns anos depois: Yang Huanyi, a última verdadeira herdeira que a usou por toda a sua vida, morreu em 20 de setembro de 2004.[9]

Há poucos escritos em nüshu, pois os manuscritos eram queimados ou enterrados com suas autoras. Um dicionário com mil e oitocentos caracteres, incluindo diversas variantes, foi publicado em 2002 por Zhou Shuoyi, o primeiro homem a aprender o dialeto. Um comitê editorial do Centro Cultural Nüshu da Universidade das Etnias do Zhongnan foi encarregado de coletar as obras dispersas e redigir uma coletânea de estudos, incluindo os manuscritos e sua documentação.[10]

Uma exposição foi realizada em Pequim, em abril de 2004, exibindo escritos, bem como lenços, aventais, echarpes e outros objetos decorados com caligrafias em nüshu. Em 2015, foi descoberta uma pedra de granito com caracteres nüshu gravados, em uma ponte com mais de 800 anos, localizada em Luhung, no distrito de Dong'an, em Hunan, o que levantou novas questões.[11]

O aprendizado do nüshu experimentou um certo renascimento, não mais para a comunicação entre mulheres, mas com o objetivo de exploração turística comercial.[12]

Referências

  1. «Nushu: The secret language only women know». bbc.com 
  2. Anne Loussouarn, Béatrice Didier, Antoinette Fouque e Mireille Calle-Gruber (dir.) (2013). «Dictionnaire universel des créatrices». Éditions Des femmes (em francês): 3220 .
  3. Fasold & Connor-Linton 2006.
  4. «En Chine, il existe une langue secrète réservée aux femmes : le Nüshu». RTBF (em francês). Consultado em 8 de maio de 2022 .
  5. «Nüshu : des larmes au soleil». UNESCO (em inglês). 24 de janeiro de 2018. Consultado em 8 de maio de 2022 .
  6. Martine Saussure-Young. «Présentation du nüshu». nushu.fr (em francês). Consultado em 8 de maio de 2022 .
  7. Raphaël, Jacquet (1992). «Le nüshu : une forme de sous-culture féminine». Perspectives Chinoises. 3 (1): 37–39. doi:10.3406/perch.1992.2825. Consultado em 8 de maio de 2022 .
  8. «Le nüshu : qu'est-ce que c'est ?». assimil.com (em francês). 17 de agosto de 2021. Consultado em 8 de maio de 2022 .
  9. «The Last Guardians of China's Women-Only Script». Sixth Tone (em inglês). 22 de agosto de 2018. Consultado em 9 de setembro de 2018 .
  10. Le Hunan protège le Nüshu, un « code secret » féminin, contre la disparition, Le Quotidien du peuple, 1 de abril de 2002.
  11. 湖南东安发现珍贵碑刻女书 Guangming Online, 26 septembre 2015.
  12. Watts, Jon The forbidden tongue, The Guardian, 23 septembre 2005.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em francês cujo título é «Nüshu», especificamente desta versão.

Bibliografia

Ligações externas