Náucratis

Náucratis foi uma cidade do Antigo Egito, localizada no delta do Nilo, entre o mar Mediterrâneo e a cidade de Mênfis. Estabelecida pelo faraó Psamético I, no final do século VII AEC, Náucratis tornou-se um local importante para os comerciantes mediterrânicos, sobretudo egípcios, gregos e fenícios. Dada a ligação entre os faraós da 26ª dinastia e as cidades gregas da Jônia[1], Psamético I concedeu aos gregos o direito de habitar a cidade, fazendo dela o primeiro assentamento grego permanente no Egito, onde gregos e egípcios conviveram por séculos.

Desde a sua chegada, os gregos obtiveram permissão real para construírem santuários aos seus deuses. Náucratis existiu por cerca de 1.200 anos, tendo perdido sua proeminência comercial por diferentes fatores como a mudança do curso do rio[2] e a fundação de cidades como Alexandria. Após deixar de ser habitada em meados do período bizantino, a localização exata da antiga cidade foi perdida, o que levou autores modernos, entre meados do século XVII a meados do XIX, a iniciarem um debate, que durou aproximadamente um século[3], acerca da localização de seu sítio arqueológico. A discussão foi encerrada em 1884, quando o arqueólogo William Matthew Flinders Petrie, sob os auspícios da Egypt Exploration Fund, localizou o sítio de Náucratis.[4]

O estabelecimento de Náucratis

O estabelecimento de Náucratis deve-se a dois fatores: a retomada das redes de conexão, que haviam sido desintegradas após o colapso da idade do Bronze[5], e a reunificação do Egito sob o governo do faraó Psamético I. A partir da retomada paulatina do comércio entre as comunidades mediterrâneas, muitas cidades e empórios — ou seja, locais de comércio — foram fundados ao longo das costas do Mediterrâneo[6].

Paralelamente a este processo, o Egito da 25ª dinastia egípcia (770–657 AEC) estava dividido e passava por conflitos entre dois centros de autoridade: os sacerdotes de Tebas e os dinastas líbios. Tal crise levou o Egito ao ápice de sua “dispersão de poder”.[7] Assim, Psamético, filho do faraó Necao I — que governara sob o domínio assírio —, liderou um contingente militar a fim reunificar o reino e livrar-se do domínio estrangeiro, tendo recebido apoio do rei Giges da Lídia para “emancipar-se”.[8]

Esse apoio foi crucial para uma aproximação política entre algumas cidades jônicas e a emergente 26ª dinastia, que, em diferentes momentos de sua história, mobilizou mercenários jônicos integrando-os às suas forças militares. Segundo o historiador Heródoto, tais mercenários teriam combatido ao lado de Psamético em sua rebelião pela reunificação do Egito.[9] Uma vez vitorioso, Psamético I reafirmou sua aliança com os gregos e lhes concedeu o direito de habitar nos arredores de uma cidade que situava-se no delta do Nilo, a oeste do braço canópico deste rio. Assim, iniciou-se o processo de formação do que viria a ser o empório de Náucratis.

Náucratis, o empório

Antes dos gregos, os egípcios

Os primeiros estudiosos modernos da história naucratita, entre os séculos XVIII e finais do século XIX, consideravam que Náucratis era uma colônia grega, estabelecida em uma região desabitada do Egito.[10] Ou seja, durante muito tempo, havia certo consenso de que Náucratis era “puramente grega” desde a sua fundação.[11] No entanto, descobertas de vestígios arqueológicos do século VI AEC, tais como fragmentos de cerâmica egípcia e inscrições com referências a um templo de Amon-Rá Baded, possivelmente em Náucratis, passaram a indicar que a presença egípcia na região seria contemporânea à chegada dos gregos, ou ainda anterior.

“Colônia” ou Empório?

Em complemento à interpretação de uma Náucratis “puramente grega”, os autores modernos definiram Náucratis enquanto uma apoikia (Em tradução literal “longe de casa”), ou seja, um modelo de assentamento estabelecido por uma metrópolis (cidade-mãe) em uma região distante do território da cidade-mãe. Ainda que alguns pesquisadores defendam que Náucratis tenha sido fundada por Mileto, não há consenso quanto a isto. As fontes arqueológicas mais antigas de Náucratis não indicam uma filiação clara entre o assentamento e uma possível metrópolis, como tradicionalmente observa-se em apoikiai.

A própria associação de Náucratis com Mileto é tardia, tendo surgido em meados do período helenístico, em um momento que se buscava criar um mito fundador para legitimar o prestígio da cidade, por meio de sua antiguidade, mediante o desenvolvimento de Alexandria e outras cidades que passaram a ser grandes polos comerciais.[12] Assim, considerando que Náucratis foi estabelecida em um território soberano, recém-unificado, e que sua economia tinha o comércio como fundamento, sem uma filiação clara a qualquer cidade grega, o mais apropriado seria a classificação do assentamento enquanto um emporion (praça de comércio), ou seja, um local de comércio.

O empório de Náucratis sob o governo do faraó Psamético I

Após a reunificação do Egito, quando do início do governo da 26ª dinastia, Psamético I intensificou as trocas comerciais com outros povos do Mediterrâneo. Assim, a aliança do faraó com os gregos também fez parte desse processo, garantindo aos comerciantes egípcios acesso aos produtos gregos e vice-versa.[13] Nesse cenário, além de habitar as terras concedidas pelo faraó, os gregos estabeleceram uma área de comércio na região. Neste primeiro momento, este agrupamento grego não possuía um estatuto jurídico definido nem era fiscalizado efetivamente pelo poder real egípcio.[14]

O empório de Náucratis sob o governo de Amásis II

O faraó Amásis II, durante o seu governo, definiu um estatuto jurídico para Náucratis e garantiu aos gregos autonomia na administração comercial da cidade — o que não significou sua independência jurídica. [15] Em Náucratis, Amásis II, conforme Heródoto, teria concedido novas terras aos gregos e limitado o comércio destes ao porto de Náucratis, proibindo-os de venderem seus produtos em outros portos egípcios.[16] Estas medidas garantiram uma cobrança efetiva de taxas sobre as mercadorias gregas, assim como o combate a transações comerciais clandestinas.[17]

As reformas implementadas por Amásis II, compõe a transição de Náucratis de um assentamento sem estatuto jurídico definido para um pr-mryt (literalmente casa, ou ainda domínio). No direito egípcio, um domínio englobava diferentes conjuntos de bens, incluindo terras, gado e embarcações. Legalmente, os responsáveis por um domínio poderiam geri-lo com certa autonomia, sem liberdade política.[18] Uma vez que todas as terras pertenciam ao faraó, um domínio só poderia ser fundado mediante a doação de terras por parte do poder real.[19] Assim, é possível afirmar que Amásis II foi o faraó fundador de Náucratis porque lhe concedeu um estatuto legal, ainda que não o estabelecimento do assentamento tenha ocorrido durante o reinado de Psamético I.

Os santuários naucratitas

Até o momento, as escavações arqueológicas no sítio de Náucratis evidenciaram a existência de cinco santuários ligados ao culto dos deuses gregos e um ligado ao culto egípcio. Uma inscrição egípcia datada do século VI AEC, menciona a existência de um templo em honra ao deus Amon-Rá. Em torno deste templo, um santuário teria sido erigido ainda no início do 26ª dinastia, por volta do ano de 672 AEC. [20] A existência de um templo a Amon-Rá na região que viria a ser Náucratis, já no século VI AEC, é um dos indícios mais fortes da pré-existência de uma cidade nativa anterior ao estabelecimento dos gregos no delta, isto porque os assentamentos urbanos egípcios eram comumente construídos no entorno de seus recintos sagrados. [21] A localização do templo, e posteriormente do santuário, refletia também o processo de ocupação do espaço; uma vez que as cidades egípcias cresciam do sul para o norte — o que explicaria o estabelecimento do gregos na zona norte do sítio enquanto os egípcios predominavam na zona sul. [22]

Entre os santuários gregos naucratitas temos conhecimento de um culto “aos deuses dos gregos” — enquanto um coletivo —, a Hera, Apolo, Afrodite e aos Dióscuros. No segundo livro de sua História, Heródoto cita três destes recintos: o Apollonion, o Heraion e o Hellenion; além destes menciona também um santuário de Zeus Hellanios, porém, este santuário ainda não foi localizado. [23] Estes cinco santuários possuíam vestígios de templos, contudo, com exceção do Apollonion, pouco foi descoberto sobre as plantas de tais santuários ou sobre sua aparência. O Afrodision é referenciado indiretamente por Ateneu quando de uma passagem na qual este cita a história de um mercador que, ao ter seu navio salvo por Afrodite, dedicou uma estátua à deusa em Náucratis [24].

O Dioskoureion, por sua vez, não é mencionado por nenhuma fonte literária. Soma-se ao conjunto desses recintos, outro ainda não localizado, a saber, o santuário de Atena, mencionado numa inscrição do século II AEC — com relação a este, não há referências que atestem acerca de um templo. [25] Evidências epigráficas indicam ainda a existência de cultos naucratitas à Deméter, Hermes e Dionísio; existindo também menções, no Banquete dos Eruditos (4, 149d–150a), de festivais em honra à Héstia Prytanitis e Apolo (Pythios) Komaios. [26]

O Hellenion: "aos deuses dos gregos"

Conforme Heródoto no livro II de sua História, dentre os santuários de Náucratis, o Hellenion seria o “[…] o maior, mais famoso e mais frequentado”.[27] Este santuário era administrado pelas nove póleis que o haviam fundado, são estas as cidades jônicas de Quíos, Téos, Fócaia e Clazomênai; pelas dórias de Rodes, Cnidos, Halicarnassos e Fasélis, bem como pela cidade eólia de Mitiliene. Seu nome significaria algo como "o santuário dos deuses gregos" e este teria sido o único recinto sagrado, em todo o mundo grego antigo, no qual os deuses gregos eram cultuados em conjunto.[28] Tal culto é evidenciado pelas fontes epigráficas oriundas deste santuárioque evidenciam a seguinte fórmula dedicatória: tois theois ton hellenon (τοῖς θεοῖς τῶν Ἑλλήνων), que traduz-se por "aos deuses dos gregos". Além de tal culto, algumas divindades como Apolo, Afrodite, dentre outros, também eram cultuados individualmente. Dessa forma, o culto majoritário do Hellenion poderia ser explicado pelo reconhecimento dos gregos naucratitas da cultura comum que possuíam — o que não deve ser confundido com um santuário pan-helênico como eram os casos de Olímpia e Delfos.[29]

Além de um centro cultual, este recinto sagrado funcionava enquanto polo administrativo do empório. As nove póleis fundadoras eram responsáveis por sua administração, elegendo entre si os prostátai tou emporiou (os προστάται τοῦ ἐμπορίου), ou seja, os dirigentes do empório, aqueles que representavam os interesses de suas respectivas póleis. Estes negociavam com os representantes do poder real egípcio, benefícios comerciais e organizavam as dinâmicas comerciais gregas em Náucratis. [30] Ainda conforme Heródoto, as póleis que não participavam da administração do Hellenion reivindicavam, sem sucesso, tal direito. Esta observação, levantou hipóteses sobre os possíveis benefícios garantidos às póleis que tinham o santuário, tais como redunções signiifcativas nos valores das taxas sobre as mercadorias comercializadas pelas nove cidades.[31]

Náucratis, a pólis

Assim, desde o seu estabelecimento até meados do século IV AEC, Náucratis esteve submetida ao poder real egípcio, ou seja, sem um governo autônomo. Teria sido durante a 30ª dinastia (380-343 AEC) que Náucratis adiquiriu independência e tornou-se um pólis no sentido estrito do termo.[32] Esta independência teria sido resultado de um conjunto de fatores, entre estes, destaca-se que o desenvolvimento comercial da cidade de Mênfis, bem como a fundação de Alexandria teria enfraquecido o comércio naucratita. Logo, para a coroa egípcia, Náucratis não apresentaria uma ameaça à estabilidade interna, dessa forma, o antigo empório livrou-se da tutela das póleis jônicas.[33]

A "egipcianização" de Náucratis

Uma vez que as cidades jônicas estavam fora da administração da cidade, comerciantes egípcios ganharam proeminência em Náucratis e renovaram a elite comercial local. Neste período, o templo de Amon-Rá foi reformado e recebeu em seu entorno uma grande estrutura que delimitou sua área sagrada, fazendo deste o maior santuário da cidade. [34] Neste recinto sagrado produzia-se lã para as oficinas têxteis que abasteciam os comerciantes gregos. [35] Além disto, evidências estatutárias, tais como a estátua heróica de Horembeb, atestam a confluência entre a identidade grega e egípcia na cidade.

Referências

  1. SCHLOTZHAUER, Udo; VILLING, Alexandra. Naukratis: Greek Diversity in Egypt: Studies on East Greek Pottery and Exchange in the Eastern Mediterranean. Londres: British Museum, 2006.
  2. BERGMANN, Marianne; HEINZELMANN, Michael. Schedia (Kom El-Gizah and Kom El-Hamam, Department of Beheira): Report on the documentation and excavation season 18, March-18, April 2003.
  3. SANTOS, Leonardo Wesley dos. A historiografia sobre Náucratis in: “Aos deuses dos gregos”: historiografia sobre Náucratis e o Helênion entre os séculos XIX e XXI. 2025. 119 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em História) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2025.
  4. PETRIE, William Matthew Flinders. Naukratis. Part I, 1884-1885 (Third Memoir of the Egypt Exploration Fund). Londres, 1886.
  5. MONZANI, Juliana Caldeira. Processos de integração e desintegração na Grécia no final da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro (1300 a 800 a.C.). Mare Nostrum, [S. l.], v. 4, n. 4, p. 1–21, 2013. DOI: 10.11606/issn.2177-4218.v4i4p1-21.
  6. MALKIN, Irad. A small Greek world: networks in the ancient Mediterranean. Ilustrada. New York: Oxford University Press, 2011. 284 p.
  7. LLOYD, Alan B. The Late Period (664–332 BC). In: SHAW, Ian (ed.). The Oxford history of Ancient Egypt. Nova Iorque: Oxford University Press, 2003. p. 364–387.
  8. idem.
  9. HERÔDOTOS. 97; 134; 135 e 178 in: História. Trad. de Mário da Gama Kury, 2ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998.
  10. SANTOS, Leonardo Wesley dos. “Aos deuses dos gregos”: historiografia sobre Náucratis e o Helênion entre os séculos XIX e XXI, 2025. 119 p. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em História) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo.
  11. SANTOS, Leonardo Wesley dos. Grega ou egípcia? A composição étnica de Náucratis: o debate entre os séculos XVIII e XXI in: Mythos: revista de história antiga e medieval. Imperatriz: Uemasul / NEMHAM, ano IX, n. 2, v. XIX.
  12. AGUT-LABORDÈRE, Damien. Le statut Égyptien de Naucratis.
  13. MÖLLER, Astrid. Naukratis: trade in archaic Greece. Nova Iorque: Oxford University Press, 2000. p. 105.
  14. BRESSON, ALAIN. Rhodes, l’Hellénion et le statut de Naucratis (VIe-IVe siècle a.C.) In: Dialogues d’histoire ancienne, vol. 6, 1980. pp. 291–349.
  15. AGUT-LABORDÈRE, Damien. Le statut Égyptien de Naucratis.
  16. HERÔDOTOS. 97; 134; 135 e 178 in: História. Trad. de Mário da Gama Kury, 2ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998.
  17. AGUT-LABORDÈRE, Damien. Le statut Égyptien de Naucratis.
  18. Idem.
  19. idem.
  20. SPENCER, Jeff. The Egyptian temple and settlement at Naukratis. British Museum Studies in Ancient Egypt and Sudan, v. 17, 2011, p. 31–49.
  21. idem.
  22. idem.
  23. HERÔDOTOS. 97; 134; 135 e 178 in: História. Trad. de Mário da Gama Kury, 2ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998.
  24. ATENÆUS. XI, 61 in: The Deipnsophists or Banquet of the Learned. Trad. Charles Duke Yonge. Vol. II. Londres: Henry Bohn, 1854.
  25. VILLING, Alexandra. Naukratis: religion in a cross-cultural context. British Museum Studies in Ancient Egypt and Sudan, v. 24, 2019, p. 204–247.
  26. Idem.
  27. HERÔDOTOS. História, Livro II (Euterpe). Tradução de Mário da Gama Kury.
  28. HOGARTH, David George. Excavations at Naukratis. In: The Annual of the British School at Athens, v. 5, 1898/1899, p. 26–97. HÖCKMANN, Ursula; MÖLLER, Astrid. The Hellenion at Naukratis: Questions and Observations. In: Naukratis: Greek Diversity in Egypt: Studies on East Greek Pottery and Exchange in the Eastern Mediterranean. Londres: British Museum, 2006. p. 11–22.
  29. HÖCKMANN, Ursula; MÖLLER, Astrid. The Hellenion at Naukratis: Questions and Observations. In: Naukratis: Greek Diversity in Egypt: Studies on East Greek Pottery and Exchange in the Eastern Mediterranean. Londres: British Museum, 2006. p. 11–22.
  30. BRESSON, Alain. Rhodes, l’Hellénion et le statut de Naucratis (VIe-IVe siècle a.C.). In: Dialogues d’histoire ancienne, v. 6, 1980, p. 291–349.
  31. Idem.
  32. AGUT-LABORDÈRE, Damien. Le statut Égyptien de Naucratis
  33. Idem.
  34. Idem.
  35. AGUT-LABORDÈRE, Damien. The wool of Naukratis: About the stela Michigan Kelsey Museum 0.2.5803. British Museum Studies in Ancient Egypt and Sudan 24 (2019), p. 91–104.