Mundaneum

Mundaneum
Entrada do atual Mundaneum, em Mons
Informações gerais
TipoBélgica
Inauguração1920
Proprietário(a)Comunidade francesa da Bélgica
Websitehttps://www.mundaneum.org/en
Geografia
PaísBélgica
CidadeMons
Coordenadas🌍
Localização em mapa dinâmico
Gavetas do Sistema Bibliográfico Universal do Mundaneum

O Mundaneum foi uma instituição desenvolvida no início do século XX pelos juristas belgas Paul Otlet e Henri La Fontaine, cujo objetivo era reunir todo o conhecimento do mundo e classificá-lo de acordo com um sistema denominado Classificação Decimal Universal. O Mundaneum é identificado como um marco na história da coleta e da gestão de dados[1] e, de forma um pouco mais indireta, como um precursor da Internet.[2]

Desde 1998, o Mundaneum é uma organização sem fins lucrativos sediada em Mons, na Bélgica, que mantém um espaço expositivo, um site e um arquivo, celebrando o legado do Mundaneum original.[3]

História

O Mundaneum foi criado em 1920, seguindo uma proposta iniciada em 1895 pelos juristas belgas Paul Otlet e Henri La Fontaine,[4] como parte de seus trabalhos em ciência da documentação. Inicialmente, Otlet chamou o projeto de Palais Mondial (lit. "Palácio Mundial"), que ocupava a ala esquerda do Parque do Cinquentenário, um edifício governamental em Bruxelas.[5] Otlet e La Fontaine organizaram uma Conferência Internacional das Associações Internacionais, que deu origem à União das Associações Internacionais [en] (UAI).[6][7]

Otlet considerava o projeto como a peça central de uma nova "cidade mundial", peça que acabaria se tornando um arquivo com mais de 12 milhões de fichas e documentos. Alguns o consideram um precursor da Internet ou de projetos sistemáticos de conhecimento (como a Wikipédia e o WolframAlpha) e o próprio Otlet sonhava que, algum dia, todas as informações que coletou pudessem ser acessadas pelas pessoas em suas casas.[7][8]

Um folheto em inglês publicado em 1914 descrevia a iniciativa da seguinte forma:

O Centro Internacional organiza coleções de importância mundial. Essas coleções são o Museu Internacional, a Biblioteca Internacional, o Catálogo Bibliográfico Internacional e os Arquivos Documentais Universais. Essas coleções são concebidas como partes de um único corpo universal de documentação, como um levantamento enciclopédico do conhecimento humano, como um enorme armazém intelectual de livros, documentos, catálogos e objetos científicos. Estabelecidas de acordo com métodos padronizados, elas são formadas pela reunião cooperativa de tudo o que as associações participantes possam reunir ou classificar. Estreitamente consolidadas e coordenadas em todas as suas partes e enriquecidas por duplicatas de todas as obras privadas sempre que realizadas, essas coleções tenderão progressivamente a constituir uma representação permanente e completa do mundo inteiro.[9]

— União das Associações Internacionais, p. 116

Em 1934, Otlet planejou uma "réseau" (rede) de "telescópios elétricos" que permitiriam às pessoas pesquisar em grandes quantidades de documentos interligados. A ideia incluía a possibilidade de enviar mensagens entre pesquisadores e criar comunidades virtuais. Muito antes da era dos computadores, seu plano utilizava fichas físicas e telégrafos.[10]

Paul Otlet, Henri La Fontaine e sua esposa Mathilde Lhoest em frente ao Palais Mondial, no Parque do Cinquentenário, em Bruxelas

Inicialmente, o Mundaneum foi instalado no Parque do Cinquentenário, em Bruxelas, onde foi nomeado Palais Mondial, antes de ser renomeado para Mundaneum. Otlet encomendou ao arquiteto Le Corbusier o projeto de um Mundaneum para ser construído em Genebra em 1929.[5] Embora nunca tenha sido construído, o projeto desencadeou o chamado Caso Mundaneum, um debate teórico entre Corbusier e o crítico e arquiteto tcheco, Karel Teige [en].[11]

Em 1933, com o consentimento de Otlet, Otto Neurath fundou o Instituto Mundaneum como uma filial em Haia,[12] que se tornou central para suas atividades quando ele se mudou para os Países Baixos como refugiado após a derrota do Partido Social-Democrata da Áustria na Guerra Civil Austríaca. Em 1936, o Instituto Mundaneum lançou a International Encyclopedia of Unified Science [en].[13]

Décadas seguintes e museu

Quando a Alemanha Nazista invadiu a Bélgica em 1940, o Mundaneum foi substituído por uma exposição de Arte do Terceiro Reich e parte do acervo foi perdida.[4] O Mundaneum foi então reinstalado em um edifício grande, porém degradado, no Parque Leopoldo [en] e permaneceu ali até ser novamente obrigado a se mudar, em 1972.[14] Desde então, o Mundaneum foi transferido para uma antiga loja de departamentos dos anos 1930 em Mons (Valônia), onde o museu atual foi inaugurado em 1998.[4]

Salão de comunicações telegráficas e telefônicas do Palais Mondial

Em 23 de agosto de 2015, foi lançado um Doodle do Google representando os arquivos do Mundaneum. O doodle visava homenagear os criadores do Mundaneum como pioneiros da informação livre.[15]

Em telefones com o sistema operacional Android, "o aplicativo do 'Mundaneum' oferece aos visitantes três experiências únicas que exploram seu legado rico e influente, incluindo 'As origens da Internet na Europa', o '100º aniversário de um Prêmio Nobel da Paz' e 'Mapeando o conhecimento'".[15]

Mídia

A história do Mundaneum, incluindo sua fundação e subsequente substituição pela Alemanha nazista, é o tema do livro Mundaneum, de Mel Croucher.[16] O documentário francês L'homme qui voulait classer le monde, dirigido por Françoise Levie, também relata a idealização e criação do Mundaneum, incluindo textos do acervo pessoal de Paul Otlet.[7]

Ver também

Referências

  1. «Computable knowledge History», Alpha (em inglês), Wolfram .
  2. Wright, Alex (10 de julho de 2014). Cataloging the World: Paul Otlet and the Birth of the Information Age (em inglês). Oxford; New York: OUP USA. pp. 8–15. ISBN 9780199931415 
  3. «Mundaneum Exhibition Space». Mundaneum (em francês). Consultado em 8 de outubro de 2015 
  4. a b c Eric Pfanner (12 de março de 2012). «Google to Announce Venture With Belgian Museum». New York Times (em inglês) 
  5. a b Pohl, Dennis (2016). «The Smart City – City of Knowledge». In: Mondothèque. Mondotheque::a radiating book (PDF) (em inglês). Brussels: Constant vzw. pp. 235–244. ISBN 9789081145954 
  6. Pozzatti, Valéria Rodrigues de Oliveira; Oliveira, Adriana Aparecida; Polonini, Janaína Fernandes Guimarães; Rubim, Rossanna dos Santos Santana (9 de setembro de 2014). «Mundaneum: o trabalho visionário de Paul Otlet e Henri La Fontaine». Revista ACB (2): 202–209. ISSN 1414-0594. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  7. a b c Pereira, Ana Maria; Kroeff, Márcia Silveira; Correa, Elisa Cristina Delfini (5 de julho de 2018). As contribuições de Paul Otlet para a biblioteconomia (PDF). [S.l.]: Acb. p. 16, 36, 37, 174. ISBN 978-85-99850-04-6. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  8. Zafalon, Zaira Regina; Sá, Mariana Nóbrega de (17 de outubro de 2019). «Mundaneum e Biblioteca Digital Mundial: relações possíveis?». Em Questão: 216–242. ISSN 1808-5245. doi:10.19132/1808-5245250.216-242. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  9. Rayward, W. Boyd (1994), «Visions of Xanadu: Paul Otlet (1868–1944) and Hypertext», Jasis (em inglês), 45, pp. 235–250, consultado em 17 de julho de 2006, arquivado do original em 27 de dezembro de 2005 
  10. Wright, Alex (17 de junho de 2008). «The Web that Time Forgot». New York Times (em inglês) 
  11. Van Acker, Wouter (2012). «Architectural metaphors of knowledge: The Mundaneum designs of Maurice Heymans, Paul Otlet, and Le Corbusier» (em inglês): 372-374. ISSN 0024-2594. doi:10.1353/lib.2012.0036. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  12. Hegselmann, Rainer (1987). Unified Science (em inglês). Dordrecht: D. Reidel Publishing Company 
  13. Neurath, Otto (1983). «An International Encyclopedia of Unified Science (1936)». In: Cohen, Robert S.; Neurath, Marie. Otto Neurath: Philosophical papers 1913–1946 (em inglês). Dordrecht: D. Reidel Publishing Company. p. 139 
  14. «Ancien Institut d'Anatomie et d'Histologie - Institut Warocqué – Inventaire du patrimoine architectural». monument.heritage.brussels (em francês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  15. a b «Google pays tribute to Belgium's inventors». Google (em inglês). Consultado em 18 de março de 2019 
  16. Croucher, Mel (8 de novembro de 2024). Mundaneum (em inglês). UK: Extremis Publishing. ISBN 9781739484569 

Ligações externas