Mulher de Huldremose


Mulher de Huldremose, ou Mulher de Huldre Fen, é um corpo feminino recuperado em 1879 duma turfeira perto de Ramten, na península da Jutlândia, Dinamarca. A análise de datação por carbono 14 indica que viveu durante a Idade do Ferro, algures entre 160 a.C. e 340 d.C. Os restos mumificados fazem hoje parte da exposição permanente no Museu Nacional da Dinamarca. A sofisticada indumentária da Mulher de Huldremose foi reconstruída e exposta em vários museus.[1]
Descoberta
Em 15 de maio de 1879, o corpo foi descoberto por um trabalhador desconhecido que atuava em Ramten, Dinamarca, após cavar um metro na turfa.
Bioarqueologia
O corpo foi encontrado com as pernas dobradas para trás e o braço direito quase decepado. Crê-se que o braço tenha sido danificado antes dela morrer.[2] Aparte isso, o cadáver estava intacto.
A mulher tinha partido uma perna, embora o osso tenha cicatrizado antes de morrer.[2] Lacerações num dos pés foram consideradas ferimentos post-mortem infligidos por uma pá, mas, após avaliação mais detalhada, esses ferimentos teriam ocorrido perto da hora da morte.[3] Uma corda foi encontrada à volta do pescoço, o que sugere estrangulamento na forca ou manual, embora possa também ter sido um colar originalmente.[2]
O corpo foi reexaminado de forma não invasiva em 1990[3] e uma análise dietética foi conduzida em 1999.[4] A radiografia mostrou restos de cabelo no couro cabeludo, bem como os resíduos do cérebro dentro do crânio. Os ossos estavam desmineralizados, como muitos outros corpos descobertos em pântanos. A análise dietética consistiu em duas amostras do conteúdo intestinal, revelando que a refeição final da mulher tinha sido pão de centeio.[3]
Análise de roupas e têxteis
Ao contrário de muitos outros corpos encontrados em pântanos, frequentemente nus, a Mulher de Huldremose foi encontrada vestida, com uma variedade de acessórios no corpo. A análise desses objetos, incluindo evidência rara de tecido de fibra vegetal, mostrou que os povos escandinavos da Idade do Ferro ja utilizavam uma ampla, mas desconhecida, gama de tecnologias de tecelagem e tinturaria de tecidos, bem como fabricação de acessórios de pele animal.[5] As suas vestimentas foram submetidas a uma extensa análise por cientistas do Centro de Pesquisa Têxtil da Fundação Nacional de Pesquisa da Dinamarca, e do Museu Nacional da Dinamarca.
A mulher de Huldremose tinha várias capas de pele de ovelha, com as laterais lanosas voltadas para fora. Eram de construção complexa:
''As duas capas de pele são feitas de lã encaracolada e bem preparada. A capa externa é a maior, medindo 82 cm de altura e 170 cm de largura (Fig. 3). É construída com cinco peças primárias retangulares de pele, com duas peças triangulares menores, sob a pala. A maioria das peças é de pele escura de ovelha, mas, há uma inserção de quatro peças de pele de cabra claras. No lado da carne, há um forro frontal superior de pele escura de ovelha, um pormenor único. A capa interior é modestamente mais reduzida, com 80 cm de altura e 150 cm de largura (Fig. 4). É construída de 7 a 8 peças principais com pele de ovelha, na maioria com forma retangular, e 22 componentes secundários de pele de ovelha, cabra, e veado. Ambas as capas têm um design assimétrico com decote inclinado."[5]
Num estudo conduzido em 2009 e liderado pela Dra. Karin Frei, a Mulher de Huldremose e o seu conjunto completo de roupas e acessórios foram submetidos a análise isotópica de estrôncio.[6] Esta pesquisa indicou que o cachecol de lã tem uma procedência local. A saia de lã, no entanto, demonstra pelo menos três procedências diferentes, incluindo uma assinatura local e uma assinatura compatível com o norte da Escandinávia (por exemplo, Noruega ou Suécia). A vestimenta de fibra vegetal e a própria Mulher de Huldremose provavelmente têm uma origem não local, novamente mostrando compatibilidade com o norte da Escandinávia. Em geral, o estudo aponta para a possibilidade de que os têxteis fossem já comercializados ou trazidos como matérias-primas muito mais comumente e de distâncias maiores do que previamente suposto.[6]
Referências
- ↑ Gleba, Margarita; Mannering, Ulla (2010). «A thread to the past: the Huldremose Woman revisited». Archaeological Textiles Newsletter (em inglês) (50). Leiden. pp. 32–37. ISSN 0169-7331
- ↑ a b c «Bog bodies of Europe». Wikispaces.com. Consultado em 14 de maio de 2012. Arquivado do original em 15 de maio de 2013
- ↑ a b c Gill-Robinson, Heather (2005). The Iron Age Bog Bodies of the Archäologische Landesmuseum Schloss Gottorf. [S.l.: s.n.] pp. 65–68
- ↑ Gill-Robinson, Heather (2005). The Iron Age Bog Bodies of the Archäologische Landesmuseum Schloss Gottorf. [S.l.: s.n.]
- ↑ a b Mannering, Ulla (2010). «The Huldremose find: an early Iron Age woman with an exceptional costume». Institute of Archaeology and Ethnology of Polish Academy of Sciences. Fasciculi Archaeologiae Historicae. Fasc. XXIII. ISSN 0860-0007
- ↑ a b Frei, Karin Margarita; Skals, Irene; Gleba, Margarita; Lyngstrøm, Henriette (2009). «The Huldremose Iron Age textiles, Denmark: An attempt to define their provenance applying the strontium isotope system»
. Journal of Archaeological Science. 36 (9): 1965–1971. Bibcode:2009JArSc..36.1965F. doi:10.1016/j.jas.2009.05.007