Mosca tsé-tsé

Glossina
moscas tsé-tsé
Glossina morsitans
Glossina morsitans
Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Classe: Insecta
Ordem: Diptera
Subordem: Brachycera
Subsecção: Calyptratae
Superfamília: Hippoboscoidea
Família: Glossinidae
Muscidae
Theobald, 1903
Género: Glossina
Wiedemann, 1830
Distribuição geográfica
Distribuição natural da mosca tsé-tsé.
Distribuição natural da mosca tsé-tsé.
Grupos de espécies
  • morsitans (espécie da "savana")
  • fusca (espécies da "floresta")
  • palpalis (espécies "ripícolas")
Glossina palpalis.

Glossina Wiedemann, 1830 é um género de moscas da família Glossinidae (anteriormente integrado na família Muscidae) que inclui as espécies conhecidas pelo nome comum de moscas tsé-tsé, nome com origem nas línguas manto da África equatorial. Estas espécies transmitem Trypanosoma brucei, o tripanossoma causador da doença do sono e também Trypanossoma vivax, causador da Tripanossomíase Animal Africana conhecida popularmente como Nagana.

Biologia e fisiologia

O vetor exibe características biológicas e fisiológicas singulares que potencializam sua função na cadeia de transmissão. O gênero Glossina apresenta morfologia adaptada à hematofagia. Diferentemente de muitos dípteros, nos quais apenas as fêmeas desenvolvem esse hábito, na Tsé-Tsé, ambos, machos e fêmeas, são estritamente hematófagos e, portanto, capazes de adquirir e transmitir o parasita.

A divisão corporal da mosca segue o padrão da maioria dos insetos: corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen. Sendo um tórax robusto, que suporta o voo eficiente, e um abdômen distensível para acomodar o volume sanguíneo após a refeição.[1]

Os problemas causados pelo fato deste inseto ser o transmissor da doença do sono têm levado as autoridades da área de saúde a cogitar em programas de extermínio.

Suas características principais são:

  • Tamanho: Até 1 cm de comprimento
  • Cor: âmbar com abdômen (na parte de trás) listrado
  • Boca: Em forma de tubo delgado
  • Cabeça: Apresenta um sulco na frente da cabeça
  • Asas: transparentes
  • Inseto sugador

Ciclo de vida

O ciclo de vida da Tsé-Tsé é classificado como holometábolo (metamorfose completa), mas com uma progressão incomum. O processo reprodutivo é vivíparo, onde o desenvolvimento larval ocorre no interior do útero da fêmea. O desenvolvimento larval intrauterino dura, em média, cerca de nove dias, sendo que a fêmea deposita uma única larva madura por ciclo diretamente no solo ou em locais protegidos. Imediatamente após o depósito, a larva se enterra no substrato para se transformar em pupa (dentro de um casulo rígido). A subsequente fase de pupa estende-se por aproximadamente seis semanas, e sua duração é diretamente influenciada pelas condições climáticas do ambiente.[2]

Ciclo de transmissão

O ciclo de transmissão é iniciado quando a mosca ingere o sangue de um hospedeiro infectado, adquirindo o parasita. Dentro do trato digestivo da Glossina, o Trypanosoma brucei sofre uma metamorfose morfológica, se multiplica no intestino médio e migra ativamente para as glândulas salivares. Lá, o parasita se transforma na forma tripomastigota metacíclica, que é a fase infecciosa para os mamíferos. A mosca, por sua vez, só se torna capaz de transmitir a doença após esse período de maturação biológica.[2]

Implicações Médicas e Doenças Tropicais Negligenciadas

A Tripanossomíase Humana Africana (TAH) representa um grave desafio de saúde pública, sendo severamente agravada por sua inclusão no panorama das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN). O termo "negligenciada" evidencia a disparidade entre a severidade dessas patologias e o volume de atenção, pesquisa e financiamento que recebem globalmente. Essa condição decorre da falta de poder econômico das populações rurais afetadas, o que desestimula o investimento em pesquisa e desenvolvimento pela indústria farmacêutica.[3]

Patologia e Fases da Doença

A doença manifesta-se em duas fases clinicamente distintas. A Fase Hemolinfática (Inicial) é caracterizada pela multiplicação do parasita no sangue e sistema linfático, com sintomas que podem ser inespecíficos. A Fase Neurológica (Grave), o estágio mais crítico, ocorre quando o parasita atravessa a barreira hematoencefálica e invade o Sistema Nervoso Central, levando a distúrbios neurológicos e sonolência.[4]

Manifestação clínica do Trypanosoma Animal Africana

Enquanto a versão humana evolui para a invasão do Sistema Nervoso Central e sintomas neurológicos graves, a Tripanossomíase Animal Africana (TAA) não apresenta essa progressão. A TAA, frequentemente denominada Nagana, é caracterizada principalmente por anemia progressiva, febre intermitente, perda de peso e redução drástica da produtividade pecuária. Essa diferença de manifestação é essencial para a estratégia de controle e para o diagnóstico em campo, dado que o foco do controle da mosca Tsé-Tsé abrange tanto a saúde humana quanto o impacto econômico e na segurança alimentar do continente africano.[5]

Os principais reservatórios animais do parasita na África são:

  • Gado Bovino: São os animais mais importantes do ponto de vista econômico, sofrendo perdas significativas em produção de carne e leite.[5]
  • Animais Silvestres: Incluem antílopes e gado selvagem. Atuam como os principais reservatórios naturais, mantendo o parasita em circulação para a mosca Tsé-Tsé se infectar.[5]

Tratamento e Controle

A doença do sono apresenta altas taxas de mortalidade quando o tratamento é tardio. Embora a doença seja curável, a terapia é complexa, exigindo fármacos específicos para cada fase. Para a fase neurológica, os medicamentos devem ser capazes de atuar no cérebro, porém as opções disponíveis frequentemente carregam alta toxicidade.[6]

Devido à ausência de vacinas, o controle da mosca Tsé-Tsé é uma estratégia fundamental. As táticas de controle vetorial concentram-se na redução das populações em áreas endêmicas, incluindo o uso de armadilhas, monitoramento e estratégias de ponta, como o controle da comunidade de bactérias simbióticas que influenciam a sobrevivência e a capacidade de transmissão da mosca.[6]

Distribuição e Impacto das Mudanças Climáticas

As espécies dessa mosca são restritas á região Subsaariana da África, mais especificamente do lago Chade e do Senegal, ao oeste, até o lago Vitória, ao leste. Esta região é banhada pelo Rio Congo e seus afluentes, sendo conhecida como Coração Verde do Continente Africano. A umidade do local favorece o aparecimento de insetos das mais diversas espécies.

O ciclo de vida do inseto prospera sob condições climáticas específicas, com a temperatura favorecendo o desenvolvimento em torno de 25−26°C. Contudo, o vetor é extremamente vulnerável a extremos de calor, o que delimita sua presença geográfica, pois temperaturas superiores a 38°C limitam drasticamente sua longevidade.[7]

As mudanças climáticas atuam como um fator crucial que pode potencializar a notificação da doença do sono. O aumento da temperatura global e a alteração nos regimes de chuva levam à expansão geográfica das áreas de risco da doença, colaborando para a notificação em novas regiões ao criarem nichos ecológicos com médias favoráveis em áreas que antes eram consideradas inadequadas.[8]

Espécies

O género Glossina é normalmente dividido em três grupos de espécies, com base na sua distribuição geográfica, comportamento e morfologia:[9][10]

  • Grupo morsitans (moscas tsé-tsé das savanas): Habita regiões de savana e bosques abertos. Este grupo é associado a reservatórios animais e é o vetor da doença de curso agudo, menos comum, mas com progressão rápida e consideravelmente mais letal.[11]
Glossina austeni (Newstead, 1912)
Glossina longipalpis (Wiedemann, 1830)
Glossina morsitans (Wiedemann, 1850)
Glossina morsitans morsitans (Wiedemann, 1850)
Glossina morsitans centralis (Machado, 1970)
Glossina morsitans submorsitans (Newstead, 1911)
Glossina pallidipes (Austen, 1903)
Glossina swynnertoni (Austen, 1923)
Glossina brevipalpis (Newstead, 1911)
Glossina fusca (Walker, 1849)
Glossina fusca fusca (Walker, 1849)
Glossina fusca congolensis (Newstead and Evans, 1921)
Glossina fuscipleuris (Austen, 1911)
Glossina frezili (Gouteux, 1987)[12]
Glossina haningtoni (Newstead and Evans, 1922)
Glossina longipennis (Corti, 1895)
Glossina medicorum (Austen, 1911)
Glossina nashi (Potts,1955)
Glossina nigrofusca (Newstead, 1911)
Glossina nigrofusca nigrofusca (Newstead, 1911)
Glossina nigrofusca hopkinsi (Van Emden, 1944)
Glossina severini (Newstead, 1913)
Glossina schwetzi (Newstead and Evans, 1921)
Glossina tabaniformis (Westwood, 1850)
Glossina vanhoofi (Henrard, 1952)
  • Grupo Palpalis (Espécies de áreas Ripícolas): Ocupa margens de rios, caracterizados por umidade estável. Atua como vetor primário da Tripanossomíase Africana Humana de curso crônico. Sua proximidade com assentamentos humanos o configura como vetor de alto risco para a transmissão peridomiciliar.[11]
Glossina caliginea (Austen, 1911)
Glossina fuscipes (Newstead, 1911)
Glossina fuscipes fuscipes (Newstead, 1911)
Glossina fuscipes martinii (Zumpt, 1935)
Glossina fuscipes quanzensis (Pires, 1948)
Glossina pallicera (Bigot, 1891)
Glossina pallicera pallicera (Bigot, 1891)
Glossina pallicera newsteadi (Austen, 1929)
Glossina palpalis (Robineau-Desvoidy, 1830)
Glossina palpalis palpalis (Robineau-Desvoidy, 1830)
Glossina palpalis gambiensis (Vanderplank, 1911)
Glossina tachinoides (Westwood, 1850)

Estas espécies têm distribuição natural em, entre o Sahel e o Kalahari,incluido as regiões de selvas onde também se encontra a malária, outro tipo de doença transmitida por insectos, no caso mosquitos.

Referências

  1. (trabalhos Sobre) Entomologia. Col: Obras Completas De Adolpho Lutz. [S.l.]: Fiocruz Editora. 3 de agosto de 2006 
  2. a b Leak, Stephen (1999). Tsetse biology and ecology: Their role in epidemiology and control of trypanosomosis. Wallingford: CABI publishing. p. 81 
  3. Dias, Luiz (2013). «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. doi:10.1590/s0100-40422013001000011. Consultado em 11 de outubro de 2025 
  4. Holanda-Freitas, Isabel Theresa; Cupertino, Marli do Carmo; Santos, Elizária C. dos; Oliveira, Lisa; Geller, Mauro; Siqueira-Batista, Rodrigo (19 de outubro de 2020). «Human african trypanosomiasis: current standing and challenges». Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology (em inglês) (3). ISSN 1980-8178. doi:10.5216/rpt.v49i3.62857. Consultado em 11 de outubro de 2025 
  5. a b c Cecchi, G.; Paone, M.; de Gier, J.; Zhao, W. (2024). The continental atlas of the distribution of tsetse flies in Africa (em inglês). [S.l.]: FAO ;. Consultado em 11 de outubro de 2025 
  6. a b Holanda-Freitas, Isabel Theresa; Cupertino, Marli do Carmo; Santos, Elizária C. dos; Oliveira, Lisa; Geller, Mauro; Siqueira-Batista, Rodrigo (19 de outubro de 2020). «Human african trypanosomiasis: current standing and challenges». Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology (em inglês) (3). ISSN 1980-8178. doi:10.5216/rpt.v49i3.62857. Consultado em 11 de outubro de 2025 
  7. Leak, Stephen (1999). Tsetse biology and ecology: Their role in epidemiology and control of trypanosomosis. Wallingford: CABI publishing. p. 81 
  8. Benoit, Joshua B; Weaving, Hester; McLellan, Callum; Terblanche, John S; Attardo, Geoffrey M; English, Sinead (1 de junho de 2025). «Viviparity and obligate blood feeding: tsetse flies as a unique research system to study climate change». Current Opinion in Insect Science. 101369 páginas. ISSN 2214-5745. doi:10.1016/j.cois.2025.101369. Consultado em 10 de outubro de 2025 
  9. J. A. van Vesten (1971). The Tsetse Fly Glossina fuscipes fuscipes Newstead, 1911, in East Africa: some aspects of its biology and its role in the epidemiology of human and animal trypanosomiasis. University of Amsterdam: Doctoral Thesis 
  10. A. M. Jordan (1993). «Tsetse-flies (Glossinidae)». In: R. P. Lane & R. W. Crosskey. Medical Insects and Arachnids. [S.l.]: Chapman and Hall. ISBN 0-412-40000-6 
  11. a b c Leak, Stephen (1999). Tsetse biology and ecology: Their role in epidemiology and control of trypanosomosis. Wallingford: CABI publishing. p. 81 
  12. J. P. Gouteux (1987). «Une nouvelle glossine du Congo: Glossina (Austenina) frezili sp. nov. (Diptera: Glossinidae)». [Tropical Medicine and Parasitology. 38 (2): 97–100. PMID 3629143 

Ver também