Mosca tsé-tsé
Glossina
moscas tsé-tsé | |||||||||||||||||||
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![]() Glossina morsitans | |||||||||||||||||||
| Estado de conservação | |||||||||||||||||||
![]() Pouco preocupante | |||||||||||||||||||
| Classificação científica | |||||||||||||||||||
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| Distribuição geográfica | |||||||||||||||||||
![]() Distribuição natural da mosca tsé-tsé.
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| Grupos de espécies | |||||||||||||||||||
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Glossina Wiedemann, 1830 é um género de moscas da família Glossinidae (anteriormente integrado na família Muscidae) que inclui as espécies conhecidas pelo nome comum de moscas tsé-tsé, nome com origem nas línguas manto da África equatorial. Estas espécies transmitem Trypanosoma brucei, o tripanossoma causador da doença do sono e também Trypanossoma vivax, causador da Tripanossomíase Animal Africana conhecida popularmente como Nagana.
Biologia e fisiologia
O vetor exibe características biológicas e fisiológicas singulares que potencializam sua função na cadeia de transmissão. O gênero Glossina apresenta morfologia adaptada à hematofagia. Diferentemente de muitos dípteros, nos quais apenas as fêmeas desenvolvem esse hábito, na Tsé-Tsé, ambos, machos e fêmeas, são estritamente hematófagos e, portanto, capazes de adquirir e transmitir o parasita.
A divisão corporal da mosca segue o padrão da maioria dos insetos: corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen. Sendo um tórax robusto, que suporta o voo eficiente, e um abdômen distensível para acomodar o volume sanguíneo após a refeição.[1]
Os problemas causados pelo fato deste inseto ser o transmissor da doença do sono têm levado as autoridades da área de saúde a cogitar em programas de extermínio.
Suas características principais são:
- Tamanho: Até 1 cm de comprimento
- Cor: âmbar com abdômen (na parte de trás) listrado
- Boca: Em forma de tubo delgado
- Cabeça: Apresenta um sulco na frente da cabeça
- Asas: transparentes
- Inseto sugador
Ciclo de vida
O ciclo de vida da Tsé-Tsé é classificado como holometábolo (metamorfose completa), mas com uma progressão incomum. O processo reprodutivo é vivíparo, onde o desenvolvimento larval ocorre no interior do útero da fêmea. O desenvolvimento larval intrauterino dura, em média, cerca de nove dias, sendo que a fêmea deposita uma única larva madura por ciclo diretamente no solo ou em locais protegidos. Imediatamente após o depósito, a larva se enterra no substrato para se transformar em pupa (dentro de um casulo rígido). A subsequente fase de pupa estende-se por aproximadamente seis semanas, e sua duração é diretamente influenciada pelas condições climáticas do ambiente.[2]
Ciclo de transmissão
O ciclo de transmissão é iniciado quando a mosca ingere o sangue de um hospedeiro infectado, adquirindo o parasita. Dentro do trato digestivo da Glossina, o Trypanosoma brucei sofre uma metamorfose morfológica, se multiplica no intestino médio e migra ativamente para as glândulas salivares. Lá, o parasita se transforma na forma tripomastigota metacíclica, que é a fase infecciosa para os mamíferos. A mosca, por sua vez, só se torna capaz de transmitir a doença após esse período de maturação biológica.[2]
Implicações Médicas e Doenças Tropicais Negligenciadas
A Tripanossomíase Humana Africana (TAH) representa um grave desafio de saúde pública, sendo severamente agravada por sua inclusão no panorama das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN). O termo "negligenciada" evidencia a disparidade entre a severidade dessas patologias e o volume de atenção, pesquisa e financiamento que recebem globalmente. Essa condição decorre da falta de poder econômico das populações rurais afetadas, o que desestimula o investimento em pesquisa e desenvolvimento pela indústria farmacêutica.[3]
Patologia e Fases da Doença
A doença manifesta-se em duas fases clinicamente distintas. A Fase Hemolinfática (Inicial) é caracterizada pela multiplicação do parasita no sangue e sistema linfático, com sintomas que podem ser inespecíficos. A Fase Neurológica (Grave), o estágio mais crítico, ocorre quando o parasita atravessa a barreira hematoencefálica e invade o Sistema Nervoso Central, levando a distúrbios neurológicos e sonolência.[4]
Manifestação clínica do Trypanosoma Animal Africana
Enquanto a versão humana evolui para a invasão do Sistema Nervoso Central e sintomas neurológicos graves, a Tripanossomíase Animal Africana (TAA) não apresenta essa progressão. A TAA, frequentemente denominada Nagana, é caracterizada principalmente por anemia progressiva, febre intermitente, perda de peso e redução drástica da produtividade pecuária. Essa diferença de manifestação é essencial para a estratégia de controle e para o diagnóstico em campo, dado que o foco do controle da mosca Tsé-Tsé abrange tanto a saúde humana quanto o impacto econômico e na segurança alimentar do continente africano.[5]
Os principais reservatórios animais do parasita na África são:
- Gado Bovino: São os animais mais importantes do ponto de vista econômico, sofrendo perdas significativas em produção de carne e leite.[5]
- Animais Silvestres: Incluem antílopes e gado selvagem. Atuam como os principais reservatórios naturais, mantendo o parasita em circulação para a mosca Tsé-Tsé se infectar.[5]
Tratamento e Controle
A doença do sono apresenta altas taxas de mortalidade quando o tratamento é tardio. Embora a doença seja curável, a terapia é complexa, exigindo fármacos específicos para cada fase. Para a fase neurológica, os medicamentos devem ser capazes de atuar no cérebro, porém as opções disponíveis frequentemente carregam alta toxicidade.[6]
Devido à ausência de vacinas, o controle da mosca Tsé-Tsé é uma estratégia fundamental. As táticas de controle vetorial concentram-se na redução das populações em áreas endêmicas, incluindo o uso de armadilhas, monitoramento e estratégias de ponta, como o controle da comunidade de bactérias simbióticas que influenciam a sobrevivência e a capacidade de transmissão da mosca.[6]
Distribuição e Impacto das Mudanças Climáticas
As espécies dessa mosca são restritas á região Subsaariana da África, mais especificamente do lago Chade e do Senegal, ao oeste, até o lago Vitória, ao leste. Esta região é banhada pelo Rio Congo e seus afluentes, sendo conhecida como Coração Verde do Continente Africano. A umidade do local favorece o aparecimento de insetos das mais diversas espécies.
O ciclo de vida do inseto prospera sob condições climáticas específicas, com a temperatura favorecendo o desenvolvimento em torno de 25−26°C. Contudo, o vetor é extremamente vulnerável a extremos de calor, o que delimita sua presença geográfica, pois temperaturas superiores a 38°C limitam drasticamente sua longevidade.[7]
As mudanças climáticas atuam como um fator crucial que pode potencializar a notificação da doença do sono. O aumento da temperatura global e a alteração nos regimes de chuva levam à expansão geográfica das áreas de risco da doença, colaborando para a notificação em novas regiões ao criarem nichos ecológicos com médias favoráveis em áreas que antes eram consideradas inadequadas.[8]
Espécies
O género Glossina é normalmente dividido em três grupos de espécies, com base na sua distribuição geográfica, comportamento e morfologia:[9][10]
- Grupo morsitans (moscas tsé-tsé das savanas): Habita regiões de savana e bosques abertos. Este grupo é associado a reservatórios animais e é o vetor da doença de curso agudo, menos comum, mas com progressão rápida e consideravelmente mais letal.[11]
- Glossina austeni (Newstead, 1912)
- Glossina longipalpis (Wiedemann, 1830)
- Glossina morsitans (Wiedemann, 1850)
- Glossina morsitans morsitans (Wiedemann, 1850)
- Glossina morsitans centralis (Machado, 1970)
- Glossina morsitans submorsitans (Newstead, 1911)
- Glossina pallidipes (Austen, 1903)
- Glossina swynnertoni (Austen, 1923)
- Grupo fusca (moscas tsé-tsé das regiões florestadas): É composto por moscas maiores e mais escuras, encontradas em florestas densas. Possui menor importância na epidemiologia humana, mas é relevante na tripanossomíase animal.[11]
- Glossina brevipalpis (Newstead, 1911)
- Glossina fusca (Walker, 1849)
- Glossina fusca fusca (Walker, 1849)
- Glossina fusca congolensis (Newstead and Evans, 1921)
- Glossina fuscipleuris (Austen, 1911)
- Glossina frezili (Gouteux, 1987)[12]
- Glossina haningtoni (Newstead and Evans, 1922)
- Glossina longipennis (Corti, 1895)
- Glossina medicorum (Austen, 1911)
- Glossina nashi (Potts,1955)
- Glossina nigrofusca (Newstead, 1911)
- Glossina nigrofusca nigrofusca (Newstead, 1911)
- Glossina nigrofusca hopkinsi (Van Emden, 1944)
- Glossina severini (Newstead, 1913)
- Glossina schwetzi (Newstead and Evans, 1921)
- Glossina tabaniformis (Westwood, 1850)
- Glossina vanhoofi (Henrard, 1952)
- Grupo Palpalis (Espécies de áreas Ripícolas): Ocupa margens de rios, caracterizados por umidade estável. Atua como vetor primário da Tripanossomíase Africana Humana de curso crônico. Sua proximidade com assentamentos humanos o configura como vetor de alto risco para a transmissão peridomiciliar.[11]
- Glossina caliginea (Austen, 1911)
- Glossina fuscipes (Newstead, 1911)
- Glossina fuscipes fuscipes (Newstead, 1911)
- Glossina fuscipes martinii (Zumpt, 1935)
- Glossina fuscipes quanzensis (Pires, 1948)
- Glossina pallicera (Bigot, 1891)
- Glossina pallicera pallicera (Bigot, 1891)
- Glossina pallicera newsteadi (Austen, 1929)
- Glossina palpalis (Robineau-Desvoidy, 1830)
- Glossina palpalis palpalis (Robineau-Desvoidy, 1830)
- Glossina palpalis gambiensis (Vanderplank, 1911)
- Glossina tachinoides (Westwood, 1850)
Estas espécies têm distribuição natural em, entre o Sahel e o Kalahari,incluido as regiões de selvas onde também se encontra a malária, outro tipo de doença transmitida por insectos, no caso mosquitos.
Referências
- ↑ (trabalhos Sobre) Entomologia. Col: Obras Completas De Adolpho Lutz. [S.l.]: Fiocruz Editora. 3 de agosto de 2006
- ↑ a b Leak, Stephen (1999). Tsetse biology and ecology: Their role in epidemiology and control of trypanosomosis. Wallingford: CABI publishing. p. 81
- ↑ Dias, Luiz (2013). «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. doi:10.1590/s0100-40422013001000011. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ Holanda-Freitas, Isabel Theresa; Cupertino, Marli do Carmo; Santos, Elizária C. dos; Oliveira, Lisa; Geller, Mauro; Siqueira-Batista, Rodrigo (19 de outubro de 2020). «Human african trypanosomiasis: current standing and challenges». Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology (em inglês) (3). ISSN 1980-8178. doi:10.5216/rpt.v49i3.62857. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ a b c Cecchi, G.; Paone, M.; de Gier, J.; Zhao, W. (2024). The continental atlas of the distribution of tsetse flies in Africa (em inglês). [S.l.]: FAO ;. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ a b Holanda-Freitas, Isabel Theresa; Cupertino, Marli do Carmo; Santos, Elizária C. dos; Oliveira, Lisa; Geller, Mauro; Siqueira-Batista, Rodrigo (19 de outubro de 2020). «Human african trypanosomiasis: current standing and challenges». Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology (em inglês) (3). ISSN 1980-8178. doi:10.5216/rpt.v49i3.62857. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ Leak, Stephen (1999). Tsetse biology and ecology: Their role in epidemiology and control of trypanosomosis. Wallingford: CABI publishing. p. 81
- ↑ Benoit, Joshua B; Weaving, Hester; McLellan, Callum; Terblanche, John S; Attardo, Geoffrey M; English, Sinead (1 de junho de 2025). «Viviparity and obligate blood feeding: tsetse flies as a unique research system to study climate change». Current Opinion in Insect Science. 101369 páginas. ISSN 2214-5745. doi:10.1016/j.cois.2025.101369. Consultado em 10 de outubro de 2025
- ↑ J. A. van Vesten (1971). The Tsetse Fly Glossina fuscipes fuscipes Newstead, 1911, in East Africa: some aspects of its biology and its role in the epidemiology of human and animal trypanosomiasis. University of Amsterdam: Doctoral Thesis
- ↑ A. M. Jordan (1993). «Tsetse-flies (Glossinidae)». In: R. P. Lane & R. W. Crosskey. Medical Insects and Arachnids. [S.l.]: Chapman and Hall. ISBN 0-412-40000-6
- ↑ a b c Leak, Stephen (1999). Tsetse biology and ecology: Their role in epidemiology and control of trypanosomosis. Wallingford: CABI publishing. p. 81
- ↑ J. P. Gouteux (1987). «Une nouvelle glossine du Congo: Glossina (Austenina) frezili sp. nov. (Diptera: Glossinidae)». [Tropical Medicine and Parasitology. 38 (2): 97–100. PMID 3629143


