Morro Santana
O Morro Santana é uma elevação localizada no município de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Situado na Zona Leste da cidade, é o ponto mais alto de Porto Alegre, atingindo 311 metros de altitude. Com uma área de aproximadamente 600 hectáres pertecentes a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2006 a área se tonrou uma unidade de conservação com o nome de Refúgio de Vida Silvestre do Morro Santana.[1][2]
Em seu cume estão instaladas antenas de transmissão de diversas estações de rádio e televisão. A elevação também é notável por abrigar uma grande pedreira desativada, lagos artificiais e pequenas quedas d'água. A formação geográfica abrange parte da área de múltiplos bairros, notavelmente Morro Santana, Partenon, Lomba do Pinheiro e Agronomia.[3]
Além de sua biodiversidade, o Morro Santana é um divisor de águas crucial para a hidrografia local, sendo o local das nascentes de importantes cursos d'água da região, como o Arroio Dilúvio (que deságua no Lago Guaíba) e o Arroio Feijó (afluente do Rio Gravataí).[4]
Geografia e biodiversidade
O Morro Santana é um dos principais remanescentes de área natural em Porto Alegre, caracterizando-se por uma complexa geologia e por ser um ecótono (zona de transição) entre dois biomas, o que resulta em uma biodiversidade única na paisagem urbana. Com 311 metros de altitude, é o ponto culminante de Porto Alegre. Sua formação geológica é antiga, composta por granito do Escudo Sul-rio-grandense. Trata-se de uma rocha intrusiva formada há cerca de 550 a 600 milhões de anos, no final do período Ediacarano, sendo um dos granitos mais jovens a se formar na região de Porto Alegre.[5][6][7]
O morro funciona como um importante divisor de águas para a hidrografia de Porto Alegre. Em suas encostas nascem cursos d'água que alimentam duas bacias distintas: a Bacia do Lago Guaíba, através da principal nascente do Arroio Dilúvio; e a Bacia do Rio Gravataí, para onde correm afluentes como o Arroio Feijó.[4]
A biodiversidade do Morro Santana é notável por ser um ecótono, uma área de transição e contato entre dois dos principais biomas do Brasil: a Mata Atlântica e o Pampa.[8] A vegetação é composta por diferentes formações, incluindo floresta estacional semidecidual (nas encostas e vales mais úmidos) e campos de altitude (nos topos). Um estudo da UFRGS destacou que o número de espécies campestres no morro é o dobro do de espécies florestais. Entre as espécies de plantas nativas encontradas estão o butiazeiro (Butia odorata) e espécies de cacto como a tuna (Cereus hildmannianus).[8] A área do morro, especialmente o Refúgio de Vida Silvestre da UFRGS, abriga uma fauna diversificada. Um inventário de mastofauna realizado pela UFRGS registrou 15 espécies nativas, incluindo o macaco-prego (Sapajus nigritus), o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) e o roedor Akodon paranaensis.[9][7]
História

A história documentada do Morro Santana começa no século XVIII, ligada à fundação de Porto Alegre. A área fazia parte da vasta sesmaria concedida a Jerônimo de Ornelas por volta de 1740. Devido à sua altitude (o ponto mais alto da região) e posição estratégica, o morro era utilizado como uma "sentinela", um posto de observação para monitorar suas terras, que se estendiam pela Zona Leste, e vigiar os acessos à sua propriedade, que incluía o antigo "Porto de Viamão" (posteriormente Porto Alegre).[8] Durante o século XX, com o crescimento urbano de Porto Alegre, o Morro Santana passou por um intenso processo de exploração e ocupação. Uma grande pedreira foi instalada nas encostas do morro para a extração de granito. Este material foi fundamental para a urbanização da capital, sendo utilizado na pavimentação de ruas, como os paralelepípedos do centro histórico.[8][5]

Por ser o ponto geográfico mais alto de Porto Alegre, o cume do morro tornou-se uma área estratégica para telecomunicações a partir da segunda metade do século. Diversas antenas de transmissão de rádio e televisão foram instaladas no topo, incluindo as das principais emissoras do país.[3] Paralelamente à instalação da infraestrutura, o morro começou a ser ocupado para fins residenciais, em um processo que se intensificou a partir das décadas de 1950 e 1960, acompanhando a expansão da Zona Leste. Diversas comunidades, loteamentos e vilas se formaram nas encostas, muitas vezes em ocupações irregulares ou em Áreas de Preservação Permanente (APPs), como as margens dos arroios. Esta situação criou uma complexa questão fundiária e social que persiste até a atualidade, marcada por debates sobre regularização, direito à moradia e proteção ambiental.[7]

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) possui uma grande gleba de aproximadamente 600 hectares no Morro Santana.[6] Em 1972, a universidade inaugurou no local o Observatório Astronômico da UFRGS, vinculado ao Instituto de Física. O local foi escolhido por sua altitude e, na época, baixa poluição luminosa. Atualmente, o observatório serve como uma importante ferramenta para o ensino de graduação e pós-graduação em astrofísica e física, e desenvolve pesquisa científica, além de manter projetos de extensão e visitação pública para a comunidade.[10] Para proteger esse patrimônio natural do avanço da urbanização, o Conselho Universitário (CONSUN) da UFRGS criou, em 2006, o Refúgio de Vida Silvestre (RVS) do Morro Santana. A unidade de conservação, classificada como grau IUCN III, abrange a maior parte da área do morro.[11][2]

O Morro Santana é também reivindicado como território ancestral pelos povos indígenas Kaingang e Xokleng, que o consideram um local sagrado. Em outubro de 2022, famílias destes povos iniciaram um movimento de retomada de uma área nas encostas do morro, denominado "Retomada Gãh Ré". O movimento reivindica o direito ancestral ao território e se opõe à especulação imobiliária na região.[12][13]
Mapa e ecoturismo

O Morro Santana é um dos principais destinos de ecoturismo e caminhada (trekking) em Porto Alegre, devido à sua altitude e extensa área verde. A região é cortada por diversas trilhas, que são frequentadas por grupos de caminhada, ciclistas e praticantes de escalada, sendo esta última praticada principalmente nos paredões da antiga pedreira.[3][5] Os lagos artificiais formados nas cavas da pedreira também são pontos de visitação. Outro ponto de referência popular entre os trilheiros é a "Bola 8", uma grande rocha arredondada que foi pintada por frequentadores para se assemelhar a uma bola de sinuca. O cume do morro, onde estão as antenas de comunicação e o posto da Brigada Militar, oferece vistas panorâmicas da cidade.[3]
Apesar do potencial turístico, a visitação ao Morro Santana apresenta riscos. Incêndios são recorrentes na área, especialmente em períodos de estiagem, consumindo grandes áreas de vegetação nativa e ameaçando a fauna local.[14][15] Além disso, a falta de sinalização oficial nas trilhas e a mata fechada contribuem para que visitantes se percam com frequência, exigindo operações de resgate do Corpo de Bombeiros e da Brigada Militar.[16][17]
Mapa interativo
* Ao ampliar o mapa você pode ter informações detalhadas interagindo (clicando) nas linhas e ícones nele contido. As trilhas contidas neste mapa podem estar desatualizadas, não utilize este mapa como guia
Linhas Trilha principal
Trilhas de acesso públicas
Trilhas de ligação interna
Trilhas de acesso restrito
Delimitação do Refúgio Silvestre da UFRGS
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Marcadores Locais de interesse naturais
Lagos e cascatas
Construções feitas pelo homem
Ponto mais alto de Porto Alegre Portões de propriedade privada
Inícios de trilha
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Referências
- ↑ Kurek, Deise (2010). «Implantação da UC Refúgio de Vida Silvestre Morro Santana: 548 hectares transformados em 2004» (PDF). Lume (Repositório Digital UFRGS). Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ a b «Ata da 173ª Reunião Ordinária da CTPAM (Refúgio de Vida Silvestre do Morro Santana)» (PDF). Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA-RS). 17 de dezembro de 2019. p. 9. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ a b c d «Ecoturismo: trilha no Morro Santana leva ao ponto mais alto de Porto Alegre». GZH. 18 de julho de 2023. Consultado em 17 de outubro de 2025
- ↑ a b «Nas nascentes do Arroio Dilúvio». Seguinte:. 19 de setembro de 2018. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ a b c Hartmann, Marcel (18 de julho de 2023). «Ecoturismo: trilha no Morro Santana leva ao ponto mais alto de Porto Alegre | DG». Diário Gaúcho. Consultado em 17 de outubro de 2025
- ↑ a b «A IMPORTÂNCIA DO MORRO SANTANA COMO UNIDADE DE CONSERVAÇÃO À COMUNIDADE ACADÊMICA DA UFRGS» (PDF). Lume (Repositório Digital UFRGS). 2010. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ a b c «O Morro Santana e a Comunidade do Seu Entorno». 2º Congresso Internacional de Tecnologias para o Meio Ambiente. 30 de abril de 2010. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ a b c d UFRGS, "Grupo Viveiros Comunitários" (19 de junho de 2023). «Subida ao Morro Santana – Trote Consciente da Biologia |». Consultado em 17 de outubro de 2025
- ↑ «Inventário Rápido da Fauna de Mamíferos do Morro Santana, Porto Alegre, RS» (PDF). Revista Brasileira de Biociências (UFRGS). 2008. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ «Observatório Astronômico da UFRGS». Instituto de Física da UFRGS. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ Ely Fonseca, Roberto (25 de agosto de 2013). «MORRO SANTANA, MUITO ALÉM DA UNIVERSIDADE» (PDF). UFRGS. Consultado em 17 de outubro de 2025
- ↑ «Entenda a disputa entre indígenas e empresa do ramo imobiliário por terra no Morro Santana, em Porto Alegre». GZH. 28 de dezembro de 2022. Consultado em 17 de outubro de 2025
- ↑ Gomes, Rodrigo (9 de novembro de 2024). «Retomada indígena em morro de Porto Alegre completa dois anos de resistência». Brasil de Fato. Consultado em 17 de outubro de 2025
- ↑ «Incêndio atinge campo no Morro Santana, em Porto Alegre». GZH. 16 de julho de 2024. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ «Incêndio atinge área de vegetação do Morro Santana em Porto Alegre». Correio do Povo. 23 de agosto de 2023. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ «Grupo de escoteiros é resgatado após se perder em trilha no Morro Santana». GZH. 21 de janeiro de 2018. Consultado em 17 de outubro de 2024
- ↑ «Jovens são resgatados após se perderem em mata fechada no Morro Santana, em Porto Alegre». G1 RS. 26 de abril de 2021. Consultado em 17 de outubro de 2024
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