Moda modesta

Modelo na passarela da London Modest Fashion Week 2017: A vestimenta elegante e sofisticada na passarela concretiza o entrecruzamento do efêmero e do eterno.

A Moda Modesta é um fenômeno global e crescente de consumo e estilo que se define pela escolha de vestimenta baseada no recato (modéstia) e no pudor, harmonizando esses princípios com as tendências fashion contemporâneas. Caracteriza-se pela priorização de peças que cobrem o corpo elegantemente, com o propósito de desviar o foco dos atributos físicos para o estilo pessoal e a personalidade da usuária.[1]

O seu estudo transcende o simples vestuário, pois atua como um conjunto social onde se manifestam as complexidades dinâmicas da identidade, do mercado e da cultura moderna. Este segmento da moda possui grande potencial econômico[1]. Embora a comunidade de aderentes seja multicultural, a Moda Modesta é um capo de análise privilegiado para a sociologia ao encapsular as grandes tensões da vida social moderna.

Definições

O termo moda modesta refere-se a um fenômeno global que combina princípios de recato na vestimenta com práticas contemporâneas da moda. O adjetivo “modesta”, em seu sentido lexical, está associado à ideia de recato e discrição, e funciona como um conjunto relativamente estável de critérios de escolha pessoal [2]. Do ponto de vista sociológico, a moda é descrita como um processo não planejado de mudança recorrente em um contexto de ordem na esfera pública, e a modéstia opera como um elemento que delimita essa ordem dentro do fenômeno da moda.

A moda modesta, ao combinar recato com tendências contemporâneas, articula dinâmicas de imitação e distinção presentes no vestuário moderno, conforme identificado por teorias sociológicas da moda.

A interpretação de “modesta” varia entre culturas e países, não havendo um significado único e universalmente aceito. O conceito de recato apresenta múltiplas expressões socioculturais, inclusive dentro de tradições religiosas ou comunidades específicas, como no espectro islâmico[2].

De modo geral, a moda modesta manifesta-se na preferência por roupas menos reveladoras e que cobrem maior parte do corpo [1]. O foco tende a deslocar-se dos atributos físicos para o estilo pessoal ou para princípios religiosos, culturais ou identitários. Em algumas interpretações acadêmicas, o uso de vestimenta modesta pode atuar como forma de distinção social ou como espaço de agência individual[2], especialmente no debate sobre representações do corpo feminino.

Enquadramento Sociológico

Georg Simmel, sociólogo e filósofo alemão.

Para a Sociologia da Moda, especialmente a partir das reflexões de Georg Simmel, a moda é entendida como uma forma ou processo social, e não como um conteúdo específico, sendo indiferente ao objeto material que assume[3] . A moda está intrinsecamente ligada à estratificação social, surgindo da tensão entre o desejo de diferenciação e o impulso de pertencimento. Assim, sua essência não reside no vestuário em si, mas no processo de mobilidade e plasticidade social que representa. Sob essa perspectiva, a moda modesta como um exemplo dessa dinâmica, por articular elementos de distinção e integração, conforme leituras simmelianas sobre a moda.

Esse dualismo aparece na relação entre o “individualismo da igualdade” (imitação) e o “individualismo da diferença” (invenção), conforme descrito por Simmel (1996)[4]. No registro da imitação, a adoção de determinados estilos atende à necessidade de identificação com um grupo social. Já no registro da invenção, escolhas individuais que enfatizam recato ou discrição podem funcionar como formas de diferenciação e afirmação de identidade[4].

A temporalidade também é central na teoria de Simmel. A moda se caracteriza por constante mudança: surge, difunde-se, perde seu caráter distintivo e é substituída por novas formas. Esse ciclo recorrente de adoção e abandono evidencia o caráter efêmero do fenômeno. Waizbort (1996)[3] observa que a moda deriva seu significado do encontro entre elementos transitórios e permanentes, aspecto relevante para a compreensão sociológica da moda contemporânea.

Desse modo, a moda simultaneamente aproxima e distingue indivíduos, cumprindo uma dupla função social. Para Simmel (1996)[4], se a moda deixar de atender tanto à necessidade de integração (imitação) quanto à necessidade de diferenciação (invenção), o processo que a caracteriza se interrompe. A partir dessa perspectiva, a moda é vista como um fenômeno vinculado à estratificação social e às tensões entre conformidade e distinção.

Debate Sociológico Sobre Explicação da Moda Modesta

Aspers e Godart (2013)[5] definem moda como um processo recorrente de mudança não planejada, que opera sobre um pano de fundo de ordem. Segundo essa perspectiva, alguns estudos sugerem que a Moda Modesta pode ser compreendida dentro desse mesmo modelo, por combinar princípios relativamente estáveis de recato com variações estilísticas influenciadas por tendências contemporâneas. Lewis destaca que o estilo modesto articula religiosidade, identidade e participação na cultura global da moda, reforçando essa interpretação.[6]

A estrutura relativamente estável associada à Moda Modesta é descrita na literatura como um conjunto de princípios duradouros, como discrição, conforto e maior cobertura do corpo, que funcionam como base sobre a qual ocorrem mudanças estéticas. Dentro desse quadro, pesquisas que dialogam com a teoria de Simmel (1996)[4] apontam a presença dos mecanismos de imitação e distinção: a imitação atende ao impulso de pertencimento e identificação com um grupo, enquanto a distinção se relaciona ao desejo de afirmação de singularidade. Estudos como os de Lewis (2015)[6] sugerem que a Moda Modesta articula, simultaneamente, adesão a tendências e diferenciação por meio da escolha por vestimentas discretas.

Pesquisas de Lewis também indicam que o estilo modesto atua como recurso de construção identitária em diferentes contextos culturais e religiosos[7]. Nesse sentido, o recato funciona como elemento estruturante, conforme argumentado por Mahmood (2005)[8], enquanto a variação estética resultante da influência de tendências expande as possibilidades de autoexpressão (Lewis, 2013).[6]

A difusão contemporânea da Moda Modesta tem sido favorecida por processos amplos de circulação de estilos, como o comércio eletrônico, as redes sociais digitais e a expansão de varejistas internacionais que passaram a incorporar roupas modestas em suas coleções. Tarlo e Moors (2013)[9] ressaltam que plataformas digitais e influenciadoras desempenham papel relevante na visibilidade global desse segmento, contribuindo para sua inserção em mercados diversificados. Marcas como ASOS, H&M, Uniqlo e Dolce & Gabbana têm lançado linhas que dialogam com consumidores interessados em roupas discretas, o que indica uma ampliação comercial do setor.[5]

Autores como Aspers e Godart (2013)[5], Simmel (1996)[4], Lewis (2015)[7] e Tarlo e Moors (2013)[9] apontam que a coexistência entre estabilidade (representada pelos princípios de recato) e mudança (resultante da incorporação de tendências) ajuda a explicar por que a Moda Modesta é analisada como fenômeno associado à moda contemporânea. Essa combinação permite que o estilo preserve seus elementos estruturais ao mesmo tempo em que acompanha transformações no consumo e nas expressões culturais e religiosas em diferentes contextos.

O Aspecto Econômico da Moda Modesta

Modelo desfilando em Dubai, Modest Fashion Week 2017

Em 28 de julho de 2015, um painel de discussão mundial foi realizado em Turim com o objetivo de definir diretrizes para a moda modesta.[10][11] A reunião realizada em Turim reuniu líderes e especialistas do setor para discutir o rápido crescimento das vendas das roupas dentro da economia islâmica global. Com consumidores muçulmanos movimentando centenas de bilhões de dólares em roupas e calçados, e com previsão de aumento significativo nos próximos anos, a mesa redonda destacou tanto as oportunidades quanto os desafios desse mercado em expansão. Os participantes enfatizaram que a moda modesta já não é apenas um nicho, mas um segmento com potencial para dialogar com a moda convencional e atingir também públicos não muçulmanos. No final de 2018, a moda modesta era considerada uma indústria de 250 bilhões de dólares.[12]

“Há um equívoco geral de que roupas modestas são inerentemente opressivas”, disse Michelle Honig, uma jornalista de moda judaica ortodoxa e palestrante principal durante o mês da moda na Universidade de Nova Iorque para o simpósio de moda Meeting Through Modesty. “Mas se as mulheres nos chamados ‘países libertados’ ainda assim escolherem cobrir seus corpos, então fizeram uma escolha. Têm agência.”[13] A autora Saba Mahmood questiona a ideia de que a liberdade só pode ser entendida como autonomia individual ou resistência às normas sociais. A partir de seu estudo etnográfico nas mesquitas do Cairo, entende que as mulheres não usam o véu por coerção, mas porque o entendem como parte de um projeto ético e espiritual que expressa disciplina moral, devoção e uma forma de agência diferente dos modelos liberais. Mahmood argumenta que, segundo seu estudo, algumas mulheres percebem o uso do véu como parte de um projeto ético e espiritual[8]. O uso das vestimentas também aparece como uma forma de proteção, tanto contra o olhar externo quanto uma proteção da própria integridade moral, fazendo com que cultive o autocontrole e a devoção espiritual.

A moda modesta entre religiões expressa o consenso de que não deve ser considerada um fator limitante da expressão pessoal. As marcas estão produzindo designs e coleções que um muçulmano ortodoxo, judeu, cristão, hindu pode ser usado por diferentes pessoas, religiosas ou não. Dolce & Gabbana, H&M e Uniqlo são apenas alguns nomes que entraram no modesto segmento da moda, fazendo roupas que cobrem a maior parte do corpo enquanto permitem que as mulheres experimentem as últimas tendências.

Este fenômeno crescente foi estudado por acadêmicos como a professora britânica Reina Lewis, da Faculdade de Moda de Londres. Entre seus trabalhos sobre o tema podemos citar ‘Modest Fashion: Styling Bodies, Mediating Faith’ (2013) e ‘Muslim Fashion: Contemporary Style Cultures’ (2015).[14][12] Em seus textos, Lewis[6], apresenta que a moda modesta não deve ser entendida apenas como restrição religiosa, mas como um modo de negociar identidade, fé e participação no mundo contemporâneo[6]. Além disso, explicita como mulheres de diferentes tradições religiosas usam a moda modesta para mediar sua relação com espiritualidade, ao mesmo tempo que constroem estilos próprios, navegam em mercados globais, expressam agência e ocupam espaços sociais e digitais.

Perspectivas Futuras

Além disso, pesquisadores de estudos culturais e sociologia do consumo têm destacado que a moda modesta acompanha uma transformação mais ampla no entendimento do vestir como prática identitária. Autores como Elizabeth Bucar, em Pious Fashion: How Muslim Women Dress (2017), argumentam que a escolha por roupas mais discretas não é homogênea nem estática: ela varia conforme países, contextos urbanos, classes sociais e até plataformas digitais[15]. Bucar demonstra que o “pudor”, longe de ser uma categoria fixa, torna-se uma estética criativa, reinterpretada diariamente por mulheres que transitam entre valores religiosos, expectativas familiares, normas profissionais e desejos de pertencimento global. A moda modesta inclui atualmente estilos e técnicas associados a tendências contemporâneas, como minimalismo, alfaiataria ampla, sobreposição de roupas e atenção a materiais sustentáveis.[1]

Outro aspecto fundamental é o papel das redes algorítmicas e das influenciadoras na expansão desse segmento. Pesquisas sobre o tema, como as de Emma Tarlo e Annelies Moors no volume Islamic Fashion and Anti-Fashion (2013)[9], mostram que Instagram, YouTube e TikTok se tornaram espaços de experimentação estética, empreendedorismo e troca de referências transnacionais. Nessas plataformas, criadoras de diferentes religiões compartilham looks, dicas de styling e reflexões espirituais, o uso de mídias sociais e marcas independentes aumentou a visibilidade da moda modesta, demonstrando a diversidade de estilos dentro do segmento.

Ver também

Notas

  • A versão atualiza deste artigo surge de uma intervenção apresentada como requisito avaliativo para a disciplina de Sociologia IV (Sociologia Contemporânea), ministrado pelo Prof. Dr. Leopoldo Waizbort, da Universidade de São Paulo.

Referências

  1. a b c d Martín-Guart, Ramón Francisco; Fondevila-Gascón, Joan-Francesc; Lladós, Josep; Boumaaza, Khaoula (2024). «Moda modesta y ruptura de estereotipos: un enfoque teóricopráctico para el branding y posicionamiento de la marca Modesta». Cuadernos del Centro de Estudios en Diseño y Comunicación. Ensayos (247): 149–166. ISSN 1853-3523. Consultado em 15 de novembro de 2025 
  2. a b c Araneda Tapia, Jorge (outubro de 2019). «La moda islámica modesta: una propuesta multisensorial entre el estilo de recato y la fe mediadora». Sociedad y religión (52): 216–237. ISSN 1853-7081. Consultado em 15 de novembro de 2025 
  3. a b Waizbort, Leopoldo (19 de setembro de 1996). «Vamos ler Georg Simmel? : linhas para uma interpretação». Consultado em 15 de novembro de 2025 
  4. a b c d e SIMMEL, G. A moda. In: SIMMEL, G. Cultura filosófica. São Paulo: Editora 34, 2020
  5. a b c Aspers, Patrik; Godart, Frédéric (30 de julho de 2013). «Sociology of Fashion: Order and Change». Annual Review of Sociology (em inglês) (Volume 39, 2013): 171–192. ISSN 0360-0572. doi:10.1146/annurev-soc-071811-145526. Consultado em 15 de novembro de 2025 
  6. a b c d e LEWIS, R. Modest Fashion: Styling Bodies, Mediating Faith. Londres: Bloomsbury Academic, 2013.
  7. a b LEWIS, R. Muslim Fashion: Contemporary Style Cultures. Londres: Bloomsbury Academic, 2015.
  8. a b «gulftoday.ae | DIEDC spotlights modest fashion in Italy». gulftoday.ae. Consultado em 15 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 12 de dezembro de 2017  evento de TURIN: https://web.archive.org/web/20171212040842/http://gulftoday.ae/portal/dfb6e56d-8acd-4906-8b8f-df584479f201.aspx
  9. a b c TARLO, E.; MOORS, A. Islamic Fashion and Anti-Fashion. Londres: Berg Publishers, 2013.
  10. «DIEDC spotlights modest fashion in Italy». Gulftoday.ae (em inglês). 2 de agosto de 2015. Consultado em 21 de agosto de 2020. Arquivado do original em 12 de dezembro de 2017 
  11. «La storia di Wiwid: l'islamic fashion - Ti veste Liz! - MOOB Magazine». Moobmag.com (em italiano). 1 de agosto de 2015. Consultado em 21 de agosto de 2020. Arquivado do original em 8 de agosto de 2015 
  12. a b Adewunmi, Bim (5 de novembro de 2018). «Why The Modest Fashion Trend Isn't Going Anywhere» (em inglês). Buzz Feed News. Consultado em 21 de agosto de 2020 
  13. Bauck, Whitney (1 de novembro de 2016). «What Does Modest Fashion Mean?» (em inglês). The New York Times. Consultado em 21 de agosto de 2020 
  14. Adewunmi, Bim (16 de junho de 2011). «Women Faith-based fashion takes off online» (em inglês). The Guardian. Consultado em 21 de agosto de 2020 
  15. BUCAR, E. Pious Fashion: How Muslim Women Dress. Cambridge: Harvard University Press, 2017.

Ligações externas