Mocumentário

Um mocumentário é um formato de filme ou série de televisão ficcional apresentado a partir das características de um documentário, com a função de entreter, divertir ou iludir o espectador.[1] A palavra se originou na década de 1960, formada pela união dos termos ingleses mock (falso) e documentary (documentário).[2][3][4] Em 2021, foi adicionada ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, oficializado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), visando simbolizar a evolução do idioma.[5][6]

Os mocumentários costumam ser usados com frequência para analisar ou comentar eventos e questões atuais de forma satírica, empregando cenários fictícios, ou para parodiar a própria forma documental.[7] Também são usados como convite ao questionamento sobre as verdades apresentadas em tempos de fake news e de excesso de informações.[8]

Exemplos

Ao redor do mundo

Borat! Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, é um mocumentário de 2006, escrito pelo comediante britânico Sacha Baron Cohen, que utiliza o personagem, interpretado pelo próprio comediante, para explorar e satirizar a cultura estadunidense. A abordagem provocativa e o humor negro da obra geraram debates sobre racismo, xenofobia e estereótipos,[9] além de provocar reflexões ácidas sobre política, preconceitos e costumes[8]. O filme critica de forma direta o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush e sua guerra ao terror e aborda nudez masculina, tema distante dos ideais de beleza estereotipados dos Estados Unidos.[10]

Poster do mocumentário The 1 Up Fever

The 1 Up Fever é um mocumentário alemão, dirigido por Silvia Dal Dosso, que descreve um jogo de realidade aumentada de mesmo nome em que as pessoas coletam bitcoins que veem através da câmera de seus smartphones enquanto estão andando pelas cidades.[11] A diretora idealizou uma obra fictícia falando sobre um jogo fictício, para uma aula real de motion graphics, e conseguiu explorar o fenômeno bitcoin de forma profunda e envolvente.[12]

Dark Side of the Moon (no original em francês, Opération Lune[13]), dirigido por William Karel, retrata como o pouso na lua teria sido filmado em estúdio, em um esforço envolvendo a Agência Central de Inteligência (CIA), a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) e o cineasta e produtor estadunidense Stanley Kubrick. Segundo o mocumentário, a CIA teria recrutado Kubrick para ajudar os americanos a vencerem a corrida espacial, criando uma montagem falsa do pouso na lua.[13][14]

Konspiration 58, dirigido por Johan Löfstedt, é um mocumentário sueco de 2002, que afirma que a Copa do Mundo de 1958 não aconteceu, mas foi fingida e existe apenas como cobertura forjada de televisão e rádio em uma conspiração entre a televisão americana e sueca, a CIA e a Federação Internacional de Futebol (FIFA) como parte da Guerra Fria, para testar a eficácia da propaganda televisiva.[15][16]

A Grande Guerra Marciana mescla fatos históricos da Primeira Guerra Mundial com a história de ficção científica de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos. Contando a história no período entre 1913 e 1917, utiliza imagens históricas do conflito e insere, através de imagens geradas por computador, máquinas marcianas e outros efeitos, para criar a ilusão de que uma invasão marciana de fato ocorreu em nosso planeta.[17][18]

Produção de Sonhos, minissérie animada do estúdio de animação Pixar, é uma expansão dos conceitos de Divertida Mente, que apresenta, em formato de mocumentário, dividido em quatro episódios, o departamento responsável pela criação dos sonhos e dos pesadelos na mente da personagem principal da franquia, Riley.[19][20][21]

No Brasil

MPB: A História que o Brasil Não Conhece, com direção de André Moraes, é baseado no livro Firework Operation, de Neil Jackman. O mocumentário brasileiro revela um plano conspiratório do governo americano totalmente desconhecido por boa parte dos brasileiros: a destruição da Música Popular Brasileira.[22][23]

Recife Frio, com direção de Kleber Mendonça Filho, explora uma mudança climática que transforma a ensolarada Recife em uma cidade de clima frio e melancólico, utilizando formato documental para abordar questões culturais e sociais.[8]

Referências

  1. «mocumentário | Academia Brasileira de Letras». Academia Brasileira de Letras. Junho de 2021 
  2. Mior, Yasmin (30 de outubro de 2023). «O que são "mocumentários" e por que eles fazem tanto sucesso». NSC Total. Consultado em 9 de março de 2025 
  3. Heckmann, Chris (13 de novembro de 2022). «Mockumentaries Explained — Definition, Examples & History». StudioBinder (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  4. Office, Nevada Film (29 de outubro de 2018). «Production Notes: Mockumentary | Nevada Film Office». nevadafilm.com (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  5. «Projeto Novas Palavras | Boletim 18». Academia Brasileira de Letras. 10 de junho de 2021. Consultado em 9 de março de 2025 
  6. Gomes, Goodanderson (28 de janeiro de 2025). «Mocumentário vira termo oficial da língua portuguesa; veja o que significa». Edital Concursos Brasil. Consultado em 9 de março de 2025 
  7. Campbell, Miranda (2007). «The Mocking Mockumentary and the Ethics of Irony» (PDF). Taboo: The Journal of Culture and Education. Volume 11 (Número 1): pp. 53-62. Consultado em 9 de março de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 26 de julho de 2011 
  8. a b c Silva, João Paulo (25 de janeiro de 2025). «'Mocumentário': o gênero que transforma ficção em (quase) realidade». Mais Minas. Consultado em 9 de março de 2025 
  9. Oliveira, Danilo (10 de outubro de 2024). «O que é um mocumentário?». Olhar Digital. Consultado em 9 de março de 2025 
  10. B9 (29 de outubro de 2020). «Como "Borat" se tornou uma das comédias mais marcantes do século 21». B9. Consultado em 9 de março de 2025 
  11. Stuckey, Daniel (15 de agosto de 2013). «Super Mario Meets Bitcoin in the Augmented Reality of "1 Up Fever"». VICE (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  12. Brownstone, Sydney (23 de agosto de 2013). «Could Earning Money One Day Resemble A Real-Life Video Game?». Fast Company (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  13. a b Rozenboom, Amanda (17 de julho de 2024). «The Stanley Kubrick Moon Landing Conspiracy Was Perfectly Explained in This 2002 Mockumentary». MovieWeb (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  14. Talandyte, Egle (25 de novembro de 2020). «Dark Side of the Moon: How a Mockumentary Shapes Perception | Diggit Magazine». Diggit Magazine (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  15. Sharratt, Joe (1 de abril de 2014). «Football's greatest-ever hoax: Was the 1958 World Cup faked by the CIA?». fourfourtwo.com (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  16. Baranyi, Lucas (22 de junho de 2018). «Teoria da conspiração: a Copa de 1958 foi uma armação da CIA?». Revista Super Interessante. Consultado em 9 de março de 2025 
  17. Strachan, Alex (5 de dezembro de 2013). «TV Thursday: The Great Martian War a deft trip back in time». Canada.com. Consultado em 9 de março de 2025. Arquivado do original em 11 de dezembro de 2014 
  18. Woodham, Karen (3 de agosto de 2014). «Great Martian War 1913 - 1917 [Review] • Blazing Minds». Blazing Minds (em inglês). Consultado em 9 de março de 2025 
  19. Omena, Mateus (11 de dezembro de 2024). «Após sucesso nos cinemas, 'Divertida Mente' ganha série derivada 'Produção de Sonhos'». Exame.com. Consultado em 9 de março de 2025 
  20. Myth, Thalia (20 de novembro de 2024). «Divertida Mente: série baseada no filme ganha trailer». O Antagonista. Consultado em 9 de março de 2025 
  21. Queiroz, Izabela (10 de agosto de 2024). «Divertida Mente: Série derivada será realizada no estilo mocumentário». Recreio. Consultado em 9 de março de 2025 
  22. Dias, Tiago (21 de maio de 2013). «Falso documentário que "desvenda" plano de destruir a MPB vai ganhar série na web». musica.uol.com.br. Consultado em 9 de março de 2025. Arquivado do original em 15 de outubro de 2015 
  23. Santiago, Luiz (9 de dezembro de 2012). «Crítica | MPB: A História que o Brasil Não Conhece». Plano Crítico. Consultado em 9 de março de 2025