Misofonia

A misofonia, conhecida também como a síndrome da sensibilidade seletiva ao som, é um distúrbio caracterizado pela aversão a certos sons que podem causar forte reação emocional, como raiva, desconforto geral, nojo, ansiedade e comportamentos de esquiva e fuga[1]. O distúrbio está associado à hiperconectividade entre os sistemas auditivo, autonômico e límbico[2] e pode afetar adversamente a capacidade de atingir objetivos de vida e desfrutar de situações sociais.[3]

  • Originada no campo da audiologia em 2001,  a condição permaneceu em grande parte não descrita na literatura clínica e de pesquisa até 2013, quando um grupo de psiquiatras do Centro Médico da Universidade de Amsterdã publicou uma série detalhada de casos de misofonia e propôs a condição como uma "nova transtorno psiquiátrico" com critérios diagnósticos definidos.[4]

Atualmente, a misofonia não está listada como uma condição diagnosticável no DSM-5-TR, CID-11 ou qualquer manual semelhante, tornando difícil para a maioria das pessoas com a condição receber diagnósticos clínicos oficiais de misofonia

Reação ao som na misofonia

Etiologia

As causas da misofonia ainda não são totalmente esclarecidas, mas pode estar relacionada à uma combinação de fatores neurológicos, genéticos e ambientais.[1]

Pesquisas e cuidados de saúde em relação à misofonia são atualmente escassos. Há uma falta de ferramentas de avaliação para medir os sintomas misofônicos com precisão e também não há protocolos para seu tratamento que sejam cientificamente apoiados.[1]

Entretanto, a alta incidência da misofonia na distribuição familiar pode sugerir a possibilidade de haver uma etiologia hereditária.[5] Para além disso, a misofonia pode ocorrer sem a presença de patologias auditivas centrais ou periféricas, tais como o Transtorno do Processamento Auditivo Central ou então Perda Auditiva.

Ademais, a especificidade dos estímulos que desencadeiam a misofonia sugere que os sintomas não são causados por uma alteração no sistema auditivo.[1]

Sintomas

O quadro pode incluir uma variedade de emoções negativas, que variam de aborrecimento à raiva, com possíveis ativações da resposta de luta ou fuga. Gatilhos comuns que desencadeiam os sintomas incluem sons orais (respiração alta, mastigação, deglutição), sons de cliques (teclado, dedos, clicar de uma caneta) e sons associados ao movimento (inquietação).[5] Os sons odiados costumam ser repetitivos por natureza e tipicamente produzidos por outros indivíduos, havendo a tendência de evocar "reação misofônica" que consistente em emoções negativas (tais como irritação, raiva, ansiedade ou nojo) e aumento de respostas do sistema simpático, manifestando-se em sintomas físicos como tensão muscular, aumento da frequência cardíaca e sudorese.[6][7]

Apesar de a misofonia não ser caracterizada como um transtorno psiquiátrico, os sintomas causam sofrimento significativo aos indivíduos, sendo necessários mais estudos para melhor caracterização clínica e tratamento da síndrome. Um subtipo de misofonia é a fonofobia, em que o medo a determinados sons é o fator.[3] As pesquisas científicas sobre o tema, têm relacionado misofonia à ansiedade, zumbido, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e hiperacusia.[8]

Impacto na vida diária

Uma vez que o gatilho sonoro é percebido as pessoas com misofonia podem apresentar dificuldade para ignorar o estímulo, podendo apresentar sofrimento e angústia além de comprometimento no funcionamento social, ocupacional ou acadêmico.[9] Muitas das pessoas com misofonia tem ciência de que suas reações aos sons são desproporcionais conforme as circunstâncias[9] com isso, sua dificuldade de regular suas respostas frente à estes estímulos podem levar à sentimentos de vergonha, culpa e isolamento.[10]

Avaliação Audiológica

A avaliação audiológica sugerida para o diagnóstico da Misofonia inclui:

  • Audiometria Tonal Liminar
  • Medidas de Imitância Acústica
  • Emissões Otoacústicas
  • Limiar de Desconforto Auditivo

Também pode incluir teste de processamento auditivo central, avaliação do zumbido e potenciais auditivos evocados.[2]

Tratamento

O principal objetivo do tratamento da misofonia é ajudar o indivíduo a lidar com a reação emocional causada pelos sons gatilhos. Isso porque essa condição envolve emoções que não são fáceis de se acostumar apenas com a exposição ao som, fazendo com que reduzir ou eliminar o som não seja o foco principal do tratamento.[2]

Atualmente, a misofonia não apresenta um tratamento especifico, com limitadas pesquisas cientificas voltadas para tratamento e intervenção dos sinais e sintomas da condição.[11] Estudos recentes investigaram a eficácia de terapia cognitiva comportamental, terapia de exposição e tinnitus retraining therapy para o tratamento de pessoas com misofonia.[12]

  • A Terapia de Habituação do Zumbido (TRT), consiste em aumentar, de forma gradual, a exposição aos sons gatilhos, associando essa exposição a situações agradáveis e reforço positivo, ajudando assim a diminuir os sintomas.[2]

Estratégias

As estratégias para lidar com a misofonia partem do próprio sujeito e variam de adaptações para "cancelar" o som gatilho, uso de fones ou música para mascarar o som, foco em outros sons, autodistração e diálogos positivos internos.[2]

Origem do termo

"Misofonia" vem das palavras gregas antigas μῖσος (IPA: /mîː.sos/ ), que significa "ódio", e φωνή (IPA: /pʰɔː.nɛ̌ː/ ), que significa "voz" ou "som", traduzindo livremente como "ódio ao som", e foi cunhada para diferenciar a condição de outras formas de diminuição da tolerância ao som, como hiperacusia (hipersensibilidade a certas frequências e faixas de volume) e fonofobia (medo de sons).[13][14]

O termo "misofonia" foi usado pela primeira vez em um periódico revisado por pares em 2002.[15]  Antes disso, o distúrbio era mais comumente chamado de "síndrome de sensibilidade seletiva ao som" ou "4S", um termo cunhado pela fonoaudióloga Marsha Johnson.[16] Pawel Jastreboff e Margaret M. Jastreboff cunharam o termo "misofonia" em 2001 com a ajuda de Guy Lee,[17]  introduzindo-o em seu artigo "Hiperacusia".[18]

Referências

  1. a b c d Ferrer-Torres, Antonia; Giménez-Llort, Lydia (1 de junho de 2022). «Misophonia: A Systematic Review of Current and Future Trends in This Emerging Clinical Field». International Journal of Environmental Research and Public Health (11). 6790 páginas. ISSN 1660-4601. PMC 9180704Acessível livremente. PMID 35682372. doi:10.3390/ijerph19116790. Consultado em 17 de maio de 2025 
  2. a b c d e Cordeiro, Bianca Bastos; Souza, Gabriela Di Filippo; Mendes, Carlos Maurício Cardeal (15 de dezembro de 2016). «Misofonia: Quando o som não embala mas abala». Revista de Ciências Médicas e Biológicas (3). 337 páginas. ISSN 2236-5222. doi:10.9771/cmbio.v15i3.18198. Consultado em 12 de agosto de 2025 
  3. a b Vidal, Carlos Eduardo Leal; Vidal, Ligia Melo; Lage, Maria Júlia de Alvarenga (setembro de 2017). «Misofonia: características clínicas e relato de caso». Jornal Brasileiro de Psiquiatria (3): 178–181. ISSN 0047-2085. doi:10.1590/0047-2085000000168. Consultado em 24 de abril de 2023 
  4. Schröder, Arjan; Vulink, Nienke; Denys, Damiaan (23 de jan. de 2013). «Misophonia: Diagnostic Criteria for a New Psychiatric Disorder». PLOS ONE (em inglês) (1): e54706. ISSN 1932-6203. PMC 3553052Acessível livremente. PMID 23372758. doi:10.1371/journal.pone.0054706. Consultado em 13 de agosto de 2025 
  5. a b Sanchez, Tanit Ganz; Silva, Fúlvia Eduarda da (setembro de 2018). «Familial misophonia or selective sound sensitivity syndrome : evidence for autosomal dominant inheritance?». Brazilian Journal of Otorhinolaryngology (em inglês) (5): 553–559. PMC 9452240Acessível livremente. PMID 28823694. doi:10.1016/j.bjorl.2017.06.014. Consultado em 24 de abril de 2023 
  6. Potgieter, Iskra; MacDonald, Carol; Partridge, Lucy; Cima, Rilana; Sheldrake, Jacqueline; Hoare, Derek J. (2019). «Misophonia: A scoping review of research». Journal of Clinical Psychology (em inglês) (7): 1203–1218. ISSN 1097-4679. doi:10.1002/jclp.22771. Consultado em 2 de julho de 2025 
  7. Swedo, Susan E.; Baguley, David M.; Denys, Damiaan; Dixon, Laura J.; Erfanian, Mercede; Fioretti, Alessandra; Jastreboff, Pawel J.; Kumar, Sukhbinder; Rosenthal, M. Zachary (17 de março de 2022). «Consensus Definition of Misophonia: A Delphi Study». Frontiers in Neuroscience (em inglês). ISSN 1662-453X. PMC 8969743Acessível livremente. PMID 35368272. doi:10.3389/fnins.2022.841816. Consultado em 2 de julho de 2025 
  8. USP, Jornal da USP no Ar é uma parceria da Rádio USP com a Escola Politécnica e o Instituto de Estudos Avançados (23 de julho de 2021). «Misofonia causa sofrimento por exposição a sons, mas pode ser tratada». Consultado em 24 de abril de 2023 
  9. a b Swedo, Susan E.; Baguley, David M.; Denys, Damiaan; Dixon, Laura J.; Erfanian, Mercede; Fioretti, Alessandra; Jastreboff, Pawel J.; Kumar, Sukhbinder; Rosenthal, M. Zachary (2022). «Consensus Definition of Misophonia: A Delphi Study». Frontiers in Neuroscience. 841816 páginas. ISSN 1662-4548. PMC 8969743Acessível livremente. PMID 35368272. doi:10.3389/fnins.2022.841816. Consultado em 2 de julho de 2025 
  10. Holohan, Daniel; Marfilius, Kenneth; Smith, Carrie J (14 de setembro de 2023). «Misophonia: A Review of the Literature and Its Implications for the Social Work Profession». Social Work (em inglês) (4): 341–348. ISSN 0037-8046. doi:10.1093/sw/swad029. Consultado em 2 de julho de 2025 
  11. Mattson, Seth A.; D'Souza, Johann; Wojcik, Katharine D.; Guzick, Andrew G.; Goodman, Wayne K.; Storch, Eric A. (2023). «A systematic review of treatments for misophonia». Personalized Medicine in Psychiatry. 100104 páginas. ISSN 2468-1725. PMC 10276561Acessível livremente. PMID 37333720. doi:10.1016/j.pmip.2023.100104. Consultado em 2 de julho de 2025 
  12. Mattson, Seth A.; D'Souza, Johann; Wojcik, Katharine D.; Guzick, Andrew G.; Goodman, Wayne K.; Storch, Eric A. (2023). «A systematic review of treatments for misophonia». Personalized Medicine in Psychiatry. 100104 páginas. ISSN 2468-1725. PMC 10276561Acessível livremente. PMID 37333720. doi:10.1016/j.pmip.2023.100104. Consultado em 2 de julho de 2025 
  13. Cavanna, Andrea E.; Seri, Stefano (18 de agosto de 2015). «Misophonia: current perspectives». Neuropsychiatric Disease and Treatment (em inglês): 2117–2123. PMC 4547634Acessível livremente. PMID 26316758. doi:10.2147/NDT.S81438. Consultado em 17 de maio de 2025 
  14. Cavanna, Andrea E (abril de 2014). «What is misophonia and how can we treat it?». Expert Review of Neurotherapeutics (em inglês) (4): 357–359. ISSN 1473-7175. doi:10.1586/14737175.2014.892418. Consultado em 17 de maio de 2025 
  15. Jastreboff, Margaret M.; Jastreboff, Pawel J. (1 de novembro de 2002). «Decreased Sound Tolerance and Tinnitus Retraining Therapy (TRT)». Australian and New Zealand Journal of Audiology (2): 74–84. doi:10.1375/audi.24.2.74.31105. Consultado em 17 de maio de 2025 
  16. Ferrer-Torres, Antonia; Giménez-Llort, Lydia (1 de junho de 2022). «Misophonia: A Systematic Review of Current and Future Trends in This Emerging Clinical Field». International Journal of Environmental Research and Public Health (em inglês) (11). 6790 páginas. ISSN 1660-4601. doi:10.3390/ijerph19116790. Consultado em 17 de maio de 2025 
  17. Freytas-Tamura, Kimiko de (3 de fevereiro de 2017). «Misophonia Sufferers: Scientists May Have Found the Root of Your Pain». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331. Consultado em 17 de maio de 2025 
  18. Jastreboff, Margaret M. Jastreboff,Pawel J. «Hyperacusis -Article 1223». AudiologyOnline (em inglês). Consultado em 17 de maio de 2025