Massacre de Kumarakapay

Massacre de Tumeremo
Envio de ajuda humanitária à Venezuela em 2019
Vista de San Francisco de Yuruaní (Kumarakapay), local do massacre
LocalKumarakapay, Gran Sabana, Bolívar, Venezuela
Data22 de fevereiro de 2019
Tipo de ataqueMassacre a tiros
Alvo(s)Comunidade indígena pemón
Arma(s)Armas de fogo
Mortes11–25
Feridos12
VítimasIndígenas pemón
Responsável(is)Exército Venezuelano
SituaçãoCentenas de pemón fugiram para o Brasil; desaparecimento de líderes indígenas
Consequência966–1.500 indígenas deslocados, 80 desaparecidos
MotivoImpedir entrada de ajuda humanitária

Em 22 de fevereiro de 2019, durante o Envio de ajuda humanitária à Venezuela em 2019, o Exército Venezuelano enviou tropas para a fronteira com o Brasil, passando por Kumarakapay, território da etnia pemon. Indígenas locais e líderes comunitários tentaram impedir o avanço dos veículos blindados com um bloqueio na estrada, conseguindo deter alguns soldados. Os militares abriram fogo contra eles, matando pelo menos onze pemón e ferindo cerca de doze.

Contexto

Em 2019, uma coalizão de países das Américas, Europa e Ásia anunciou ajuda internacional à Venezuela. Nicolás Maduro, que retratou os esforços como uma tentativa internacional de derrubá-lo, aplicou um programa para obstruir a entrada da ajuda. Diversos confrontos ocorreram entre as forças governamentais e os pemón.[1]

Massacre

Em 22 de fevereiro de 2019, o Exército Venezuelano enviou tropas para a fronteira com o Brasil, atravessando Kumarakapay, apesar da autonomia da comunidade sobre a localidade.[2][3][4] Indígenas e líderes locais tentaram deter os veículos blindados construindo um bloqueio na estrada, conseguindo deter alguns soldados.[5][3]

Os demais militares abriram fogo, matando cinco pemón e ferindo cerca de doze. Relatos indicam que o exército perseguiu manifestantes até dentro de suas casas, onde também foram baleados.[6][4][7][8][9][10] Centenas de pemón fugiram para as florestas e comunidades vizinhas. Outros 23 foram presos e torturados pelos militares.[3] Entre os mortos estavam o guia turístico Rolando García e sua esposa, Zoraida Rodríguez, assassinada na porta de sua casa.[11][12]

O governador de Bolívar, Justo Noguera, afirmou que a tentativa dos pemón de parar os veículos militares foi um ato terrorista, negando que os mortos fossem civis.[3]

Consequências

No dia seguinte, moradores de San Francisco de Yuruaní tentaram parar outro grupo de soldados a caminho da fronteira. O general venezuelano José Montoya, comandante regional, tentou interceder em favor dos pemón.

O exército reagiu mais rápido, prendendo Montoya e quatro indígenas quase imediatamente. Testemunhas ouviram um oficial gritar: "Vocês, pemón, acham que são fortes? Vão morrer aqui". Montoya e os demais nunca mais foram vistos.[3][13]

Entre 966 e 1.500 indígenas da região fugiram para o Brasil, temendo novas represálias, configurando um dos maiores êxodos da história sul-americana. O prefeito da cidade também fugiu para o Brasil.[14][15][16]

Posteriormente, o exército matou 11 pessoas em Santa Elena de Uairén.[10][17]

O ex-governador Andrés Velásquez declarou que 14 pessoas foram mortas, muitas com tiros na cabeça, indicando uso de franco-atiradores. Também afirmou que "muitos morreram por falta de atendimento, pois o hospital de Santa Elena não tinha sangue, soro fisiológico, reagentes, oxigênio ou salas de operação".[18] Ao final, o deputado es, líder pemón na Gran Sabana, afirmou que pelo menos 25 indígenas foram mortos, classificando os fatos como um massacre cometido pelas tropas venezuelanas.[19] A Assembleia Nacional acrescentou que 80 pemón desapareceram após o massacre.[20]

Reações

As autoridades venezuelanas acusaram os pemón de serem apoiados por governos estrangeiros. Jorge Arreaza afirmou: "Do Peru entram pela Colômbia e recebem apoio também no Brasil. É uma estratégia de golpe para gerar violência, morte e desestabilização política na Venezuela".[21] Jorge Rodríguez fez declarações semelhantes.[22]

O líder da oposição, Juan Guaidó, declarou no Twitter que o incidente em Kumarakapay, assim como o tratamento de indígenas em geral por Maduro, foi "assassinato" que "não ficará impune".[23]

Referências

  1. «'Venezuelan blood is being spilled': tension flares near border with Brazil». The Guardian (em inglês). 24 de fevereiro de 2019. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  2. «As tensions over aid rise, Venezuelan troops fire on villagers, kill two». The Straits Times (em inglês). 23 de fevereiro de 2019. ISSN 0585-3923. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  3. a b c d e «Soldiers held hostage, villagers killed: the untold story of Venezuelan aid violence». Reuters (em inglês). 21 de maio de 2019. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  4. a b Bonet, Natalia Garcia (30 de abril de 2019). «Venezuela: indigenous people are forgotten victims of crisis». The Conversation (em inglês). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  5. «Venezuelan troops kill one in first bloodshed linked to aid standoff». Saudi Gazette (em inglês). 22 de fevereiro de 2019. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  6. «As tensions over aid rise, Venezuelan troops fire on villagers, two dead». WION (em inglês). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  7. «Crisis en Venezuela: informan de 2 muertos y varios heridos por choque entre militares e indígenas pemones cerca de la frontera con Brasil». BBC News (em espanhol). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  8. «Venezuelan army opens fire on Pemon tribe, Venezuela». Survival International (em inglês). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  9. «Venezuelan Hot Sauce Has a Secret Ingredient: Ants». National Geographic (em inglês). 21 de setembro de 2015. Consultado em 22 de novembro de 2021. Arquivado do original em 22 de novembro de 2021 
  10. a b «Venezuelan Massacres Investigated». Robert F. Kennedy Human Rights (em inglês). Consultado em 22 de novembro de 2021. Arquivado do original em 28 de abril de 2023 
  11. «The Murder of Venezuela's Visionary Adventure Guide». Outside Online (em inglês). 24 de junho de 2019. Consultado em 24 de novembro de 2021 
  12. «In Venezuela, One Member Dies as Church Keeps Operating Amid Challenges». Adventist World (em inglês). 2 de março de 2019. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  13. Diario, El Nuevo. «El Nuevo Diario». El Nuevo Diario (em espanhol). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  14. «Más de 960 indígenas pemones desplazados a Brasil, luego del ataque armado de febrero». Crónica Uno (em espanhol). 23 de julho de 2019. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  15. Fernández, Glorimar (3 de janeiro de 2021). «Perfil | Salvador Franco comandó el Cuerpo de Seguridad Indígena Aretauka». El Pitazo (em espanhol). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  16. «Fallece líder pemón Ricardo Delgado por COVID-19 en Brasil». Efecto Cocuyo (em inglês). 3 de dezembro de 2020. Consultado em 24 de novembro de 2021 
  17. «NowThis: The Massacre You Haven't Heard About | RFK Human Rights». Robert F. Kennedy Human Rights (em inglês). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  18. «Al menos 14 muertos en la frontera de Venezuela con Brasil». The Objective (em espanhol). 24 de fevereiro de 2019. Consultado em 4 de março de 2019 
  19. «Confirman 25 muertos en Santa Elena de Uairén y denuncian uso de presos para reprimir». NTN24 (em espanhol). 24 de fevereiro de 2019. Consultado em 24 de fevereiro de 2019. Arquivado do original em 25 de fevereiro de 2019 
  20. «El Parlamento venezolano denuncia la desaparición de 80 indígenas». Diario Las Americas (em espanhol). 9 de abril de 2019. Consultado em 14 de outubro de 2020 
  21. PERÚ, NOTICIAS EL COMERCIO (23 de dezembro de 2019). «Venezuela: Vladimir Padrino confirma que grupo rebelde tomó Batallón de Luepa en Gran Sabana, cerca de la frontera con Brasil; hay un muerto y roban fusiles y municiones | Jorge Arreaza señala que los rebeldes tienen su base de operaciones en el Perú | Pemones | Batallón 513 Mariano Montilla | Nicolás Maduro | MUNDO». El Comercio (em espanhol). Consultado em 22 de novembro de 2021 
  22. «Venezuela condena possível refúgio a desertores pelo governo brasileiro». Brasil de Fato. 30 de dezembro de 2019. Consultado em 22 de novembro de 2021 
  23. «Crisis mounts in Venezuela as indigenous activists are shot dead by soldiers». Indianz. Consultado em 22 de novembro de 2021