Massacre da Ilha de Anhatomirim

Massacre da Ilha de Anhatomirim
Revolução Federalista

Ilha de Anhatomirim, onde ocorreram os fuzilamentos
DataJulho de 1894
LocalIlha de Anhatomirim, Santa Catarina, Brasil
DesfechoVitória das forças legalistas com execução de prisioneiros federalistas
Beligerantes
Marinha e Exército da República Velha Federalistas ("maragatos")
Comandantes
Brasil Floriano Peixoto
Brasil Antônio Moreira César
Elesbão Pinto da Luz 
Barão de Batovi 
Forças
  Cerca de 200 prisioneiros
Baixas
  Estima-se entre 180 e 185 mortos

O Massacre da Ilha de Anhatomirim foi uma série de execuções sumárias de prisioneiros da Revolução Federalista ocorridas em julho de 1894 na Ilha de Anhatomirim, no estado de Santa Catarina, Brasil. Após a rendição das forças federalistas em Desterro (atual Florianópolis), cerca de 200 prisioneiros foram levados para a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, onde foram submetidos a julgamentos sumários por tribunais militares da Marinha do Brasil.[1][2]

Vista de Florianópolis, c. 1895. O nome da capital de Santa Catarina, remete ao presidente que suprimiu a Revolução Federalista na região.

As ordens de execução teriam partido do então presidente Floriano Peixoto, como retaliação direta às ofensivas federalistas no sul do país e como forma de consolidar o poder central da República Velha.[3][4] O presidente nomeou e remeteu para Santa Catarina, a 19 de abril de 1894, armado de poderes discricionários, o coronel Moreira César, que desembarcou na cidade de Desterro (atual Florianópolis) à frente de quinhentos homens do 7° e 23° Batalhões de Infantaria.

No governo de Santa Catarina, Moreira César promoveu um "ajuste de contas", conforme definido pelo estudioso Oswaldo Rodrigues Cabral. Prisões e fuzilamentos sumários de militares e civis, tais como o Massacre da Ilha de Anhatomirim, foram praticados em represália à rebeldia federalista, promotora da guerra civil centralizada em Santa Catarina. Como observou o historiador catarinense Jali Meirinho "na interpretação justa forma de atos criminosos". E acrescenta: "não se concebem prisões e execuções sem julgamento". Tais execuções sumarias também ocorreram semelhantemente no Paraná (vide a morte do Barão do Cerro Azul), sugerindo que as ordens para tais vieram das altas esferas governamentais.[5]

O "ajuste de contas" foi uma resposta desproporcional à crueldade dos federalistas, particularmente àquela perpetrada pelos guerrilheiros de Gumercindo Saraiva, cuja prática era a degola dos prisioneiros (também praticada pelos seus inimigos). Execuções sumárias de centenas de pessoas muitas sem julgamento ou maior investigação, inclusive um herói da Guerra do Paraguai, o Barão do Batovi e seu filho inocente, torna mais visível que a vingança, não a justiça, estava nos plano de seus executores. Para executar tais vinganças, Moreira Cesar, pelo seu histórico, era a pessoa certa na hora certa.

Entre os fuzilados na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim estava o médico baiano Alfredo Paulo de Freitas, que servia como major-médico em Desterro. Foi o médico chamado de sua casa e depois de apresentar-se, embarcaram-no na corveta Niterói. Dele não obtendo notícias, sua esposa algumas vezes foi ao Palácio do Governo em busca de informações. Numa delas se fez acompanhar da filha menor, constando ter sido recebida por Moreira César em pessoa. Ao tomar conhecimento de quem era a mulher, o comandante Moreira César teria se mostrado solícito, e explicado que o marido dela com efeito fora preso e enviado ao Rio de Janeiro para ser julgado. Ela porém não temesse, em breve o marido estaria de volta. Ao diálogo é apontado ato que categoriza o coronel Moreira César como homem frio e calculista. Moreira César teria tomado a criança no colo e dito, apontando para a mar, entrevisto da janela: "Papai está bem longe, mas voltará logo." O governador militar de Santa Catarina, no entanto, sabia que o doutor Alfredo não retornaria, pois ele mesmo mandara que o fuzilassem em Anhatomirim. Também no chamado "ajuste de contas" de Anhatomirim, onde foi ordenando dezenas de execuções, entre os mortos, estavam deputados estaduais e mesmo militares, como o Barão de Batovi, herói da Guerra do Paraguai, que morreu abraçado a seu filho.[6]Entre os prisioneiros havia não apenas combatentes armados, mas também civis simpatizantes do movimento federalista, como médicos, advogados e políticos locais.[7] Estima-se que entre 180 e 185 pessoas tenham sido executadas sem direito à ampla defesa.[8]

Entre os outros fuzilados estavam diversos integrantes da elite política e intelectual catarinense, que inclui figuras de relevância regional. O massacre foi alvo de denúncias internacionais e causou forte comoção à época, embora pouco discutido em manuais escolares. O episódio é considerado um dos mais sangrentos e controversos da história política do Brasil republicano.[9]

Ver também

Referências

  1. «A história que não se conta: o massacre de Anhatomirim». ND+. 22 de agosto de 2016. Consultado em 14 de maio de 2025 
  2. Carone, Edgar (1979). O movimento operário no Brasil – Volume 1. [S.l.]: Difel. p. 166 
  3. Schwarcz, Lilia Moritz; Starling, Heloisa Murgel (2015). Brasil: uma biografia. [S.l.]: Companhia das Letras. p. 314 
  4. Vidal, Laurentino (2021). O Brasil dos militares. [S.l.]: Nova Fronteira. p. 82 
  5. «Moreira César: O coronel sanguinário que dava nome à Rua Ator Paulo Gustavo, em Niterói». Blog do Acervo - O Globo. 25 de maio de 2021. Consultado em 14 de dezembro de 2025 
  6. Criacao, Time (8 de maio de 2021). «Conheça a trajetória do Coronel Moreira César, 'corta-cabeças' da República, que pode perder homenagem em Niterói (RJ)». Esquerda Online. Consultado em 14 de dezembro de 2025 
  7. «A história que não se conta: o massacre de Anhatomirim». ND+. 22 de agosto de 2016. Consultado em 14 de maio de 2025 
  8. Carone, Edgar (1979). O movimento operário no Brasil – Volume 1. [S.l.]: Difel. p. 166 
  9. Schwarcz, Lilia Moritz; Starling, Heloisa Murgel (2015). Brasil: uma biografia. [S.l.]: Companhia das Letras. p. 314