Marie Meurdrac

Marie Meurdrac
Frontispício de La chymie charitable et facile, en faveur des dames by Marie Meurdrac. Paris: L. d'Houry, 1687.
Conhecido(a) porprimeiro tratado de química escrito por mulher
Nascimento
Morte
1680 (70 anos)
Nacionalidadefrancesa
Carreira científica
Campo(s)Química e alquimia

Marie Meurdrac (Mandres-les-Roses, c. 16101680) foi uma química e alquimista francesa.

Autora de La Chymie Charitable et Facile, en Faveur des Dames (Química Caridosa e Fácil, em Favor das Damas), um tratado de química voltado para mulheres comuns, é tido como a primeira obra sobre química ou alquimia escrita por uma mulher desde Maria, a Judia, no período clássico tardio.

A historiadora Lucia Piave Tosi descreveu Meurdrac como a primeira mulher a publicar um livro sobre química em seus primórdios. Apesar de inicialmente hesitante em escrever, receosa das críticas daqueles que acreditavam que mulheres não deveriam receber educação, ela foi uma protofeminista que defendia a ideia de que "as mentes não têm sexo."[1][2][3]

Biografia

Marie Meurdrac nasceu em uma família proprietária de terras em Mandres-les-Roses, uma vila que hoje fica em um subúrbio de Paris. Seu pai era Vincent Meurdrac (falecido em 1650), um tabelião local, e sua mãe, Elisabeth Dovet (falecida em 1636). Marie tinha uma irmã mais nova, Catherine Meurdrac (1613-1676), conhecida posteriormente como Madame de La Guette, autora de Memórias.[2][4]

Quando criança, Meurdrac era mais séria que sua irmã mais nova e serviu como madrinha de várias crianças de sua aldeia. Em 1625, por volta dos 15 anos, casou-se com Henri de Vibrac, comandante da guarda de Carlos de Valois. Após o casamento, mudou-se para o Château de Grosbois, onde conheceu a condessa de Guiche, esposa de Armand de Gramont, conde de Guiche. As duas tornaram-se grandes amigas, e Meurdrac dedicou posteriormente seu tratado de química à condessa.[2][5]

Educação e carreira

Meurdrac era autodidata, aprendendo química por meio de obras e experimentos de outros cientistas e pela leitura de textos teóricos sobre alquimia e química, possivelmente em bibliotecas particulares e círculos intelectuais relacionados à alquimia e à medicina[6].

  1. Queiroz, C.; Pereira, L. dos S.; Silva, I. (2024). «Lucía Tosi: Gênero, ciência e exílio». Projeto História: Revista Do Programa De Estudos Pós-Graduados De História: 63–90. doi:10.23925/2176-2767.2024v79p63-90. Consultado em 28 de dezembro de 2024 
  2. a b c Tosi, Lucia (2013). «Marie Meurdrac: Paracelsian Chemist and Feminist». Ambix (2): 69-82. doi:10.1179/amb.2001.48.2.69. Consultado em 28 de dezembro de 2024 
  3. Gordon, Robin L. (2013). Searching for the Soror Mystica. Lanham, Maryland: University Press of America. pp. 84–85. ISBN 978-0-7618-6055-6 
  4. Moreau (1859). «Nouveaux Éclaircissements sur les Mémoires de Mme de la Guette». Bulletin du Bibliophile. 24. 251 páginas 
  5. Noyce, Pendred E. (2015). Magnificent Minds: 16 Pioneering Women in Science & Medicine. Boston: Tumblehome Learning. pp. 25–26. ISBN 9780989792479 
  6. Patterson, Elizabeth C. (22 de maio de 1987). «Lives of Science: Women in Science . Antiquity through the Nineteenth Century. A Biographical Dictionary with Annotated Bibliography. Marilyn Bailey Ogilvie. MIT Press, Cambridge, MA, 1986. xiv, 254 pp. $25.». Science (4804): 989–989. ISSN 0036-8075. doi:10.1126/science.236.4804.989. Consultado em 12 de setembro de 2025  line feed character character in |título= at position 18 (ajuda)

Em seus estudos, explorou técnicas laboratoriais, propriedades de medicamentos e cosméticos. Em sua obra, incluiu uma tabela de pesos e 106 símbolos alquímicos usados na medicina da época.[1]

Meurdrac possuía seu próprio laboratório, onde realizava experimentos com o objetivo de melhorar a vida das mulheres. Nele produzia remédios caseiros, produtos de beleza e registrava cuidadosamente suas receitas. Além disso, oferecia aulas particulares para mulheres em seu laboratório, especialmente para aquelas que não se sentiam seguras em realizar experimentos por conta própria. Tinha acesso a um forno de alta temperatura, uma ferramenta incomum para a época, pois seu uso exigia uma permissão especial do rei. Esse detalhe sugere que Meurdrac obteve essa autorização real, possivelmente por meio de sua conexão com a condessa de Guiche.[2][3]

Trato de química e alquimia

Em 1656 ou 1666, Marie Meurdrac publicou seu famoso tratado La Chymie Charitable et Facile, en Faveur des Dames (aproximadamente "Química Útil e Fácil, para o Benefício das Damas"). Esse tratado foi uma das primeiras obras sobre química escritas por uma mulher.[4] A obra passou por várias edições em francês (1666, 1674, 1680, 1687 e 1711) e foi traduzida para o alemão (quatro edições de 1673 a 1712) e italiano. A obra, que foi aprovada pelos mestres regentes da Faculdade de Medicina de Paris, focava em fornecer tratamentos acessíveis para os mais pobres.[5] A decisão de Marie Meurdrac de difundir o conhecimento científico entre as mulheres destoava das normas de seu tempo, já que no século XVII prevalecia a noção de que a erudição era um campo reservado aos homens. Ao optar por redigir seu tratado em francês, em vez do latim utilizado nas obras acadêmicas, ela ampliou significativamente o alcance de seu texto, tornando-o compreensível também a pessoas sem educação formal.

O tratado foi dividido em seis partes. A primeira parte abordava princípios e operações, vasos, selos, fornos, característic[6]as e pesos. A segunda parte tratava das ervas medicinais e dos remédios feitos a partir dessas plantas. A terceira parte abordava os animais e a quarta, os metais. A quinta parte focava na fabricação de medicamentos compostos, e a sexta parte era direcionada ao público feminino, abordando métodos para preservar e aumentar a beleza.[7]

Na introdução de sua obra, Meurdrac escreveu sobre seus métodos: "Eu tomei muito cuidado para não ir além do meu conhecimento, e posso garantir que tudo o que ensino é verdadeiro, e que todos os meus remédios foram testados; por isso, louvo e glorifico a Deus." (tradução de Bishop e DeLoach, 1970). Na segunda página do tratado de Meurdrac, estão as palavras em francês "les esprits n'ont point de sexe", que significam "as mentes não têm sexo". Naquela época, não era ideal que mulheres fossem cientistas. Meurdrac estava ciente disso, o que a motivava a provar que ela poderia publicar um livro didático para mulheres e educá-las também.[8]

Do ponto de vista teórico, a química de Meur[9]drac baseava-se na tradição paracelsista, especialmente na doutrina dos três princípios — sal, mercúrio e enxofre — que, segundo Paracelso, compunham todos os corpos naturais e podiam ser extraídos de substâncias animais, vegetais e minerais para a preparação de medicamentos. Em seu tratado, é possível identificar influências de autores como João de Rupescissa, Ramon Llull, Joseph du Chesne e Nicolas Lémery, ao mesmo tempo em que demonstra um sólido conhecimento prático de boticário.[10]

A obra é notável por combinar aspectos práticos — como instruções detalhadas de preparo — com reflexões sobre a função social do conhecimento científico. Meurdrac afirma que o intelecto das mulheres não é inferior ao dos homens e que negar a elas o direito de aprender significava limitar o progresso da ciência. Essa postura fez com que fosse posteriormente reconhecida como uma precursora na luta pelo acesso feminino ao saber científico.

Esse era um dos elementos mais inovadores da sua obra: sua defesa explícita da capacidade intelectual das mulheres. Logo na introdução do tratado, ela afirma que “a mente não tem sexo”, argumento que mais tarde seria retomado em debates feministas sobre ciência e educação.[11]

Desde a década de 1970, estudiosos têm discutido a natureza de La Chymie Charitable et Facile, en Faveur des Dames, com alguns argumentando que é uma obra sobre alquimia em vez de química. Recentemente, Londa Shiebinger colocou o trabalho de Meurdrac dentro da tradição dos livros de culinária médica, com La Chymie compartilhando muitas semelhanças com os libri de segreti, livros médicos e cosméticos populares na Itália renascentista, que às vezes eram escritos por mulheres.[12]

Visões sobre o gênero

Além da importância de seu trabalho para os esforços científicos femininos, Meurdrac tem sido vista por alguns como uma protofeminista. Em sua introdução, ela descreve sua "luta interna" entre o ideal feminino da época, que Meurdrac definiu como sendo "silenciosa, ouvindo e aprendendo, sem exibir... conhecimento". No entanto, ela decide que "seria um pecado contra a Caridade esconder o conhecimento que Deus me deu, que pode ser benéfico para o mundo".[8]

Sua contribuição eventual com suas obras antecipou a mudança de paradigma que ocorreria mais tarde, quando a alquimia se transformou em química moderna. Independentemente de sua obra ser ou não considerada como química, Meurdrac contribuiu de maneira direta e visível para processos colaborativos e a revisão crítica, que mais tarde definiriam o campo da química moderna e da ciência como um todo.[2]

Em sua dedicatória, Marie escreveu:

Influência

La Chymie despertou o interesse de Molière, que baseou sua comédia Les Femmes Savantes nela. As evidências apresentadas em Les Femmes Savantes indicam que Meurdrac provavelmente foi a primeira mulher na química. Esta peça satírica destacava as mulheres que dedicavam grande parte do seu tempo a experimentos e atividades acadêmicas, mas também critica e ridiculariza diversos grupos, incluindo as femmes précieuses, um estereótipo das mulheres educadas da França.[13][3]

No entanto, embora a peça mencione temas como física, matemática e astronomia, ela não faz referência à química. Uma das razões para a ausência da química nesse contexto pode ser que Les Femmes Savantes foi escrita em 1672, seis anos após a primeira edição de La Chymie Charitable e dois anos antes da segunda edição de Meurdrac. Essa sátira reforçou a ideia de que as mulheres não deveriam ser educadas, sugerindo que, caso o fossem, seriam consideradas irritantes e pedantes.[13]

Legado

Embora tenha sido relativamente pouco conhecida na época em que viveu, Marie Meurdrac é hoje lembrada como uma figura pioneira tanto na consolidação da química quanto na defesa do direito das mulheres ao conhecimento.[14]Estudos recentes sobre história da ciência e estudo[15]s de gênero recuperaram a importância de sua obra, destacando seu pioneirismo na escrita científica por mulheres. Atualmente, seu tratado é frequentemente citado como exemplo da transição entre alquimia e química e como marco na inserção feminina na produção de saber científico.

Referências

  1. Smeltzer, Ronald K.; Ruben, Robert J.; Rose, Paulette (2013). Extraordinary Women in Science & Medicine: Four Centuries of Achievement. Nova York: The Grolier Club. p. 34. ISBN 978-1605830476 
  2. a b c Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas :1
  3. a b Sam Findlay (10 de março de 2015). «'Mind has no sex': The story of Marie Meurdrac, First Lady of Chemistry». Electromaterials Science. Consultado em 28 de dezembro de 2024 
  4. Bishop, Lloyd O.; DeLoach, Will S. (1970). «Marie Meurdrac-First Lady of Chemistry?». Journal of Chemical Education. 47 (6). 449 páginas. Bibcode:1970JChEd..47..448B. doi:10.1021/ed047p448 
  5. Cobb, Cathy (2002). Magick, Mayhem, and Mavericks - The Spirited History of Physical Chemistry. Nova York: Prometheus. p. 103. ISBN 9781573929769 
  6. Caserio, Marjorie C. (julho de 1999). «Women in Chemistry: Their Changing Roles from Alchemical Times to the Mid-Twentieth Century (Rayner-Canham, Marelene; Rayner-Canham, Geoffrey)». Journal of Chemical Education (7). 901 páginas. ISSN 0021-9584. doi:10.1021/ed076p901. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  7. Gordon, Sarah (2019). «Chemistry, Medicine, and Beauty on the Edge: Marie Meurdrac». In: Lisa Hopkins and Aidan Norrie. Women on the Edge in Early Modern Europe. Amsterdã: Amsterdam University Press. p. 45. ISBN 978 94 6298 750 0 
  8. a b Offereins, M.; Strohmeier, R. (1994). «Marie Meurdrac». In: Jan Apotheker & Livia Simon Sarkadi. European Women in Chemistry. Nova York: Wiley-VCH. p. 34. ISBN 9783527636464 
  9. Multhauf, Robert P.; Debus, Allen G. (janeiro de 1979). «The Chemical Philosophy: Paracelsian Science and Medicine in the Sixteenth and Seventeenth Centuries». Technology and Culture (1). 213 páginas. ISSN 0040-165X. doi:10.2307/3103128. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  10. Tosi, Lucia (julho de 2001). «Marie Meurdrac: Paracelsian Chemist and Feminist». Ambix (2): 69–82. ISSN 0002-6980. doi:10.1179/amb.2001.48.2.69. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  11. Debus, Allen G. (março de 1998). «Chemists, Physicians, and Changing Perspectives on the Scientific Revolution». Isis (1): 66–81. ISSN 0021-1753. doi:10.1086/383922. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  12. Feinstein, Sandy (2009). «La Chymie for Women: Engaging Chemistry's Bodies». Early Modern Women: An Interdisciplinary Journal. 4: 223-234 
  13. a b Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas Tosi
  14. Tosi, Lucia (julho de 2001). «Marie Meurdrac: Paracelsian Chemist and Feminist». Ambix (2): 69–82. ISSN 0002-6980. doi:10.1179/amb.2001.48.2.69. Consultado em 12 de setembro de 2025 
  15. Rayner-Canham, Marelene F.; Rayner-Canham, Geoffrey W. (28 de maio de 1997). Devotion to Their Science. [S.l.]: McGill-Queen's University Press. Consultado em 12 de setembro de 2025