Maria do Precioso Sangue

Maria do Precioso Sangue
Nome completoMaria Luísa do Amaral de Passos de Sousa Canavarro
Nascimento
Morte
22 de abril de 1979 (66 anos)

Nacionalidadeportuguesa
OcupaçãoFreira

Irmã Maria do Precioso Sangue (Santarém, 11 de novembro de 1912Ermesinde, 22 de abril de 1979), nascida Maria Luísa do Amaral de Passos de Sousa Canavarro, foi uma religiosa portuguesa da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, tendo sido sua Superiora Provincial; foi a terceira a ocupar aquele cargo na província portuguesa e a primeira de origem portuguesa.

Biografia

Os pais de Maria Luísa Canavarro

Maria Luísa do Amaral de Passos de Sousa Canavarro nasceu na Avenida das Portas do Sol na cidade de Santarém em 11 de novembro de 1912, filha de João Passos de Sousa Canavarro, advogado escalabitano, e de Maria Amália do Amaral Cabral Metello Canavarro, natural de Coimbra. Foi a sétima de dez filhos do casal (sete raparigas e três rapazes); tinha uma irmã gémea, Isabel Maria ("Belinha").[1][2] O ambiente familiar era profundamente católico: D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca de Lisboa era visita habitual, e chegou a declarar: "Entro nesta casa como numa igreja, porque desta família irradia o Evangelho". A família vinha morar a Lisboa nos meses de Inverno, instalando-se no n.º 6 da Travessa de Santa Gertrudes à Estrela; as férias eram habitualmente passadas na Quinta da Amendoeira, perto de Santarém, e, por vezes, à praia de São Martinho do Porto, Baleal, Foz do Arelho.[1]

Luísa Passos de Sousa Canavarro, Baronesa de Almeirim

A mãe morreu quando Maria Luísa tinha 6 anos, em 30 de setembro de 1918, vítima da pandemia da gripe pneumónica, quando a família se encontrava reunida de férias nas Caldas da Rainha. Não sofreu, contudo, os traumas de uma orfandade desamparada: qualquer vazio afetivo foi preenchido pela forte proteção do pai e pelo carinho das duas tias paternas, D. Maria Xavier (solteira) e D. Luísa Passos (viúva de D. Manuel Braamcamp Freire, Barão de Almeirim), que vieram tomar conta dos sobrinhos. A sua educação seguiu os costumes da época (tinha lições em casa com as suas irmãs), foi completa e deveu-se sobretudo à sua tia Luísa, que iniciou as sobrinhas em tudo quanto diz respeito a uma boa dona de casa.[1]

Maria Luísa foi batizada na Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém, a 8 de dezembro de 1912. Recebeu a primeira comunhão aos 9 anos, em 15 de maio de 1921, na capela da Ordem Terceira de São Francisco, em Lisboa, das mãos do padre Augusto Araújo, O.F.M. Recebeu o sacramento da Confirmação na Igreja de São Luís, em Lisboa, a 31 de maio de 1924.[1]

A vocação religiosa de Maria Luísa teve início aos 7 anos: "Estava para me deitar, já em camisa de noite, ajoelhada na cama, fazendo as minhas orações com Mademoiselle Madeleine Perroud, nossa mestra, quando me veio um grande desejo de pertença total a Deus." O seu zelo apostólico, na juventude, fê-la ser catequista na Paróquia da Estrela em Lisboa, e integrar a Ação Católica; usava cilício em forma de cruz.[1] Ponderando ingressar na vida religiosa, primeiro pensou entrar nas Clarissas, mas o seu confessor, padre Sebastião Pinto, S.J. desejava que ela fosse para as Irmãs Reparadoras Missionárias da Sagrada Face, cuja fundação queria fazer com a sua irmã, Maria da Conceição Pinto da Rocha (que viria a ser, de facto, a fundadora daquela congregação); entretanto, Maria Luísa ficou agradada ao visitar as Irmãs do Bom Pastor em Carnide na companhia da sua amiga Nina Lucena (mais tarde, Carmelita no Brasil), e decidiu-se a entrar após ler uma biografia da Irmã Maria do Divino Coração. Ao contrário do que muitas vezes sucede, não encontrou grandes resistências por parte da família: o pai ficou comovido, porque havia muito tempo que vinha pedindo um filho sacerdote.[1]

Maria Luísa Canavarro, postulante, com o seu pai

Deu entrada nas Irmãs do Bom Pastor, instaladas no convento do Convento de Corpus Christi em Vila Nova de Gaia, com 26 anos de idade, em 31 de julho de 1938. Depois de oito meses de postulantado, ingressou no noviciado em 24 de abril de 1939; com a entrada no noviciado canónico, tomou o hábito e assumiu o nome religioso de Irmã Maria do Precioso Sangue. O dia da sua profissão religiosa foi após dois anos exatos de noviciado, em 24 de abril de 1941; três anos mais tarde, em 24 de abril de 1944, fez os votos perpétuos.[1] Durante os tempos dos votos temporários trabalhou como educadora ("primeira mestra", como então se dizia) em Coimbra e ainda no Barro em Torres Vedras, antigo noviciado dos jesuítas.[1]

Em 1944, Adriano Vaz Serra, Ministro da Justiça, empenhado na reforma das casas correcionais femininas, firmou um acordo com Irmãs do Bom Pastor para levar um grupo de irmãs para um novo reformatório em Viseu;[3] a Irmã Maria do Precioso Sangue levou consigo grande entusiasmo para a nova obra, e teve sucesso a organizar oficinas de costura, bordados e tapetes, com fim de reabilitar as jovens internadas. Esteve como Superiora em Viseu desde maio de 1944 a fevereiro de 1948; foi depois nomeada Superiora da Casa de Carnide (mais tarde conhecida por Lar Maria Droste), onde permaneceu até julho de 1951. Neste novo cargo teve de enfrentar graves dificuldades económicas, tendo de ter uma intensa atividade de angariação de fundos para pagar uma dívida de quarenta contos que lá havia quando chegou, e para fazer face à subsistência.[1]

A Irmã Maria do Precioso Sangue com sua irmã gémea, Isabel Maria Passos de Sousa Canavarro

De Lisboa, foi chamada à Casa Provincial em Vila Nova de Gaia, para exercer o cargo de Superiora. Era então Provincial uma irmã alemã, a Irmã Maria de Santa Mechtildis Giboni, que deu um grande impulso à província; por vacatura do cargo de Prioresa (superiora local), a Provincial encontrava-se a acumular também aquele cargo, numa comunidade de 50 irmãs, uma obra com cerca de 200 assistidas, e ainda o noviciado. A Irmã Maria do Precioso Sangue entrou como Prioresa em julho de 1951, com a Comunidade naquela situação; enfrentou o desafio de forma confiante e quase heróica.[1]

A Irmã Maria do Precioso Sangue, de visita em Angola

Em 1955, tendo a Superior Provincial Irmã Maria de Santa Mechtildis Giboni saído do cargo em que encontrava há 17 anos, foi nomeada para a substituir a Irmã Maria do Precioso Sangue. Foi a primeira Provincial portuguesa, e a terceira a ocupar aquele cargo na Província. Sob o seu impulso, a Província que funcionava em pleno com seis casas, ia realizar o sonho antigo de abrir uma casa em melhor clima para estabelecer o núcleo central da Província Portuguesa (Casa Provincial e Noviciado). Após a venda de uns terrenos que uma das Irmãs tinha recebido em dote, a importância foi aplicada na aquisição da Quinta do Cruzeiro, em Ermesinde. A inauguração da casa já existente, Instituto do Bom Pastor "Haurietis Aquas", a 400.ª casa da Congregação, foi no dia 20 de outubro de 1956. No fim desse ano, já ali estavam recolhidas em casa provisória, doze educandas gratuitas, número que cedo ascenderia a trinta. A planta do novo conjunto foi aprovada pela Superiora Geral e, em 14 de julho de 1957, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes benzia a primeira pedra.[1]

Datam ainda do seu período de quinze anos enquanto Superiora Provincial o início de inúmeras outras obras: a Comunidade das Irmãs Madalenas (Ermesinde, 1962), a Casa de Proteção e Amparo de Nossa Senhora das Dores (Portalegre, 1962), a Casa da Rainha Santa (Luanda, 1963), o Abrigo Materno-Infantil (Porto, 1963), o Externato Maria Droste (Ermesinde, 1966), o Lar de Santa Maria Goretti (Angra do Heroísmo, 1967), a Casa de Santa Maria Eufrásia (Fátima, 1967), a Missão de Santa Maria Eufrásia (Camabatela, 1969), atualizou as obras sociais do Instituto, fez acordos entre as casas e a Direção-Geral da Assistência.[1]

D. Alberto Cosme do Amaral em visita à Comunidade de Ermesinde, com a Irmã Maria do Precioso Sangue, Superiora Provincial

Em dezembro de 1969 teve de ser hospitalizada no Hospital de São João com uma gripe que a deixou em coma com suspeita de complicação por uma encefalite; devido a este acontecimento que a fragilizou, viu-se obrigada a deixar o cargo de Provincial. Foi substituída no cargo pela Irmã Maria do Coração de Jesus Coelho. Depois de convalescença na Casa de Fátima, a Irmã Maria do Precioso Sangue foi ainda nomeada Superiora e Diretora da Cadeia Central de Mulheres em Tires (Cascais) em 1971, onde permaneceu até março de 1975, tendo aqui lidado com os excessos da Revolução de 25 de Abril de 1974 e suas consequências no comportamento das reclusas.[1]

Depois de Tires, foi ainda nomeada Superiora da Casa de Retiros de Ermesinde em março de 1975 (mais tarde conhecida como a Casa da Irmã Maria, sendo reconvertida a casa onde se atendiam as Irmãs idosas e doentes da Província Portuguesa) e depois Superiora na Comunidade de Fátima em junho de 1976. Aqui, pelos anos de 1976–77, ajudou a formar as três primeiras candidatas da restaurada Ordem da Santa Cruz em Portugal (ramo feminino), por a Irmã que estava à frente não ter experiência e por ver a tarefa delicada dificultada pelo facto de ser suíça.[1]

Começaram a notar-se por esta altura os primeiros sintomas da doença pulmonar que a levaria à morte. Em 1978 foi mudada para Ermesinde por não haver em Fátima serviço de saúde adequado, o que lhe causou grande sofrimento por desejar terminar os seus dias junto de Nossa Senhora de Fátima. Morreu, depois de longa agonia, em 22 de abril de 1979, rodeada de Irmãs e na presença da cunhada, Maria Teresa Guedes Canavarro, acabada de chegar nesse momento. Foi sepultada no cemitério de Paranhos, junto dos restos mortais de outras Irmãs.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o Filipe, Nuno (1993). O segredo de um sorriso: Ir. Maria do Precioso Sangue. Lisboa: Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor 
  2. Teixeira, Júlio A. (1946). J. A Telles da Sylva, ed. Fidalgos e morgados de Vila Real e seu termo: genealogias, brazões, vínculos. Vila Real: [s.n.] 
  3. Tomé, Maria Rosa (2010). «A cidadania infantil na Primeira República e a tutoria da infância: a criação da Tutoria de Coimbra e do refúgio anexo». Centro de História da Sociedade e da Cultura, Universidade de Coimbra. Revista de História da Sociedade e da Cultura (10): 481–500. doi:10.14195/1645-2259_10-2_6. Consultado em 24 de agosto de 2025