Marie Bonaparte-Wyse

Marie Bonaparte-Wyse
NascimentoMarie-Lætitia Bonaparte-Wyse
25 de abril de 1831
Waterford
Morte6 de fevereiro de 1902 (70 anos)
Paris
SepultamentoMemorial to Urbano Rattazzi and her wife Marie Lætizia Bonaparte Wyse, Cimitero Monumentale of Alessandria
CidadaniaFrança
Progenitores
  • Studholme John Hodgson
  • Lætitia Christine Bonaparte
CônjugeLuis de Rute Giner, Urbano Rattazzi, Frédéric Joseph de Solms
Irmão(ã)(s)Napoleon Bonaparte Wyse, William Bonaparte-Wyse, Lucien Napoléon Bonaparte-Wyse
Ocupaçãoescritora, salonnière, jornalista, editora, poetisa
Distinções
  • Dame of the Order of Queen Maria Luisa (1871)

Marie Bonaparte-Wyse, também conhecida como Maria Rattazzi, (Waterford, 25 de abril de 1831França, 6 de fevereiro de 1902) foi uma escritora francesa.

Vida

Ela nasceu em Waterford, Irlanda, neta de Lucien Bonaparte (tornando-se sobrinha-neta do imperador Napoleão I) por sua segunda esposa, através do casamento de sua filha Letizia com Sir Thomas Wyse, um irlandês, plenipotenciário britânico em Atenas, e membro do Parlamento. No entanto, ela nasceu depois que sua mãe foi separada de Wyse por três anos, e seu pai biológico era o oficial do exército britânico Capitão Studholme John Hodgson.[1]

Ela foi educada em Paris. Em dezembro de 1848, aos dezessete anos, Marie (secretamente chamada Marie-Studholmine) casou-se com Frédéric Joseph de Solms (1815-1863), um rico cavalheiro de Estrasburgo que logo a deixou para ir para a América. Marie, conhecida como a "Princesa de Solms", ficou com sua mãe, que mantinha um brilhante salão em Paris frequentado por Victor Hugo, Eugène Sue, o jovem Alexandre Dumas e outros escritores.[1]

No início da década de 1850, Marie teve um caso com o conde Alexis de Pommereu que gerou um filho em 1852. Em fevereiro de 1853, as autoridades francesas ordenaram sua expulsão do Império, após acusações de que ela portava ilegalmente o nome Bonaparte e provocou "desordens escandalosas ". Houve, no entanto, relatos de que o imperador Napoleão III havia secretamente feito várias visitas à sua bela e jovem prima, que a ciumenta imperatriz Eugênia soube das visitas e disse ao marido que Maria mantinha um salão de subversivos e que ele havia ordenado sua expulsão.

Em agosto de 1853 Marie se estabeleceu em Aix-les-Bains em Saboia, então parte do Reino da Sardenha, onde seu amante (Pommereu) construiu para ela um chalé que logo se tornou o centro de um novo salão literário. Ela ia muitas vezes a Turim, a capital do reino, onde estabeleceu mais um salão no Hôtel Feder. Ela manteve amizade com Hugo, Sue, Dumas e outros, incluindo Lajos Kossuth, Alphonse de Lamartine, Félicité Robert de Lamennais, Henri Rochefort, Tony Revillon e o ministro dos Estados Unidos na Sardenha, John Moncure Daniel.

Marie-Lætitia Bonaparte-Wyse (1831-1902)

Em 1859, o primo libertino de Napoleão III, o príncipe Napoleão, ficou noivo de Maria Clotilde, a filha de quinze anos do rei Vittorio Emanuele II da Sardenha. Isso foi feito como parte de um acordo concluído pelo primeiro-ministro do rei, Conde Cavour, para garantir o apoio francês à Sardenha na guerra que se aproximava para libertar o norte da Itália da ocupação austríaca. (O rei, abertamente insatisfeito com o noivado, ficou secretamente satisfeito.) A sociedade de Turim ficou escandalizada quando a princesa de Solms zombou do imperador ao aparecer no baile de noivado de braço dado com o ministro dos EUA Daniel.

Ela foi uma das primeiras jornalistas e, através de Sainte-Beuve, Marie contribuiu para Le Constitutionnel sob o pseudônimo de "Baron de Stock". Ela também escreveu para o Pays e o Turf. Depois que Saboia foi anexada à França (1860) como outra parte do acordo entre Napoleão III e Cavour, Marie voltou para Paris, onde desempenhou um papel proeminente nos eventos literários e sociais da época. Ela reuniu em seu salão homens de todos os matizes de opinião. Em 1863, com a morte de seu marido, ela se casou novamente com o estadista piemontês Urbano Rattazzi, e viveu com ele na Itália, onde era conhecida como "Divina Fanciulla". Após sua morte em junho de 1873, Madame Rattazzi retornou a Paris e, alguns meses depois, casou-se com seu amigo espanhol, o subsecretário Don Luis de Rute y Ginez (1844-1889), a quem ela também sobreviveu. Marie morreu viúva em 1902 em Paris.

Ela foi enterrada em Aix-les-Bains (França).

Controvérsia

A Rattazzi, que passou dois invernos a desfrutar os literatos de Lisboa, publicou agora um livro sobre Portugal, delicioso. Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo, estes mirmidões! Não se fala noutra coisa, e está tudo furioso.
 
Antero de Quental, carta a João Lobo de Moura, 19 de janeiro de 1880[2].

Em 1876 e 1879, Maria Rattazzi — como ficou conhecida — viajou por Portugal, reunindo extensas notas e apontamentos. O resultado dessas visitas foi a publicação, em 1879, na França, da obra Le Portugal à Vol d’Oiseau, Portugais et Portugaises (traduzida como Portugal de Relance). O livro gerou uma grande polémica, pois as suas opiniões acutilantes, vindas de uma mulher — algo invulgar na época —, não foram bem recebidas pelos portugueses. Com uma escrita franca e direta, Rattazzi criou numerosas inimizades e esteve no centro de uma intensa controvérsia, que envolveu figuras proeminentes como Camilo Castelo Branco, Antero de Quental e Ramalho Ortigão.[2][3]

Dos portugueses escreveu:

Os portugueses são geralmente belos e bem feitos; mas prejudicam muito essas qualidades pelo excesso de vaidade; alguns deles dão-se ares de vencedores quando passam junto das mulheres.[4]

E sobre as portuguesas:

As portuguesas só são bonitas por exceção; mas quase todas possuem formosíssimos olhos; e é sem dúvida por isso mesmo que fazem tanto uso deles.[4]

Camilo Castelo Branco, em tom polemista, afirmou sobre a obra da "Senhora Rattazzi":[nota 1]

Eu, criado no velho noticiário, tendo de anunciar o produto d'uma dama dado à luz, antes quisera, em vez d'um livro bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade das mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espetáculo d'uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre cinco e sete tostões — 740 reis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um oitavo compacto.[6]

Sobre Castelo Branco, Rattazzi escreveu:

Camilo Castelo Branco, que parece condenado aos trabalhos forçados da literatura portuguesa, escreve, escreve, escreve incessantemente. […] a quantidade, segundo parece, supre por vezes a qualidade.[7]

Notas

  1. Também se referiu a ela como "princesa vadia" em carta a Alberto Braga datada de fins de 1879 ou inícios de 1880.[5]

Referências

  1. a b D. G. Paz, ‘Wyse, Sir Thomas (1791–1862)’, Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, 2004; online edn, Jan 2008 accessed 7 Nov 2011
  2. a b «Portugal de Relance – Maria Rattazzi – O Bibliótafo 2». Biblioteca e Arquivo Histórico Municipais - Ponte de Sor. 24 de setembro de 2018. Consultado em 15 de março de 2025 
  3. «Portugal de Relance». Antígona. Consultado em 15 de março de 2025 
  4. a b RATTAZZI 1881, p. 85.
  5. Cartas de Camilo Castelo Branco (PDF). Coleção, Prefácio e Notas de M. Cardoso Martha. Lisboa: H. Antunes. 1918. p. 9 (35) 
  6. CASTELO BRANCO 1880, p. 10.
  7. RATTAZZI 1881, p. 67.

Bibliografia