Manuel Carvalheiro
Manuel Carvalheiro
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|---|---|
| Nome completo | Manuel Duarte Ferreira Dias Carvalheiro |
| Nascimento | 30 de dezembro de 1950 Lisboa, Portugal |
| Nacionalidade | português |
| Morte | 21 de abril de 2019 (68 anos) Lisboa, Portugal |
| Educação | |
| Ocupação | |
| Outros prêmios | |
| Prémio CICAE Ficts Fest | |
Manuel Carvalheiro (Lisboa, 30 de dezembro 1950 - Lisboa, 21 de abril 2019) foi um cineasta, documentarista, argumentista, produtor cinematográfico independente, ensaísta, cronista e crítico de cinema português. Foi o primeiro teórico de cinema português. [1][2]
Primeiros anos
Manuel Carvalheiro nasceu em Lisboa, filho de Manuel Teixeira Dias Carvalheiro, militante do sector intelectual do Partido Comunista Português, licenciado em Económicas e Financeiras pelo ISCEF, e de Maria de Lourdes da Silva Ferreira, médica especialista em Pediatria pela FMUL e em Medicina Tropical[3] pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical, ambos naturais da Figueira da Foz (freguesia de S. Julião).
O avô paterno[4], republicano, livreiro na Figueira da Foz, e os tios, os militantes comunistas Maria Regina Dias Carvalheiro[5][6] e Albano Rodrigues da Cunha,[7][8] advogados em Coimbra, foram opositores ao Estado Novo e presos políticos durante a Ditadura. O pai foi amigo de Bento de Jesus Caraça, de quem tinha sido aluno e em casa de quem conheceu José Dias Coelho.
Os pais conheceram-se na Figueira da Foz e aproximaram-se, ainda adolescentes, em torno da apreciação mútua da literatura e da música clássica. Com efeito, se o pai era filho de um livreiro, a mãe tinha tido aulas de canto gregoriano e concluído o curso de Piano do Conservatório Nacional. Prosseguiram inicialmente os estudos universitários em Coimbra, mas combinaram transferir as respetivas matrículas para a Universidade de Lisboa, mais próxima dos movimentos oposicionistas e contestatários.
A 1 de janeiro de 1949, casaram por solicitação do PCP que os incumbiu da gestão de uma casa clandestina[9], em Lisboa, cujo arrendamento o Partido passou a subsidiar, tal como tinha igualmente assumido as despesas da lua de mel no emblemático Hotel Palácio, no Estoril, conhecido centro de espionagem durante a Segunda Guerra Mundial. O objetivo passava por alojar secretamente, com o casal, um membro do Comité Central do PCP mergulhado na clandestinidade, permitindo-lhe continuar a desenvolver a publicação comunista[10][11][12][13] pela qual era responsável[14]. A coordenação da sua impressão nas tipografias[15] clandestinas estava a cargo de outro membro do Comité Central do PCP, António Dias Lourenço. Antes e depois da prisão de Álvaro Cunhal, ocorrida em março de 1949, a referida casa clandestina foi um dos principais locais de reunião dos membros do Comité Central do PCP.
A pedido de José Dias Coelho e na sequência de uma série de prisões políticas de dirigentes comunistas, a familia mudou-se para Angola, com a missão de dar apoio aos movimentos independentistas.
Inicialmente instalados em Silva Porto, acabaram por radicar-se em Luanda onde a mãe iniciou uma destacada atividade profissional, sendo a única especialista formada em Pediatra de Angola colonial. Enquanto Delegada de Saúde Pública no Dispensário de Luanda, coordenou a campanha de vacinação contra a poliomielite. Diretora do Serviço de Puericultura do Hospital Maria Pia, foi médica pediatra da Maternidade Indígena, bem como da função pública, da elite colonial e dos filhos de Agostinho Neto. Distinguida com cinco bolsas de estudo pela OMS, foi uma acérrima defensora da pediatria social.
O pai foi professor de matemática e diretor da Escola Industrial e Comercial de Luanda. Antifascista e pacifista, defensor do nacionalismo angolano, esteve ligado aos principais ativistas anticoloniais, incluindo a médica Julieta Gandra, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade, Luandino Vieira e Alfredo Bobela da Motta de quem foi amigo. Co-fundador do Cine-clube de Luanda, cinema ao ar livre, foi vogal[16] da Sociedade Cultural de Angola (SCA), entidade defensora de expressões artísticas angolanas avant la lettre que atribuiu um prémio literário ao escritor e preso político Luandino Vieira em 1961[17] pelo seu livro Luuanda. Correu risco de vida ao guardar em casa os seus escritos, sendo ainda responsável pela edição[18] de Luuanda. As suas atividades foram vigiadas por Aníbal de São José Lopes com quem já se tinha cruzado em Lisboa. Quando Luandino Vieira saiu da prisão, os pais de Manuel Carvalheiro receberam-no de braços abertos na sua vivenda da Maianga, em Luanda, assegurando todas as despesas e proporcionando-lhe efetivamente um lar para viver com a mulher e o filho.
Assim, Manuel Carvalheiro cresceu com consciência política e cultural, num ambiente com mais liberdade que na metrópole. Recebeu a sua primeira máquina fotográfica aos oito anos, durante uma viagem com o pai ao Congo Belga e ao Congo Francês. Incentivado pelo pai, tirou fotografias aéreas e da travessia de barco pelo rio Congo, no que foi o despertar de uma paixão duradoura pela fotografia. Posteriormente e sem o seu conhecimento, o pai enviou os negativos pelo correio a um contacto do PCP.
Adolescente, passou um ano letivo na Figueira da Foz, tornando-se próximo do seu outro tio paterno, Manuel Leitão Fernandes, fotógrafo amador, cinéfilo e, mais tarde, um dos fundadores do Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz. A poucos meses de completar 17 anos, realizou com os pais uma viagem pelas principais capitais europeias e assistiu ao Festival de Veneza de 1967.
Carreira
Aos dezanove anos, iniciou-se como crítico de cinema no Círculo Universitário de Cinema de Luanda e no jornal O Comércio, de Luanda. Horrorizado pela Guerra Colonial Portuguesa e a frequentar o segundo ano do curso de engenharia química, na Universidade de Luanda, parte para o exílio, estudar cinema no Laboratoire Audio-visuel da Escola Prática de Altos Estudos, em Paris, no rescaldo de Maio de 1968. Forma-se com o documentarista Jean Rouch, pioneiro do cinéma vérité (cinema direto). A nível político, manifesta o seu apoio à Primavera de Praga e, posteriormente, o seu repúdio pela invasão da Checoslováquia.
Aos vinte e dois anos, nomeado encarregado de curso na Universidade Sorbonne Nouvelle, deu o Seminário de Semiologia do Cinema. Residiu na Maison de l'Italie, na Cité Internationale Universitaire de Paris e fundou o Cine-clube Bento Caraça, na Maison du Portugal. A partir de 1972, participou como correspondente de cinema nos festivais internacionais de Cannes, Veneza, Berlim, Grenoble e Karlovy Vary. [1] No Festival de Cannes, conheceu António da Cunha Telles, António de Macedo, António-Pedro Vasconcelos, a atriz Maria Cabral, entre outros cineastas e artistas do Novo Cinema.
Manuel Carvalheiro e Glauber Rocha conheceram-se em 1972, no Festival de Berlim, surgindo, entre eles, uma amizade que duraria até à morte do realizador brasileiro. Glauber Rocha assumiu o papel de mentor de Manuel Carvalheiro e trabalharam juntos em França, Portugal e Alemanha. Com a notícia do 25 de abril de 1974, Manuel Carvalheiro viajou de carro para Lisboa, onde chegou passados quatro dias, no dia 29 do mesmo mês. Acolheu Rocha na sua casa da rua dos Lusíadas, em Lisboa, e participou no histórico desfile do 1º de maio, imortalizado no filme coletivo As Armas e o Povo. Trabalharam, ainda, no filme inacabado sobre a revolução portuguesa, Lisboa Livre, rodado nos dias que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. A 27 de novembro de 1974, casou-se com Ondina Silva em Lisboa. Dois anos mais tarde nasceu, em Paris, a filha única de ambos.
Aos vinte e seis anos, sob a orientação do teórico de cinema Christian Metz, defendeu a tese "Reflexões sobre a Teoria Eisensteiniana no Cinema" na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS). Nesse mesmo ano letivo, é contratado pelo Consulado Português em Paris para dar aulas de Português aos filhos dos emigrantes residentes em Champigny-sur-Marne, um conhecido bairro de lata dos arredores de Paris. Em 1979, foi um dos subscritores do Manifesto dos Novíssimos Cineastas, na 8.ª edição do Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz.
Em 1981, Manuel Carvalheiro realizou Abecedário (ABC) em Paris, verdadeiro testamento cultural e única entrevista do género a Glauber Rocha. [19] Mais tarde, ajudou o mentor e amigo a instalar-se em Sintra[20] com a família e colaborou no seu último argumento, Império de Napoleão[21], que não chegou a ser filmado por morte do realizador brasileiro.[22] No ano seguinte, Manuel Carvalheiro representou Portugal com a sua curta-metragem Abecedário (ABC), oficialmente selecionada pela organização do Festival Internacional de Cinema de Huelva e distinguida no Festival international du jeune cinéma de Hyères com o Prémio da CICAE, Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio.
Manuel Carvalheiro teve uma colaboração profícua com o diretor de fotografia Manuel Costa e Silva e, em 1982, representou Portugal com a curta-metragem Amores de Salazar, oficialmente selecionada pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim.
Em 1985, sob a direção de Christian Metz, doutorou-se com Mention Très Bien pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) com a tese O Cinema intelectual: Mutações na teoria Eisensteiniana, na génese do seu livro de 1989, As Mutações do Cinema no Tempo do Vídeo[23][24].
Manuel Carvalheiro foi membro da Associação Portuguesa de Escritores e o primeiro teórico de cinema português. Ensaísta, cronista e crítico de cinema, colaborou nos Cahiers du Cinéma, na revista cinematográfica Positif (revue) e em várias publicações portuguesas, entre as quais Seara Nova, Jornal de Letras, Diário de Notícias, Público, A Capital, Diário de Lisboa, Diário Popular, O Primeiro de Janeiro, O Século, República (jornal) e a revista Vértice. [1][25][26][27][28]
Representou Portugal com curtas-metragens e documentários em festivais internacionais de cinema e participou regularmente no antigo Festróia, Festival Internacional de Cinema de Troia (1985-2014). Polémico e irreverente, apresentou inúmeros projetos de longas metragens, mas acabou marginalizado pelo IPC (Instituto Português de Cinema) que nunca lhe aprovou os filmes. Fundou a produtora Filmes Século XXI para fazer cinema de autor e passou por grandes constrangimentos económicos devido à falta de atribuição de subsídios, situação que teve um impacto negativo na saúde de Manuel Carvalheiro e nas suas relações familiares e sociais.[29]
No final da década de 1990, levou a concurso vários documentários, entre os quais A UNESCO, a Expo 98 no Ano Internacional dos Oceanos (1997) e Lembrança de Provas Hípicas nas Olimpíadas (1998), distinguido pelo prémio do público no Ficts Fest de 1998.
Manuel Carvalheiro foi amigo do escritor italiano Marco Ferrari que se inspirou nas suas vivências e lhe dedicou o livro Alla rivoluzione sulla due cavalli[30], posteriormente adaptado ao cinema por Maurizio Sciarra e vencedor do Leopardo de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Locarno, em 2001.
Morreu aos sessenta e oito anos de septicémia, em Lisboa, e foi sepultado no dia 25 de abril de 2019, no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres.
Filmografia
Realizou: [31]
- 1972 — Glauber Rocha (média-metragem em colaboração com Manuel Madeira)
- 1974 — Lisboa Livre (em colaboração com Glauber Rocha, inacabado)
- 1976 — Diário de uma Contaminada (curta-metragem com Lídia Franco) [1]
- 1979 — Experiências (curta-metragem) [2]
- 1980 — Monólogos Femininos (curta-metragem
- 1981 — Abecedário (curta-metragem) [1]
- 1981 — Inglês Sem Mestre (curta-metragem)
- 1982 — Amores de Salazar (curta-metragem com Io Appoloni) [1]
- 1982 — À Volta de Washington Square (curta-metragem)
- 1982 — O Analfabeto (curta-metragem)
- 1984 — O Paraíso Terrestre - Karl Marx (curta-metragem)
- 1984 — Yoknapatawpha (curta-metragem)
- 1985 — Inquérito (curta-metragem)
Diaporama
- 1987 — Aspectos da Galiza do Pintor Dominguez Alvarez
Videografia
- 1989 — Fusão Campestre
- 1994 — Viagem ao triângulo de Tore
- 1996 — Dia do Centenário da Oceanografia Portuguesa
- 1997 — A UNESCO e a Expo 98 no Ano Internacional dos Oceanos
- 1997 — O 11 de Abril: Entrega de um Navio Oceanográfico
- 1998 — Lembrança de Provas Hípicas nas Olimpíadas
- s/data — Uma certa Colecção: A Exposição José-Augusto França
Bibliografia
Escreveu o livro As Mutações do Cinema / No Tempo do Vídeo publicado pela editora Livros Horizonte em 1989. [32][23]
Prémios
- Prémio CICAE, 1982
- Ficts Fest, Prémio do Público, 1998
Referências
- ↑ a b c d e f Portugal, Rádio e Televisão de. «Morreu o cineasta Manuel Carvalheiro, o realizador de "Amores da Salazar"». Morreu o cineasta Manuel Carvalheiro, o realizador de "Amores da Salazar". Consultado em 2 de novembro de 2020
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- ↑ «AO NORTE . BIBLIOTECA». www.ao-norte.com. Consultado em 2 de novembro de 2020
Ligações externas
- http://www.cinept.ubi.pt/pt/pessoa/2143690641/Manuel+Carvalheiro
- https://www.imdb.com/name/nm4131661/?ref_=fn_al_nm_1
- https://www.publico.pt/2019/04/23/culturaipsilon/noticia/morreu-manuel-carvalheiro-realizador-amores-salazar-1870279
- https://www.dn.pt/lusa/um-cravo-vermelho-para-o-funeral-do-cineasta-manuel-carvalheiro-no-dia-25-de-abril-10829700.html
- https://www.noticiasaominuto.com/pais/1240936/cravo-vermelho-para-o-funeral-do-cineasta-manuel-carvalheiro
- https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/morreu-o-cineasta-manuel-carvalheiro-o-realizador-de-amores-da-salazar?
- http://cicae.org
- Berlinale
- http://cvc.instituto-camoes.pt/cinema/cronologia/cro052.html
- https://alumni-ehess.fr/addressbook/fullsearch/index
- https://www.imdb.com/title/tt0274323/plotsummary