Mansfield Park

 Nota: Este artigo é sobre o romance de Jane Austen. Para o filme com Embeth Davidtz, veja Mansfield Park (filme).
Mansfield Park
Mansfield Park
Mansfield Park [BR]
Página de título da 1ª edição
Autor(es)Jane Austen
Idiomainglês
País Reino Unido
GêneroRomance
Linha temporalFIm do século XVIII
Localização espacialInglaterra
EditoraThomas Egerton
LançamentoJulho de 1814
Cronologia

Mansfield Park é um romance da escritora britânica Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1814.

Conta a história de Fanny Price, uma jovem de uma família de poucas posses criada desde os 10 anos de idade por seus tios ricos em Mansfield Park[1][2].

Personagens

  • Fanny Price - vinda de uma família pobre, vai morar com seus tios e primos com 10 anos de idade, em Mansfield Park, como uma forma de caridade feita pelos tios. Sempre muito solitária e modesta, costuma ser tratada mal e colocada em seu "lugar".
  • Edmund Bertram - bondoso e o que possui melhor coração entre os irmãos, é o filho homem mais novo.
  • Maria Bertram - muito vaidosa e pretensiosa, é a filha mulher mais velha.
  • Julia Bertram - muito vaidosa, mas por ser menos bonita que a irmã, é um pouco mais simpática. Segue sua irmã por todos os lados.
  • Tom Bertram - filho mais velho e futuro herdeiro de Mansfield Park, abusa das festas e bebidas e vive com dívidas.
  • Mrs Norris - viúva e responsável pela ida da Fanny a Mansfield Park, não possui apreço pela mesma.
  • Sir Thomas Bertram - possui uma alta renda e é proprietário de Mansfield Park, uma bela propriedade. Tem boas intenções, porém é um pai autoritário e não muito próximo.
  • Lady Bertram - casada com Sir Thomas, costuma ser preguiçosa e um pouco neurótica com a saúde.
  • Mary Crawford - possui uma grande fortuna e está à procura de um marido[3]. Bela e charmosa, mas muito egoísta.
  • Henry Crawford - irmão de Mary, é igualmente charmoso, porém mais maldoso que a irmã.
  • William Price - irmão de Fanny, trabalha na marinha e trata a irmã com imenso carinho, compartilhado pela mesma.
  • Mr. Rushworth - noivo de Maria, costuma fazer comentários bobos.

Imperialismo em Mansfield Park

Desde a publicação por Edward W. Said do ensaio “Jane Austen e o Império”, em 1993, no livro Cultura e Imperialismo, o romance Mansfield Park, de Jane Austen, tem sido objeto de análises críticas que investigam suas referências ao imperialismo britânico.

Edward Said e a representação do imperialismo no romance

No ensaio “Jane Austen e o Império”, Said propõe uma releitura de obras “clássicas” da literatura ocidental, incluindo Mansfield Park, para demonstrar como esses romances contribuíram para a naturalização do pensamento colonial europeu. Segundo ele, o Império Britânico, no contexto do século XIX, é retratado de modo periférico, como parte do cenário, mas sem nome, agência ou aprofundamento narrativo.[4]

Said argumenta que o sistema colonial requeria uma base ideológica que legitimasse a dominação europeia, muitas vezes construída por meio da cultura e da moralidade. Assim, os romances, ainda que não sejam a causa direta do imperialismo, colaboram para sua aceitação como algo natural.[5]

Para Said, Austen escreve para um público europeu, ignorando os efeitos da colonização sobre os sujeitos colonizados. No entanto, a breve menção a Antígua, colônia onde estão localizadas as plantations que sustentam a fortuna da família Bertram, é suficiente para revelar a conexão entre o conforto doméstico inglês e o sistema escravista colonial.[6]

A viagem do Sr. Thomas Bertram a Antígua, para resolver problemas relacionados à propriedade, coincide com o auge do descontrole moral entre os jovens de Mansfield Park. Para Said, a figura do patriarca colonial é apresentada como essencial à manutenção da ordem doméstica e imperial, funcionando como uma metáfora da autoridade do Império Britânico.[7]

Diferentes interpretações

A leitura de Said, embora pioneira nos estudos pós-coloniais, foi debatida por diversos autores. Faith Baron, em sua tese de 2006, argumenta que Said desconsidera a posição social de Austen como mulher solteira e escritora em um contexto patriarcal. Para Baron, Austen utiliza a propriedade rural como uma metáfora das dinâmicas de dominação colonial e patriarcal e, assim, realiza uma crítica indireta tanto ao império britânico quanto à opressão de gênero.[8]

A personagem Fanny Price, frequentemente criticada por sua aparente passividade, é interpretada por estudiosos como reflexo de uma lógica econômica colonial: seu “valor” é atribuído à docilidade e à conformidade com as normas patriarcais. Seu “final feliz” depende da aceitação da autoridade do Sr. Bertram e da estabilidade da ordem social representada pela propriedade.[9]

Segundo Baron, a harmonia final do romance não decorre de um progresso moral genuíno dos personagens, mas da substituição de figuras rebeldes por outras mais submissas — uma alegoria da manutenção da ordem social e colonial.[8]

Referências ao imperialismo

A pesquisadora Corinne Fowler revisita a leitura de Said mais de vinte anos depois, reconhecendo sua importância para os estudos do imperialismo cultural, mas atualizando a análise com novas fontes e pesquisas históricas.[10]

Fowler destaca o papel das propriedades rurais próximas a centros portuários como espaços de consolidação da riqueza colonial. A família Bertram representa essa aristocracia agrária enriquecida com o tráfico atlântico de escravizados. A crítica se intensifica com a análise dos nomes dos personagens: “Mansfield” remete a Lord Mansfield, juiz responsável por uma decisão de 1772 que proibiu a escravidão em solo britânico; já “Norris” remete a John Norris, capitão envolvido no comércio transatlântico de escravos.[10]

Em oposição a Said, Fowler argumenta que Austen parodia a aristocracia escravista. A personagem Lady Bertram, por exemplo, é ridicularizada por sua ignorância em relação a Antígua, pedindo ao marido que lhe traga um xale, sem compreender o local nem o motivo da viagem. Assim, Mansfield Park não apenas reflete, mas também critica os valores do império britânico e da aristocracia inglesa, revelando as conexões entre riqueza, moralidade e subjugação — tanto de povos colonizados quanto de mulheres.[10]

Referências

  1. YUKAWA, Marina. A trajetória da heroína invisível de Mansfield Park. Jorwiki - Escola de Comunicações e Artes da USP
  2. Mansfield Park: um olhar feminino sobre a cegueira moral Arquivado em 4 de março de 2016, no Wayback Machine.. Opção Cultural. Edição 1959, de 20 a 26 de janeiro de 2013
  3. http://www.bl.uk/romantics-and-victorians/articles/courtship-love-and-marriage-in-jane-austens-novels
  4. Said, Edward (2011). Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras. p. 114 
  5. Said, Edward (2011). Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras. p. 139 
  6. Said, Edward (2011). Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras. p. 134 
  7. Said, Edward (2011). Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras. p. 141 
  8. a b Baron, Faith (2006). Heaven defend me from being ungrateful! Gender and colonialism in Jane Austen's Mansfield Park (Tese). Consultado em 25 de junho de 2025 
  9. Baron, Faith (2006). Heaven defend me from being ungrateful! Gender and colonialism in Jane Austen's Mansfield Park (Tese). p. 8. Consultado em 25 de junho de 2025 
  10. a b c Fowler, Corinne (2017). «Revisiting Mansfield Park: The Critical and Literary Legacies of Edward W. Said's Essay "Jane Austen and Empire" in Culture and Imperialism (1993)». Cambridge Journal of Postcolonial Literary Inquiry. 4 (3): 362–381. doi:10.1017/pli.2017.26. Consultado em 4 de julho de 2025 

Ligações externas