Manoel Apolônio de Carvalho

Manoel Apolônio de Carvalho
Pseudônimo(s)Nel Carvalho
Nascimento
Nacionalidadebrasileiro
OcupaçãoInventor, agricultor familiar e pedreiro

Manoel Apolônio de Carvalho (Jeremoabo, c. de década de 1930), popularmente conhecido como Nel Carvalho, é um inventor, agricultor familiar e pedreiro brasileiro.

Tendo passado a boa parte de sua vida no anonimato na construção civil como trabalhador nordestino migrante em São Paulo e como agricultor familiar no interior do Nordeste, ele ganhou notoriedade com ao inventar a cisterna de placas como uma tecnologia social para guardar a água da chuva e, assim, enfrentar a seca.[1][2]

Biografia

Nascido na década de 1930 em Jeremoabo, no interior da Bahia, Manoel Apolônio era um agricultor familiar que, aos 17 anos, ainda adolescente, migrou para a cidade de São Paulo com o objetivo de fugir da seca que atingia o sertão baiano naquele período. Em razão de ser retirante e analfabeto na época, ele somente conseguiu emprego como ajudante de obras em construções civis paulistanas onde aprendeu a fabricar placas pré-moldadas de cimento.[1]

Após ficar desempregado em São Paulo, Manoel Apolônio retornou à sua terra natal, em Jeremoabo, ainda na década de 1950, e em 1955 começou a construir cisternas, cobrando o que ele chamava de “dois merréis” por cada uma. Como pedreiro construtor de cisternas na zona rural de Jeremoabo e em locais vizinhos, como Sítio do Quinto, ele conseguiu sustentar a si e sua família.[1][3]

Com a mudança de Manoel Apolônio, na época já conhecido como "Nel", para a cidade sergipana de Simão Dias em 1965, Nel continuou a construir as cisternas em um momento em que essas cisternas já vinham se espalhando anonimamente por pedreiros e agricultores que reproduziam essa tecnologia social compartilhada de modo oral entre as comunidades sertanejas da Bahia por meio de empreitadas individuais ou mutirões coletivos, esse saber popular se dissemina ainda mais por toda a região Nordeste.[1][3]

E Nel Carvalho permaneceu relativamente anônimo até o ano de 2004, quando foi objeto de uma reportagem do caderno Razão Social que integrava o jornal carioca O Globo, o qual o notabilizou no cenário nacional como o inventor de uma tecnologia popular de largo uso por comunidades sertanejas para adaptação às condições climáticas causadas pela estiagem no interior do Nordeste.[1][3]

Em 2005, Nel Carvalho recebeu uma homenagem do Governo Federal, ao receber do ministro Patrus Ananias, então titular do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o certificado de parceiro do programa federal “Fome Zero”, estando inscrito sob o número 0059, durante uma solenidade oficial.[3]

Em 2014, ele foi homenageado no IV EconAsa (Encontro Nacional da Articulação no Semi-árido) realizado em Campina Grande, no Estado da Paraíba pelo benefício que proporcionou à população do Brasil com a sua inovação.[3]

Cisterna de placas

A tecnologia social conhecida como cisterna de placas consiste em um artefato de armazenamento de água pluvial que aproveita uma técnica milenar já existente e utilizada por diversos povos que é chamada na língua portuguesa de cisterna. A inovação de Nel Carvalho se deve da invenção de um outro tipo de cisterna que permite guardar a água da chuva com mais eficiência na retenção do líquido. E para isso o pedreiro teve a ideia de utilizar placas pré-moldadas de cimento que normalmente eram empregadas em outros tipos de construção civil, mas que era ignorado o seu uso para esse tipo de necessidade.[2][4][5]

Legado

Em razão da inovação do pedreiro Manoel "Nel" Apolônio de Carvalho, representada por essa cisterna de placas pré-moldadas de cimento para guardar água da chuva, a sociedade civil passou a replicar esse modelo, especialmente, por meio da ong Articulação do Semiárido (ASA).[1]

A partir da década de 2000, o Governo Federal e os Governos Estaduais passaram a desenvolver ações governamentais de construção de cisternas utilizando a técnica concebida por Nel Carvalho no contexto de suas políticas públicas de acesso à água e enfrentamento das secas para as populações sertanejas do interior do Nordeste, a exemplo do Programa Cisternas, criado em 2003 e executado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.[2][4][5]

Esse programa governamental já implementou esse tecnologia para mais de 1,2 milhão de famílias brasileiras, entre o 1,7 milhão que habita os 1.262 municípios da região nordeste.[6]

Hoje diversos estudos tratam dessa inovação como um modelo de tecnologia social de sucesso e adaptação às condições climáticas adversas causadas pela seca e que tendem a ser mais do que necessárias diante do cenário de mudanças climáticas na região.[4][5]

Referências

  1. a b c d e f «A história de Nel, sertanejo que criou as cisternas que mudaram a cena do Sertão». Ser Sustentável. 21 de agosto de 2020. Consultado em 26 de janeiro de 2026 
  2. a b c «Pedreiro cria cisterna para guardar água da chuva no Nordeste». Globo Repórter. 16 de junho de 2017. Consultado em 26 de janeiro de 2026 
  3. a b c d e «Invenção de Nel é destaque nacional». Jornal Simãodiense. 1 de janeiro de 2014. Consultado em 26 de janeiro de 2026 
  4. a b c Costa, Cícera Vieira da; Aquino, Marisete Dantas (2013). «CISTERNAS DE PLACAS: UMA TECNOLOGIA SUSTENTAVEL PARA O SEMIÁRIDO» (PDF). XX Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos. Consultado em 26 de janeiro de 2026 
  5. a b c Muchagata, Márcia; Sahb, Camile Marques; Santana, Vitor Leal (2024). Água para colher futuro: 20 anos do Programa Cisternas (PDF). Brasília: MDS 
  6. «Cisterna é a tecnologia mais eficaz contra seca, diz especialista». Folha de São Paulo. 18 de maio de 2018. Consultado em 26 de janeiro de 2026