Machismo no samba

O machismo no samba é uma característica do referido gênero musical que teria suas raízes no machismo estrutural presente na sociedade brasileira.[1] Apesar mulheres como Tia Ciata terem um papel na difusão do samba no Rio de Janeiro, a história do samba foi narrada majoritariamente por homens, minimizando a participação feminina e relegando as mulheres a posições secundárias, como pastoras ou baianas, enquanto os homens assumiam o papel de compositores, intérpretes e protagonistas.[1] Para a sambista Teresa Cristina, por exemplo, o samba refletiria sim o machismo da sociedade brasileira, mas de uma maneira menos hipócrita: "o machismo que existe no samba não é velado como o racismo no Brasil, por exemplo".[2] Já para a deputada petista Moema Gramacho, existiria uma preponderância de machismo em gêneros mais populares, como o funk e o pagode.[3] No ano de 2018, a prefeitura do município brasileiro de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, organizou uma exposição intitulada “Música: Uma Construção de Gênero”, na qual canções tradicionais foram abordadas de nomes de sambistas como Bezerra da Silva e Jorge Veiga, bem como outros nomes populares como Grupo Tradição e Sidney Magal.[4]
Machismo nas letras de samba
As letras do samba frequentemente reproduzem estereótipos negativos sobre as mulheres, reforçando uma visão patriarcal.[1] Músicas escritas por nomes consgrados do samba, como Noel Rosa, Moreira da Silva, entre outros, apresentam mulheres como figuras traiçoeiras, interesseiras ou submissas.[1] Um exemplo é a canção "Ai, que Saudades da Amélia", de Mário Lago e Ataulfo Alves, que idealiza a mulher submissa e resignada, incapaz de fazer exigências ao parceiro,[1] muito embora a roqueira Pitty tenha escrito em 2009 uma canção em resposta crítica à "Amélia".[5] Outros sambas abordam de forma naturalizada a violência simbólica e física contra as mulheres, tratando ciúmes e agressões como aspectos normais da vida conjugal.[1] Exemplos incluem ainda composições de Noel Rosa como "Mulher Indigesta", que a certa altura da letra afirmar que mulher "merece um tijolo na testa".[3] Martinho da Vila, por sua vez, tem uma composição cujo título é "Você Não Passa de Uma Mulher", música gravada em 1975 e que chegaou a entrar na trilha sonora da novela Pecado Capital.[6] Ao ser indagado sobre o machismo dessa sua composição, Martinho disse que "talvez fizesse uma revisãozinha”.[6]
| “ | Eu já fiz tudo pra lhe agradar/ Ela está sempre zangada/ Sempre de cara amarrada/ Será que ela quer pancada?/É só o que lhe falta dar/ Ela quer apanhar![3] | ” |
— Dorival Caymmi, em parceria com Antônio Almeida, em letra da canção "O que É que Eu Dou?, de 1947 | ||
Machismo nas escolas de samba
A dificuldade de inserção feminina no samba se refletiu não apenas nas letras, mas também na estrutura das escolas de samba.[1] As mulheres eram frequentemente excluídas dos processos decisórios, e suas contribuições, como composições ou enredos, eram desconsideradas.[1] Mesmo compositoras como Dona Ivone Lara tiveram que enfrentar barreiras significativas para ter suas músicas aceitas em um ambiente dominado por homens.[1] As escolas de samba, apesar de sua origem popular, refletiam o patriarcado ao limitar as funções femininas a papeis de apoio, como costureiras, passistas ou porta-bandeiras.[1]
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j «História feminina do samba reflete o machismo na sociedade brasileira». O Globo. 13 de abril de 2019. Consultado em 2 de março de 2025
- ↑ Pires, Breiller (25 de abril de 2017). «Teresa Cristina: "O samba reflete o machismo, mas de um modo menos hipócrita"». El País Brasil. Consultado em 2 de março de 2025
- ↑ a b c «Há 80 anos, mulher já levava tijolo na testa na música brasileira - 03/06/2016 - Ilustrada». Folha de S.Paulo. 2 de março de 2025. Consultado em 2 de março de 2025
- ↑ «Desnudando o machismo em letras de músicas brasileiras». Pragmatismo Político. 13 de março de 2018. Consultado em 2 de março de 2025
- ↑ «De Vaca Profana à Desconstruindo Amélia: a mulher na música». Vermelho. Consultado em 2 de março de 2025
- ↑ a b «Martinho da Vila, sobre seu samba machista: "Talvez fizesse revisãozinha" | O Som e a Fúria». VEJA. Consultado em 2 de março de 2025