Música popular gaúcha
Música Popular Gaúcha, ou MPG, é um termo utilizado para identificar artistas do estado brasileiro do Rio Grande do Sul cunhada durante a década de 1980. Reunindo artistas de vários estilos, como rock, pop, MPB e música regional, nunca chegou a se constituir um movimento, e com o fortalecimento do rock no Brasil e no sul passou a ser mais relacionada aos personagens estaduais que faziam MPB.[1] Entre os expoentes destacam-se Nelson Coelho de Castro, o grupo Musical Saracura e Nei Lisboa.[2]
Histórico
No final dos anos 1970 a música nativista havia se expandido para o Brasil com os Centros de Tradição Gaúcha e os Almôndegas era um nome consagrado no centro do país.[3] Na época os músicos do estado enfrentavam a dificuldade de que não contavam com uma gravadora de discos local, de forma que os artistas tinham que se deslocar até o eixo Rio - São Paulo para poderem fazer os seus registros. Em 1978 o Estúdio ISAEC de Porto Alegre adquire uma mesa de gravação de 16 canais com o objetivo de lançar um selo (a gravadora ISAEC) e, no mesmo ano, lança a coletânea Paralelo 30, considerado um marco na música urbana do Rio Grande do Sul. O álbum, produzido pelo jornalista e crítico musical Juarez Fonseca, reuniu seis compositores/intérpretes: Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz, Nando D’Ávila e Nelson Coelho de Castro, cada um com duas canções registradas.[4][5]
Esse álbum foi o início de uma experiência no desenvolvimento de uma indústria fonográfica na capital do Rio Grande do Sul, voltada, no primeiro momento, para o registro sonoro da música urbana. Os músicos foram contratados para gravarem seus discos, contudo a gravadora ISAEC fecha em 1980, permanecendo o estúdio. Como indenização o compositor Nelson Coelho de Castro recebe 40 horas de gravação, que ele utiliza para gravar o disco Juntos, lançado em setembro de 1981 e que é conhecido como o primeiro disco independente do Rio Grande do Sul. Esse álbum abriu o caminho para a produção de discos independentes no estado, onde se destaca o fato de fazer uso de um recurso inovador para a época, a pré-venda. Esse recurso depois seria utilizado por outros artistas para produzirem seus LP's, como Nei Lisboa, Léo Ferlauto, Gelson Oliveira, entre outros.[4]
Em setembro de 1982 o produtor Ayrton "Patineti" dos Anjos criou o Festival Música Popular Gaúcha no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. O show foi uma resposta a uma provocação de um produtor carioca ao ver um show nativista, perguntando o que mais havia em Porto Alegre. Respondeu Patineti que havia a MPG, se referindo aos músicos da cidade. Durante cinco noites de shows se apresentaram Carlinhos Hartlieb, Jerônimo Jardim, Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Geraldo Flach, Raul Ellwanger, Mauro Kwitko, Pery Souza, Galileu Arruda e Berenice Azambuja, e o festival foi responsável por apresentar a MPG para o Brasil e por abrir portas no centro do país para muitos desses artistas. O festival ainda seria realizado em Porto Alegre, Santa Maria e Tramandaí. Em 1985 o espetáculo também virou disco.[1][6][7]
Em 10 de julho de 2012 foi feito um show especial comemorativo dos 30 anos do festival, com homenagem à memória dos três músicos que já haviam falecido (Carlinhos Hartlieb, Geraldo Flach e Galileu Arruda). Participaram do evento companheiros da época como Hermes Aquino, Zé Caradípia, Nando Gross e Gelson Oliveira, e artistas da nova geração da MPG como Marcelo Delacroix, Adriana Deffenti, o grupo Cidade Baixa, Marcelo Fruet e Chico Saratt. Repetindo o festival também foram feitos shows em Santa Maria, Tramandaí e no Rio de Janeiro.[1][6]
Mulheres na Música Gaúcha
Mulheres na música gaúcha constituem uma parte fundamental da história cultural do Rio Grande do Sul, embora por muitos anos tenham recebido menor visibilidade em comparação a seus pares masculinos. A presença feminina abrange gêneros como música nativista, folclórica, regionalista, trovadoresca e também vertentes contemporâneas que dialogam com a tradição gaúcha.
História
A participação feminina na música gaúcha remonta às práticas folclóricas do século XIX, especialmente nas cantigas tradicionais, rezas e danças de salão. Entretanto, apenas no século XX surgiram registros formais de mulheres em palcos e gravações ligadas ao regionalismo sul-rio-grandense.
Durante a consolidação dos festivais nativistas, a partir da década de 1970, compositoras e intérpretes começaram a ganhar espaço, ainda que de forma gradual, enfrentando barreiras de gênero em um ambiente majoritariamente masculino. Nas décadas seguintes, o número de artistas cresceu, diversificando estilos e ampliando a representatividade feminina na cena.
Contribuições Artísticas
As mulheres atuam como:
- Intérpretes, sendo vozes de destaque em grupos vocais, solistas e apresentações festivalizadas.
- Compositoras, contribuindo com letras, melodias e arranjos premiados em diversos festivais.
- Instrumentistas, ocupando posições de violonistas, acordeonistas, percussionistas e outras funções historicamente dominadas por homens.
- Pesquisadoras e guardiãs do folclore, responsáveis por resgates históricos, registros de tradições e trabalhos acadêmicos.
A presença feminina também ajudou a ampliar temas abordados pelo regionalismo, incluindo perspectivas sociais, afetivas e históricas sob olhares diversos.
Artistas Representativas
Entre as artistas frequentemente associadas à música gaúcha, destacam-se:
- Bethânia, intérprete influente em festivais nativistas.
- Shana Müller, cantora, jornalista e apresentadora, conhecida pela difusão da cultura regional.
- Mary Terezinha, acordeonista pioneira em um dos instrumentos mais simbólicos da música gaúcha.
- Ivone Pacheco, compositora e letrista premiada em festivais.
- Luiza Barbosa, jovem cantora vinculada ao repertório tradicionalista.
- Valéria Lima, intérprete destacada no regionalismo contemporâneo.
Festivais e Participação Feminina
Embora os festivais nativistas historicamente apresentem baixa participação feminina, a presença de mulheres tem se ampliado. Alguns eventos passaram a adotar iniciativas como:
- Criação de prêmios específicos para compositoras ou intérpretes.
- Programações temáticas destacando a produção feminina.
- Debates sobre representatividade e paridade na cultura regional.
Desafios e Representatividade
As mulheres na música gaúcha ainda enfrentam desafios, como:
- Estereótipos de gênero.
- Falta de reconhecimento autoral.
- Barreiras de entrada em festivais.
- Invisibilização histórica em registros e pesquisas.
Nos últimos anos, debates sobre equidade têm fortalecido coletivos e iniciativas que buscam ampliar o protagonismo feminino na música regional.
Legado e Impacto Cultural
O protagonismo feminino trouxe novas perspectivas ao regionalismo gaúcho, contribuindo para:
- Expansão estética e temática do gênero.
- Modernização dos arranjos tradicionais.
- Formação de novas gerações de artistas.
- Internacionalização da música gaúcha por meio de intérpretes de destaque.
Ver também
- Música gaúcha
- Música nativista
- Mulheres na música brasileira
- Festivais nativistas do Rio Grande do Sul
Referências
- ↑ a b c «Memória gaúcha no palco». Caderno Panorama - Jornal do Comércio. 10 de julho de 2012
- ↑ Dapieve, Arthur (1 de janeiro de 1995). Brock. [S.l.]: Editora 34. ISBN 9788573260083
- ↑ Müller, S. (2022). "A Voz da Mulher no Campo Cultural Gaúcho". Revista Cultura Sulina.
- ↑ a b «Juntos, o primeiro disco gaúcho independente» (PDF)
- ↑ KESKE, Humberto Ivan Grazzi; Lidiani Cristina (31 de agosto de 2012). «Na trilha sonora dos pampas: a batida pesada do rock n' roll a la gaúcho». POLÊM!CA. 11 (3): 503 a 523. ISSN 1676-0727. doi:10.12957/polemica.2012.3742
- ↑ a b «30 anos de MPG». Jornal Metro. 10 de julho de 2012
- ↑ «Show comemora os 30 anos do festival Música Popular Gaúcha». Jornal O Sul. 10 de julho de 2012
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Referências
Ver também
Bibliografia
- RATNER, Rogério (2015-05-27). Música Do Rio Grande Do Sul, Ontem E Hoje Clube de Autores [S.l.]