Mónica Fernandes
Mónica Fernandes foi uma mulher acã, nascida na Costa do Ouro Portuguesa (atual Gana), que viveu no século XVI e foi alvo de um processo do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa depois de ser acusada de bruxaria.
Biografia
A mulher que viria a ser conhecida como "Mónica Fernandes" era uma ex-escrava filha de pais acãs, que foi batizada por um padre na cidade fortificada de São Jorge da Mina, adquirindo o apelido Fernandes em homenagem ao seu antigo proprietário.[1]

Um dia, Mónica Fernandes foi acusada de lançar um feitiço sobre outra mulher africana chamada Ana Fernandes, que era de Lisboa e discutiu com Mónica enquanto estava de visita a Mina. Durante a discussão, Mónica gritou que iria garantir que Ana nunca mais voltaria a ser mulher e, várias semanas depois, ao regressar ao continente, Ana sucumbiu de uma doença misteriosa que fez com que a pele do seu rosto se descascasse. O evento foi relatado por várias mulheres, mas apenas uma teria sido testemunha direta, havendo depois espalhado o boato na fortaleza. O caso não foi investigado imediatamente, mas, em 1552, o capitão Rui de Melo ordenou um inquérito que recolheu depoimentos de cinco mulheres, as quais afirmaram que Mónica lançava feitiços usando galinhas, inhames, água e sopros, contra tanto mulheres negras como portuguesas.[1]
Já em 1556, quinze ou vinte anos depois do seu batismo, Mónica Fernandes foi levada até Lisboa, onde foi aprisionada para que as autoridades da Inquisição de Lisboa, especialmente o inquisidor Jerónimo de Azambuja, pudessem investigar as acusações referentes à sua fama de feiticeira.[1][2] A acusação inicial envolvia a maldição lançada sobre Ana Fernandes. Porém Mónica era também acusada de se ter encontrado com um curandeiro acã (em vez de ir ao farmacêutico português) para obter uma pomada para uma mordida de gato,[1] e ainda de recolher as roupas de Estevão Soares, seu antigo proprietário, e, com algumas orações, torná-las capaz de o influenciar a fazer todas as suas vontades.[2]
Mónica foi interrogada durante meses, negando sempre ter feito algo contrário aos seus ideais ou da Igreja Católica. No entanto, acabou por ser considerada culpada de bruxaria, tendo sido condenada à prisão no Colégio da Doutrina da Fé para estudar «questões de fé», confessar-se regularmente e mostrar sinais de bom comportamento cristão. Eventualmente, foi novamente levada perante os inquisidores e informada de que seria libertada com a condição de continuar a frequentar o Colégio da Doutrina da Fé aos domingos e dias santos. Também foi proibida de regressar à sua terra natal e só lhe era permitido falar com «mulheres virtuosas e boas cristãs».[1]
Referências
- ↑ a b c d e O’Leary, Jessica (23 de julho de 2025). «Don't call it magic: Indigenous knowledges in sixteenth-century Portuguese Inquisition trials of women in Brazil and West Africa». Women's History Review (em inglês). ISSN 0961-2025. doi:10.1080/09612025.2025.2535052
- ↑ a b Reis, Marcus Vinicius (4 de dezembro de 2018). «Circulação de crenças e saberes mágico-religiosos no mundo luso-africano do século XVI: os processos inquisitoriais de Catarina de Faria e Mônica Fernandes». Revista Trilhas da História. 8 (15). ISSN 2238-1651. Consultado em 5 de setembro de 2025