Lorenzino de' Medici

Lorenzino de' Medici
Lorenzino em uma medalha florentina contemporânea
Nascimento
Morte
26 de fevereiro de 1548 (33 anos)

ProgenitoresMãe: Maria Soderini
Pai: Pierfrancesco di Lorenzo de' Medici [en]

Lorenzino de' Medici (22 de março de 1514 – 26 de fevereiro de 1548),[1] também conhecido como Lorenzaccio, foi um político, escritor e dramaturgo italiano, membro da família Médici. Tornou-se famoso por assassinar o primo, Alexandre de Médici, em 1537. Por sua vez, foi assassinado em 1548 como retaliação pelo ato.[2]

Biografia

Infância e juventude

Filho de Pierfrancesco di Lorenzo de' Medici [en] e Maria Soderini, Lorenzino perdeu o pai aos onze anos (1525). Foi então criado pela mãe na Villa Medicea del Trebbio, junto com o irmão mais novo Giuliano e as duas irmãs Laudomia e Maddalena. Em 1526, a mãe decidiu mudar-se para Veneza com Giuliano e o futuro Cosme I de Médici, Grão-Duque da Toscana, para fugir da chegada dos lansquenetes. A partida foi oportuna, pois, apenas um ano depois, o Saque de Roma enfraqueceu enormemente o papa Clemente VII (anteriormente Giulio di Giuliano de' Medici) e, como consequência, os Medici foram expulsos de Florença.[3]

Em 1530, Lorenzino mudou-se para Roma, onde, em 1534, mutilou as cabeças de algumas estátuas antigas do Arco de Constantino. Apenas a intercessão do primo cardeal Hipólito de Médici salvou Lorenzino da ira do papa, que prometera condenar o vândalo à morte. Ainda assim, após esse ato praticamente inexplicável, Lorenzino foi expulso de Roma de forma desonrosa.[4]

Duque Alexandre de Médici.

Relação com Alexandre de Médici

Após deixar Roma, Lorenzino retornou a Florença, onde logo estabeleceu uma relação próxima com o primo Alexandre de Médici, que se tornara senhor de Florença em 1530 e duque em 1532. Os dois participavam juntos de escapadas turbulentas, mas a autenticidade da amizade é duvidosa e a relação tinha mais de um lado sombrio.[5][1] Em 1536, o duque posicionou-se contra Lorenzino em uma controvérsia legal sobre a herança de Pierfrancesco, o Velho, bisavô de Lorenzino, causando prejuízo financeiro substancial a este. No mesmo ano, Alexandre casou-se com Margarida de Parma, filha natural do imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico.

Assassinato de Alexandre

O assassinato do duque Alexandre.

Na noite de 6 de janeiro de 1537, Lorenzino atraiu Alexandre para seus aposentos com a promessa de uma noite de paixão e deixou-o sozinho, fingindo ir buscar uma mulher que já concordara em encontrá-lo. Segundo a maioria dos historiadores, a mulher era Caterina Soderini, esposa de Leonardo Ginori, mas outros acreditam que era Laudomia, irmã de Lorenzino. Enquanto isso, Alexandre adormeceu e, tendo dispensado previamente seus homens, estava completamente indefeso quando Lorenzino retornou com o servo Piero di Giovannabate, também conhecido como Scoronconcolo. Os dois atacaram o duque com espadas e adagas, e Alexandre foi morto, apesar de reagir ferozmente e lutar com todas as forças.[6]

Foram propostas muitas hipóteses para explicar os motivos do assassinato, desde ressentimento pessoal por ciúmes ou razões patrimoniais, até o desejo de Lorenzino de realizar um gesto sensacional para imortalizar sua glória.[1]

O próprio Lorenzino, no entanto, afirmou em sua famosa obra Apologia – escrita poucos dias após o crime – que agira por razões políticas; matara o duque para libertar Florença do homem que muitos consideravam um tirano.[5] Os exilados republicanos florentinos geralmente davam a mesma explicação; viam Lorenzino como herói, pois assim poderia ter possibilitado a restauração da república.[1] Figuras proeminentes entre os exilados republicanos, como Benedetto Varchi, comparavam até a causa e as ações de Lorenzino às de Marco Júnio Bruto, o Jovem, o assassino de Júlio César que defendia o mesmo ideal republicano.[7]

Exílio

Após o assassinato, Lorenzino pegou os cavalos que preparara previamente e deixou Florença com Piero e outro servo. Chegou primeiro a Bolonha, onde o jurista Silvestro Aldobrandini, outro exilado republicano, não acreditou nele. Lorenzino prosseguiu a viagem até Veneza, onde foi recebido de braços abertos pelo banqueiro Filippo Strozzi, líder dos exilados, que prometeu casar seus filhos Piero [en] e Roberto com as irmãs de Lorenzino, Laudomia e Maddalena de' Medici. Entre os muitos outros exilados que se regozijaram com a morte do duque estavam Iacopo Nardi e Benedetto Varchi: este último disse que Lorenzino era maior que Marco Júnio Bruto, o Jovem. Também o poeta Luigi Alamanni elogiou Lorenzino da França, enquanto o escultor Jacopo Sansovino prometeu dedicar-lhe uma estátua.[8]

Com a morte de Alexandre, o ramo principal da família Médici extinguiu-se. A falta de um descendente linear adequado criou condições para a ascensão ao poder do jovem de dezessete anos Cosme, membro do ramo cadete da família, escolhido como novo duque com a aprovação do imperador Carlos V.

Filippo Strozzi.

Após alguns dias em Veneza, Lorenzino decidiu ir para Mirandola, onde foi hospedado pelo conde Galeotto Pico e permaneceu por cerca de duas semanas. Retornou então a Veneza e, em 16 de fevereiro de 1537, partiu para Constantinopla, com o embaixador otomano em Veneza e Giorgio Gritti, filho do doge Andrea Gritti. A escolha de deixar a Itália deveu-se em parte ao risco de ser morto e em parte a uma missão diplomática junto ao sultão otomano Solimão, o Magnífico em nome do rei da França.[9] Poucos meses depois, a Batalha de Montemurlo [en], vencida pelo exército de Cosme, acabou com as esperanças dos exilados. O patrono de Lorenzino, Strozzi, foi feito prisioneiro. Morreu em 1538 (suicídio, segundo a versão oficial) após ser torturado na tentativa de estabelecer uma improvável ligação entre ele e o assassinato do duque.[10]

Em setembro de 1537, Lorenzino foi para a França, à corte de Francisco I da França, onde contava com o apoio político do rei e a hospitalidade de muitos florentinos, especialmente o tio materno, o bispo de Saintes Giuliano Soderini, e o tesoureiro real Giuliano Bonaccorsi. Ao contrário do que se acreditava anteriormente, nesse período Lorenzino viajava frequentemente à Itália e realizava importantes missões político-diplomáticas em nome de Francisco I. Mais importante, esteve na Itália de fevereiro a julho de 1542 para atuar como intermediário entre o rei e os exilados florentinos em Veneza, com o objetivo de organizar uma empreitada militar contra Cosme.[11]

Morte

Ticiano, Carlos V em Augsburgo em 1548 Alte Pinakothek, Munique.

Em 1544, Lorenzino retornou definitivamente a Veneza, onde manteve contato próximo com os outros exilados florentinos e estabeleceu amizade com o legado papal Giovanni della Casa. Em Veneza, ninho de espiões imperiais, Lorenzino era muito mais vulnerável do que na França, e as tentativas de matá-lo para vingar a morte do duque Alexandre multiplicaram-se. A situação complicou-se ainda mais quando, entre o final de 1547 e o início de 1548, quase todos os florentinos deixaram Veneza e mudaram-se para a França, deixando Lorenzino isolado. Consequentemente, em 26 de fevereiro de 1548, Lorenzino foi assassinado em Veneza por dois sicários. Um deles, Francesco da Bibbona, deixou um relato detalhado do ato, que inclui informações preciosas sobre a execução do assassinato.[12]

Por vários séculos, acreditou-se que o secretário Giovanni Francesco Lottini [en] organizara o assassinato, mas pesquisas recentes demonstraram que ele não teve qualquer participação.[13] Além disso, tanto os contemporâneos quanto os historiadores dos séculos seguintes sempre acreditaram que o assassinato de Lorenzino fora ordenado pelo duque Cosme I, como vingança pelo assassinato de seu predecessor. Pelo contrário, um estudo de Stefano Dall’Aglio mostrou que toda a operação foi orquestrada pelo imperador Carlos V, que não perdoava a morte do genro, marido de sua filha Margarida. Foi Carlos V quem ordenou explicitamente o assassinato, escrevendo de Augsburgo sem o conhecimento de Cosme, e deu instruções detalhadas a seu embaixador em Veneza, Juan Hurtado de Mendoza, responsável pela operação.[14]

Descendência

Lorenzino teve uma filha ilegítima com Elena Barozzi [en]:

  • Lorenzina de' Medici (1547/1548 – 1590). Nasceu por volta da época da morte do pai e foi criada por parentes dele. Casou-se com Giulio Colonna, mas morreu sem deixar filhos.

Obras

Lorenzino também foi escritor. Em sua obra Apologia, defendeu-se explicando que cometera o assassinato por amor à liberdade: seguira o exemplo de Bruto – um dos assassinos de Júlio César – e matara o duque após fingir ser seu servo e amigo fiel. A obra Apologia é considerada um dos mais elevados exemplos de eloquência renascentista e uma obra-prima do pensamento antitirânico. Foi escrita em duas versões sucessivas, a primeira das quais, pouco diferente da definitiva, data de janeiro de 1537, poucos dias após o assassinato.[15]

Também foi autor de uma peça intitulada Aridosia, escrita por volta de 1535 e apresentada com sucesso em Florença, primeiro no Spedale dei Tessitori e depois no Palazzo Medici Riccardi.

Representação cultural

O assassinato de Alexandre por Lorenzino, bem como seu republicanismo e espírito antitirânico, inspiraram o dramaturgo francês Alfred de Musset a escrever a peça Lorenzaccio [en].[16]

Referências

  1. a b c d Stumpo, Elisabetta (2009). «MEDICI, Lorenzo de'». Dizionario Biografico degli Italiani (em italiano). 73 
  2. Stefano Dall'Aglio, "Solving a Renaissance Murder Mystery." History Today (Feb 2020) 70#2 pp 38-49.
  3. Ferrai, 'La giovinezza'.
  4. Bredekamp, 'Lorenzinos de’ Medici Angriff'.
  5. a b Parks, 'Foreword', p. 4
  6. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 3-12
  7. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 19
  8. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 13-19
  9. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 39-47
  10. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 24-26
  11. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 69-79
  12. Racconto della morte.
  13. Dall'Aglio, 'Il presunto colpevole'
  14. Dall'Aglio, The Duke's Assassin, pp. 159-166, 176-183.
  15. Dall'Aglio, 'Nota sulla redazione'
  16. https://archive.org/details/completewritings04mussiala English text of Lorenzaccio

Bibliografia

  • Dall'Aglio, Stefano. "Solving a Renaissance Murder Mystery." History Today (Fevereiro de 2020) 70#2 pp 38–49.
  • Dall'Aglio, Stefano, The Duke's Assassin. Exile and Death of Lorenzino de' Medici (New Haven and London: Yale University Press, 2015), ISBN 978-0-3001-8978-0.
  • Parks, Tim (7 de março de 2019) [1539]. «Foreword». Apology for a Murder. Por Lorenzino de' Medici revised ed. [S.l.]: Alma Books. Traduzido por Brown, Andrew. ISBN 978-0-7145-4947-7 

Outras línguas

  • Bredekamp, Horst, 'Lorenzinos de’ Medici Angriff auf den Konstantinsbogen als Schlacht von Cannae', in L’art et les révolutions (Strasbourg: Societè Alsacienne pour le Développement de l’Histoire de l’Art, 1992), 4, pp. 95–115.
  • Dall'Aglio, Stefano, 'Il presunto colpevole. Giovan Francesco Lottini e l'assassinio di Lorenzino de' Medici', in Rivista Storica Italiana, CXXI (2009), pp. 840–856.
  • Dall'Aglio, Stefano, 'Nota sulla redazione e sulla datazione dell' Apologia di Lorenzino de' Medici', in 'Bibliothèque d'Humanisme et Renaissance', LXXI (2009), pp. 233–241.
  • Ferrai, Luigi Alberto, 'La giovinezza di Lorenzino de' Medici', in Giornale Storico della Letteratura Italiana, II, 1883, pp. 79–112.
  • Ferrai, Luigi Alberto, Lorenzino de' Medici e la società cortigiana del Cinquecento (Milan: Hoepli, 1891).
  • Racconto della morte di Lorenzino de' Medici, tratto da una relazione del capitano Francesco Bibbona, che l'uccise, in Cesare Cantù, 'Spigolature negli archivi toscani', in Rivista Contemporanea 20 (1860), pp. 332–345.

Ligações externas